Mês: outubro 2006

 

Eleições presidenciais: veja pelo lado positivo!


Para os 39% de eleitores que ficaram decepcionados no dia 29 de outubro, restou no mínimo uma lição muito proveitosa: como criar um partido político vitorioso.
O PT é, sem dúvida, há muito tempo, o partido político mais bem estruturado do Brasil. Há anos e anos os petistas vêm tecendo uma rede de afiliados e partidários de baixo para cima, buscando simpatizantes nas associações de bairros, nos sindicatos, no operariado, no professorado, nas regiões pobres, nas igrejas e entidades religiosas. Essa rede é, em sua maioria, formada por brasileiros que os entendidos dizem pertencer ao lado Índia, no país apelidado (não sei se justa ou injustamente) de Belíndia.
Ética à parte, desde o começo o PT jogou todas suas fichas na figura de um operário inteligente, carismático, que cativou as massas com sua linguagem tosca e à imagem delas. Em nenhum momento surgiu outra figura relevante para se interpor no caminho e embaçar a imagem do seu candidato único, que chega pela segunda vez à presidência da República. Quem tentou, se deu mal (leia-se Suplicy).
Essa jornada vitoriosa, que desgostou a tanta gente, deveria servir de lição aos caciques do PFL, PSDB, PMDB, e a tantos outros. Não adianta mais criar um partido político de cima para baixo, nos moldes elitistas da velha e ultrapassada UDN, com dezenas de pré-candidatos se digladiando para decidir no último minuto do segundo tempo da prorrogação qual deles disputará o pleito, uns falando mal dos outros e minando reciprocamente suas bases, antes mesmo de descobrir se peixe-boi é peixe ou mamífero.
O próximo partido que vier a disputar as eleições de 2010 contra o PT, deverá rever suas convicções e fazer uma leitura mais realista da nossa Belíndia, que provavelmente contará com perto de 200 milhões de habitantes. Uns 40% deles estarão vivendo (se é que se pode dizer viver) em casebres e barracos nas periferias e no entorno das grandes cidades ou em regiões empobrecidas.
A hora de os derrotados escolherem seus candidatos para a próxima eleição é aqui/agora, algo assim como “ontem antes do almoço” – e começarem a tratar da sua imagem.
De positivo, com toda certeza, teremos um período de quatro anos muito fértil em análises, discussões e aprendizado para os analistas e comentaristas políticos, economistas, marqueteiros (que prefiro chamar mesmo de publicitários) e até para os próprios políticos. Se é que grande parte destes últimos consegue entender alguma coisa do que está escrito aqui.

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O blog Bahr-baridades

Sempre admirei pessoas inteligentes.
Sou fã das histórias cômico-surrealistas do Woody Allen, principalmente aquelas que ele coloca em livros (você já leu “Cuca Fundida”?). O que não significa que eu não goste dos seus filmes.
No Brasil, nosso Woody Allen foi o Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), autor do “Festival de Besteira que Assola o País – FEBEAPÁ”. Ele escrevia uma coluna bastante satírica, que era publicada em vários jornais do Brasil.
Aliás, nosso país sempre foi muito fértil em besteirol, asnices e idiotices, principalmente originados de políticos, dirigentes de clubes de futebol e de certa “casta” de apresentadoras de tevê.
Arapuã (Sérgio de Andrade), com quem me orgulho de ter cursado a Escola de Propaganda de São Paulo nos idos de…. (melhor nem falar o ano) escrevia a coluna “Ora Bolas”, e pegava no pé de muitas figuras públicas. Sua vítima predileta era o à época presidente da Federação Paulista de Futebol, Mendonça Falcão.
Outro autor que por vezes usa o estilo nonsense é o inteligentíssimo Luis Fernando Veríssimo. Ninguém sai deprimido depois de ler os seus contos.
Em comum, os textos destes autores são divertidos, otimistas, alegres e, principalmente, não usam de grosseria ou baixo nível – a maneira rés-do-chão mais comum do brasileiro fazer piadas.
É mais ou menos com esse espírito que me atrevi a colocar na rede este blog “Bahr-baridades”, que está aberto a todos, para falarmos de coisas sérias, coisas nem tão sérias e até de besteirol, que serão muito bem-vindos.
A única exigência: que sejam textos no mínimo inteligentes, sem vulgaridades e, principalmente, que possam transmitir algo de útil ou de divertido aos leitores.
Julio Ernesto Bahr

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Manual Pós-Operatório

Por Julio Ernesto Bahr

Hospitais e médicos esqueceram-se de preparar um
Manual Pós-Operatório para pacientes que precisam ser submetidos a alguma cirurgia.
Aliás, ninguém fala absolutamente nada a respeito.
Tente entrevistar algum médico ou atendente: você vai descobrir que há um pacto universal de silêncio.
Mas não se preocupe, finalmente alguém se lembrou de você.
Leia com atenção estas dicas e pense duas vezes (ou mais)
se você está realmente “disposto” a passar por alguma cirurgia.

– Imagine quão ruim possa ser o seu estado físico e emocional após uma cirurgia. Esteja preparado: tenha a certeza de que você vai sentir-se muito, muito pior. Seja lá qual for a cirurgia.

– Em alguns tipos de cirurgias, poderá ocorrer que você vá para a sala operatória em excelentes condições físicas. Não se preocupe, seu pós-operatório será igualmente o pior possível. Você voltará estropiado, furado, remendado e mal poderá caminhar por vários dias.

– No hospital você vai se surpreender: ainda se usa medicações do tempo da vovó. Dramim contra enjoos e Luftal contra gases são os campeões de audiência. Isso, se seus vômitos permitirem captar quaisquer explicações da enfermagem. Deixe pra lá: esse seu estado calamitoso vai durar só poucos dias.

– Procure ficar o menos tempo possível em um hospital. Hospital é o único lugar do mundo em que irão acordá-lo para tomar remédio para dormir. Mesmo que consiga dormir à noite, você será impiedosamente despertado a cada duas horas, por um atendente revoltado por virar um turno de mais de vinte e quatro horas, que acenderá uma luz bem na sua cara e medirá sua febre e pressão, ajustará o soro e o obrigará “delicadamente” a engolir “n” comprimidos.

– Certifique-se de que você tem ótimas veias para serem espetadas, pois vão lhe instalar um cateter. As pessoas dificilmente têm boas veias e, antes de acharem aquela onde o cateter será implantado, você já terá sido furado em várias partes dos braços. Mais tarde você poderá se distrair, observando a mudança de coloração das partes lesionadas. As cores passam gradualmente de esverdeado para azul, para roxo e para preto. Nada que um prazo de duas a três semanas não faça desaparecer.

– Antes de se submeter a uma cirurgia certifique-se de que você não seja alérgico a esparadrapo. Os resultados de uma alergia serão infinitamente piores do que qualquer tipo de sutura e, dependendo da região, ficam em carne viva e demoram semanas para sarar.

– Médicos adoram recomendar sondas na bexiga. Você nem sente quando enfiam a sonda através do seu pênis, afinal você estará anestesiado. O problema será o durante e o depois: atendentes chamam esta sonda de “cachorrinho”, pois vira-e-mexe você se esquece dela e, a cada caminhada, sai arrastando o saco plástico, cheio de urina, pelo chão. Os resultados vão aparecer logo depois que um atendente puxá-la rudemente e “a frio” para fora do seu pênis. A dor e a ardência costumam passar depois de uns vinte dias. E é melhor usar fraldas, pois você vai ficar expelindo sangue pelo mesmo período de tempo. Dizem que as atendentes mulheres fazem um sorteio prévio para saber qual delas virá retirar sua sonda. Se você for jovem, cuidado…

– Nunca acredite no prazo que o médico calcula para lhe dar alta: você sempre acaba ficando um ou dois dias a mais no hospital.

– É na saída que você vai descobrir porque os operados saem em cadeira de rodas: você estará tão debilitado, tão machucado e tão dopado que não conseguiria mesmo caminhar mais do que 10 metros sem ajuda.

– Quando seu médico ficar repetindo a cada visita que “está tudo dentro do quadro”, não adianta você olhar em volta no seu quarto e tentar encontrar o tal quadro de que ele tanto fala. Quando você sair do hospital e conseguir raciocinar melhor, se dará conta de que se trata de “quadro clínico”.

– Se você acha que vai se deliciar com as refeições servidas em hospital, esqueça. Comidas servidas em penitenciárias são infinitamente melhores, pois os fornecedores são pressionados para oferecer qualidade, sob risco de ocorrerem rebeliões.

– Não estranhe a coloração e a textura das verduras que acompanham seu almoço: elas são longamente fervidas para evitar bactérias. Bem, elas também chegam livres de qualquer sabor e sem a mínima possibilidade de identificação.

– Acostume-se com o horário das refeições. O almoço chega às 11h e o jantar é servido às 17h, bem antes daquele horário em que você costumava encontrar os amigos para um animado happy hour e beliscar um queijinho para abrir o apetite.

– Se algum dos seus amigos lhe contou histórias mirabolantes sobre alguma atendente sexy e bonita, é mentira deslavada. Não existem atendentes sexy e bonitas no hospital onde você será operado. A mais bonita que chegou a me atender era autoritária, quarentona, tinha cabelos grisalhos e usava óculos de fundo de garrafa. Hospitais preferem eficiência à beleza. As atendentes bonitas estão sempre trabalhando em outro hospital.

– E, finalmente: é no hospital você vai descobrir o real significado da palavra “paciente”. Lá, paciente significa o oposto de tudo que a palavra possa indicar. Pacientes são os atendentes, pacientes são os médicos, paciente é o pessoal da limpeza. Você é um pobre coitado abandonado à própria sorte, abatido, nervoso, amedrontado, cansado, fragilizado e que não vê a hora de ser liberado para voltar para casa. Você é tudo, menos paciente.

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