Mês: novembro 2006



Sopa de letrinhas… intragável


Julio Ernesto Bahr

Separe um punhado de Cheltenham Light.


Acrescente meia pitada de Kabel Medium.

Misture com uma boa porção de Comic Sans MS.

Polvilhe com American Typewriter Italic.

Coloque ainda algumas gotas de Trebuchet MS Bold. Se preferir, inclua ligeiras amostras de Times New Roman, Bodoni MT Black e Copperplate Gothic Light.

Deixe de molho por uma boa meia-hora.

Voilà! A sua mistura criativa mais-do-que-imperfeita está prontinha para ser… execrada.

Alguns produtores gráficos adoram usar uma mistura inacreditável de fontes e tamanhos de tipos – simplesmente porque lá estão eles, tão facilmente disponíveis em seus computadores…

Essa falta de conhecimentos sobre a arte da tipologia deixaria o velho Prof. Antônio Sodré Cardoso de cabelos em pé. Um grande número de publicitários formados nas décadas de 1950, 1960 e 1970 teve aulas com o Prof. Antônio Sodré Cardoso, ou, pelo menos ouviu falar dele.

Este homem foi um dos maiores conhecedores das artes gráficas em São Paulo, transmitiu seus conhecimentos para produtores gráficos e diretores de arte da época e acabou recebendo uma honraria reservada a pouquíssimos mortais: tornou-se Professor Honoris Causa em artes gráficas, mesmo sem formação universitária e tendo adquirido seus conhecimentos apenas pela prática profissional.

Ele nos ensinou sobre a evolução da escrita, a história e o desenvolvimento das artes gráficas no Ocidente e no Oriente, a classificação dos tipos e, principalmente, sobre a aplicação das artes gráficas em trabalhos publicitários.

Hoje, vários trabalhos gráficos entre anúncios, folders, out-doors, embalagens e outras peças, levados ao público, resultam em tais aberrações na escolha e na mistura da tipologia, que vêem anulados todo o seu eventual impacto criativo.

Dentre os ensinamentos do Prof. Cardoso, ficaram retidos na minha memória alguns conceitos que procuro utilizar até hoje nas minhas criações gráficas:

– “Não misture duas famílias de categorias diferentes no mesmo texto, salvo raras exceções…”

– “Cada tipo de letra, com uma pequena dose de imaginação, pode externar a própria idéia do produto ou serviço”.

– “Cuidado com os textos aplicados sobre cores: não deixe uma eventual leveza estética prejudicar sua boa leitura”.

“Textos de corpo pequeno em negativo sobre preto ou sobre cores escuras, geralmente requerem tipos bold”.

– “A escolha das fontes e dos tipos adequados é tão importante quanto a própria criação da peça gráfica”.

Consumidores irados, que vêm sofrendo de indigestão crônica causada por sopas de letrinhas intragáveis, certamente agradecerão o uso de novas e atraentes receitas em trabalhos de artes gráficas.

(Este artigo já foi inserido nos sites www.midiograf.com.br e www.applondrina.com.br )

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Uma capa de livro sobre a Revolução de 1932


Julio Ernesto Bahr

O artigo que escrevi sobre litografia e a história do mapa da Revolução de 1932 me fizeram lembrar de outra historinha: como foi que o mesmo mapa salvou a minha pele.

Certa manhã de uma sexta-feira qualquer do ano de 1970, um cliente da minha agência ligou-me e pediu-me o favor de elaborar uma capa de livro para o seu pai, Benedicto Pires de Almeida, historiador da cidade de Tietê, SP.

O livro estava terminado. Era a história da Revolução de 1932 focando os acontecimentos na cidade de Tietê. Um documento histórico. Faltava a capa.

O problema era o prazo: eu deveria encaminhar a arte-final, prevista em duas cores, já na segunda-feira. Qualquer layout que eu criasse estaria antecipadamente aprovado. Em outras palavras: era mais uma daquelas sangrias desatadas que se exigem dos publicitários.

Pensei com meus botões: “Não conheço quase nada sobre a Revolução de 1932 e tampouco possuo quaisquer referências a respeito. Darei um pulinho na Biblioteca Municipal no sábado e lá resolvo o problema”.

Publicitário sofre: a biblioteca não abriu naquele fim de semana.

Salvou-me o mapa que eu possuía. Fotografei uma pequena área em preto/ branco, destacando a região de Tietê e o resto foi puro grafismo.

Na segunda-feira a arte-final foi entregue.

Recebi algum tempo depois um livro autografado do historiador, com a dedicatória: “Amigo Julio. Com a minha gratidão pela sua valiosa colaboração que muito veio valorizar este livro, oferece o Benedicto Pires de Almeida. São Paulo, 08/06/1970”.

Ufa!

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O internetês e a vida real

BIJINS = BEIJINHOS
BLZ = Beleza
CD, KD = Cadê?
Craro! = Claro!
CTAÍ? = Você está aí?
Eu lovo u = Eu amo você
Kirida = Querida
MIGUIM = AMIGUINHO
NAUM = Não
Pru6 = Para vocês
RULEZ = Maneiro, legal;
SifU que já mifU = Vai que eu já fui
T+ = Até mais, tchau
Tôka módó… = Estou com muito dó…
Se você reparar bem, o internetês, a nova escrita usada pelas tribos da internet, já saiu do reduto delas (tribos) para surgir em legendas de filmes, chats de canais de tevê a cabo e começa a aparecer em cartas endereçadas a jornais e comentários em blogs. Mesmo que os jornais ou blogs abordados nem adotem tal idioma.

A maioria dos “escrivinhadores” de internetês é jovem, se diverte com isso e nos faz lembrar da velha “língua do pê”, um código primário que os adolescentes falavam entre si há algumas décadas.
O que preocupa são os dados da incultura lingüística brasileira. Sabemos que cada vez mais os estudantes aprendem menos. Os vestibulares nos dão provas incontestes da incompetência dos jovens em redigir textos, pois são incapazes de utilizar corretamente o vernáculo.
Ora, se os jovens não conseguem nem aprender a língua portuguesa, revelando-se um fracasso completo na hora de buscar um emprego, naufragando nas entrevistas e nas exposições escritas, o que dizer então dessas tribos que usam o internetês?
A vida real requer muito mais do que a língua do pê ou o internetês. O mercado profissional não se limita a exigir um português razoavelmente bem escrito e bem falado, mas também ótimos conhecimentos de no mínimo mais um idioma, como inglês, francês, alemão, japonês e agora até chinês e russo.
Acorde, jovem: para a vida real, o internetês não vale nem como primeiro, nem como segundo idioma.

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A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte II

Matrizes de pedras. Litografia. Você já ouviu falar?
No final da década de 1950, a Catalox(*), agência de propaganda em que eu trabalhava como assistente de arte em São Paulo, acertou alguns trabalhos gráficos com a empresa Weiss & Cia., uma gráfica muito, muito antiga, remanescente da década de 1920. Instalada na Rua Apeninos, na Aclimação, era dirigida por um imigrante austríaco, uma figura bastante imponente e autoritária.
Meu acesso à gráfica deu-se pelas mãos do seu neto, Raul C. Magen, até hoje um grande amigo meu. A Weiss & Cia. imprimia livros, embalagens e trabalhos comerciais.
Lembro-me de uma das suas antigas máquinas de impressão offset, talvez a maior e mais antiga que já tenha visto até hoje. Para acompanhar o serviço, o impressor subia por uma escada de ferro e caminhava em uma espécie de andaime, também de ferro, ambos montados na própria máquina. Quando lá subi, minha sensação era a de estar no tombadilho de um navio. Bem diferente dos modernos equipamentos de hoje.
E foi naquela gráfica que descobri um enorme salão, ladeado por fortes estantes de madeira, onde eram guardadas, bem ordenadas, pedras e mais pedras de impressão litográfica. A litografia, utilizada até os anos 1930, foi precursora dos clichês de zinco e utilizava pedras calcárias que recebiam a gravação invertida das imagens, um trabalho feito por especialistas. Os desenhos eram passados de um papel de seda, cor por cor, para cada pedra separadamente e a gravação feita à mão. As pedras eram as matrizes do processo de impressão. Trabalho de artistas.
Um dia, ganhei do meu amigo Raul um rolo de papel, já meio amarelado, que tinha sido encontrado no forro da gráfica. Era um belíssimo mapa da Revolução de 32, com o título “Esta he a carta verdadeira da revolução q:houve no Estado de São Paulo no ano de MCMXXXII”, assinado JWR (João Walsh Rodrigues, um dos maiores gravadores do Brasil e o primeiro ilustrador das histórias de Monteiro Lobato). Fora impresso em seis cores com as pedras do velho sistema litográfico e mostrava as posições das tropas paulistas e do Brasil no meio do conflito de 1932, cidade por cidade, em todo o Estado de São Paulo. O mapa, encomendado pelos constitucionalistas, tachados na época de separatistas era, portanto, clandestino. A história conta que, terminada a revolução, por causa de uma denúncia, soldados getulistas foram revistar a gráfica e confiscaram os mapas, obrigando também o antigo proprietário a quebrar as pedras na sua frente, ou seja, as matrizes da impressão original.

A Weiss & Cia. foi vendida em 1972 para a Gráfica Hamburgo. Presumo que apenas dois mapas, encontrados no forro da gráfica, ficaram preservados para a posteridade. Um deles foi doado oficialmente pela Gráfica Hamburgo à Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo – e o outro… está bonitinho, emoldurado, preservado, exposto na minha casa.
Nunca mais tive notícias do enorme acervo das máquinas de impressão, nem das pedras litográficas, peças de museu que hoje representariam um verdadeiro tesouro.
(*) Fiquei muito feliz ao descobrir neste ano de 2006 que a empresa Catalox , que deixou de operar em 1963, está citada em um site na França. Foi a oportunidade de reencontrar via internet um dos ex-sócios da agência, que para lá retornou em 1965: Tito Topin (www.titotopin.com ), meu amigo, hoje um consagrado escritor, roteirista e autor de seriados na TV francesa, entre elas “Navarro”, uma série policial que chegou próxima a 120 capítulos.
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Pobres aposentados. Feliz casta dirigente!

1 – O Congresso aprovou o “super-aumento” de 5,01% para os aposentados que ganham mais de um salário mínimo, referente ao período 2005/2006. Para compensar as perdas, o valor que corrigiria as diferenças dos últimos anos e que serviu inclusive de plataforma política para alguns candidatos, foi calculado em mais de 16%. Deram apenas 5,01%. Por falar em candidatos, onde estão escondidos o tal Paulinho da Força e os outros demagogos que se utilizaram desta plataforma para ganhar votos?

2 – O próximo aumento do salário mínimo que o governo havia prometido passar dos atuais R$350,00 para R$420,00, só deverá mesmo ser reajustado para R$367,00. Segundo o “diretor financeiro” do Brasil, Guido Mantega, não há verbas para aumentos maiores.

É claro que não há verbas. Veja só para onde elas vão:

– No Judiciário, os conselheiros do CNJ e do CNMP (você conhece estes órgãos?) vão passar a receber jetons (os pagamentos por sessão) de R$2.784,00. São sempre duas sessões por mês. E mais: são ganhos retroativos a junho de 2005. Então seus salários que eram de R$23.275,00 passarão para R$28.861,00. E como eles têm os retroativos a receber, só neste mês embolsarão mais de R$100.000,00 cada um.

– A Câmara dos deputados apresentou uma proposta para aumentar seus próprios salários de R$12.847,00 para R$24,500,00 (mais de 90% de aumento). Além de outras novas mordomias.

– Os promotores e procuradores da justiça passaram seus proventos de R$22,1 mil para R$24,5 mil.

Sobrou outra vez para os pobres aposentados. Que estrebuchem em paz!

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Acompanhe o PT novamente em ação


DEPUTADO FEDERAL ELEITO DO PT É PRESO EM BELO HORIZONTE
Juvenil Alves (PT-MG) é acusado pela PF de integrar organização criminosa especializada em crimes financeiros

Do Portal G1 da Globo, em São Paulo, 23/11/2006


O deputado eleito é advogado e tem 47 anos. Foi detido em sua casa, no bairro Belvedere, na região centro-sul de Belo Horizonte, e levado para a sede da PF na capital mineira. Em São Paulo, a polícia já havia realizado uma operação nos escritórios de advocacia do político, entre eles um imóvel na Avenida Pacaembu, na Zona Oeste da capital paulista. Uma outra pessoa, ainda não identificada, também foi presa.
Ele é acusado de fazer parte de uma organização criminosa especializada em crimes financeiros que, segundo a Receita Federal, pode ter causado um prejuízo superior a R$ 1 bilhão aos cofres públicos.
Alves nasceu em Abaeté, região central de Minas, e obteve 110.651 votos nas eleições de outubro. É a primeira vez que ele foi eleito para a Câmara dos Deputados.
De acordo com a PF,
os escritórios de advocacia de Juvenal Alves seriam supostamente responsáveis por trâmites burocráticos no exterior e no Brasil, além da constituição de empresas de fachada.

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Meu partido político


Julio Ernesto Bahr

Um amigo me perguntou outro dia qual é, afinal, o meu partido político já que, segundo ele, no blog estão inseridos textos conflitantes. Na matéria que escrevi sobre o Pasquim, falo mal da ditadura militar que tivemos de engolir goela abaixo por tantos e tantos anos. Na matéria sobre o “albanês” Aldo Rebelo, falo mal dele, coitado, e do pessoal e das teorias do PC do B. O Lula e seu PT, um partido que já foi modelo de organização, hoje são tão ruins que nem vale mais a pena comentar.

Por isso, meu amigo deduziu que eu seria um tipo, assim, como direi, mais do centro. Mas seria eu então do centro direita ou do centro esquerda?

Eu só poderia responder que sou do Partido do Bom Senso.

Pena que esse partido político não exista. Não existe, pela simples razão de que não existem políticos de bom senso. Não existem políticos de bom senso porque o sistema político não é nem um pouco sensato. Ou você chamaria de sensato um poder legislativo que deveria trabalhar para propor leis, mas cuja face mais visível é a briga (de foice) por cargos e pela distribuição de verbas – na verdade, incumbência do poder executivo – para prefeituras e órgãos municipais?
Ou que se envolveu a fundo (e bota fundo nisso) nos casos do mensalão, das sanguessugas, do dinheiro público sacado do Banco Rural, do tal dossiê etc.?

Já que o Legislativo pouco legisla e perde tempo tratando da distribuição das verbas, o Poder Executivo troca suas funções e vive soltando leis (as tais medidas provisórias), a torto e a direito. Quer dizer, o Executivo tenta legislar e o Legislativo tenta governar.

Mesmo sem entrar no mérito das zilhões de coisas erradas na política brasileira, fica fácil deduzir que enquanto não for implantada uma ampla reforma política, que inclua rígida fidelidade partidária, jamais poderá existir bom senso entre os políticos. O sistema atual é simplesmente conflitante com o bom senso.

Ninguém poderá chamar de sensatas as eleições de Clodovil, Maluf, Jader Barbalho, João Paulo Cunha, Genoíno, Belinatti (esse aí é o Maluf do norte do Paraná) e tantos outros “expoentes” do oportunismo ou da malandragem. Isso para não falar outra coisa.

Assim, nas épocas de eleições, só me resta tentar escolher um candidato que se aproxime mais das minhas convicções. Quando voto em algum candidato, espero que o escolhido seja o menos corrupto, o menos malandro e o menos antiético. Que não mude de partido no meio do mandato, que não nomeie dezenas de parentes e amigos usando o nosso dinheiro, que não exagere nos preenchimentos dos cargos de confiança. Que não mude suas convicções e que não traia suas promessas de campanha.

Meus candidatos nunca são eleitos.

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