Mês: dezembro 2006

 

A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte 4

Ah, a velha typographia!

Não que eu seja do tempo do ph.

Mas são cerca de cinco décadas convivendo com artes gráficas, passando trabalhos de pré-impressão e impressão para as velhas tipografias, clicherias, estereotipias, linotipadoras e componedoras, que se transformaram nos atuais birôs, fotolitografias e gráficas.

Caiu-me nas mãos um velho catálogo de tipos, vale a pena ler:
Esta geração que aí está, dominando com extraordinária perícia computadores, hardwares e softwares, com sofisticados programas gráficos, não tem a menor idéia dos quase rudimentos que as artes gráficas representavam há quatro, três e até duas décadas.
Não encontrei no catálogo nenhum tipo com corpo maior do que 72 pontos.
Lembro-me que para corpos maiores, existiam tipos de madeira, pois os fundidos em metal não agüentavam a pressão das máquinas de impressão ou de provas.
Usávamos provas em papel glacê: a velha clicheria Lastri (São Paulo) entregava às agências um belíssimo catálogo de tipos, com as famílias bem ordenadas, tudo dentro de uma caixa de madeira. O “catálogo” ficava na mesa do produtor e do layoutman e era por lá que pedíamos as composições para colar nas artes finais.
Quando nós, nas agências de propaganda, criávamos anúncios, havia sempre o dilema de como aplicar o título da chamada. Revistas americanas serviam de inspiração. Caso não encontrássemos “similares” no catálogo da Lastri, nós mesmos desenhávamos os títulos, após anos de aprendizado com a ajuda do catálogo da Speedball.

Se nossos esforços para desenhar títulos resultassem em fracasso, então era hora de chamar o Mineirinho – um desenhista letrista que atendia a praticamente todas as agências de São Paulo. Nunca vi nenhuma devolução dos seus desenhos, tão perfeitos e caprichados que eram seus trabalhos.
Mineirinho cobrava por letra e mandava a sua fatura no fim de cada mês. Imagino que tenha ficado riquíssimo. Nunca mais soube dele, principalmente quando chegaram ao Brasil as fotoletras – uma maravilha para os diretores de arte, pois podíamos pedir tipos de letras até então jamais vistos e – o melhor – ampliados para qualquer tamanho.
Depois das fotoletras, outras novas técnicas surgiram rapidamente.
Técnicas que serão abordadas no próximo capítulo.
Julio Ernesto Bahr
Este artigo já foi publicado na Revista Pancrom (SP), na Revista Midiograf (Londrina)
e inserido no site da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda de Londrina)
Sem categoria
1 Comentário
 

Lula diz que ditadura no Brasil "não foi tão violenta" como no Chile



(da Folha Online, em Brasília)


Cinco dias após a morte do ditador do Chile Augusto Pinochet, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (15/12) que a ditadura militar no Brasil “não foi tão violenta” como no vizinho sul-americano. “O Brasil tem uma história diferente de outros países. Mesmo a ditadura no Brasil não foi violenta como foi no Chile, como foi em outros países. Houve processo de anistia negociado inclusive com as pessoas que participaram do processo”, afirmou.


”Jogaram-no na cela.
Foi recobrando lentamente a consciência. O corpo moído. Tudo doía, cabeça, peito, costas, braços, pernas, mãos. Mentalmente, percorreu seu corpo de alto a baixo, tentou descobrir algum ponto indolor.
Deu-se conta de que estava gemendo.
Deu-se conta de que estava inteiramente nu.
Perdeu novamente a consciência.”



Continua a Folha:
Ao ser questionado sobre a abertura dos arquivos do regime militar, que não foi totalizada em seu governo, o presidente reconheceu que o Executivo ainda não conseguiu tornar público muitos fatos do período da ditadura –entre os anos de 1964 e 1985. “Mandamos parte do arquivo para o Rio de Janeiro, mas tem coisas que não descobrimos. Determinadas coisas você tem que ver se alguém que participou contou para você”, disse.

“Acordou, lentamente abriu os olhos. A cela úmida estava envolta em uma semi-escuridão. Não sabia se por ser a hora do lusco-fusco, ou se a tênue iluminação era a natural da cela. Não se mexeu do lugar, as dores ainda eram fortes. Curtos flashes desfilaram na sua mente. Os soldados saídos do nada de súbito em sua casa, a violência com que o empurraram no camburão, a chegada no quartel, sua passagem no meio de um corredor polonês enquanto ia sendo surrado, as roupas arrancadas.”


Finaliza a Folha:

O governo Lula manteve inacessíveis os arquivos com documentos sigilosos produzidos pelo regime militar brasileiro. A União também se esforça, na Justiça, para impedir que novos papéis sejam liberados. Há três meses, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, enviou ofício ao presidente pedindo a abertura dos arquivos. O chefe do Ministério Público Federal havia estipulado prazo de dois meses –que expirou em de 11 de novembro– para o presidente responder e tomar previdências, mas ele ainda não atendeu ao pedido.

“Amarraram-no em um pau-de-arara, dois homens encapuzados fazendo perguntas, o início do espancamento, as dores lancinantes, desmaios. Mais surras, mais desmaios. Imagens vagas de fios elétricos, choques, baldes de água na cara, botinadas no corpo, a cabeça enfiada na latrina, desmaio.” (*)

(*) Trechos iniciais de conto, ainda sem nome, que comecei a escrever logo após a morte do ditador Pinochet, envolvendo tristes lembranças e descrições de brasileiros sobreviventes às torturas.

Será que o Presidente Lula quer escamotear a verdadeira história da ditadura no Brasil? Quantos deverão ser os mortos e desaparecidos para caracterizar a gravidade de uma ditadura? Existe meia ditadura, meia morte, meio desaparecimento?

Sem categoria
Comente aqui


Narizes de palhaço. Caras de palhaço. Roupas de palhaço. Será que somos mesmo palhaços?

As “otoridades” acham que somos palhaços.
Elas vivem nos impingindo uma série de bobagens, e esperam que fiquemos quietinhos em nossos cantos.
CPMF. Já deu tanto pano para mangas! Agora o “P” de provisório está virando oficialmente permanente. Imposto que foi criado inicialmente para sanear os problemas da saúde, está destinando só pouco mais da metade dos 0,38% para essa finalidade.
Novo aumento dos salários de deputados. Um absurdo! Os seus salários somados às mordomias e outras tantas verbas, os tornam uma classe de milionários, completamente fora dos padrões de ganhos da população. Os números tornam-se tanto mais afrontosos quando se sabe que eles cortaram os aumentos reais dos aposentados, que continuam com seus ganhos sendo anualmente reduzidos e achatados.
Redução das penas de quem cometeu crimes hediondos. São geralmente sociopatas, desequilibrados mentais, assassinos frios e psicopatas e a maioria não tem quaisquer possibilidades de ressocialização. Mesmo assim, os juízes acreditam que eles podem retornar à sociedade após cumprirem 1/6 da pena. Logo estarão de volta às ruas, repetindo os mesmos atos que os levaram à condenação.
MST. Os sem-terra agem livremente invadindo propriedades, inclusive produtivas, levando destruição e vandalismo por toda parte. E o governo não reage, até dá apoio e assiste passivamente a esses atos ilegais.
Planejamento urbano. Deixaram as coisas chegar ao ponto em que chegaram: parece que não existe cidade de média para grande no Brasil que não apresente a sua face mais feia, aqueles micro-lotes com casas (?) mal acabadas, feias, perigosas, a maioria em loteamentos clandestinos, em morros, sob viadutos, à beira de rodovias e em áreas de risco. As prefeituras fazem vista grossa e vão deixando construir mais e mais casebres. A cada temporada de chuvas, os dramas de mortes, soterramentos e feridos se repetem.
Queimadas e desmatamento. De repente, a televisão (que não tem nem o poder nem a missão de policiar), mostra os incríveis abusos de madeireiras e fazendeiros, queimando e desmatando indiscriminadamente áreas monumentais, somando o tamanho de centenas de campos de futebol. O triste é saber que os criminosos fazem isso seguidamente há anos, as fotos de satélites apontam os locais diariamente para os técnicos… e as “otoridades” só começam a agir quando o mal já está tão disseminado que a recuperação dessas áreas levaria décadas.
E a poluição dos rios, a devastação provocada por mineradoras e pedreiras, o lixo, a poluição visual nas cidades, a desorganização no trânsito, a fumaça preta espalhada por caminhões e ônibus, os incontáveis acidentes provocados pelas estradas esburacadas, a agressividade dos perueiros e motoqueiros, a corrupção?
Corrupção que mereceria um capítulo à parte e não caberia no espaço de um só blog!
Aí a gente se olha no espelho e enxerga um nariz de palhaço, uma cara de palhaço, uma roupa de palhaço. Fica cada vez mais difícil provar que o espelho é mentiroso e que na verdade nós não somos palhaços, não.

Sem categoria
Comente aqui


Os escribas


Paz Encetada
Lá vem o au au!
Mexendo a cauda
E com olhar de mau,
O tamanduá saúda…
O grandalhão elefante
Vem todo faceiro,
De tromba marcante
E de andar maneiro.
Sé se acredita,
No pulo do gato,
Que vive e medita,
Na caça do rato.
O ataque do urso,
Na beira do rio,
Com grandeza e pulso,
O lobo feriu!
Aproxima a onça,
Bem desconfiada,
Na boca uma lontra,
Por ela caçada.
Contente a zebra,
De cabeça erguida,
Com a língua presa,
Anunciando a partida.
Fuçando a terra,
O tatu-galinha
E decreta guerra,
A toda turminha.
A ruminante girafa
Engrossa o pescoço,
No chão toca a pata!
E fura um poço…
Cadê a justiça?
Acena o leão
E rosna com preguiça,
Sem perder a razão…
Por que desavença?
Insinua a queixada!
Arrastando a pança…
Com a paz encetada!…
Aparecido Guergolette – Londrina, PR
Sem categoria
1 Comentário


O estranho lá em casa

Alguns anos após eu nascer, meu pai encontrou um estranho que havia chegado recentemente à nossa pequena cidade. Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com o encantamento do recém-chegado e logo o convidou para ir morar com a nossa família. O estranho foi imediatamente aceito por todos nós.
Enquanto eu crescia, nunca questionei seu verdadeiro lugar na minha família. Na minha jovem mente, ele tinha um lugar bem especial. Meus pais se complementavam na minha educação: mamãe me alertava contra a maledicência e meu pai me ensinava a obedecer. Mas o estranho… ele era o nosso contador de histórias, nos entretinha por horas a fio falando de aventuras, mistérios e comédias.
Se eu quisesse saber alguma coisa sobre política, história ou ciências, ele sempre sabia as respostas sobre o passado, compreendia o presente e parecia até mesmo capaz de predizer o futuro! Ele levou toda minha família a assistir os jogos da primeira divisão de futebol. Ele me fazia rir e me fazia chorar. O convidado jamais parava de falar, mas papai parecia nem ligar.
Às vezes, mamãe se levantava silenciosamente e, enquanto o resto de nós ficava fazendo “psiu” um ao outro para impor silêncio e tentarmos ouvir o que o convidado tinha a dizer, ela se retirava para a cozinha em busca de paz e silêncio. (E eu me pergunto agora se ela não estaria torcendo para que ele fosse embora).
Papai orientou nossa família com fortes convicções morais, mas o nosso convidado jamais se sentiu obrigado a cumpri-las. Palavrões, por exemplo, não eram permitidos em casa. Não para nós ou para nossos amigos e visitas. Nosso eterno convidado, entretanto, nos surpreendia falando aquela certa palavra de quatro letras que queimava minhas orelhas e fazia meu pai ficar furioso e minha mãe corada.
Meu pai não permitia o uso de bebidas alcoólicas. Mas o nosso convidado nos encorajava a experimentá-las regularmente. Ele também fazia os cigarros parecerem “uma nice”, os charutos eram “coisa de macho” e os cachimbos davam o status de gente distinta. Ele conversava livremente sobre sexo (livremente demais). Seus comentários eram bastante explícitos, sugestivos e geralmente embaraçosos.
Eu sei agora que meus primeiros conceitos sobre relacionamentos foram fortemente influenciados pelo nosso convidado. Dia após dia, ele se opunha aos valores dos meus pais, já que era raramente contestado… e jamais lhe foi pedido para ir embora.
Mais de cinqüenta anos se passaram desde que o estranho mudou-se para nossa casa, vivendo com a nossa família. Ele se adaptou muito bem e continua sendo tão fascinante hoje como era no princípio. Pois se você vier até a sala de visitas dos meus pais, você o avistará parado no seu canto, aguardando por alguém que esteja disposto a ouvi-lo falar e a olhar para seus desenhos e imagens.
Seu nome?
Nós simplesmente o chamamos de aparelho de TV.
E recentemente apareceu seu irmão mais novo: chama-se Computador.

Autor desconhecido.
Tradução e adaptação de Julio E. Bahr

Sem categoria
Comente aqui


A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte III

Estéreo de chumbo. Estereoplástico.
O que é isso?


No começo da década de 1960, havia quatro principais clicherias em São Paulo que atendiam às agências de propaganda: Lastri, Brasil, Planalto e Fortuna.

Todas se intitulavam “Clicheria e Estereotipia”. Não demorou muito para que eu descobrisse o que significava estereotipia.
Nas agências, havia uma espécie de afinidade entre os contatos (hoje chamado de pessoal de atendimento) e os boys. Dizia-se que ambos tinham os braços direitos mais compridos que os esquerdos. Os contatos, por carregarem, nas visitas aos clientes, aqueles layouts montados em pranchas enormes, sempre de forma a causar a melhor impressão e um forte impacto visual. Os layoutmen não economizavam papel, cartão e tudo o mais que servisse para valorizar a apresentação do trabalho. Restava aos contatos achar a melhor forma de transportar os trabalhos – e ai de quem tivesse braços curtos…
Já os boys passavam por outro sofrimento: os estéreos eram nada mais, nada menos, do que grossas cópias em chumbo, fundidas a partir de clichês. Quando os anúncios eram publicados simultaneamente em mais de um jornal, lá se iam os boys carregando os estéreos de chumbo para o Estadão, Folha, Gazeta, Última Hora, Diário da Manhã, etc. Isso quando não eram campanhas de âmbito nacional, endereçadas também ao Globo e Jornal do Brasil no Rio, ao Estado de Minas, e a outros estados.
Para diminuir o peso, os estéreos passavam, após a fundição, por um processo de “escavação”, quando era retirado o chumbo das partes que correspondiam ao fundo branco do anúncio. Quanto mais fundo branco, mais escavações e furos – e mais leve os estéreos se tornavam. Quanto mais ilustrações e textos, tanto mais pesados. Dá para imaginar o peso quando os anúncios eram de página inteira…
Um dia, algum gênio, certamente condoído pelos superesforços despendidos pelos boys, criou o chamado estereoplástico – os mesmos estéreos agora fundidos em resistente material plástico. O peso reduziu-se a menos de um décimo. Os boys passaram a rir à-toa pelos cantos das agências.
Algum tempo depois, as clicherias se modernizaram e iniciaram, elas mesmas, um sistema de entrega dos materiais aos jornais. Assim que a prova fosse aprovada na agência, os estéreoplásticos eram fundidos e encaminhados diretamente aos jornais, sempre dentro dos horários.
Os mesmos boys que andavam assobiando pelas ruas, começaram a ser demitidos.
Nos anos 1960, estava sendo lançada a semente do “atendimento global” – uma expressão que só veio ser cunhada muitos anos depois.
Qualidade de atendimento e novas tecnologias surgindo. As clicherias sempre se atualizando.
O que já é assunto para outro capítulo.
Julio Ernesto Bahr

Sem categoria
Comente aqui


Os escribas

Crônicas de um saber insólito

Mississipi

Benjamin sabia que eles viriam. Entraram a galope no vilarejo dos negros atirando, olhos brilhando de ódio nos capuzes pontudos. Eram nove da noite.
Correu para dentro e disse ao neto, Josué, corra como o vento, menino, procure o delegado federal na cidade e conte pra ele o que está acontecendo, não pare por nada, vá!
Para que não vissem o garoto escapando pelos fundos, voltou à varanda onde um agressor, empinando o cavalo, lhe deu um tiro certeiro, morre, negro sujo! O velho caiu e seu sangue se misturou com as poças das chuvas finas e frias que anunciavam o começo do outono. A visão se turvou mas, por alguns minutos, ainda ouviu claramente o som das porretadas surdas, os gritos, os tiros, o tropél dos cascos, os palavrões dos brancos. Antes de apagar sentiu o cheiro de fumaça nas narinas, claro que eles haviam tocado fogo em tudo, como era seu bárbaro costume.
Abriu os olhos cansados quando entrava numa espécie de taberna enevoada iluminada por uma luz tênue. Havia quatro homens caminhando ao seu lado, negros, soube de alguma forma que eram o Lou, o Bird e o Ray. O quarto era branco, Frank . De uma grande porta ao fundo, o Mart, adivinhando sua ansiedade, o tranqüilizou, Joshua já está com o delegado na capital.
Ben desabou numa cadeira, aliviado. Um coro de vozes femininas se fez ouvir. Um HALELUIA poderoso começou a saudar sua chegada, aqueles acordes arrepiantes e plenos de beleza capazes de emocionar os céus e a terra. Mariah, de novo jovenzinha, veio recebê-lo sorridente. Deram-se as mãos. Ali já não havia beijos. Nem era necessário.

José Sudaia Filho
Taboão da Serra, SP

Sem categoria
Comente aqui