Mês: janeiro 2007

 

A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte 6, final

Julio Ernesto Bahr

Ao descrever a criação publicitária nos tempos da prancheta, minha intenção foi preservar para as próximas gerações um pouco da história de como trabalhávamos antes do advento do computador. Mais ou menos como as histórias das fragatas do Cabral comparadas aos modernos transatlânticos de hoje. Ou, de como um dia o homem descobriu o fogo esfregando duas pedras.

Dos capítulos anteriores o leitor certamente terá percebido que muitas das especialidades descritas nem existem mais.
Nas artes gráficas, os novos processos de impressão, com equipamentos cada vez mais modernos e automatizados, levaram de roldão os tipógrafos, tiradores de provas, especialistas em clichês e estéreos, e a maior parte do pessoal de fotolito.
Já faz também um longo tempo desde que foram eliminadas as palavras linotipo, monotipo, clichês, caixas de tipos e impressão tipográfica. Grande parte das velhas máquinas tipográficas está encostada em um canto, foi enviada para pequenas tipografias do interior ou ainda, vendida como sucata.
Nas agências de propaganda também se extinguiram os empregos dos paste-ups, dos especialistas em retoque americano, de scratch-board e dos letristas, além das pranchetas, pincéis, bastões de pastel, lápis carvão, tira-linhas, esquadros, prisma e outros objetos. A palavra layoutman ficou meio perdida no tempo e no espaço. As datilógrafas perderam espaço para os digitadores.
Uma nova terminologia veio substituir ou se juntar aos cargos e funções na atividade publicitária, como web design, graphic design, especialistas em photoshop, vídeo-arte e animação gráfica, publicações digitais e tantas outras.
Novos birôs de pré-impressão e gráficas de impressão digital e vieram se somar ao mercado.
A grande diferença pré e pós-computador era a presença indispensável do layoutman, artista com muitos anos de prática que desenhava as criações no papel, resultado do trabalho da dupla diretor de arte e redator. Hoje, o layoutman foi substituído pelos operadores de programas gráficos e de photoshop do computador.
Parte dos antigos layoutmen, hoje na faixa dos sessenta anos, chamados pelos mais jovens de dinossauros, conseguiu trocar a prancheta pelo computador e ainda é capaz de dar um banho de criatividade na rapaziada pós-computador.
Outros, simplesmente se afastaram da atividade publicitária, dedicando-se à pintura, à fotografia e a outras artes visuais.
Como se vê, o progresso traz soluções, mas deixa muitas vítimas pelo caminho.
A ilustração mostra um layout executado manualmente para a capa de um folder, na década de 1970. É uma das pouquíssimas peças salvas da limpeza e do descarte feitos na agência na época da chegada dos nossos computadores.

Empresa: Condulli Fios e Cabos, São Paulo, SP
Agência: Julio E. Bahr Propaganda
Layoutman: Alfredo Winkler

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Coragem ou loucura?

Esse é um caso de um fotógrafo fotografando outro fotógrafo.
As fotos foram tiradas pelo fotógrafo Hans van der Vorst no Grande Canyon, EUA. São suas as descrições. A identidade do fotógrafo que aparece nas fotos é desconhecida.

“Eu estava simplesmente atônito olhando esse cara de pé naquela rocha isolada, dentro do Grand Canyon, cuja profundidade no local é de 900 metros.

O rochedo à direita é próximo e mais seguro.
Olhando o cara com suas sandálias de dedo, com uma câmera e tripé,
fiz três perguntas a mim mesmo:
1 – Como teria ele chegado à rocha?
2 – Por que não clicar a foto no rochedo à direita, que é perfeitamente seguro?
3 – Com é que ele sairia de lá?
Esse é o ponto de não retorno
Ao pôr-do–sol na linha do horizonte ao fundo, ele empacotou suas coisas
(ficando apenas com uma mão livre) e se preparou para o salto.
Isso levou dois minutos.
Neste momento, uma multidão se juntara para vê-lo, não tirando os olhos dele.
Em seguida, ele pulou com suas sandálias de dedo.
O canyon neste local tem 900 m de profundidade!
Como você pode observar, o rochedo ao lado é mais alto, assim ele tentou se lançar um pouco mais abaixo no rochedo íngreme, usando apenas um braço para se segurar.

Chegamos ao fim dessa breve história. Olhe cuidadosamente o fotógrafo. Ele está com uma câmera, um tripé e uma sacola plástica, tudo no seu ombro ou na mão esquerda. Apenas com o braço direito seria possível se agarrar ao rochedo, somando-se ainda o peso do equipamento.
Ao pular com suas sandálias de dedo, utilizou apenas mão e pé direitos para se segurar… nesse momento, tirei a fotografia.Ele encostou seu corpo no rochedo, esperou alguns segundos, jogou o equipamento sobre o rochedo, fez a escalada e foi embora seguindo seu caminho.”

Fotos e textos: Hans van der Vorst
Tradução: Julio E. Bahr

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A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte 5

Adeus, bendays. Chegou a fotomecânica.

Um dia, creio que no começo dos anos setenta, apareceu na nossa agência um catálogo especial da Lastri, que como muitos se lembram, foi uma das principais clicherias/estereotipias de São Paulo, atendendo a praticamente todas as agências de propaganda da cidade.
Pois bem, o catálogo, muito bem encadernado, trazia na capa uma ilustração elaborada a partir de uma das esculturas do Aleijadinho. E nas páginas internas… que sensação! Finalmente, surgia uma opção gráfica para darmos um tratamento diferenciado às fotos que utilizávamos.
Chegava a fotomecânica, sistema para aplicar efeitos especiais de jato de areia, linhas onduladas, alto-contraste, círculos concêntricos, tom-linha, linhas retas e outros efeitos, que vieram substituir os velhos desenhos de scratch-board (quem se lembra?). O scratch-board, até então, era executado em um cartão especial, o cartão gessado, sobre o qual o ilustrador trabalhava invertidamente: primeiro pintava um fundo preto com tinta nanquim e em seguida ia raspando com um estilete, chegando a resultados belíssimos. Estas ilustrações eram, principalmente, de máquinas, rádios, aparelhos de TV, geladeiras e automóveis.
Com a chegada da fotomecânica, não precisávamos mais dos especialistas em scratch-board: O trabalho ficava por conta da Lastri.
Os efeitos especiais se destinavam principalmente à aplicação em fotos para anúncios de jornal. A maioria dos jornais era ainda impressa com clichês. A impressão exigia retícula 25, isto é, pontos muito largos, para que as fotos não borrassem. Na época, usávamos de alguns truques, preferindo desenhos às fotos, com aplicações de toda uma coleção de bendays, os únicos efeitos especiais da época.
A década de setenta representou uma revolução nas artes gráficas aplicadas à propaganda. Junto com a fotomecânica, começavam a chegar equipamentos de fotocomposição, substituindo as provas tipográficas tiradas em papel glacê; os jornais foram mudando o sistema de impressão, eliminando os velhos clichês e estéreos, o que possibilitava o uso de retículas mais fechadas, com enorme melhoria das imagens impressas; e as clicherias foram sendo substituídas pelas fotolitografias, principalmente por causa da impressão offset, já adotada pela maioria das gráficas.
Da litografia para o offset, que enorme salto tecnológico!
Do layout desenhado para criações executadas no computador, que diferença!

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