Por Maria Lucia Victor Barbosa
em 28/01/2009
Nosso relativismo moral vem de longe. É obra cumulativa de séculos. A acachapante aprovação nacional de Lula da Silva, sem contar com sua eleição e reeleição, demonstra que já chegamos aos píncaros das conseqüências históricas com requintes de caos. E diante do que se passa na atualidade, lembremos de Gregório de Matos e Guerra (1636-1696) advogado e poeta, alcunhado Boca do Inferno ou Boca de Brasa. Em Epílogos, ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:
“Que falta neste pais? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha”.
“O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama o exalte,
Num país onde falta
Verdade, honra, vergonha”.
Nunca nos faltou tanto verdade, honra, vergonha. Convivemos alegremente com “mensaleiros”, sanguessugas, transportadores de dólares em cuecas e até os reelegemos. Somos antiamericanistas doentes, mas volta e meia vamos aos Estados Unidos para fazer turismo, comprar, estudar, trabalhar, cuidar da saúde, além dos milhões de brasileiros que partem em busca da América, América e lá permanecem clandestinos, mas ganhando o que jamais ganhariam aqui. Odiamos os judeus porque preferimos o Hamas dos Palestinos. Como bons latino-americanos somos de esquerda e por isso idolatramos Fidel Castro, não importando ser ele um ditador implacável que nunca respeitou os direitos humanos. Se Lula da Silva, o grande pai de seu povo, põe o Brasil de joelhos diante de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Cristina Kirchner, nos inclinamos também perante as lideranças populistas que infestam a América Latina sempre imersa em sua mentalidade do atraso, em suas mazelas, em seus fracassos. A corrupção faz parte de nossa história e aprovamos governos corruptos ao dizer que se estivéssemos lá faríamos as mesmas coisas. Afinal, somos espertos, malandros e nossa satisfação em passar os outros para trás não tem limites. Indiferentes ou ignorando o que ocorre no Congresso Nacional ou no âmbito da Justiça seguimos cantando o samba de Zeca Pagodinho que nosso presidente da República tanto aprecia: “Deixa a vida me levar”. Futebol, carnaval e Big Brother são nosso alimento espiritual. Acreditamos que o MST é um movimento social pacífico que não esbulha proprietários rurais destruindo maquinário, roubando gado, pilhando, queimando sedes de fazendas. Do mesmo modo admiramos as sanguinárias Farcs, idealizadas como heróicas e defensoras do povo colombiano.
No momento dois fatos empolgam os noticiários. O primeiro diz respeito ao caso do terrorista Cesare Battisti, que a Itália quer de volta, mas que já foi perdoado por nosso ministro da Justiça com o acordo de Lula da Silva. Não devolveremos Battisti de jeito nenhum, o criminoso é nosso. Também estamos de braços abertos para receber os terroristas de Guantánamo. Aplausos para a Justiça brasileira, pois aqui o crime compensa. Do jeito que a coisa vai, pode ser que Lula da Silva crie o Ministério do Terrorismo e convide Osama Bin Laden para ministro. Seria mais uma vez delirantemente aplaudido pelo povo e seu prestígio subiria como atestado em pesquisa.
O segundo fato é relativo ao Fórum Social Mundial, que ocorre em Belém do Pará. O governo investiu milhões na festividade, inclusive, em camisinhas. Tudo pago com o dinheiro do contribuinte, ou seja, estamos financiando a esbórnia que atrai pessoas de todo o Brasil e do exterior. Presentes ao festival estarão Lula da Silva, ministros, assessores, figuras como João Pedro Stédile, além dos caudilhos Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa. Fernando Lugo, que fazem Lula sonhar com outro mandato possível. Lula não irá ao Fórum Econômico Mundial em Davos. Ficará em Belém dançando o Carimbó.
Aliás, não faltarão ao carnavalesco evento, além das camisinhas, muita cachaça e folia. Naturalmente, os participantes se posicionarão contra o capitalismo que os sustenta, contra a liberdade que permite a festividade, contra a riqueza que almejam para si. Dizem que no globalizado Fórum será dada oportunidade aos participantes, se os eflúvios etílicos permitirem, de perceberem que os problemas que assolam o mundo derivam da competição pelo poder e do acúmulo de bens materiais. Ou seja, tudo que eles mesmos fazem ou almejam. Em suas utopias delirantes as esquerdas clamarão pela volta do socialismo, nem que seja o do século XXI. E enquanto a crise avança sobre o planeta, em Belém do Pará se dançará o Carimbó, pois o tal outro mundo possível nunca foi definido nesses fóruns onde acontece de tudo, menos idéias.
Sem dúvida, esse “Fórum Socialista” faz recordar as proféticas palavras de Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas: “A vida toda se contrairá. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua, escassez, em impotência angustiante, em verdadeira decadência. Porque a rebelião das massas é a mesma coisa que Rathenau chamava de ‘a invasão vertical dos bárbaros”.
No Brasil essa invasão começou faz tempo, mas diante dela nos quedamos indiferentes porque nos falta verdade, honra e vergonha ou, talvez, porque sejamos nós os bárbaros.
- Estarrecedor: os custos anuais do Congresso brasileiro superam a arrecadação de alguns dos nossos estados mais pobres!
- Dinossauro da política, o Sarney atropela o processo de escolha do novo presidente do Senado e se lança candidato. Xô, Sarney! Xô, Sarney! Xô, Sarney! Cai fora da política, do Senado, do Maranhão e da vida pública!
- Socialismo brasileiro: Lula corta verba de investimentos e aumenta o número de bolsas-família. Está indo diretamente na contramão dos outros países.
- Brasil x Itália: Tarso Genro considera os assassinatos do terrorista italiano Battisti como atos políticos e lhe concede asilo. Já na Itália, queriam até cancelar o jogo contra o Brasil…
- O IBOVESPA e a cotação diária do dólar são ou não pura especulação? Qualquer boato (geralmente artificial) é motivo para quedas ou elevações das ações e da moeda americana. Os únicos ganhadores são especuladores.
- Fórum Social Mundial no Pará: e lá estavam novamente los hermanitos de Lula falando grosso. 
- 860.000 km2 queimados na Amazônia nos últimos cinco anos. E vai ficando por isso mesmo?
(*) Refere-se a 2006
Tudo começou com um desenho feito pelo cartunista Ronaldo Rony no muro de sua casa, localizada na avenida Mendonça Furtado, no centro de Macapá. A caricatura, uma charge sugestivamente intitulada “Xô Sarney”, expressava os sentimentos de Ronaldo e de boa parte da população amapaense com relação ao ex-Presidente da República José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá em 1990 com o objetivo de assegurar com maior facilidade uma vaga para o Senado Federal. Foi uma boa cartada de Sarney, que atualmente cumpre seu segundo mandato como Senador pelo Amapá. Nas eleições deste ano(*), o autor de Brejal dos Guajas (que recebeu de Millôr Fernandes o seguinte comentário: “só um gênio conseguiria fazer um livro errado da primeira à última frase”) postula nova reeleição. Contudo, a campanha do ex-presidente tem sido marcada por diversas ações na Justiça impetradas contra jornais e rádios amapaenses.
A coligação União Pelo Amapá, que apóia as candidaturas José Sarney para o Senado e Waldez Goes para o Governo, chegou ao ponto de processar o Google, a fim de solicitar que o site de buscas retirasse de seu arquivo todas as matérias que supostamente veiculassem conteúdo negativo à imagem de seus candidatos. A liminar foi considerada improcedente pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá. Mas os advogados da coligação continuariam aprontando das suas.
Na terça-feira, dia 22, a jornalista Alcinéa Cavalcante publicou em seu blog um post intitulado “O Adesivo Perfeito”, no qual afirmava que a frase “o carro que mais combina comigo é o camburão da polícia” seria ótima para estampar o vidro traseiro do carro de um certo candidato. Dois dias depois, os advogados de Sarney entraram com uma representação solicitando a imediata retirada do ar de uma “publicação ofensiva”. A motivação do pedido foi um comentário publicado no post supracitado, assinado pelo leitor Paulo Henrique, fazendo alusão a uma piada antiga sobre certa “fazenda de burros” que o senador supostamente possuiria no Amapá. Além de limar o blog do ar, a ação ainda solicitava a aplicação de uma multa no valor de R$ 106.410,00. O juiz eleitoral Luiz Carlos Gomes dos Santos, mostrando possuir ainda bom senso, indeferiu o pedido feito pela coligação. É inevitável vislumbrar neste imbróglio semelhanças com o caso Imprensa Marrom. Contudo, o pior ainda estava por vir.
Na sexta-feira, dia 25, novo pedido de liminar foi feito em nome do ex-Presidente, desta vez atingindo o blog Repiquete no Meio do Mundo (infelizmente sem registro no cache do Google), mantido pela jornalista Alcilene Cavalcante, irmã de Alcinéa. O motivo da ação foi uma foto publicada com a imagem da caricatura feita por Ronaldo Rony. Por meio de notificação com a liminar concedida pelo TRE do Amapá ao processo 435/2006, Alcilene se viu obrigada a apagar a foto de seu blog, caso contrário estaria sujeita ao pagamento de multa de R$ 2.000,00 por dia. No entanto, embora a blogueira tenha deletado o post com a charge de Sarney, sua página, hospedada no UOL, foi tirada do ar por ordem judicial.
Restava mais um alvo: o blog de Alcinéa. Em outra representação, a coligação do autor de Marimbondos de Fogo (coletânea de poemas definida por Mestre Millôr como “um livro que quando você larga não consegue mais pegar”) pediu a aplicação de multas e a retirada do ar de seis posts. No dia 26, Alcinéa informa em seu blog que “amigos do Senador” entraram em contato com ela, pedindo desculpas pela “precipitação dos advogados da coligação”. Afirmam que as ações seriam retiradas. Porém, em troca, pedem para que a jornalista amapaense deixe de escrever qualquer texto contra o ex-Presidente. Alcinéa se recusa a aceitar o “trato”. Em ligação recebida em seu celular às 20:34, outro “amigo de Sarney” afirma que se a “briga” não fosse encerrada a coligação União Pelo Amapá entraria com ações contra “os jornalistas Cláudio Humberto, Chico Bruno, Alcilene Cavalcante e todo e qualquer jornalista ou blogueiro que se manifestasse contra Sarney”.
Enquanto isso, a campanha “Xô Sarney” espalha-se pela blogosfera, através da reprodução do desenho de Ronaldo Rony em diversos sites. Ao publicar a imagem que desencadeou a censura ao blog de Alcinéa Cavalcante, Marcelo Tas escreveu: “Os jornalistas e eleitores do Amapá têm todo direito de se expressar. E claro, de escolher seus legítimos representantes. De dizer não, este ano, agora mesmo, a este oportunista bigodudo”. No dia 29, matéria de Thiago Reis para a Folha Online já contabilizava 80 blogs engajados na campanha.
Sexta-feira, dia 1, em mais um flagrante atentado à liberdade de expressão, o blog de Alcinéa Cavalcante foi enfim tirado do ar. O fato repercute no exterior e faz com que o Brasil passe a se equivaler a países como China e Irã, que também possuem o hábito pouco edificante de censurar blogs por motivos políticos. Alcinéa não desiste de escrever e migra seu blog para um servidor no exterior, passando a postar na URL http://alcineacavalcante.blogspot.com. A campanha “Xô Sarney” alastra-se de vez pela blogosfera.
Em bem-humorado texto publicado pelo Jornal Pequeno, de São Luís, MA, o responsável pela coluna “Informe JP” relata o crescimento do movimento “Xô Sarney”, mas faz um alerta aos amapaenses: “Nós, aqui do Maranhão, não aceitamos devoluções (…) Não adianta apelar para o Código do Consumidor: o prazo para devolver a mercadoria já prescreveu”. Enquanto isso, pesquisas detectam que a candidatura do pai de Roseana parece perder fôlego, uma vez que sua concorrente mais próxima, Cristina Almeida (PS, avançou de 15,4% para 29% das intenções do voto. Aguardemos pelos próximos capítulos, cruzando os dedos e divulgando a odisséia amargada pelas irmãs Alcilene e Alcinéa Cavalcante em suas batalhas contra os advogados do autor de Marimbondos de Fogo.

Dragão em origami, realizado por Satoshi Kamiya. É uma dobradura feita a partir de um quadrado de papel, sem um único corte. Este dragão pode ser considerado o mais complexo origami do mundo e Satoshi Kamiya certamente é um dos melhores autores do gênero. Segundo o artista, ele levou cerca de um ano para realizar este trabalho.
Belíssima criação de poster para a Bienal de Desenho Industrial em Lubiana, Eslovênia. Autoria de Ranko Novak.

César, Napoleão, Solano Lopez, Franco, Hitler, Fidel, Fulgêncio, Pinochet, Getúlio, Bokassa, Duvalier, Idi Amin, Videla, Sadam, foram apenas alguns deles.
Esquisitices à parte (dizem testemunhas da época que Hitler, quando discursava em público, sentia orgasmos a ponto de ejacular nas suas calças), praticamente todos os ditadores acabaram mal suas “gestões”: assassinados, enforcados, presos, desterrados, repudiados, execrados.
Mas a sede pelo poder foi tão intensa, que todos eles imaginaram se sair bem, admirados e aplaudidos pelos seus conterrâneos, e que nada de mal poderia lhes acontecer. A História conta seus “grand finales”.
Agora, apareceram mais dois, o Evo Morales na Bolívia e o Hugo Chavez, da Venezuela, “hermanos” do Lula. Ambos mexeram ou estão mexendo na Constituição dos seus países para se prolongarem indefinidamente no poder.
Qualquer um de nós poderia apostar num fim trágico para ambos (quem viver verá). Mesmo assim, eles atropelaram a ordem política de seus países e arriscam seus pescoços pelo supremo gozo do poder. O pior sempre sobra para seus próprios países: atraso, pobreza, isolamento, rivalidade entre políticos e por vezes até uma guerra civil.
Fico matutando se essa ânsia pelo poder é fruto de algum gene, do oportunismo, da fraqueza de seus oponentes ou se é sem-vergonhice mesmo.
A tal carta do PT, assinada pelo pró-palestinos Ricardo Berzoini, cita que “o Partido dos Trabalhadores soma sua voz à condenação dos ataques que estão sendo perpetrados pelas forças armadas de Israel contra o território palestino e convoca seus militantes a engrossarem as manifestações contra a guerra e pela paz que estão sendo organizadas em todo o Brasil e no mundo. O PT reafirma, finalmente, seu integral apoio à causa palestina.”
Segundo as notícias divulgadas, os ataques israelenses, em revide aos constantes disparos de foguetes disparados da faixa de Gaza mataram cerca de 900 palestinos, em sua maioria terroristas do Hamas.
O que Berzoini não cita do governo do PT, há seis anos no poder, é que ao completar 30 anos, no fim de 2008, a mais antiga e confiável base de dados sobre mortes do Brasil, o DataSUS, do Ministério da Saúde, iniciada em 1979, terá apontado um número de homicídios acumulado nessas três décadas bem próximo – um pouco maior, um pouco menor – de 1 milhão. A conta é comparável à de países em conflito bélico. Angola levou 27 anos para atingi-la, mas estava oficialmente em guerra civil.
Os números foram apresentados há um ano por um estudioso do fenômeno da violência, o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Temos um sistema de segurança pública falido. A violência é como um barco à deriva desses problemas sociais, socioeconômicos”, explicou Cerqueira.
O que Berzoini também não cita, são a inércia e a falta de ações mais objetivas dos governantes brasileiros, que jamais atacaram esse nosso problema de frente e deixam passar armas, munições, drogas e contrabando pelas nossas fronteiras, as razões mais evidentes desse genocídio brasileiro não declarado.
Berzoini, que pertence ao PT e fez parte do governo, tem também sua grande parcela de culpa nessa situação. Ao invés de propor soluções para acabar com o genocídio no Brasil, ele incita seu partido a participar de manifestações contra os israelenses. Provavelmente ele aprendeu essas técnicas para desviar a atenção dos graves problemas de um povo com o maluco do Hitler. E fez questão de apontar para o mesmo alvo: os judeus.
Notícias de Brasília nos dão conta de que o senador Sarney já está novamente costurando um acordo para voltar à presidência do Senado nesta legislatura. O que prova que jamais haverá renovação nos meandros políticos brasileiros, com as raposas velhas sempre comandando o espetáculo.
O triste mesmo é saber que o passado do ex-presidente está coberto de conchavos, imbróglios e máculas, que a maioria conhece bem.
Eis alguns dos dados mais recentes publicados no site “Transparência Brasil”:
- Teria usado carros oficiais durante sua campanha em 2006, o que é vedado pela lei eleitoral (Folha de S. Paulo, 27 set.2006).
- Amigo pessoal do banqueiro Edemar Cid Ferreira, resgatou suas aplicações no Banco Santos na véspera da intervenção do Banco Central naquela instituição (O Estado de S. Paulo, 19 nov.2004; Gazeta do Povo, 20 nov.2004).
- A Polícia Federal investiga saques em dinheiro no valor de R$ 3,5 milhões ligados a empresas do senador período eleitoral de 2006. O Ministério Público Federal também apura o caso (Folha de S. Paulo, 09 jan.2008).
- “O que não poderá acontecer impunemente são as manobras a posteriori, como vimos em 2004 o então presidente do Senado, José Sarney, apegar-se a firulas para descumprir o regimento e tentar evitar a CPI dos Bingos sem assumir o golpe.” (Dora Kramer, Estadão 27.4.2007).
Sobre sua atuação no Maranhão, basta procurar nossos artigos anteriores neste blog.