Crítica: Olmo e a Gaivota

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Sinto que há um alien dentro de mim, que se nutre de mim e me impõe as regras“, é um dos diversos momentos em que “Olmo e a Gaivota” evidencia, ainda mais, a desconstrução da gravidez como algo lindo. Tem sua beleza, claro, mas que dá lugar a muitos outros sentimentos, como solidão, dúvida, dor e medo. Faltava esse olhar enquanto cinema. Ainda falta esse olhar enquanto discurso. Não poder admitir que este momento transita por fases ruins, faz com que a mulher tenha de lidar com todas as angústias sozinha, e é justamente neste ponto que o filme ganha força, pois divide de maneira sincera e sensível, todos esses sentimentos com o espectador.

O longa ousa por brincar com estruturas narrativas típicas do documentário, fazendo um hibridismo entre ficção e não-ficção, que fica mais claro com as intervenções das diretoras Petra Costa e Lea Glob em alguns momentos. A única coisa que realmente temos certeza de ser real durante o filme é a crescente barriga de Olivia Corsini, atriz de uma companhia de teatro que, juntamente com seu marido e também ator, Serge Nicolai, está encenando a peça “A Gaivota”. Após um sangramento e a descoberta de um hematoma no útero, ela precisa ser substituída e fica de completo repouso em casa, o que, neste momento, torna-se realmente claro como a gravidez é, por sua essência, feminina e realmente particular da mulher.

“Olmo e a Gaivota” traz um olhar real da gravidez, apresentando os pensamentos de Olivia, que se encontra impedida de fazer afazeres simples, tampouco sair de casa. Fica bastante nítido o abalo emocional, constantemente à beira das lágrimas, quando reflete sobre o futuro, o trabalho que deixou e as limitações que um filho impõe exclusivamente a ela, que o carrega, e não ao pai, que segue com a rotina normal. É um filme com uma potência negativa, que se permite mostrar Olivia reclamando, chorando, irritada, afinal, sentir-se mal faz, sim, parte da vida. A tristeza não tem porque ser evitada de qualquer maneira e ninguém precisa se encaixar em uma gravidez considerada socialmente como maravilhosa. Ela vive uma clausura física e um esgotamento emocional difíceis de lidar. E tudo bem. É permitido.

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Originalmente, o filme não seria sobre a gravidez de Olivia, mas quando as diretoras descobriram a notícia, animaram-se em retratar esse período tão pouco discutido no cinema. Que sorte, a delas e a nossa.  O tom natural que o filme traz, assim como os dilemas da protagonista, propõe ao espectador que se questione sobre conceitos impostos à mulher e ao homem durante a gravidez e, também, sobre o relacionamento. A maneira com que abordou esse tema pelos olhos de quem está vivendo na pele a situação, intensifica ainda mais a emoção que causa ao público, que acompanha de perto cada passo desse emaranhado entre vida e morte.

A Olivia de antes morreu. A do presente não se reconhece. A do futuro será uma novidade nunca pensada antes. Enquanto isso, Sergei parece perfeitamente confortável com a esposa e a vida que tem, afinal, continua a mesma, uma vez que, para ele, só se tornará pai ao pegar o bebê nos braços. Sim, para os homens, o conto da cegonha e do repolho podem realmente ser críveis. E é importante que as mulheres se vejam na tela dessa forma tão sincera, ainda que nunca tenham ficado grávidas. É o (re)conhecimento de um processo biológico, social e cultural que permeia o imaginário de todas desde sempre. Mesmo daquelas que nunca quiseram ser mães.

Petra Costa, com seu primeiro filme, “Elena”, já havia feito um documentário em que revelava desejos e emoções por meio de uma câmera que percorria as ruas de Nova Iorque em busca do passado de sua irmã, que cometeu suicídio. Agora, com “Olmo e a Gaivota”, surge com mais uma criação sensível e angustiante, mostrando como algumas marcas, nem sempre tão visíveis aos olhos dos outros, existem e trazem dores, ainda que possam trazer amores também. Os dois filmes retratam a morte, a diferença é que em apenas um deles, bem ou mal, é possível continuar protagonizando a própria história.

*texto originalmente publicado no Jornal O Duque

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