Entrevista com Serginho Chulapa*

Por Fábio Castaldelli

Na última semana, o ex-jogador Sérgio Bernardino (23/12/1953), o Serginho Chulapa, esteve em Maringá participando do Espaço Temático do Futebol na 41ª edição da Expoingá, uma iniciativa que teve como objetivo aproximar o maringaense de craques que fizeram história nos gramados pelo Brasil, às vésperas da Copa das Confederações, no mês de junho deste ano, e da Copa do Mundo de 2014.

Em entrevista a O Diário, Serginho Chulapa relembrou uma série de episódios que marcaram a sua carreira de mais de vinte anos no futebol, os clubes onde fez história e a mágoa por não ter disputado a Copa do Mundo de 1978, na Argentina.

“Eu estava no meu melhor momento e poderia ter feito a diferença”, disse. Trabalhando atualmente nas categorias de base do Santos, onde já comandou o time profissional, ele revelou que há muitos talentos que, assim como o Neymar, poderão ser os próximos destaques do futebol nacional.

O apelido ‘Chulapa’ foi dado por companheiros de pelada, ainda na adolescência, por causa do tamanho de seus pés (ele usava chuteiras número 45), que foram responsáveis por boa parte dos 520 gols que têm anotado no currículo. Tão reconhecido pelo faro de gols como pelas confusões em campo e fora dele, Serginho Chulapa confessa que nunca fugiu de uma briga e que não se arrepende de nada do fez.

DFC - Como sua carreira como jogador de futebol teve início?

 SERGINHO CHULAPA - Comecei a jogar bola pra valer com 14 anos na Portuguesa de Desportos (SP) onde fiquei por três anos até ser dispensado. Depois disso, fui fazer um teste no São Paulo Futebol Clube e eles gostaram de mim. Permaneci no São Paulo de 1971 a 1982 e fiz história por lá. Até hoje sou o maior artilheiro do clube com 242 gols.

 Você chegou ao São Paulo na época em que Telê Santana era técnico. Como ele contribuiu para a sua carreira?

O Telê Santana foi quem viu potencial em meu futebol e me lançou no time profissional quando eu tinha 18 anos. Mas, não sou grato a ele somente por isso. Quem conheceu o Telê sabe que ele era diferenciado principalmente pela lealdade e paciência em formar jogadores.

Foi ele quem me ensinou a chutar com as duas pernas e a cabecear. Eu tinha quase 1,90 metro de altura e não conseguia fazer gols de cabeça. Isso para o Telê era um absurdo. O Telê foi um professor dentro do campo e também fora dele.

Atualmente os técnicos são muito diferentes dos de sua época?

Os técnicos são bem parecidos. Eles até tentam fazer o trabalho deles com seriedade. O jogador é que mudou, ficou preguiçoso demais e desobediente.

Você não esteve na lista dos convocados para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, porque pegou um ano e dois meses de suspensão após agredir o bandeirinha Vandevaldo Rangel com um pontapé no tornozelo. Você acredita que poderia ter feito a diferença naquela Copa do Mundo?

Eu estava em meu melhor momento como jogador do São Paulo e aquela Copa do Mundo era de ‘choque’, ideal para mim. Se eu estivesse lá teria contribuído e distribuído uns empurrões e umas cotoveladas. Penso que o Brasil poderia ter ido mais longe no torneio.

Há episódios que ficaram marcados em sua carreira como o chute que deu na cabeça do goleiro Emerson Leão, na final do Campeonato Brasileiro de 1981. O seu pavio curto lhe atrapalhou muito?

Eu fiz 520 gols na carreira, no entanto, poderia ter feito uns 700 se não tivesse sido suspenso tantas vezes. Eu devo ter sido expulso de 25 a 30 vezes, mas não tenho arrependimento de nada. Naquela época havia somente uma câmera filmando as partidas. Se fosse hoje, quando existem até 30 câmeras no estádio, eu teria que mudar meu temperamento por completo.

O que mais te deixava irritado?

Perder jogos e os jogadores folgados. Esses sim me tiravam realmente do sério. Nunca fugi de uma briga.

Como é seu temperamento atualmente?

Sou casado e tenho cinco filhos. Essas pessoas especiais e a vida nos ensinam a mudar. Tive muitos percalços e precisei mudar meu temperamento.Nada como amadurecer para saber o que é e o que não é importante. Hoje sou um cara tranquilo.

Já na Copa de 1982, na Espanha, você foi titular depois que o Careca, mais cotado para a vaga se machucou. Como foi a experiência de participar de um evento desta grandeza?

Perdemos a Copa para a seleção da Itália que tinha ótimos jogadores, mas não era uma equipe tão boa como a nossa. Futebol tem destas coisas: nem sempre o melhor vence. De qualquer maneira foi a melhor das experiências e jamais a esquecerei. Nosso futebol era moderno e bonito de ver. Dividi o gramado com jogadores excepcionais como Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Éder. É uma pena este bando de craques não ter vencido nenhuma Copa do Mundo. Eles mereciam por tudo o que fizeram.

Acha que deveria ter sido convocado para a Copa do Mundo de 1986?

Não. Eu já estava ‘devagar’ nessa época. Havia muitos jogadores melhores do que eu, com certeza.

Assim que saiu do São Paulo, foi transferido para o Santos. Como foi essa transição?

Eu estava para assinar um contrato com o Flamengo, em 1983, quando o Santos me fez uma proposta. Nos dez anos que joguei no São Paulo não falei para ninguém, mas eu sempre fui santista. Não pensei duas vezes e optei pelo time da baixada .

Em 1984 você fez, de canela, o gol que deu o título do Campeonato Paulista ao Santos, que estava há anos sem ganhar nada. O que aquele gol representou? Foi o mais marcante da carreira?

O gol do título de 1984 foi inesquecível. E por ser em cima de um grande rival como o Corinthians, foi melhor ainda. Lembro que a decisão foi espetacular. O Morumbi estava com cerca de 120 mil pessoas e os dois times eram muito bons. No vestiário já sabíamos que seríamos campeões pois aquele título era uma obsessão para o nosso grupo. Foi um momento memorável em minha vida e considero aquele o gol como o mais marcante de minha trajetória no futebol.

O Santos foi sua grande paixão. Fez parte do elenco santista por quanto tempo?

Entre 1983 e 1990 tive passagens pelo Corinthians, Marítimo de Portugal e um time da Turquia, mas, entre um clube e outro eu sempre voltei para o Santos, que é minha casa.

Você parou de jogar em 1993. Foi muito complicado pendurar as chuteiras?

Foi fácil porque eu parei de jogar mas continuei no futebol. Depois de me aposentar como jogador comecei a trabalhar nas categorias de base do Santos.

Você deve ter conhecido de perto o futebol de Neymar. Há outros jogadores com o mesmo potencial que ele?

Tem uma molecada boa. O Santos hoje é exemplo de categoria de base e de trabalho sério. Lá não tem armação. Todo mundo vai lá, faz testes e escolhemos os melhores. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Lá já caiu pelo menos três vezes com Pelé, Robinho e Neymar. E outros ótimos talentos estão por vir.

Todo mundo gosta de palpitar se o Neymar deve ficar no Brasil ou jogar no exterior. Qual a sua opinião? Acha que ele cresceria como jogador atuando na Europa?

O Neymar já fez tudo o que tinha que fazer no Brasil. É hora de ele ir para a Europa e aprender a lidar com outro tipo de marcação. Depois da Copa das Confederações ele deveria ser transferido. Isso seria muito importante porque estaria mais preparado para jogar a Copa no Brasil. Aqui os caras dão porrada nele, lá fora os caras irão marcá-lo. Ele tem que saber lidar com esse tipo de situação. Vai ser bom para ele e melhor ainda para a seleção.

Como avalia a lista de convocados do técnico Luiz Felipe Scolari para a Copa das Confederações, que começa no próximo mês?

A única injustiça foi o Ronaldinho Gaúcho não ter sido convocado. Ele daria uma boa experiência para os meninos. Levaram o Jadson e não o Ronaldinho, que está em melhores condições. Mas, de resto, está bom e tenho confiança em uma boa atuação.

*Entrevista publicada no caderno de Cidades da edição de 19 de maio do Jornal O Diário do Norte do Paraná.

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