Editorial



O verdadeiro novo líder político

“O verdadeiro líder político novo, hoje, será aquele capaz de sensibilizar a sociedade para problemas que emperram o desenvolvimento e que deveriam desde sempre ser considerados intoleráveis num país com a riqueza e o potencial do Brasil, como a falta de saneamento básico, a precária infraestrutura nacional, a baixa produtividade e o estado cronicamente lastimável da educação e da saúde. Sem prejuízo da necessária luta contra a corrupção, é para essas questões fundamentais, tão vergonhosas quanto antigas, que o Brasil deveria dedicar sua mais profunda indignação.”

No editorial do Estadão, ontem.

 

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Dos fins e dos meios

No combate ao crime, a legalidade dos meios é tão importante quanto a nobreza dos fins

Editorial, Estadão

O diligente combate à corrupção em todas as suas fases, da investigação policial até a execução das eventuais penas impostas aos condenados, deve ser uma das preocupações de todos os cidadãos imbuídos de boa-fé e espírito público. É a intolerância diante da corrupção, financeira e moral, praticada em todas as esferas da vida social, pública e privada, que há de levar o País à superação de uma de suas mais renitentes mazelas.

No entanto, em nome desse futuro longamente almejado pela Nação, excessos, ilegalidades e usurpação de papéis institucionais – cuidadosamente concebidos para a harmonia das relações entre sociedade e Estado – têm sido cometidos como se estivessem autorizados pelo respaldo popular e pela justeza da causa. No combate ao crime, nunca é demais lembrar, a legalidade dos meios é tão importante quanto a nobreza dos fins.

Ao se abrir espaço para criativas interpretações da lei em nome de uma suposta “justiça”, pavimenta-se o tortuoso caminho que pode nos levar a um estado de arbítrio em que uns poucos agentes públicos, autoungidos por um dom quase messiânico, têm o poder de decidir o que é melhor para a sociedade e, assim, ditar quais os mecanismos que são mais adequados para atingir os resultados pretendidos.

Um sinal evidente da ameaça à democracia representada por essa sanha saneadora que se impõe aos limites da lei é a distorção, feita por alguns membros do Ministério Público (MP), da natureza do instituto da colaboração premiada. O que deveria servir meramente como base para o início de uma investigação criminal tem sido convertido em sentença condenatória com uma frequência alarmante. E, o que é pior, uma sentença condenatória da qual o “acusado”, ou seja, o delatado, não pode recorrer por não contar com os instrumentos do contraditório previstos no processo judicial regular.

Vale dizer, hoje vigora no País um princípio segundo o qual, uma vez delatado, um fato supostamente criminoso é imediatamente tomado como verdadeiro e seu agente considerado culpado. Qualquer um que ouse questionar a prática é logo tido como leniente com a corrupção.

Em documento enviado ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro, a Polícia Federal (PF) aborda importantes questões em relação aos métodos pouco ortodoxos do Ministério Público na condução das chamadas delações premiadas. A manifestação dos policiais federais, incluindo o diretor da PF, Leandro Daiello, foi encaminhada ao STF nos autos da ação que tramita na Corte para decidir sobre a constitucionalidade dos acordos de colaboração firmados pela Polícia Federal.

Em um dos trechos do documento de 39 páginas, os delegados federais sustentam que “a colaboração é apenas uma técnica operacional destinada a acelerar os caminhos da investigação policial”, enquanto o uso do instituto pelo MP é um mero “atalho entre o fato e a condenação”.

A despeito das eventuais disputas pelo protagonismo das ações públicas no combate à corrupção, acentuadas em virtude da popularidade que advém do sucesso da Operação Lava Jato, merecem atenção as ponderações feitas pela PF. De fato, a colaboração premiada deve servir tão somente como um catalisador da investigação criminal, não como um cabal atestado de culpa sem o devido processo legal.

Da forma como vêm atuando alguns membros do MP, o equilíbrio que deve prevalecer na condução de um processo judicial fica gravemente prejudicado na medida em que uma única instituição – o próprio Ministério Público – detém todos os papéis exercidos na persecução criminal. Ou seja, a instituição que deveria ser parte do processo também investiga, acusa e às vezes até mesmo exerce a função judicante, estabelecendo penas e multas nos acordos de colaboração por ela celebrados.

O Brasil não será um país melhor se, vencida a corrupção que há tanto nos aflige, deixar em ruínas os pilares que sustentam o Estado Democrático de Direito consagrados pela Constituição. Terá sido um preço alto demais.

Editorial do Estadão

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Como vai ser a “reforma política”?

O congresso discute uma reforma política e há muitas dúvidas sobre como ela será. Em editorial publicado no sábado, O Globo fala em uma “reforma possível”, adiantando que muitas das propostas não serão aprovadas por falta de consenso e mais tempo para debates.
A emenda que acaba com coligações e cria cláusula de barreira, aprovada no primeiro de dois turnos na Câmara, segundo o editorial, “não é a ideal, mas aperfeiçoa o quadro de hoje”.
Uma coisa é certa: faz tempo que havia consenso no Brasil sobre a necessidade de uma reforma política. No entanto, na atual crise política, em meio a denúncias, investigações prisões, todas as reformas passaram a ser questionadas.
O Globo vai além: “Não é a primeira vez que reformas políticas amplas, com muitos itens, não prosperam. É provável que os múltiplos interesses em jogo, em um Congresso com quase três dezenas de legendas, expliquem as dificuldades — que podem ser positivas, por evitar mudanças indesejadas. Pelo menos tem sido assim nesta tentativa de reforma.”
O editorial prossegue: “Antes do feriadão de 7 de setembro, a Câmara conseguiu aprovar, no primeiro dos dois turnos exigidos, a emenda constitucional que acaba com as coligações em pleitos proporcionais e estabelece uma cláusula de desempenho para os partidos terem representação nas Casas Legislativas e usufruírem de prerrogativas (tempo na propaganda dita gratuita, acesso ao Fundo Partidário etc.)
A proposta obteve 384 votos, bem acima do apoio mínimo exigido de 308 deputados, ou dois terços da Câmara. Precisará de nova aprovação de mesmo quórum qualificado, para ir ao Senado, onde necessitará do aval de pelo menos 49 senadores, também duas vezes.
Um longo trajeto, como deve ser para mudanças na Constituição. Mas ainda há obstáculos a superar na Câmara, porque só foi aprovado o texto básico, e nele há itens que precisam ser eliminados. Caso da federação de partidos e principalmente da subfederação de legendas.
Tratam-se de artifícios para que pequenos partidos — vários deles de aluguel, rentáveis balcões de negócios controlados por uma cartolagem política desonesta — sobrevivam ao fim das coligações. Na prática, a federação mantém essas alianças, que permitem a transferência de votos entre as legendas, com a diferença de que esta coligação será mantida durante toda a legislatura.
Pior é a subfederação, porque ela será criada nos estados apenas para as eleições, sendo dissolvida depois. Em nada é diferente das coligações atuais, que impedem que o eleitor saiba para onde foi seu voto, numa enorme contradição com princípios da democracia representativa.
A cláusula de barreira, na versão aprovada, atenua a que foi sancionada no Senado, por proposta dos senadores tucanos Ricardo Ferraço (ES) e Aécio Neves (MG). Em vez de no mínimo 3% do total de votos concedidos aos deputados federais, e numa determinada quantidade de estados, o índice, no relatório da deputado tucana Shéridan (RR), foi cortado para 1,5%, chegando aos 3% apenas em 2030.
Pelo menos institui-se o instrumento da cláusula, crucial — junto com o fim das coligações — para se começar a reduzir a pulverização partidária, empecilho à formação de alianças legítimas e em bases éticas.
Mesmo que a reforma afunile para temas de fato relevantes, ainda há muitos riscos nas votações. Afinal, persistem o fundão e mudanças incabíveis no sistema eleitoral.”

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Editorial do Estadão avalia “O custo Janot”

Em editorial publicado hoje, o Estado de São Paulo faz uma avaliação sobre “o custo Janot”, afirmando que “A atuação descuidada do sr. Rodrigo Janot vai muito além dos efeitos sobre as pessoas envolvidas na corrupção da JBS”.

Leia a íntegra do editorial:

“Na segunda-feira passada, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, admitiu aquilo que o Brasil já sabia há um bom tempo: a existência de fatos gravíssimos envolvendo a delação da JBS. Imediatamente após a declaração de Rodrigo Janot, surgiram especulações sobre os possíveis desdobramentos do reconhecimento oficial de que a delação da JBS não era exatamente aquele rosário de virtudes que o procurador-geral da República insistia em apregoar. Uma vez mais o País se via enredado em questões sobre o futuro de suas autoridades e de suas instituições. E ninguém deixou de perceber como está saindo cara ao País a atuação açodada do sr. Rodrigo Janot.

Desde a divulgação da delação da JBS em meados de maio, a Procuradoria-Geral da República (PGR) foi questionada por conceder tão generosa imunidade ao sr. Joesley Batista. Além de ser uma clara afronta à lei – que proíbe esse benefício aos líderes de organização criminosa (Lei 12.850/2013, art. 4.º, § 4.º, I) –, a indulgência parecia confirmar a velha sina da impunidade para os ricos e poderosos, num inequívoco sinal de que o crime ainda estava compensando. Era um banho de água fria em tantos brasileiros que julgam ter surgido, nos últimos anos, uma Justiça mais efetiva.

Ainda que severamente prejudiciais à moralidade pública, os ventos de impunidade que acompanharam a delação da JBS não foram o principal estrago causado pelo procurador-geral da República. Seu açodamento, tanto na assinatura do acordo de colaboração premiada com o sr. Joesley Batista como na apresentação da inepta denúncia contra o presidente da República, provocou sérios prejuízos ao País, justamente quando o governo e a sociedade buscavam, a duras penas, superar a grave crise econômica e social deixada pelos anos de PT no Palácio do Planalto.

A atuação descuidada do sr. Rodrigo Janot vai muito além dos efeitos sobre as pessoas envolvidas na corrupção da JBS. Ela atrapalhou a vida de todos os brasileiros, ao comprometer o processo de recuperação da economia, no ritmo que havia adquirido, à época, e ao prejudicar o andamento das reformas no Congresso, em especial os trabalhos da reforma da Previdência. Justamente quando o Legislativo tentava se organizar para conseguir votar um tema difícil, mas indispensável para recolocar o País nos trilhos, como é a mudança do sistema previdenciário, o procurador-geral da República buscou os holofotes para anunciar a existência de provas incontestáveis contra o presidente Michel Temer. Depois, o País percebeu que não era bem assim – a denúncia da PGR contra Michel Temer estava eivada de inconsistências –, mas o estrago estava feito. Por semanas, a agenda do Congresso ficou sequestrada por uma denúncia artificialmente montada, sem que fosse possível avançar nos temas que de fato podem melhorar a vida da população.

Além de atrasarem o trabalho dos parlamentares, os atropelos do procurador-geral da República prejudicaram a economia do País. No momento em que empresários e investidores começavam a vislumbrar um mínimo cenário de estabilidade e voltavam a apostar na recuperação econômica – investindo, contratando, destravando projetos, etc. –, estava lá o sr. Rodrigo Janot, do alto de seu posto, determinado a desfazer essa impressão inicial, intimidando todo e qualquer movimento de recuperação da economia e do emprego. Sua atuação impôs ao País a agenda da instabilidade.

E mesmo após a Câmara dos Deputados ter trazido um pouco de serenidade e responsabilidade ao caso, negando andamento à inepta denúncia contra o presidente da República, Rodrigo Janot voltou a falar de novas acusações contra Michel Temer. E, se alguém duvidasse da existência real de alguma prova consistente, a mensagem era de que ela surgiria de alguma nova delação, como a de Lúcio Funaro.

O País tem assistido a muitos casos de corrupção. São tantos e tão frequentes escândalos que é difícil dizer qual é o maior e mais grave. É fácil, no entanto, definir a imprudência mais custosa e mais danosa ao País nesses últimos tempos, quando se tem um procurador-geral da República incapaz de perceber as consequências de suas ações. Mais uma vez, fica evidente a importância de se cumprir a lei. Poupam-se muitos problemas.”

Acesso à publicação AQUI

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O custo dos vereadores

O editoral de hoje de “O Estado de São Paulo” trata do custo das câmaras municipais, no país. Um número é impressionante: estudo da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) mostra que quase 20% dos 3.762 municípios que prestaram contas ao Tesouro em 2016 e 2015 gastaram mais com as suas câmaras do que arrecadaram como receita própria.

Neste caso, em razão das despesas com as câmaras municipais, essas cidades dependem exclusivamente das transferências constitucionais para financiar serviços básicos. Considerando-se que 1.807 municípios nem sequer prestaram contas ao Tesouro, o que autoriza presumir que sua situação econômica seja ainda mais precária, tem-se um quadro de total desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal e à própria Constituição.

O levantamento mostrou que a receita própria média per capita dos pequenos municípios equivale a 23% da receita dos grandes municípios, mas a despesa legislativa média per capita dessas pequenas cidades é 70% maior do que a das grandes.

A CACB sugere que se limitem os gastos dos Legislativos municipais apenas às receitas geradas pela própria prefeitura, isso é, sem levar em conta as transferências constitucionais, como é hoje. O objetivo seria gerar uma folga de caixa para que as transferências cumpram sua função, isto é, sejam usadas para promover o desenvolvimento dos municípios com menos recursos, além, é claro, de bancar os serviços essenciais à população. A CACB calcula que essa medida geraria uma economia de R$ 7,6 bilhões anuais, levando-se em conta somente os municípios pesquisados. Numa projeção que inclui todos os municípios do País, a conta chegaria a mais de R$ 11,3 bilhões.

Há municípios que não geram receita própria suficiente para cobrir os gastos com as Câmaras, tal o nível que essas despesas atingiram. Para esses casos, a sugestão é que se transforme o trabalho do vereador em atividade voluntária. A Constituição já prevê, em seu artigo 38, que aqueles que se elegem vereadores podem continuar com suas atividades profissionais, inclusive recebendo salários, desde que haja compatibilidade de horários. Ou seja, é perfeitamente aceitável que a vereança, nas cidades pequenas, seja remunerada apenas com alguma ajuda de custo, uma vez que não se exige muito dos vereadores, chamados em geral para aprovar o orçamento do município e uma ou outra lei. O resto do tempo, como se sabe, é dedicado a aprovar nomes de rua, algo cuja importância não justifica tamanho sacrifício do contribuinte.

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O que os brasileiros querem

A inquietação manifestada pelos brasileiros nas últimas três semanas teve como estopim um problema de dramática atualidade: as altas tarifas e a má qualidade do serviço de transporte urbano. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) com 3,7 mil pessoas em 212 municípios em 2011 sugere que se trata de dilema que afeta a população brasileira de forma desigual, mas extensiva. Dos entrevistados com renda familiar per capita mensal de zero a cinco salários mínimos, 99% declararam-se usuários cativos ou exclusivos do transporte público. Segundo o mesmo levantamento, a avaliação negativa do serviço cresce à medida que aumenta o tamanho da cidade: apenas 27% dos entrevistados em municípios com menos de 20 mil habitantes consideraram o transporte ruim ou muito ruim, enquanto essa mesma fatia sobe para 41% nas concentrações com mais de 100 mil habitantes.
Logo os manifestantes incluíram também na sua pauta de reivindicações outros serviços públicos deficientes, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Também nesse aspecto, mostraram ter com o restante da população uma sintonia raras vezes atingida por representantes eleitos nos parlamentos. Conforme o Datafolha, em levantamento realizado no dia 21, dois em cada três paulistanos eram favoráveis à continuidade das manifestações e propunham como principais bandeiras a saúde (40%), a educação (20%) e o combate à corrupção (17%). As demandas nessas áreas essenciais são urgentes, pois ninguém suporta mais ver filas de doentes nas emergências dos hospitais, pessoas esperando meses por consultas especializadas e cirurgias, falta de médicos em locais remotos, escolas sucateadas, professores desmotivados e mal pagos, índices constrangedores de reprovação e evasão escolar e violência desenfreada nos centros urbanos e até mesmo nas localidades interioranas.
Mais grave ainda do que essas falhas do Estado, que interferem diretamente na vida das pessoas, é a cultura da negligência, que permeia a máquina pública. É sabido que, nos últimos 10 anos, o Brasil experimentou uma redução significativa em sua histórica desigualdade social. Como lembra o presidente do Ipea, Marcelo Neri, nesse período a renda dos 10% mais pobres cresceu 550% mais rápido do que a dos 10% mais ricos. É compreensível que, pelo menos nos grandes centros urbanos, o ingresso massivo de brasileiros no universo do trabalho e do consumo ocorrido na última década provoque demandas adicionais sobre o conjunto dos serviços públicos e que a percepção de suas deficiências também seja acentuada com o aumento do acesso à educação e à informação. Se o país não estiver preparado para receber esse novo contingente de beneficiários de serviços e de políticas públicas com um incremento na qualidade da saúde, da educação e da segurança, estará apenas preparando o caldo de cultura para mais descontentamento.

Editorial do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, dessa segunda-feira, dia 1º de julho

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Editorial alerta para perigo na eleição da OAB

A Gazeta do Povo destacou no seu editorial de ontem, 27, grande risco que ronda a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de eleger um presidente que é réu em processo por improbidade e suposto conluio com um desembargador afastado no estado do Piauí, por sentenças indenizatórias milionárias injustificadas, favorecendo clientes do candidato, o advogado Marcus Vinicius Coêlho.
O editorial da Gazeta de domingo tem o seguinte texto:

A ELEIÇÃO DA OAB INTERESSA A TODOS

Uma entidade que tanto lutou pela democracia e pela moralidade no trato com a coisa pública não pode eleger para sua presidência um candidato envolvido em escândalos

Após a escolha dos seus dirigentes regionais, a Ordem dos Advogados do Brasil entra, nesta semana, na reta final de sua eleição nacional, que ocorre no dia 31. Esta disputa transcende o âmbito da classe dos advogados e interessa a todo o país. É reconhecido o papel que a OAB representa para o Brasil, com sua longa e relevante história em defesa da democracia, a ponto de ter se torndo uma depositária da confiança das pessoas de bem deste país. E algumas tristes circunstâncias específicas da eleição deste ano exigem ainda mais atenção da sociedade.

Hoje a OAB é vista como guardiã da democracia e um bastião de resistência contra tudo o que se faz de errado no país. Nessa trajetória, ela contou com fortes apoios, como os da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre tantos outros. Juntas, essas entidades lutaram contra a restrição da liberdade no período pós-64, caminharam lado a lado nas campanhas das Diretas Já e nas grandes manifestações públicas que exigiram rigor contra a corrupção no governo Collor, e buscaram a aprovação da Lei da Ficha Limpa. A Ordem sempre foi crítica dos desmandos repetidos a cada escândalo.

São sempre relembradas as suas funções na defesa da advocacia e na luta incansável pela atuação do Conselho Nacional de Justiça cujo embrião foi gerado dentro da OAB. A luta pela melhoria da Justiça e pelo respeito às prerrogativas do advogado devem ser entendidas como um benefício para cada cidadão que busca o seu direito, pois, sem essa atenção, não há defesa eficiente e quem mais sofre é justamente aquele que busca a Justiça.

Tradicionalmente, a OAB tem na sua presidência homens ilustres e com desprendimento, prontos para atuar pelas maiores causas do Brasil e da advocacia. Referência sempre citada é Raimundo Faoro, paradigma a ser seguido por tantos quantos possam almejar dirigir aOAB. Mas hoje há graves preocupações sobre os destinos da entidade.

Dois são os candidatos. Alberto de Paula Machado, advogado trabalhista e ex-presidente daOAB-PR, passa incólume pelos filtros existentes. É advogado com larga folha de serviços prestados à Ordem. Não é o que acontece com o outro candidato, Marcus Vinicius Furtado Coelho, do Piauí, especialista na área eleitoral. Sobre ele se diz ter elos fortes com setores da área política, como da família Sarney. Foi advogado de Roseana Sarney, levando-a a ocupar o cargo de governadora do Maranhão, o que é compreensível diante da sua atividade profissional. Mas suas ligações causam o temor de que a OAB passe a sofrer influência político-partidária, o que seria um desastre.

Furtado Coelho tem contra si, ainda, ação por improbidade administrativa movida pelo MP do Piauí. Ele é acusado de ter firmado contrato com o município de Antônio Almeida (PI) sem prestar os serviços a que estaria obrigado, a não ser em favor da pessoa do prefeito, na área eleitoral. Trata-se de atitude incompatível com a de quem deverá se apresentar como porta-voz de uma das mais diletas instituições deste país, caso seja eleito.

O jornal O Estado de S.Paulo de sexta-feira registrou, ainda, o afastamento, pelo CNJ, de um juiz de Teresina investigado por deferir sentenças milionárias em causas que, coincidentemente, tinham Furtado Coelho como advogado de uma das partes. São notícias preocupantes e que deveriam ser muito bem apuradas e analisadas por quem decidirá os destinos da OAB. A ausência de debate entre os candidatos, justamente pela recusa de Furtado Coelho, também não colabora para elucidar os fatos. Essa teria sido uma boa ocasião para esclarecer a que vieram os candidatos, suas ideias, e para colocar uma luz sobre o que se tem noticiado.

Não se pode deixar de traçar um paralelo com o que ocorre no Senado onde Renan Calheiros insiste em ser candidato, ainda que fulminado por um passado conturbado e na Câmara dos Deputados, onde Henrique Alves enfrenta acusações de improbidade administrativa. Ao que parece, isso não tem influído no espírito dos seus respectivos colégios eleitorais, o que não é um bom sinal para a sociedade brasileira. Espera-se que, na quinta-feira, a OAB não se deixe contaminar por esse mesmo espírito de descaso com a moralidade.

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Japão e o mundo numa tragédia histórica

O Globo – Editorial – 18/03/2011  O conjunto de um terremoto jamais registrado no país, um maremoto de dimensões bíblicas e um grave acidente nuclear faz do Japão cenário para além da ficção científica e dos roteiros do cinema-catástrofe. Chocado, o mundo literalmente assiste, pelos meios digitais de informações instantâneas, ao desenrolar de um dos maiores dramas em várias gerações, com desdobramentos globais.
O impacto de proporções planetárias não se dá apenas pelo risco de partículas radioativas serem levadas pelo vento do complexo de usinas de Fukushima, Norte da ilha, para outras regiões, mas também pelos reflexos em sistemas produtivos mundo afora. Já era possível encontrar, ontem, na internet, simulações da provável rota de nuvens radioativas em direção aos Estados Unidos e Canadá, enquanto circulavam informações sobre o temor crescente de russos e chineses. E já começaram a ricochetear impactos em diversos complexos produtivos causados pela abrupta ruptura de várias cadeias de suprimento de componentes abastecidas por fábricas japonesas.
Num estágio avançado de globalização, a paralisação de fábricas, e a desativação, total ou parcial, não se sabe por quanto tempo, de aeroportos e portos rompem fluxos de remessas de insumos e componentes de toda ordem. Há vários exemplos de linhas de montagens que já se preparam para enfrentar dificuldades. Há extensas linhas de produtos eletrônicos – tablets, como o iPad, smartphones, televisores, monitores de computadores em geral, por exemplo – dependentes de fábricas japonesas. Na indústria automobilística, há casos insuspeitados. Dois deles: a transmissão do Volt, carro elétrico da GM, é produzida no Japão, assim como caixas de câmbio de modelos BMW. O problema se agrava diante do método, criado no Japão e exportado para o mundo, de se manter o mínimo de componentes e insumos em estoque, como medida de economia.
Por sobre tudo paira o drama humano, numa tragédia com ainda 9 mil desaparecidos, 5.200 mortos, número que pode chegar a 15 mil, de acordo com informação de ontem do site do jornal inglês “Guardian”.
Para tornar ainda mais complexo o quadro, falta uma liderança política firme no Japão para conduzir as buscas, a luta para domar reatores e gerenciar a reconstrução. Naoto Kan, primeiro-ministro, é o quarto a assumir o cargo em quatro anos. Tem baixa popularidade, é do Partido Democrático, sucessor do Partido LIberal Democrata, que se manteve 50 anos no poder. Kan, por óbvio, não tem a máquina burocrática nas mãos.
A cultura japonesa não favorece a transparência. Há falta de informações claras e completas – tanto que o alarme nuclear tem sido acionado por autoridades americanas, não japonesas. A gravidade da situação levou o imperador Akihito a uma das raras aparições na TV, para confortar e estimular o povo. Nada além. Uma nação conhecida pela disciplina e a forma estoica com que enfrenta dramas naturais ou não – vide Hiroshima e Nagasaki – encontra-se em teste e merece toda a solidariedade.
Quem sabe desta crise histórica a comunidade internacional não retira uma lição de humildade e unidade diante de assuntos impossíveis de serem manejados de forma isolada? Como a própria energia nuclear, agora em xeque, e uma das peças na montagem da solução global para o aquecimento do clima.

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