Opinião



O grande eleitor

Alexandre Garcia

No princípio era o caos – a frase se aplica ao gênesis do governo Temer. Quando a presidente saiu, deixou inflação acima de 10%, 13 milhões de desempregados, recessão, descrença, falta de disposição de investir, só o agronegócio sustentando o país, com o comércio e a indústria perdendo produção e vendas. E em menos de ano e meio, o Brasil voltou a crescer, faz seis meses que cai o desemprego, aumentou o poder aquisitivo do assalariado, a inflação está em 2,5% ao ano, o superávit comercial vai bater recorde de 70 bilhões de dólares, os índices de confiança do consumidor, do comerciante e do industrial, na Fundação Getúlio Vargas estão em alta, a taxa básica de juros está reduzida a 7,5%, deixando os juros reais em 3% ao ano e, embora com tanta insegurança pública, os investimentos estrangeiros nos últimos 12 meses chegaram a 83 bilhões de dólares.

Meus amigos se perguntam “Que governo é esse?”. Eu perguntaria, como Francelino Pereira, que país é este? Paradoxal, pois sempre que a economia vai bem, o governo vai bem na opinião pública. Mas este praticamente, não tem popularidade alguma. Está com míseros 3% de aprovação – e menos de 3% de inflação e 3% de juros reais. Paradoxal. Ora, dirão que é a administração de Meirelles, o Ministro da Fazenda e de Ilajn Golfeinj, do Banco Central, mais o novo rumo que Pedro Parente dá à maior estatal, a Petrobrás – que já foi antro da bandidagem apurada pela Lava-jato. Mas quem segura essa barra é o Presidente, chefe deles.

Não ter aprovação popular é vantagem, porque faz o que é preciso, sem preocupação de perder o que não tem. O presidente Lula, quando recebeu de seu Ministro da Fazenda Palocci o projeto da necessária reforma da Previdência, em 2006, desistiu por ameaça das centrais sindicais de se mobilizarem contra o governo. Com medo de perder popularidade, Lula desistiu da reforma e o déficit se agravou geometricamente.

O ex-presidente disse agora, em sua campanha para 2018, que Temer gastou 14 bilhões para comprar a derrubada das denúncias de Janot. Boa parte da população acredita nisso, porque não sabe que emendas de parlamentares ao orçamento de 2017 têm que ser liberadas no mesmo ano. Nada que não estivesse no orçamento. A propósito, o Estadão mostra o cálculo do professor da FGV Carlos Pereira sobre os gastos políticos do governo com ministérios para partidos e emendas orçamentárias. Num índice de zero a 100 de custo da governança, Temer tem 15, Dilma chegou a 88 e Lula a 95. Conhecedor do Legislativo, Temer governa com o Congresso e vem obtendo resultados. Ano que vem, prevê o Banco Mundial, vai aumentar a onda de crescimento que já começou nas economias avançadas e nas emergentes. Isso reforça o impulso brasileiro. A previsão para o Brasil é de, no mínimo , 3% a mais no PIB, ano que vem. O Grande Eleitor de 2018 pode ser o crescimento e o emprego.

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O futuro em São Paulo, na visão de Geraldo Alckmin

* Geraldo Alckmin

Em relatório recente sobre mudança tecnológica e emprego, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) cita a estimativa de que 65% das crianças que ingressam hoje na escola vão trabalhar, no futuro, em profissões que ainda não existem.

Vivemos o tempo da mudança e da velocidade da mudança, e os estudiosos já têm nome para ele: Quarta Revolução Industrial. Ela funde métodos de produção com as tecnologias de informação e conecta os domínios físicos, digitais e biológicos. Cria, assim, interação direta entre pessoas, equipamentos, sistemas e produtos.

Para tratar dos impactos dessa revolução inédita em profundidade e amplitude, o Fórum Econômico Mundial escolheu o Estado de São Paulo para sediar sua 13ª edição latino-americana, que acontecerá na capital paulista nos dias 13, 14 e 15 de março de 2018.

Em janeiro, em preparação para o evento, eu irei a Davos para a reunião anual de líderes que tratam de temas de interesse global, em especial os econômicos.

A escolha do WEF é motivo de orgulho para nós. Síntese das potencialidades do Brasil, o Estado de São Paulo é o maior centro econômico e industrial do continente e tem também o maior parque tecnológico, algumas das melhores universidades da América Latina e institutos de pesquisa reconhecidos por contribuições científicas nas mais diversas áreas de conhecimento.

Aqui, temas como inteligência artificial, internet das coisas, robótica, nanotecnologia, engenharia genética, veículos autônomos, aplicações das impressoras 3D e muitos outros que já se anunciam como realidade serão apresentados e discutidos pela comunidade científica, líderes políticos e representantes de organizações internacionais.

Para o professor Klaus Schwab, engenheiro e economista alemão que fundou e preside o Fórum Econômico Mundial, as mudanças trazidas pela Quarta Revolução Industrial são tão profundas que, na história da humanidade, nunca houve um momento tão potencialmente promissor ou perigoso.

No livro “A Quarta Revolução Industrial”, ele lembra que 17% da população do planeta (1,3 bilhão de pessoas) ainda não experimentou nem mesmo a segunda Revolução Industrial, porque não tem acesso à eletricidade.

Do mesmo modo, metade da população mundial (4 bilhões) ainda desconhece o potencial da terceira, digital, porque não tem acesso à internet.

Para a humanidade se beneficiar de fato da revolução em curso, diz Schwab, a qualidade de seus líderes será mais decisiva agora do que em qualquer outra época histórica.

Não é possível só assistir a mudanças de tal envergadura: precisamos nos preparar para elas, especialmente para o seu impacto sobre os modelos de produção e emprego.

Desigualdade e caminhos para o desenvolvimento serão temas fundamentais da próxima edição latino-americana do Fórum Econômico Mundial.

Embora as novas tecnologias permitam produzir mais com menos gente, a economia moderna ainda não criou o consumo sem salário.

Habituar-nos a essas novas nomenclaturas, conhecer a fundo seu real significado, suas possibilidades e as mudanças que elas sinalizam é imperativo para que o desenho de novas relações sociais em todos os âmbitos seja traçado.

A discussão também não pode prescindir do diálogo com a sociedade. São Paulo e o Brasil receberão o Fórum Econômico Mundial em 2018 com a certeza de que, para que as pessoas se beneficiem de fato do mundo novo criado pela interação tecnológica, o caminho é feito de democracia, crescimento e emprego; de responsabilidade fiscal, investimento maciço em educação de ponta e execução de políticas públicas competentes, inovadoras, capazes de estimular o desenvolvimento em todos os níveis.

* Geraldo Alckmin é governador (PSDB) do Estado de São Paulo.

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Dos fins e dos meios

No combate ao crime, a legalidade dos meios é tão importante quanto a nobreza dos fins

Editorial, Estadão

O diligente combate à corrupção em todas as suas fases, da investigação policial até a execução das eventuais penas impostas aos condenados, deve ser uma das preocupações de todos os cidadãos imbuídos de boa-fé e espírito público. É a intolerância diante da corrupção, financeira e moral, praticada em todas as esferas da vida social, pública e privada, que há de levar o País à superação de uma de suas mais renitentes mazelas.

No entanto, em nome desse futuro longamente almejado pela Nação, excessos, ilegalidades e usurpação de papéis institucionais – cuidadosamente concebidos para a harmonia das relações entre sociedade e Estado – têm sido cometidos como se estivessem autorizados pelo respaldo popular e pela justeza da causa. No combate ao crime, nunca é demais lembrar, a legalidade dos meios é tão importante quanto a nobreza dos fins.

Ao se abrir espaço para criativas interpretações da lei em nome de uma suposta “justiça”, pavimenta-se o tortuoso caminho que pode nos levar a um estado de arbítrio em que uns poucos agentes públicos, autoungidos por um dom quase messiânico, têm o poder de decidir o que é melhor para a sociedade e, assim, ditar quais os mecanismos que são mais adequados para atingir os resultados pretendidos.

Um sinal evidente da ameaça à democracia representada por essa sanha saneadora que se impõe aos limites da lei é a distorção, feita por alguns membros do Ministério Público (MP), da natureza do instituto da colaboração premiada. O que deveria servir meramente como base para o início de uma investigação criminal tem sido convertido em sentença condenatória com uma frequência alarmante. E, o que é pior, uma sentença condenatória da qual o “acusado”, ou seja, o delatado, não pode recorrer por não contar com os instrumentos do contraditório previstos no processo judicial regular.

Vale dizer, hoje vigora no País um princípio segundo o qual, uma vez delatado, um fato supostamente criminoso é imediatamente tomado como verdadeiro e seu agente considerado culpado. Qualquer um que ouse questionar a prática é logo tido como leniente com a corrupção.

Em documento enviado ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro, a Polícia Federal (PF) aborda importantes questões em relação aos métodos pouco ortodoxos do Ministério Público na condução das chamadas delações premiadas. A manifestação dos policiais federais, incluindo o diretor da PF, Leandro Daiello, foi encaminhada ao STF nos autos da ação que tramita na Corte para decidir sobre a constitucionalidade dos acordos de colaboração firmados pela Polícia Federal.

Em um dos trechos do documento de 39 páginas, os delegados federais sustentam que “a colaboração é apenas uma técnica operacional destinada a acelerar os caminhos da investigação policial”, enquanto o uso do instituto pelo MP é um mero “atalho entre o fato e a condenação”.

A despeito das eventuais disputas pelo protagonismo das ações públicas no combate à corrupção, acentuadas em virtude da popularidade que advém do sucesso da Operação Lava Jato, merecem atenção as ponderações feitas pela PF. De fato, a colaboração premiada deve servir tão somente como um catalisador da investigação criminal, não como um cabal atestado de culpa sem o devido processo legal.

Da forma como vêm atuando alguns membros do MP, o equilíbrio que deve prevalecer na condução de um processo judicial fica gravemente prejudicado na medida em que uma única instituição – o próprio Ministério Público – detém todos os papéis exercidos na persecução criminal. Ou seja, a instituição que deveria ser parte do processo também investiga, acusa e às vezes até mesmo exerce a função judicante, estabelecendo penas e multas nos acordos de colaboração por ela celebrados.

O Brasil não será um país melhor se, vencida a corrupção que há tanto nos aflige, deixar em ruínas os pilares que sustentam o Estado Democrático de Direito consagrados pela Constituição. Terá sido um preço alto demais.

Editorial do Estadão

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Dom Anuar palestra na Universidade Sofia, em Tóquio


O Arcebispo de Maringá, dom Anuar Battisti, ministrou palestra e presidiu a santa missa nesta sexta-feira (20) na Universidade Sofia, em Tóquio. Dom Anuar acompanha um grupo de peregrinos maringaenses ao Japão. O tema da palestra foi “situação social, política e religiosa de Maringá e do Brasil”.
Padre Hélio Takemi Sakamoto, da pastoral Nipo-Brasileira, também acompanha o grupo maringaense.

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Para uma saúde eficiente

* RICARDO BARROS

Cuidar da saúde de todos os cidadãos brasileiros é uma tarefa que exige compromisso com os avanços alcançados até aqui, mas, principalmente, coragem para fazer as mudanças necessárias para a oferta de serviços de mais qualidade e no tempo adequado.

Neste governo, estabelecemos como meta tornar o atendimento de saúde mais eficiente, mais humano e acessível aos que mais precisam. Faremos isso melhorando a gestão e gastando melhor cada real aplicado na saúde pública.

O presidente Michel Temer já demonstrou que esta é prioridade do governo ao preservar integralmente o orçamento e garantir recursos crescentes: R$10 bilhões a mais neste ano. Precisamos dar retorno ao cidadão de todo esse investimento.

Também economizamos na gestão do ministério. Até o momento, já poupamos R$ 3,9 bilhões com revisão de contratos e negociação com fornecedores. Esses recursos foram revertidos em ações que impactam diretamente a população.

Foram empregados no custeio de serviços que estavam prontos nos municípios, alguns funcionando sem contrapartida federal. Em mais medicamentos, na renovação de 57% da frota do Samu, no credenciamento de 162 UPAs e no custeio de mais 6.000 serviços hospitalares. Habilitamos mais 3.000 equipes do Saúde da Família, depois de dois anos com pedidos parados.

Buscamos também conhecer os principais entraves e construir soluções conjuntamente.

Percorrí quase todos os Estados ouvindo gestores, entidades e trabalhadores. Colocamos toda nova medida para pactuação na Comissão Intergestores Tripartite (CIT), garantindo, assim, o debate com Estados e municípios para o planejamento das políticas. São os gestores locais os responsáveis pela saúde da população lá na ponta.

Conseguimos avançar no monitoramento do Aedes aegypti, que passou a ser obrigatório para todos os municípios; no combate ao desperdício de vacinas (agora, no fim das campanhas, vamos oferecer as doses a todos).

Criamos fila única para cirurgias e exames, para dar agilidade e transparência ao atendimento; e faremos o registro de todas as compras do SUS, o que vai aumentar a concorrência e reduzir preços.

Avançamos na informatização do SUS, talvez a mais importante mudança. Com os dados online, teremos um retrato fiel do sistema, do atendimento médico, do tempo dos exames, dos resultados das consultas, do acesso a medicamentos. Será nosso salto de qualidade.

Começamos pela implantação de prontuário eletrônico e biometria em todas as unidades básicas de saúde, com 50% de custeio federal.

Também está em andamento sistema para monitoramento dos estoques de medicamentos, dando segurança quanto à oferta e maior controle da validade.

Precisamos ter a mesma coragem na saúde suplementar e oferecer alternativas aos que perderam seus planos de saúde e querem retornar a esse benefício. Isso não muda nosso compromisso com o SUS, ao qual todo cidadão tem direito.

Mas, sem dúvida, a maior cobertura dos planos de saúde impacta positivamente o atendimento dos que dependem exclusivamente da rede pública. As propostas de planos mais acessíveis foram aprovadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, responsável pelo setor, exatamente para que se chegue ao melhor modelo possível, sem reduzir direitos dos usuários.

Acredito num SUS forte, que necessita da união dos entes federativos, gestores, trabalhadores, entidades e legisladores. Propomos sempre um diálogo como ponto de partida, o que nos aproxima das necessidades da população. Perseguimos a melhoria dos serviços públicos de saúde oferecidos ao cidadão. Tenho convicção de que, ao fim de 2018, entregaremos uma saúde melhor aos brasileiros, com mais serviços, mais qualidade e um atendimento mais eficiente.

* RICARDO BARROS (PP-PR) é ministro da saúde

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Opinião: Ideologia de gênero

* Dom Anuar Battisti

Todos os dias recebo dezenas de questionamentos sobre o que vem acontecendo nas escolas sobre a “ideologia de gênero”. Um assunto delicado. É preciso esclarecer que nós, como Igreja, amamos todos os seres humanos. Antes de falar sobre qualquer coisa, precisamos dizer e praticar o que Jesus nos ensinou. Amar. No entanto, há uma imensa confusão sendo difundida, também nas escolas, que é a imposição da “ideologia de gênero”. Uma coisa é respeitar; outra coisa é querer impor uma “proposta” de sexualidade para crianças, nas escolas.

O papa Francisco fez diversas e claras advertências sobre a ideologia de gênero, uma corrente que considera que o sexo não é uma realidade biológica, mas uma construção sociocultural que diversos governos tentam impor através da educação das crianças e jovens. A seguir, 5 advertências claras que o Santo Padre fez a respeito deste tema polêmico:

  1. É uma colonização ideológica: No final de julho de 2016 dirigindo-se aos bispos da Polônia, o Pontífice afirmou que “na Europa, na América, na América Latina, na África, em alguns países da Ásia, há verdadeiras colonizações ideológicas. E uma destas, digo claramente com nome e sobrenome – é a ideologia de gênero! Hoje ensinam as crianças – as crianças! –, que estão na escola: que cada um pode escolher o seu sexo. E por que ensinam isto? Porque os livros são das pessoas e instituições que lhes dão dinheiro. São as colonizações ideológicas, sustentadas também por países muito influentes. Isto é terrível”.
  2. Esvazia o fundamento antropológico da família. Na exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, sobre o amor na família, publicada em março de 2016, o Santo Padre explica no parágrafo 56 do documento, que a ideologia de gênero “prevê uma sociedade sem diferenças de sexo, e esvazia a base antropológica da família”. Além disso, procura uma identidade humana que pode se determinar de forma individual e ser trocada no tempo. “Esta ideologia leva a projetos educativos e diretrizes legislativas que promovem uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher”.
  3. É um equívoco da mente humana. Em março de 2015, o papa Francisco se referiu às “colonizações ideológicas” que afetam seriamente a família, pois são “modalidades e propostas que existem na Europa e chegam também do outro lado do Oceano. E há também esse erro da mente humana que é a teoria de gênero, que cria tanta confusão”.
  4. É um passo atrás. Em abril de 2015, o papa ofereceu uma catequese sobre o ser humano criado por Deus como homem e mulher, na qual disse: “A cultura moderna e contemporânea abriu novos espaços, novas liberdades e novas profundidades para o enriquecimento da compreensão desta diferença. Mas introduziu também muitas dúvidas e muito ceticismo. Por exemplo, pergunto-me se a chamada teoria do gênero não seja expressão de uma frustração e de uma resignação, que visa a cancelar a diferença sexual porque não sabe mais como lidar com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. A remoção da diferença, na verdade, é o problema, não a soluç&atil de;o”.
  5. Doutrinar crianças com ideologia de gênero é uma maldade. Na tradicional coletiva de imprensa que oferece na volta das suas viagens internacionais, especificamente no voo de Azerbaijão a Roma, o papa assinalou que “as pessoas devem ser acompanhadas como as acompanha Jesus. Quando uma pessoa tem essa condição e chega diante de Jesus, o Senhor não lhe dirá: Vai embora porque você é homossexual! Não! Eu me referi sobre a maldade que se faz hoje com a doutrinação da teoria de gênero”.

Está na hora dos pais abrirem os olhos e conhecerem o que as escolas públicas e particulares estão ensinando. O pior de tudo são os textos que o MEC já está enviando para a educação em todos os níveis, carregados desta míope visão do ser humano. Respeitamos a opção pessoal de cada um, mas não se admite impor desde a infância uma ideologia que contradiz a natureza humana.

A ideologia de gênero é perigosa e maldosa.  A Igreja ama e acolhe todo ser humano, mas jamais pode compactuar com uma ideologia que quer levar uma mentira tão absurda como esta para as salas de aula.

* Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá-PR

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Cotas

Creio que esse é um assunto polêmico, com muitas ideias contra, a favor e em outra direção. Acho que este estado paternalista e desigual que foi rascunhado no Brasil nos últimos anos precisa ser amplamente revisto. O que parece um benefício se torna apenas um atalho sem saída. Ajudar e ser solidário sempre, mas cada um precisa, dentro das suas possibilidades, lutar pelos sonhos e ideais. Reconheço, neste caso, que as soluções são muitas e estão em aberto.

Que quiser participar do grupo Ideias&Fatos no whatsapp é só clicar AQUI

 

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Opinião: “Um país justicialesco”

Ives Granda Martins

“O Brasil vive um momento em que qualquer delação sem provas, de pessoas presas, temporária ou preventivamente para serem obrigadas a fazer colaboração premiada, é suficiente para conformar “juízo definitivo” da sociedade sobre a culpabilidade do acusado, tornando difícil o exercício do sagrado direito de defesa, próprio de Estados democráticos de Direito”. Trecho do artigo “Um país justicialesco”, de Ives Granda da Silva Martins, publicado nesta sexta-feira, 22, na Folha de S. Paulo.

Um país ‘justicialesco’

* Ives Granda da Silva Martins

À evidência, todos os brasileiros corretos -e são a maioria-são contra a corrupção. A expressão popular “corrupção” envolve variada gama de crimes, entre os quais concussão, prevaricação, a corrupção propriamente dita etc.

E, na luta para extirpá-la, crimes são praticados pelo poder público de desconhecimento do público, como o vazamento de informações por quem deveria guardar sigilo, crime punido pelo Código Penal, artigo 325.

Por outro lado, o Ministério Público não é um Poder, mas sim função essencial à administração da Justiça, no mesmo nível da advocacia (artigos 127 a 135 da Constituição Federal) -razão pela qual, a meu ver, por não ser Polícia Judiciária, não poderiam, seus membros, presidir inquéritos policiais, nos termos do artigo 144 § 4º da CF, que torna exclusiva tal função aos delegados de carreira.

Acresce-se que boas notícias não vendem jornais. Mark Twain dizia ser função da imprensa separar o joio do trigo e publicar o joio, de tal maneira que, na situação verificada nos últimos 13 anos, de assalto às contas públicas, a imprensa passou a ser verdadeira orientadora da opinião pública, tornando a sociedade brasileira ávida de punições.

Neste quadro, qualquer delação sem provas, de pessoas presas, temporária ou preventivamente para serem obrigadas a fazer colaboração premiada, é suficiente para conformar “juízo definitivo” da sociedade sobre a culpabilidade do acusado, tornando difícil o exercício do sagrado direito de defesa, próprio de Estados democráticos de Direito.

Com a exposição que a TV Justiça trouxe aos ministros do Supremo Tribunal Federal -conheço-os todos e os admiro-, estes passaram, todavia, a um protagonismo inaceitável e a promover invasão de competências parlamentares, apesar de proibidos de assim atuar, até mesmo nas inconstitucionais omissões legislativas, por força do artigo 103 § 2º da CF.

Tal ativismo judicial tem gerado insegurança jurídica, pois, embora não eleitos pelo povo, os magistrados têm legislado, como fizeram ao não respeitarem o artigo 53 § 3º da CF, nas prisões de Delcídio do Amaral e Eduardo Cunha; ao tornarem o acusado passível de prisão, nas decisões de segunda instância, contra o inciso LVII do artigo 5º da Lei Suprema; ao criarem uma terceira hipótese de aborto impunível, ou seja, o eugênico, no caso dos anencéfalos (artigo 128 da CF); ao criarem uma outra hipótese de união estável constitucional, no caso de pares do mesmo sexo, contra o artigo 226 §1º a 5º da Carta Suprema; ao permitirem que candidato derrotado assumisse, sem eleições diretas ou indiretas, nos casos de governadores e vices afastados (artigo 81 da CF), e em inúmeras outras hipóteses.

Vivemos, pois, em um estado “gelatinoso” de direito, em que todos patinam e em que uma mera alegação sem prova material pode macular a imagem de qualquer pessoa, em dura violação ao inciso X do artigo 5º do Texto Supremo.

E, neste momento de incertezas, em que os Poderes não se entendem e a sociedade não avança em reformas necessárias, pois todos temem que qualquer ação, nesta ou naquela linha, venha a ser suspeita, necessário se faz o retorno à independência e harmonia dos Poderes, sem invasões e gestos cinematográficos, para que o país possa sair da crise.

Neste sentido, coordenado por Marcos da Costa e por mim, com a colaboração de alguns dos mais expressivos penalistas e constitucionalistas do país, estamos lançando, para o 23º Congresso Nacional da OAB, em São Paulo, o livro intitulado “A importância do direito de defesa para a democracia e a cidadania”, pois entendemos que só a volta às competências originais dos Poderes e a valorização das instituições permitirão dar efetividade ao direito de defesa -inexistente nas ditaduras-, verdadeiro alicerce do Estado democrático de Direito.

* Ives Granda da Silva Martins, advogado, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra

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Construir cidadania num país de privilégios

* Maria Alice Setubal

Sim, somos uma nação que naturalizou as desigualdades.
Essa é uma questão que há tempos me intriga, pois me parece óbvio que, para além do sentido de justiça e humanidade, desigualdade em excesso corrói o tecido social, a coesão entre indivíduos e espaço público, abre frentes para o crime organizado, compromete o crescimento sustentável e o futuro do país.
Todos os dias, somos bombardeados por dados, estudos e pesquisas que apontam para as diversas facetas das nossas enormes iniquidades: renda, educação, saúde, saneamento, segurança, moradia.
Em estudos e rankings internacionais, nosso posicionamento é sempre entre os últimos países, mesmo dentro do continente latino-americano. Estamos também entre os países com mais baixo nível de confiança nas pessoas e instituições, o que pode ser interpretado como uma consequência das desigualdades em excesso.
Para contornar essa situação, a opção das elites econômicas, políticas, intelectuais, artísticas e esportivas é assegurar os serviços privados básicos para nosso bem estar e, muitas vezes, morar encastelados em condomínios fechados.
Cenário que, como descreve o psicanalista Christian Dunker, nos aprisiona e fortalece o medo do desconhecido, tornando aquele que é diferente uma ameaça constante.
A valorização do indivíduo e a convivência exclusiva entre iguais têm acarretado o aumento da intolerância e dos preconceitos, amplamente difundidos nas redes sociais.
Diversos estudiosos têm apontado para o passado escravagista e patrimonialista como marcas ainda persistentes das nossas desigualdades.
Nesse sentido, somos ainda um país que valoriza em demasia as aparências, gosta das hierarquias e sempre consegue um jeitinho de fazer leis com diversas exceções e privilégios para grupos de interesse.
O antropólogo Roberto da Matta destaca que a igualdade é vivida como uma ofensa o Brasil, pois o anonimato associado à cidadania nos perturba; não queremos ser igual a todo mundo.
Embora nossa busca por mais equidade tenha começado tarde, é inegável que tivemos grandes avanços nos últimos 20 anos, com a expansão do acesso à educação, o aumento do salário mínimo, a implementação de programas de distribuição de renda, dentre outros.
Ao lado das políticas públicas, o avanço das tecnologias tornou possível o reconhecimento de inúmeras vozes antes excluídas do debate, especialmente entre os jovens que formaram coletivos e movimentos, em luta por microrrevoluções.
A grita geral na defesa da Amazônia ou os enfrentamentos das mulheres às questões da violência parecem ser sinais dessa insatisfação e da potência de grupos que querem ser ouvidos e não aceitam viver em um estado de paralisia até as eleições de 2018.
Diante de todo esse cenário, o que fazer?
A tessitura de vínculos de confiança que tornem possível a construção de diálogos e pontes entre os diferentes grupos que ocupam os mais diversos lugares na sociedade, cenário fundamental para a saída da crise, exigirá que nós, pertencentes às diferentes elites, possamos escutar, reconhecer o outro como igual no debate e construir, juntos, novas bases de diálogo.
O avanço no enfrentamento das desigualdades exigirá não apenas uma reflexão frente a nosso posicionamento como cidadãos, mas também o amadurecimento de questões centrais na sociedade contemporânea hoje, como a tributação progressiva, a universalização dos direitos para além da criação de políticas universais e a adoção da equidade e sustentabilidade como foco de todas as políticas.
Para que essa agenda possa disputar espaço nas próximas eleições, é preciso começarmos a nos organizar já, de modo que as conversas com familiares e amigos ou os debates em instituições e movimentos avancem para além do pessimismo e da desesperança, na direção de propostas concretas e elaboradas com a participação de diferentes grupos e setores da sociedade.

* Maria Alice Setubal, a Neca, é socióloga e educadora. Doutora em psicologia da educação, preside os conselhos da Fundação Tide Setubal e do GIFE. Fundadora e membro do conselho do Cenpec. Pesquisa educação, desigualdades e territórios vulneráveis

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