Psicóloga Djeyme



As mulheres e suas esperas

Neste dia 8 de março convido vocês a visitarem o blog da Psicóloga Djeyme, que escreve este texto.

“Como compartilhamos nossas vivências, expectativas e compromissos? Como nos doamos para a família, casamento, filhos e vida profissional? Qual a nossa parte nestas divisões ou são elas que nos fazem inteiras?”

As mulheres e suas esperas. 

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O grito de Carnaval

A expressão “o Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval” é muito comum. Há quem aproveite o conceito e quem o ignore, ciente da relevância do agora. Mas existem hoje questões preocupantes que o ritmo desta festa popular vem embalando.
Vamos voltar o olhar para a sua história, no período colonial. Lá, o sentido do grito de Carnaval era por liberdade. Os escravos saiam às ruas ao passo do Entrudo, uma manifestação carnavalesca, acompanhada de algazarra, movimentos tidos como violentos (jogavam farinha, bolinhas e água de cheiro), rostos pintados, vigiados e recriminados por curiosos olhares vindos das janelas e frestas dos aposentos das famílias de boa reputação.
Saltando ainda no ritmo, apenas mudando o período, nestes últimos 30, 40 anos, muita coisa mudou, desde as músicas à ousadia das fantasias. Fui uma criança que esperava pelo Carnaval, me vestia de heroína, participava de concursos, quando jovem montava blocos e assim fortalecia meus laços de amizade, com alegria sadia. Cidade pequena, tempo cheio de romantismo e uma liberdade respeitosa.
Hoje, em pleno século XXI, novamente o grito mudou. Acolho em meu trabalho pais, jovens e adultos com medo do Carnaval. Hoje o grito envolve também receio e preocupação.
Vemos, por outro lado, o ritmo carnavalesco se conscientizando e trazendo em algumas avenidas, bandeiras que levantam questões históricas, políticas e sociais importantes. Este ano mesmo, a escola Unidos do Viradouro trará no seu enredo ditos sobre a insanidade mental.
Já as organizações públicas e algumas entidades não governamentais vêm se preparando com Programas de Redução de Danos, como é o caso da campanha #RolêSemVacilo, que distribuirá cartilhas com informações sobre as seis drogas mais consumidas durante o Carnaval paulistano.
Compreender o fenômeno do Carnaval, atualmente, vai além de assistir o desenho da She-Ra como fiz um dia com minha mãe para reproduzir minha fantasia. Envolve questões de saúde pública.
Faz sentido um olhar atento para este tempo cultural, levantado por questões que se “liberam” e se alarmam no Carnaval, com consequências por todo o ano (e às vezes por toda uma vida): o uso das drogas, o abuso do álcool, a violação da moral, o sexo por vezes irresponsável e descompromissado, os beijos numéricos possivelmente movidos por um “Bailado de Máscaras”.
Mas ainda sobrevivem nas ruas e avenidas as famílias, as crianças vestidas de heróis, os adolescentes ponderados e o respeito à cultura. Sabemos que um bom grito é aquele dado com consciência e diversão, que envolve bom humor e princípios, o que vira história boa a ser contada. Portanto pense e repense sobre o seu grito de carnaval hoje.

Psicóloga Djeyme

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Antideprê, a busca intolerável ao fim do desconforto e sofrimento

Quanto de cuidado tenho ao tocar sobre o tema sofrimento, seja ele advindo de doenças, traumas ou crises. Conheço muito bem o assunto, pois lido com ele todos os dias, na minha rotina de vida e trabalho.
Muito tem me angustiado escrever o que leio e releio todos os dias. Lamento o quanto vulgarizamos tais discussões e o quanto criamos este hábito, o da crítica meramente feita sem sentido, estudo e compreensão.
A filosofia tem me norteado nos últimos 20 anos da minha existência como forma de compreensão sobre minha vida e minhas escolhas. Também tem me orientando e fundamentando meu trabalho como psicóloga. Atualmente, grandes filósofos e historiadores do nosso país vêm agregando valores ao nosso cotidiano, nos expondo e nos fomentando à reflexão e à crítica. Mas foi Zygmunt Bauman que me encorajou na tentativa de organizar este pensar.
Relendo sua entrevista à IstoÉ (edição 2507, de 5 de janeiro) o sociólogo e filósofo polonês deslindou o crescimento da utilização de antidepressivos, consumo de medicamentos que, segundo ele, é um dos sintomas na nossa crescente intolerância ao sofrimento. “Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, há uma solução. E que esta solução pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente não é tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar. Não foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, além de qualquer dúvida razoável, que a nossa induzida intolerância à dor é uma fonte inesgotável de lucros comerciais. Por essa razão, podemos esperar que essa nossa intolerância se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada”.
O problema não está na tentativa em cessar tal dor, afinal ninguém ou poucos gostam de sofrer, mas sim na ignorância em acreditar que o sofrimento pode ser “inocentando” pela felicidade.
Estamos preguiçosos, ouso dizer, ligeiramente “malandros” quanto à nossa capacidade e habilidade no enfrentamento da dor. Prefiro não discorrer sobre suas causas. Pretendo apenas provocar nossa mente à compreensão da ignorância sobre o sofrimento, já que dele nossa vida é inerente.
Desconsideramos que a angústia, a dor, o sofrimento e a tristeza são sinônimos de existência. Nos tapeamos com a compra barata da felicidade efêmera, perdemos o sentido do que nos dá sentido, vivemos em uma “modernidade líquida”, conceito também desenvolvido pelo autor, cujo sentido fragiliza e escoa, não nos permitindo a oportunidade de “solidificar” ou perdurar. Vivemos insanamente nos entupindo e buscando novas doses controladoras de sofrimento.

Psicóloga Djeyme

Artigo orginalmente publicado no site psicologadjeyme.com.br

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