Mês: dezembro 2007



FAMILIA HUMANA, COMUNIDADE DE PAZ

 Dia 1º. de janeiro celebramos a festa da Mãe de Deus e o Dia Mundial da Paz. Como todos os anos, o Papa na sua mensagem oferece a toda a humanidade uma reflexão recordando algumas bases para a construção da paz. Este ano, Bento XVI escolheu a “Família humana” ou seja a comunhão entre um homem e uma mulher cultivada no amor desinteressado gerando vida e relacionamentos solidários. A Família humana constitui o “Lugar privilegiado da humanização da pessoa e da sociedade, berço da vida e do amor. Por isso, a família é justamente designada como a primeira sociedade natural, uma instituição divina colocada como fundamento da vida das pessoas, como protótipo do ordenamento social”(Mensagem n.2).
 Numa vida de família “sã”, diz o Papa, encontramos alguns elementos fundamentais para a paz: “A justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade dos pais, o serviço carinhoso aos mais fracos, idosos e doentes, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz. Devido a isso, a comunidade humana não pode prescindir do serviço que a família realiza”. O Papa continua dizendo que a linguagem familiar usa um vocabulário de paz. “Na inflação das linguagens, a sociedade não pode perder a referência àquela “gramática” que cada criança aprende dos gestos e olhares da mãe e do pai, antes mesmo das suas palavras”(Mensagem n.3). 
 
“Deste modo quem, mesmo inconscientemente, combate o instituto familiar, debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efetivamente a principal “agência” de paz. Tudo o que contribui para enfraquecer a família fundada sobre o matrimônio de um homem e de uma mulher, aquilo que direta ou indiretamente refreia a sua abertura ao acolhimento de uma nova vida o que dificulta o seu direito de ser a primeira responsável pela educação dos filhos, constitui um impedimento objetivo no caminho da paz”(Mensagem n.5). Bento XVI recorda que as necessidades básicas da família devem ser garantidas pela sociedade e pela política, caso contrário, deixam de prestar um serviço essencial para a paz.

 O Papa recorda também em sua mensagem que a humanidade é uma grande família. “Para prosperar a comunidade familiar tem necessidade do consenso generoso de todos os seus membros. É preciso que esta consciência se torne convicção partilhada também por quantos são chamados a formar a família humana comum. Não vivemos uns ao lado dos outros por acaso, estamos percorrendo um caminho como irmãos e irmãs. Desta forma, é essencial que cada um se empenhe por viver a própria vida em atitude de responsabilidade diante de Deus, reconhecendo Nele a fonte originária da existência própria e alheia”(Mensagem n.6).

“A família precisa de uma casa, de um ambiente, e no caso da família humana , esta casa é a terra, o ambiente que Deus criador nos deu para que habitássemos com criatividade e responsabilidade. Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem…Não se hão de esquecer os pobres, em muitos casos excluídos do destino universal dos bens da criação”(Mensagem n. 9). O Papa lembra que a economia e a moral são exigências fundamentais para a paz nas famílias e na humanidade. “A humanidade não está sem leis”.

O Papa conclui a sua mensagem dizendo: “Convido a todo homem e  a toda mulher a tomarem consciência mais lúcida da sua pertença comum à única família humana e a empenharem-se por que a convivência sobre a terra espelhe cada vez mais esta convicção da qual depende a instauração de uma paz verdadeira e duradoura”. Em seguida Bento XVI convida a “implorar de Deus o grande dom da paz. Os cristãos sabem que podem confiar-se à intercessão daquela que sendo a Mãe do Filho Deus encarnado para salvação da humanidade inteira, é Mãe de todos”. Desejo a todos um Ano Novo Feliz!

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AONDE ESTÁ JESUS?

O homem de Nazaré, o nascido em Belém, o enviado do Pai, o Messias, o crucificado, o Cristo, o Senhor Jesus, o Filho do Homem onde Ele está? Parece que ainda estamos no Antigo Testamento esperando o Salvador prometido. Parece que ainda vivemos anestesiados diante de uma presença tão real, tão próxima que passa despercebido.

Assim, é mais fácil encontrá-lo nos presépios mais bonitos, nos enfeites maravilhosos que brilham e  atraem os olhares de qualquer um, nas luzes e pisca-pisca quebrando a monotonia da escuridão da noite, na busca de presentes que enchem os desejos e satisfazem os sentimentos, nas viagens turísticas que distraem e descansa o corpo e nada oferecem ao espírito, nas festanças de fim de ano que nem sempre trazem a paz e a harmonia; infelizmente o aniversariante fica longe de muitas comemorações feitas em nome Dele.

Onde Ele está? Ele mesmo responde: “Eu sou o pão vivo descido do céu, quem comer deste pão viverá eternamente”(Jo 6,41). “Tomai e comei isto é meu Corpo, Tomai e bebei isto é meu sangue”. “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”(Mt 28). Encontrar Jesus em cada celebração eucarística é tornar-se presépio vivo, é ser sacrário ambulante, é ser eucaristia na terra. É festejar o Natal todos os dias e nascer e renascer para uma vida nova.

Onde Ele está? Ele mesmo responde: “Eu estava com fome e me deste de comer, eu estava com sede e me deste de beber, eu estava nu e me vestiste, eu estava doente e foste me visitar, eu estava preso e foste me ver.  Quando foi que te vimos com fome, com sede, nu, peregrino, doente ou  preso? Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos meus irmãos, a mim que o fizeram”(Mt. 25,35s). O juízo final será para todos e a única chance de participar do banquete eterno é tê-lo encontrado em cada pessoa humana sem preconceito ou exclusão. “Aquele que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é mentiroso”(cf.Mc 12,29). Isso é Natal.

Onde Ele está? “Ele mesmo responde: Quem ouve a minha Palavra e a coloca em prática, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”(Mt 12,49). Somos familiares de Jesus pelo poder da Palavra vivida. “A Palavra se fez carne e habitou entre nós”(Jo 1,14).

Em cada Sagrada Escritura encontramos Jesus vivo. Aonde está Jesus?  Encontrá-lo sempre. Isso é Natal.

Dom Anuar Battisti – Arcebispo de Maringá 

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RECRIAR DEZEMBRO

 Com o olhar para o fim de mais um ano, em clima de festas natalinas, onde tudo parece luz, harmonia, paz, um mundo diferente se coloca diante de nossos olhos. Tudo isso é real? Porque esse tempo de natal é tão diferente? Parece que estamos em outro mundo! Onde eu como pessoa, me coloco neste cenário tão diferente e tão passageiro?

Não posso ser simplesmente um expectador ambulante a admirar e ver de longe sem me envolver em um processo que me faz ser gente, alguém importante, sujeito desta história e deste tempo que caminha para um fim. Não posso ser apenas mais um consumidor a satisfazer os desejos e sentimentos nem sempre justos e oportunos. Não posso ser apenas um na multidão. Não posso ser um objeto apenas, utilizado para os fins de uma sociedade materialista cujo deus é o dinheiro e as mazelas por ele provocadas.

É tempo de recriar, no cotidiano do dia a dia, na rotina que levamos de nosso trabalho diário, na busca de melhores condições de vida, na certeza de que somos pessoas feitas por amor a para amar. Esse tempo que medimos em anos, meses, semanas dias e horas, passa como o vento. Tudo passa, só a capacidade de recriar no amor permanece para sempre. Deus é amor e só quem ama permanece Nele para sempre.

É dezembro e não tem outro mês, é o ultimo, o tempo está terminando, é a  hora de recriar os relacionamentos feridos e machucados pela desculpa do não ter tempo; está na hora de recriar a capacidade de perdoar as mágoas e contratempos da convivência cotidiana; está na hora de recriar o tempo que não tive para dialogar com os filhos e com aqueles que mais amo; está na hora de recriar a amizade ferida e machucada pela petulância egoísta de nossa soberba; está na hora de recriar a confiança destruída pela mentira e falsidade de nossos interesses pessoais. Não dá para esperar, quem sabe seja tarde demais.

Essa é a hora e o tempo de iluminar o coração com o amor derramado em nós pelo menino da gruta de Belém; essa é a hora de criar a harmonia em nossos sentimentos, encontrada na simplicidade daquele estábulo frio, aquecidos pelo calor dos animais; essa é a hora de buscar a paz cantada pelos anjos, na noite santa que só os homens e mulheres de boa vontade são capazes de entoar. Essa é a hora de encontrar o Menino da luz, da harmonia e da paz, que busca um lugar não nos presépios, por mais originais que sejam, e sim no coração de cada homem e cada mulheres para dizer “Eu sou o caminho a verdade e a vida e ninguém vai ao Pai senão por mim”(Jo.14 ). É tempo de recriar. Recriar dezembro, agora, agradecendo o passado e olhar  os grandes horizontes do futuro com a esperança  de recomeçar sempre.  

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SALVOS NA ESPERANÇA

O Papa Bento XVI apresentou nesta sexta-feira, dia 30 de novembro, a encíclica «Spe Salvi» («Salvos na esperança»), na qual apresenta uma humanidade em ocasiões desenganada na dimensão da esperança oferecida por Cristo. Começa com uma passagem da Carta do apóstolo São Paulo aos Romanos, «é na esperança que fomos salvos» (8, 24), e destaca como «elemento distintivo dos cristãos o fato de eles terem um futuro»: sua vida «não acaba no vazio» (número 2).    

 A esperança, um encontro «Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança», declara no número 3 da carta. A encíclica explica que Jesus não trouxe uma «mensagem sócio-revolucionária», «não era um combatente por uma libertação política». Trouxe «o encontro com o Deus vivo», «com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo» (4).     Cristo «diz-nos quem é na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem». «Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida» (6).

Para o Papa está muito claro que a esperança não é algo, mas Alguém: não se fundamenta no que passa, mas em Deus, que se entrega para sempre (8). Neste sentido, acrescenta, a «crise atual da fé» «é sobretudo uma crise da esperança cristã» (17).    Desilusões A encíclica mostra as desilusões vividas pela humanidade nos últimos tempos, como por exemplo o marxismo, que «esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal.

Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria.» (21)«O seu verdadeiro erro — declara — é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.» (21)       A fé cega no progresso é outra das desilusões analisadas, assim com o mito segundo o qual o homem pode ser redimido pela ciência. «A ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos. Mas,  também pode destruir o homem e o mundo, se não for orientada por forças que se encontram fora dela». «Não é a ciência a que redime o homem. O homem é redimido pelo amor.» (25-26)  Lugares da esperança O Papa indica quatro «lugares» de aprendizagem e de exercício da esperança. O primeiro é a oração: «Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar» (32).

O segundo lugar de aprendizagem da esperança é o «agir». «A esperança, em sentido cristão, é sempre esperança para os demais». «Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só uma tal esperança pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar» (35).           

O sofrimento é outro lugar de aprendizagem: «Certamente é preciso fazer tudo o possível para diminuir o sofrimento»; contudo, «não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor» (37). O último lugar de aprendizagem da esperança é o Juízo de

Deus: «Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. (43). A encíclica conclui apresentando «Maria, estrela da esperança». «Mãe nossa — invoca –, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho» (50). (Fonte: Zenit do dia 30.11.2007, texto de Jesús Colina).

D. Anuar Battisti – Arcebispo de Maringá

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