Mês: fevereiro 2008



MINHA PRIMEIRA VISITA PASTORAL

MINHA PRIMEIRA VISITA PASTORAL
 Depois de dois anos e quatro meses caminhando com a Igreja que está nesta Arquidiocese, iniciei as visitas nas paróquias, cumprindo assim uma missão que me foi confiada. A cada cinco anos, tenho como dever visitar as cinquenta e duas comunidades paroquiais, além das celebrações de missas e de confirmação que faço cada ano. Como bispo, se faz necessário, estar mais perto da realidade em que vive o nosso povo, conhecendo, sentindo, participando, marcando presença no caminho da comunidade, seja no campo religioso como social e político. Esse conhecimento é extremamente necessário porque o pastor deve conhecer as ovelhas e chamá-las pelo nome, a fim de dar a vida amando sempre, amando por primeiro, amando a todas.
 Foi com este propósito que comecei as visitas pela cidade de Paiçandu, onde o povo está organizado em duas grandes paróquias, com quatro presbíteros e centenas de lideres colaborando nas mais variadas pastorais e movimentos. A minha primeira impressão foi ver uma cidade relativamente jovem, cheia de esperanças, com um povo sofrido, construindo dignidade e cidadania na base da fé sem medo dos desafios, organizado em pequenas comunidades onde todos se conhecem, com profundo sentido de solidariedade. A característica que marcou todos os encontros foi a alegria e a hospitalidade.
 Desde o encontro na prefeitura, passando pelas escolas, hospital, posto de saúde, creches, APAE, APMIFP, PETI, escola do MST, penitenciária, PM,  Câmara dos vereadores, enfermos, encontro com as lideranças políticas e religiosas, celebrações nas comunidades, contemplei rostos transmitindo satisfação pela oportunidade de nos conhecer, refletir e orar juntos, com a certeza de que “se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os que a constroem”. Em todos os encontros ficou a marca da amizade e do compromisso de sermos parceiros na construção de um mundo mais justo e fraterno. Os problemas que não são poucos, as dificuldades de todo tipo, permanecem como trampolim e não como obstáculos.
 Aqui como lá e lá como aqui, os escassos recursos financeiros e humanos ficam a desejar, a formação e qualificação da nossa gente, talvez seja o maior desafio dos tempos atuais. Formar para servir, formar para a solidariedade, para a busca do bem comum, utilizando as forças que existem na própria comunidade, sem esperar milagres, mas acreditando no pouco bem aproveitado do que no muito esbanjado. O pior de tudo é que às vezes, até mesmo o pouco, não é bem aproveitado. Aprendi muito no contato pessoal, nas experiências de vida, na confiança em Deus diante dos sofrimentos. Foi uma escola ao céu aberto, onde o sol e as nuvens serviam de luz, de sombra para apreciar a riqueza de cada encontro. O clamor pela vida  e pela vida em abundância permeou cada passo desta visita.
 Sinto-me feliz e agradecido a Deus, aos presbíteros e ao povo de Paiçandu pela acolhida e a adesão ao chamado de continuar o caminho na fé, fortalecidos na esperança, animados na solidariedade, convocados para a prática da justiça, à luz da Palavra de Deus. Neste tempo de quaresma, preparando-nos para a celebração da Páscoa, vida nova conquistada por Cristo na cruz e na ressurreição, convido a todos a não perder tempo, a não deixar para depois o que podemos fazer agora. Fiéis ao momento presente, construindo pedra por pedra, o edifício da paz e da solidariedade, cujo construtor é o próprio Deus e nós operários. No final de tudo diremos como o apóstolo: somos servos inúteis.
 

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AS INTERROGAÇÕES MAIS PROFUNDAS DO SER HUMANO,HOJE

As interrogações mais profundas do ser humano, hoje.

 O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio. Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis porque se interroga a si mesmo.
 Na verdade, os desequilíbrios que atormentam o mundo  moderno estão ligados a um desequilíbrio mais profundo, que se enraíza no coração do homem.
 No íntimo do próprio homem, muitos elementos lutam entre si. De um lado, ele experimenta, como criatura suas múltiplas limitações;  por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior.
 Atraído por muitas solicitações, é continuamente obrigado a escolher e a renunciar.mais ainda: fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria. Em suma, é em si mesmo que o homem sofre a divisão que dá origem a tantas e tão grandes discórdias na sociedade.
 Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, sentem-se incapazes de prestar-lhe atenção.
 Outros, em grande número, julgam encontrar satisfação nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas.
 Alguns, porém, esperam unicamente do esforço humano a verdadeira e plena libertação da humanidade, e estão persuadidos de que o futuro domínio do homem sobre a terra dará satisfação a todos os desejos de seu coração.
Não faltam também os que, desesperando de encontrar o sentido da vida, louvam a audácia daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado próprio, se esforçam por encontrar todo o seu valor apoiando-se apenas  no próprio esforço.
 Contudo, diante da atual evolução do mundo, cresce o número daqueles que formulam as questões mais fundamentais ou as percebem com nova acuidade. Que é o homem? Qual é o sentido do sofrimento, do mal e da morte que, apesar de tão grandes progressos, continuam a existir? Para que servem  semelhantes vitórias, conseguidas a tanto custo? Que pode o homem dar à sociedade e dela esperar? Que haverá depois desta vida terrestre?
 A Igreja, porém, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todo o gênero humano, oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema; ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos.
 Crê igualmente que a chave, o centro e o fim de toda a história humana encontra-se em seu Senhor e Mestre.
 A Igreja afirma, além disso, que, subjacente a todas as transformações, permanecem imutáveis muitas coisas que têm seu fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

(Da Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (N.9-10)   

Dom Anuar Battisti

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O DOM DE PODER ESCOLHER

O DOM DE PODER ESCOLHER!

 Uma das principais características do ser humano é a de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Essa marca traz dentro de si um destino que ultrapassa qualquer criatura; somos feitos para a eternidade e marcados com o selo da predestinação de uma herança de filhos e filhas de Deus. Ao criar o homem e a mulher, Deus deu a capacidade de autodeterminação que a sagrada escritura descreve na narrativa de Adão, diante do decisivo momento da opção, da vontade livre diante da árvore do bem e do mal.
 Essa original inocência do ser humano traz em si uma dimensão extremamente importante. Quando Jesus enfrenta os fariseus na questão da indissolubilidade do casamento, eles falam que Moisés permitiu a carta de divórcio  para aqueles que queriam repudiar a sua mulher; Jesus recorda que “no principio não era assim”. Aqui o plano redentor de Deus operado por Cristo pressupõe a pessoa humana na sua inocência original, como foi criada por Deus. Na medida em que o ser humano perde sua originalidade, perde conseqüentemente a sua capacidade de escolha, e coloca-se no lugar de Deus e começa a ditar normas e códigos de leis cuja base é o gostar, o direito de decidir. O demônio no paraíso afirma a Adão e Eva: “Se comeres deste fruto sereis como deuses”. A desgraça do pecado e do mal entrou na humanidade porque o homem quis ser deus para poder legislar em causa própria.
  “Homem e mulher os criou”(Gn 1,27) como sinal de que o amor é o tecido constitutivo da pessoa humana. A pessoa é imagem e semelhança de Deus porque traz em si aquela qualidade divina que é a comunhão. Se “Deus é amor”, a pessoa humana é chamada a ser amor desde a sua origem. Todo tipo de relacionamento necessariamente deve brotar desta raiz, caso contrário o ser humano se torna um objeto de uso e de consumo valendo apenas enquanto satisfaz os desejos e as necessidades de cada um. Ninguém foi feito para ser usado e sim para ser amado e amar.
 A capacidade de escolher e de autodeterminação diante da vida e das coisas, somente o ser humano tem esse privilégio, porque foi feito à imagem e semelhança de Deus, livre, capaz de realizar opções. Deus anuncia pela boca de Moisés o caminho da felicidade e da vida. Também para nós, ressoa claro e forte o convite de Moisés: “Vê, ofereço-te hoje, de um lado, a vida e o bem; do outro, a morte e o mal. Coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a vida, e então viverás com toda a tua posteridade”(Dt.30,29). O criador fala forte, determina a escolha para quem quer a vida e a felicidade, não existe outro caminho, não existe outra opção para ser uma pessoa realizada a não ser a escolha da vida.
 A humanidade caminha para rumos cada vez mais complicados, porque as escolhas vão pelos caminhos da maldição, e não da benção. O reino da maldade está instalado nos corações seja do rico como do pobre, do letrado e do analfabeto, nas raças e nas ideologias. O mundo clama por vida na terra, na natureza, na água, no ar, nos alimentos, nas instituições de saúde, mas principalmente no coração de cada homem e de cada mulher, não importando a idade. Só Deus pode tirar a vida. “Não matar” é lei de Deus, só quem teme e obedece a Deus receberá a herança eterna. Por isso não às drogas, aos vícios, ao aborto, a eutanásia, ao desemprego, à corrupção, ao roubo, à violência.   Que Deus nos ajude a valorizar em nós a capacidade de saber escolher e assumir as suas conseqüências.
 

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MENSAGEM DO PAPA PARA A QUARESMA 2008(RESUMO)

 

Mensagem do Papa para a Quaresma 2008(resumo)
«Cristo fez-Se pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)
   Todos os anos, a Quaresma oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundar o sentido e o valor do nosso ser de cristãos, e estimula-nos a redescobrir a misericórdia de Deus a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irmãos. No tempo quaresmal, a Igreja tem o cuidado de propor alguns compromissos específicos que ajudem, concretamente, os fiéis neste processo de renovação interior: tais são a oração, o jejum e a esmola. Este ano, na habitual Mensagem quaresmal, desejo deter-me sobre a prática da esmola, que representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética para se libertar da afeição aos bens terrenos. Jesus declara, de maneira peremptória, quão forte é a atração das riquezas materiais e como deve ser clara a nossa decisão de não as idolatrar, quando afirma: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16, 13).           Segundo o ensinamento evangélico, não somos proprietários mas administradores dos bens que possuímos.  À vista das multidões carentes de tudo, que passam fome, adquirem o tom de forte reprovação estas palavras de São João: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?» (1 Jo 3, 17). Entretanto, este apelo à partilha ressoa, com maior eloquência, nos Países cuja população é composta, na sua maioria, por cristãos, porque é ainda mais grave a sua responsabilidade face às multidões que penam na indigência e no abandono. Socorrê-las é um dever de justiça, ainda antes de ser um gesto de caridade.     O Evangelho ressalta uma característica típica da esmola cristã: deve ficar escondida. «Que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita», diz Jesus, «a fim de que a tua esmola permaneça em segredo» (Mt 6, 3-4). E, pouco antes, tinha dito que não devemos vangloriar-nos das nossas boas ações, para não corrermos o risco de ficar privados da recompensa celeste (cf. Mt 6, 1-2). A preocupação do discípulo é que tudo seja para a maior glória de Deus. Jesus admoesta: «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5, 16). Portanto, tudo deve ser realizado para glória de Deus, e não nossa. Queridos irmãos e irmãs, que esta consciência acompanhe cada gesto de ajuda ao próximo evitando que se transforme num meio nos colocarmos em destaque.           Convidando-nos a ver a esmola com um olhar mais profundo que transcenda a dimensão meramente material, a Escritura ensina-nos que há mais alegria em dar do que em receber (cf. At 20, 35). Quando agimos com amor, exprimimos a verdade do nosso ser: de fato, fomos criados a fim de vivermos não para nós próprios, mas para Deus e para os irmãos (cf. 2 Cor 5, 15). Todas as vezes que por amor de Deus partilhamos os nossos bens com o próximo necessitado, experimentamos que a plenitude de vida provém do amor e tudo nos retorna como bênção sob forma de paz, satisfação interior e alegria. O Pai celeste recompensa as nossas esmolas com a sua alegria. Mais ainda: São Pedro cita, entre os frutos espirituais da esmola, o perdão dos pecados. «A caridade – escreve ele – cobre a multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8).            A este propósito, é muito significativo o episódio evangélico da viúva que, da sua pobreza, lança no tesouro do templo «tudo o que tinha para viver» (Mc 12, 44). A sua pequena e insignificante moeda tornou-se um símbolo eloquente: esta viúva dá a Deus não o supérfluo, não tanto o que tem como sobretudo aquilo que é; entrega-se totalmente a si mesma.Este episódio comovedor está inserido na descrição dos dias que precedem imediatamente a paixão e morte de Jesus, o Qual, como observa São Paulo, fez-Se pobre para nos enriquecer pela sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9); entregou-Se totalmente por nós.      Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma convida-nos a «treinar-nos» espiritualmente, nomeadamente através da prática da esmola, para crescermos na caridade e nos pobres reconhecermos o próprio Cristo. Nos Atos dos Apóstolos, conta-se que o apóstolo Pedro disse ao coxo que pedia esmola à porta do templo: «Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda» (At 3, 6). Que este período se caracterize, portanto, por um esforço pessoal e comunitário de adesão a Cristo para sermos testemunhas do seu amor. Maria, Mãe e Serva fiel do Senhor, ajude os crentes a regerem o «combate espiritual» da Quaresma armados com a oração, o jejum e a prática da esmola, para chegarem às celebrações das Festas Pascais renovados no espírito. Com estes votos, de bom grado concedo a todos a Bênção Apostólica.
PAPA BENTO XVI (resumo feito por Dom Anuar Battisti)

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