Mês: março 2008



HOMENS A SERVIÇO DE TODOS

   
HOMENS A SERVIÇO DE TODOS
 Nas celebrações da Semana Santa, um marco central é a liturgia de hoje, quinta-feira santa chamada “Missa do Crisma” que, em geral, é celebrada na parte manhã nas Catedrais, sempre presidida pelo bispo diocesano.  Esta celebração tem como característica principal a renovação dos compromissos sacerdotais de todos os sacerdotes da diocese. Em comunhão com o bispo diocesano fazem memória à ceia do Senhor, na qual Jesus instituiu a Eucaristia e com ela o sacerdócio. Para nós, é o dia em que nasceu a nossa missão, deixada por Jesus, “fazei isto em memória de mim”, palavras derradeiras daquela primeira ceia.
 Nesta mesma celebração se consagra o óleo do batismo, da crisma e dos enfermos, para as celebrações dos sacramentos durante o ano todo, até a Páscoa do próximo ano. Dentro desta perspectiva a Igreja reunida ao redor do bispo, cabeça da comunidade, povo de Deus peregrino, realiza o maior ato de unidade, pois onde está o bispo com seu presbitério, aí está a Igreja. Uma Igreja “casa e escola de comunhão” que sabe orar, agradecer e suplicar as dádivas divinas para perseverar até o fim.
 Hoje renovamos o nosso compromisso de dar a vida, seguindo os passos de Jesus, Mestre e Pastor do rebanho, porque ele “veio para servir e não ser servido”, para dar a vida em resgate de muitos. Por isso o ministério que recebemos só tem sentido e vale a pena deixar tudo, quando seguimos este modelo. Nenhuma honra e nem regalias, sem torpe ganância, sem apego a nada e a ninguém, para dizer como o Nosso Senhor, “o Filho do homem não tem aonde reclinar a cabeça”. Deixamos tudo para receber tudo; o cêntuplo já aqui nesta terra e na outra, a vida eterna.
 A marca principal de nosso ministério é o exemplo do Bom Samaritano que descendo do seu cavalo, sente compaixão, unge as feridas, cura e devolve o caído para a sociedade. A nossa missão passa necessariamente pela aproximação aos excluídos e marginalizados. Como afirmam os bispos no Documento de Aparecida: “A resposta a seu chamado exige entrar na dinâmica do Bom Samaritano (Jo 10,29-37) que nos dá o imperativo de nos fazer próximos, especialmente com quem sofre, e gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus que come com publicanos e pecadores (Lc 5,29-32), que acolhe os pequenos e as crianças (Mc 10,13-16), que cura os leprosos (Mc 1,40-45), que perdoa e liberta a mulher pecadora, que fala com a samaritana (Jo 4,1-26).(DA 135).
 O sacerdócio é para todos nós, um tesouro que levamos em vaso de barro. Somos de natureza limitada, sujeitos a qualquer falha humana. Se Deus quisesse contar com gente perfeita teria escolhido os anjos. Deus não chama os capacitados mas capacita os chamados. Somos instrumentos nas mãos do Bom e Amado Pastor que veio “para dar a vida e a vida em abundância”. Lançar-se cada dia, na confiança de servos e servidores, faz de todos nós escolhidos para este ministério, mensageiros destemidos, evangelizadores corajosos, sabendo em quem colocamos nossa esperança. Por isso somos homens a serviço de todos, recomeçando sempre, procurando ser perfeitos como o Pai é perfeito.

 Amigos e amigas, hoje, de maneira especial, peço que orem por nós, consagrados, para que sejamos fiéis e que nunca faltem operários para a messe do Senhor. Feliz e Santa Páscoa!

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UMA SEMANA DIFERENTE

UMA SEMANA DIFERENTE
  Aproxima-se a celebração mais importante da fé para todos os cristãos .  Ninguém pode dispensar-se do compromisso de refazer o caminho do Mestre, cujo desfecho final é a passagem da morte para a vida. Estou seguro de que, a próxima semana bem vivida e participada, trará a todos uma alegria renovada, um gosto novo de viver, uma esperança que não decepciona. Para todas as religiões cristãs, o mistério pascal deve ser o centro de todas as celebrações litúrgicas, pois acreditamos que Jesus veio entregar a vida para o resgate de todos.       A Semana Santa começa no próximo domingo, celebrando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo com os ramos e o vozerio; “Bendito o que vem em nome do Senhor, hosana nas alturas!.(Jo 12,13) O Rei montado num jumentinho,  sem mordomias e sem palácios, simbolizando o serviço e a entrega, até o derramamento de sangue. Esse é o nosso Rei. Jesus faz uma trajetória que não entra na concepção normal do pensamento humano. Será uma semana  de sofrimento, passando pelo tribunal,  pela condenação, até ouvir da boca de Madalena, na madrugada do terceiro dia “Roubaram o corpo do Senhor, ele não está mais aqui,”. (Jo 20,2)     O processo de Jesus começa na quinta-feira santa, celebrando com seus discípulos, numa mesa de pão e vinho, deixando, nestes símbolos, a sua presença para sempre, dizendo:  “fazei isto em minha memória”.(1Cor 11,23-25) Façam isso sempre, porque eu sou o pão da vida eterna, quem comer deste pão viverá eternamente. Naquela noite de celebração, deixa para todos o testamento de despedida fazendo a lavagem dos pés, serviço de escravos, para dizer: “se eu como Mestre lavei-vos os pés, deveis lavar os pés uns dos outros”.(Jo 13, 14) Esse gesto foi para dizer que não se senta à mesa para a partilha sem  primeiro ser servo, sem primeiro amar e servir. Não existe eucaristia, não existe pão da vida, sem compromisso solidário com os mais pobres.    Depois desta ceia, de alegria e de dor, marcada pela traição de um amigo e companheiro, Jesus vai ao lugar da “caveira”, Gólgota, para orar e suar sangue como antecipação da dor que sofreria horas depois. Na intimidade com o Pai exclama: “Se for possível, afasta de mim este cálice, porém não se faça a minha vontade e sim a tua”.(Lc 22,42) Segue em frente, acredita, suporta e assume por nós e pela humanidade o caminho da cruz e da morte. Por isso, nós na sexta-feira santa, em reconhecimento  a esta redenção, nos reunimos às três horas da tarde para recordar e reviver aquele gesto salvador, e agradecer. Não é dia de chorar e nem de cultivar sentimentos vazios, mas é dia de gratidão e reconhecimento pela salvação conquistada para sempre e ara todos.  No sábado, continuando em clima de vigilante oração, cantamos o aleluia, antecipando através do símbolo da água e do fogo, o anúncio do túmulo vazio, madrugada do terceiro dia. Sábado ainda não é Páscoa, Jesus ainda está no túmulo. Ainda aguardamos o dia do Senhor, o domingo, “dies domini”, para cantar” Ressuscitou Aleluia”. Para nós, o sábado faz parte do tríduo pascal, da vigilante oração. Por isso, nós cristãos, celebramos o domingo, como o dia da ressurreição, da vitória de Cristo sobre a morte. O dia santificado pelo Senhor da vida e da humanidade, o dia de dobrar os joelhos, orar sem medo e sem desculpas, a fim de tomar consciência e cultivar a salvação conquistada para sempre e para todos, pelo Senhor Jesus.    Que bom ter a graça de participar desta semana, sem querer ocupar o tempo com outras coisas, por mais agradáveis que sejam. O natal é importante, mas o resgate e a salvação foram realizados na Semana Santa, no Mistério Pascal de Cristo, como afirma o Apóstolo Paulo: “Se Cristo não tivesse ressuscitado vazia seria a nossa fé”.(1Cor 15,17)  Convido a todos para fazer da Semana Santa a semana mais importante do ano, uma semana diferente, porque o amor de Deus por nós é diferente sempre, nunca se repete, é sempre novo, como  deve ser o nosso agir cotidiano. Desejo uma semana diferente a todos!

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O MAIOR'NÃO DESEJADO' DA HUMANIDADE

O MAIOR  “NÃO DESEJADO” DA HUMANIDADE
 
 Não precisamos ir muito longe para saber que a maior epidemia, que continua matando sem dó e piedade, chama-se o “não desejado”.Talvez não seja o meu e nem o seu caso, porém a vida continuará enfrentando as consequências de criaturas humanas vindas ao mundo sem serem desejadas.  Nestes dias, conversando com um jovem que estava numa profunda crise existencial, procurando saciar a sede de carinho e aconchego, passando até pelo desejo de tirar a vida, ficou claro que ele se sentia, na família, um estorvo. Ele dizia: eu não deveria ter nascido, fui indesejado desde a minha concepção.
  Essa experiência vem confirmar que, na maioria das vezes, a busca de satisfação através das drogas, do consumo exagerado de bebida alcoólica, de possuir um carro e nele colocar o som mais estridente possivel, a sede de velocidade transformado o veiculo em um instrumento de morte, tudo isso é a manifestação de um vazio existencial.  O vazio interior, a falta de sentido na vida, faz com que as coisas se tornem absolutas, pequenos deuses ocupando o altar da vida. Coisa é passageira, coisa é para ser usada e jogada fora, coisa é o descartável da vida. Os não desejados, na busca de matar a fome e a sede de amar e ser amado, acabam muitas vezes na marginalidade do caminho humano.
  Madre Teresa de Calcutá, a mulher que fez história, amando principalmente os indesejados, dizia:” A maior doença hoje não é a lepra ou a tuberculose; é antes o sentimento de não ser desejado. As vezes pensamos que a pobreza é apenas a fome, a nudez e desabrigo. A pobreza de não ser desejado, não ser amado e não ser cuidado é a maior pobreza. É preciso começar, em nossos lares, a oferecer o remédio para este tipo de pobreza”. Quantos lares poderiam ser melhores se não a existisse a mania de querer autonomia, independência, liberdade, prazer pelo prazer. A vida em um ambiente assim só cria pequenos monstros sem cabeça, sem coração, sem sentimentos de humanidade.
  “Não pense que o amor genuíno, tenha que ser extraordinário. Não pense que o amor, para ser verdadeiro, tenha que fazer todas as vontades do outro. Não pense que o amor, para ser genuíno, tenha que ter todas as liberdades. Não pense que o amor genuíno tenha que ter a primazia do gosto pessoal, a satisfação da vontade própria. O amor genuíno vem da prática dos pequenos gestos, dos momentos mágicos da vida, dos encontros com o outro gerando energia e gosto de viver. Acreditar nas pequenas coisas nos faz sentir a força de seguir amando. A capacidade de seguir vivendo, mesmo sendo indesejado, é buscar incansavelmente o Outro e Nele colocar toda nossa confiança.
  Quem sabe, os indesejados encontrarão a força para amar e serem amados, quando conhecerem, com o coração, a vida e o testemunho do maior indesejado da história do cristianismo. Banido, expulso da sociedade como bandido, condenado e crucificado numa cruz, assumindo a missão até o fim, suando sangue, suplicando ao Pai que, se fosse possível, afastasse dele aquela dor, aquele cálice de sofrimento e morte. Foi acreditando, até ao ápice do abandono de todos e de tudo. Acreditou sem ver, sem a mínima certeza de que a morte era apenas a passagem para uma vida de plenitude. Foi assim que Ele, o indesejado do mundo, conquistou a verdadeira vida para todos. Este é o mistério da vida. Jesus é o único capaz de preencher o vazio de tantos “não desejados” de hoje, que vivem sem perspectiva de uma vida melhor. Desejo que nesta Páscoa, os “não desejados” possam encontrar o maior indesejado da humanidade e preencher todo e qualquer vazio.

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