Mês: março 2009



CORTADOR DE CANA POR UMA HORA

CORTADOR DE CANA POR UMA HORA

No último dia dois de março, iniciou oficialmente o corte de cana que vai até dezembro deste ano. È uma data que marca a volta de milhares de cortadores de cana, que ansiosamente esperam recomeçar, a fim de garantir o sustento e o bem estar da família. Nesse dia, fui convidado a participar desta data emblemática, acompanhando os cortadores de cana nos canaviais e poder conhecer de perto o que significa ser um cortador de cana. Acompanhado pelo gerente geral da Usina Vale do Ivaí e do Padre Zenildo Megiatto, o pároco da Paróquia de São Pedro do Ivaí, chegamos às nove e trinta, no canavial, onde quatro grandes grupos, organizados por fileiras, cortavam, com garra, as canas cujas palhas foram queimadas na noite anterior, para facilitar o corte.

Logo que chegamos, fomos ao lugar onde estavam trabalhando. Um senhor e a sua senhora ficaram surpresos pela inesperada visita. Pedi que me desse o facão, pois queria fazer a experiência de cortador de cana. Sem duvidar da minha vontade, ela gentilmente ofereceu o cortante instrumento de trabalho e debaixo daquele sol escaldante, consegui cortar algumas canas. O facão não tão pesado, mas devidamente afiado, e que todos manuseavam com uma destreza impressionante, deixou em minhas mãos a marca das cinzas e a experiência inesquecível.

Ás dez horas todos pararam para o almoço, na sombra do ônibus, ou no toldo já preparado com mesa e banquetas e até na sombra de guarda chuva. Cada um com sua marmita, restabeleciam as forças, para seguir até às dezessete horas. Ao cumprimentar a cada um enquanto almoçavam, percebia alguns envergonhados, outros escondendo a marmita, outros curiosos para saber quem estava chegando aquela hora. Entre alguns sorrisos e olhares desconfiados, nos acolheram com alegria, pediram a benção e que rezássemos para que diminuísse o calor do sol.

Todos contam com o suporte técnico e humano que a empresa oferece desde os equipamentos de segurança pessoal, acompanhamento médico, dentário, assistência social, a garrafinha de suco com sais minerais e vitaminas, necessárias para o organismo exposto ao sol e ao trabalho pesado. Enfim, é um trabalho que exige participação de todos, principalmente de quem necessita desta mão de obra e de quem necessita ganhar o pão de cada dia. Visitando os diversos departamentos da empresa e a própria usina, que estava pronta para recomeçar a moagem, senti que todos, independentemente da função, estavam externando satisfação, alegria e estranheza em receber uma visita em plena segunda-feira.

Almoçamos no refeitório, onde todos os funcionários se alimentam diariamente. Tudo muito simples, higiênico e gostoso. O momento mais importante, dessa visita, foi a celebração da Eucaristia, no galpão do açúcar, com todos os funcionários e amigos que vieram participar deste momento na vida da empresa e da cidade. Com a presença de alguns Pastores Evangélicos, que no final da celebração, bem preparada pela equipe, animada por um ótimo grupo de música, dirigiram a palavra. Realmente marcou uma etapa significativa no caminho da empresa e na vida de todos, desde os cortadores até os funcionários dos diversos departamentos. Como diz o Salmo: “Se Deus não construir a casa, em vão trabalham os seus construtores” . Rendo graças a Deus, por mais uma experiência de vida, na minha vida de Pastor do Rebanho que está na Arquidiocese de Maringá.

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O HINO A SER CANTADO SEMPRE

O HINO A SER CANTADO SEMPRE

O Documento de Aparecida afirma: “A vida social em convivência harmônica e pacífica está se deteriorando gravemente (…) pelo crescimento da violência, que se manifesta em roubos, assaltos, sequestros e. o que é mais grave, em assassinatos que cada dia destroem mais vidas humanas e enchem de dor as famílias e a sociedade inteira”(DA 78). O Documento, porem, não registra apenas as desgraças do mundo em que vivemos, mas nos ensina o caminho como devemos enfrentar essa dura realidade: “A radicalidade da violência só se resolve com a radicalidade do amor redentor”. Evangelizar sobre o amor de plena doação, como solução ao conflito, deve ser o eixo cultural “radical” de uma nova sociedade. Só assim o Continente da esperança pode chegar a tornar-se verdadeiramente o Continente do amor”(DA 543).
No dia 24 de setembro de 1978, quatro dias antes da partida inesperada, ao paraíso do Papa João Paulo I, na emocionante “hora do ângelus” feito da janela papal aos domingos, ele narra a história das dezesseis carmelitas do Mosteiro da Encarnação de Campiége, na França, que em 1794 foram condenadas à morte “por fanatismo”. Uma das Irmãs pergunta ao Juiz: “Por favor, o que quer dizer fanatismo? Responde o Juiz: É pertencerdes totalmente à religião”. “Ó irmãs”! exclama então a religiosa,”ouvistes, condenam-nos pelo nosso apego a fé. Que felicidade morrer por Jesus Cristo!”. Na carreta que as levava ao cadafalso cantam hinos religiosos. Chegando ao palco da guilhotina, uma atrás da outra ajoelham diante da Priora e renova seus votos. Depois entoam o hino ao Espírito Santo “Veni Creator”. O canto se torna cada vez mais débil, à medida que caem uma a uma, na guilhotina, as cabeças das pobres irmãs. Ficou para o fim, a Priora, Irmã Tereza de Santo Agostinho. Antes de ser executada exclama: “O amor sempre vencerá, o amor tudo pode”. E o Papa João Paulo I acrescenta: “Eis a palavra exata: não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode!” Foram as últimas palavras do Papa “sorriso de Deus”, dirigidas naquela oração.
No dia 14 de março do ano passado, faleceu Chiara Lubich, sem dúvida uma das figuras femininas mais expressivas das últimas décadas. Não só o Papa, mas também representantes de outras religiões, políticos e artistas enaltecem essa mulher extraordinária. O cenário em que Chiara Lubich ouviu o chamado de Deus é a cidade de Trento, Itália, destruída pelo mais violento bombardeio que sofreu em 13 de maio de 1944. Entre os escombros, ela abraça uma mulher enlouquecida pela dor. Uma mãe brada todo o desespero causado pela morte de seus quatro filhos. Neste contexto de extrema aflição, Chiara Lubich, estreitando nos seus braços mais uma “Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, pois não existem mais”(MT 2,18), se sente chamada a abraçar os sofrimentos da humanidade e descobre que a mais poderosa revolução, capaz de incendiar tudo com um só fogo, é o amor.
Na primeira Encíclica do Papa Bento XVI, “Deus é Amor”, afirma que Paulo apóstolo, na sua primeira carta aos Coríntios no capitulo 13, canta um verdadeiro hino, que de ser a “Magna Carta” para toda a humanidade. Diz o Papa: “São Paulo ensina-nos que a caridade é sempre algo mais do que mera atividade. A ação prática resulta insuficiente e não for palpável nela o amor pelo ser humano, um amor que se nutre do encontro com Cristo”. Bento XVI insiste ainda que o amor não se deve restringir a dar ao próximo alguma coisa, o amor é muito mais: trata-se de um dar-se a si mesmo, de “estar presente no dom como pessoa”(Encíclica Deus é Amor n.34). Neste mundo sedento de segurança e de paz, quem sabe somente quando formos capazes de cantar com a vida este hino, poderemos construir um mundo melhor.

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BRINCAR DE DEUS

BRINCAR DE DEUS

Diante de situações bem pessoais, onde entra em jogo os interesses de realização, o desejo de fazer só o que gosto, de buscar aquilo que considero “bom” e penso que mereço; diante de tudo o que faço, penso e sinto que seja bom para mim, cultiva-se um leve sentimento de soberania e autossuficiência. No caminho de realização pessoal, não pode existir apenas o “eu”, como centro das atenções. Precisamos dar abertura para o outro, aquele que faz o mesmo ou outro caminho.
Ao lado destes sentimentos de autonomia e autorrealização, pode existir a ganância de superioridade, galgando os degraus da independência. Depender do outro parece coisa do passado ou de gente ignorante. Ninguém veio ao mundo sozinho, dependemos em tudo, até o dia do encontro definitivo com o Criador. No livro “A Cabana”, Wilian P. Young relata um diálogo entre Mark e Sarayu, que faz o papel do Espírito Santo. Mark diz: “Agora posso ver que gastei a maior parte do meu tempo e da minha energia, tentando adquirir o que eu achava que era bom, como segurança financeira, a saúde, a aposentadoria, ou sei lá o quê. E gastei uma quantidade gigantesca de energia e preocupação temendo o que determinei que era mau.
E Sarayu, com gentileza disse: Quanta verdade há nisso! Lembre-se: Isso permite que vocês brinquem de Deus em sua independência. Por essa razão, uma parte de vocês prefere não me ver. E vocês não precisam de mim para criar uma lista do que é bom e ruim. Mas precisam de mim, se tiverem qualquer desejo de parar com essa ânsia tão insana de independência. Então pergunta Mark: Há algum modo de consertar? Você deve desistir de seu direito de decidir sobre o que é bom e ruim e, escolher viver apenas em mim (Espírito Santo). È um comprimido difícil de engolir. Para isso, você deve me conhecer o bastante, a ponto de confiar em mim e aprender a se entregar à minha bondade infinita”.
O discernimento entre o que é bom e mau no direito de decidir, só pode ser alicerçado nos valores que vão além do humano pensar e sentir. Não existe realização pessoal ou satisfação em viver, sem que haja um relacionamento firme e decidido com a luz de Deus e seu Espírito. Quantos erros cometemos, com consequências negativas incalculáveis a nível pessoal e comunitário, porque nos colocamos como deuses e senhores de nós e dos outros. Somos o que somos por graça, e se “de graça recebemos também de graça devemos dar”. Devemos dar de nós mesmos, na abertura ao outro, a fim de baixar o nível de independência e construir juntos o bem, que não está longe de nós.
Parece brincadeira, mas tem muita gente brincando de Deus. Diante da Palavra ficamos calados, pois “não é aquele que diz: Senhor, Senhor que entrará no Reino, mas aquele que faz a vontade do Pai Deus”. O esquecimento de que somos criaturas e não criadores, colocados no mundo para povoar e aperfeiçoa a criação, faz com que, os absurdos da independência humana tomem lugar do respeito e do amor à criação e ao Criador. Deturpamos com a maior tranqüilidade o fim pelo qual existimos e somos. Perdemos o grande horizonte da vida humana que é a busca de perfeição, e nos perdemos em meio às coisas passageiras tentando trazer para o aqui e agora, o que está reservado no paraíso. Como diz Willam P. Young: “Comprimido difícil de engolir”, principalmente quando a pessoa humana brinca de Deus . Ainda é tempo, voce sabe que só tem um, descer do seu pedestal de criador e assumir a sua condição de criatura.

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UM CAMINHO DE PERDAS E GANHOS

UM CAMINHO DE PERDAS E GANHOS

Já faz parte da tradição, receber do Papa uma mensagem por ocasião da quaresma. Este ano Bento XVI dedica a sua reflexão ao tema do jejum. Trago o resumo desta oportuna mensagem, que nos ajudará na preparação de uma verdadeira Páscoa de ressuscitados. Diz o Papa Bento: “ No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus… Lemos no Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demônio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador. No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia. Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para …ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).
A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na “Leitura Orante da Bíblia” no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Benção Apostólica”.

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