Mês: junho 2009



EXISTE UMA DOR SEMELHANTE?

EXISTE UMA DOR SEMELHANTE?

Como em outras ocasiões, acompanhei na semana passada, uma família que repentinamente, perdeu a primeira filhinha, a primeira neta, a primeira bisneta, de apenas sete meses. Uma experiência que corta o coração, por um sentimento que nenhuma razão humana pode explicar. Para os pais, que colhiam o fruto do amor cultivado há anos e viam a Laurinha que se tornava, cada dia, mais linda e alegre, que a cada momento se tornava a razão do viver, que não viam a hora para voltar do trabalho e poder brincar, rir, fazer careta, ter nos braços aquela criaturinha tão frágil, mas tremendamente carregada de afeto e alegria sem medida. Tudo terminou de repente. Inexplicavelmente ela dormiu e dormindo partiu para o paraíso. Como disse a avó: Deus queria ela pertinho dele e não de nós.
Com certeza, não é a primeira e nem será a última criança a deixar o lar, nestas ou em outras situações semelhantes. Diariamente, vemos fatos desta natureza, marcando por toda a vida uma distância infinita, deixando marcar de saudades que só o tempo pode curar, ficando para sempre uma cicatriz de boas e inesquecíveis lembranças. Um tempo que pode durar muito tempo, dependendo do tempo que se tem para encontrar em Deus a melhor saída. As dores e os sofrimentos, causados pela separação definitiva dos entes queridos, só encontrarão o verdadeiro analgésico, se depositados na cruz do Senhor, cuja vida verdadeira foi alcançada pela cruz assumida e carregada até o fim. Não existe outra solução para vencer as espadas de dor transpassadas no coração, a não ser aceitando-as como nossa e carregando-as com a força da fé no Senhor que também gritou: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”?(MT 27,46) “Pai se for possível afasta de mim este cálice, porém não se faça a minha e sim a tua vontade”.(MT 26,39)
Na aceitação das cruzes que Deus nos coloca, em momentos totalmente inesperados, encontramos o caminho para ver mais longe e descobrir neste emaranhado de sentimentos, o rosto amoroso do Pai-Deus. Assim a vida não é um jogo onde só ganhamos, mas aprendemos a perder e perder pesado, a fim de encontrar o verdadeiro sentido da vida. Por isso, diz o nosso Mestre: “Quem quiser ser meu discípulo tome a sua cruz cada dia e siga-me”.(Lc 9,23). “pois o meu jugo é suave e meu peso é leve”(MT 11,30). Essa experiência eu vi, no rosto desta família, que mesmo chorando, lamentando, não se desesperaram em nenhum momento. Como é diferente, quando se vive na fé e pela fé. Como é diferente, quando se tem uma experiência de proximidade com Deus, cultivada na oração e na prática das palavras do Messias, Senhor e Rei de nossas vidas.
Assim, concluo com um pensamento de Madre Tereza de Calcutá: “Sempre tenhas presente que a pele enruga, o cabelo torna-se branco, os dias convertem-se em anos….mas o importante não muda: tua força e convicção não tem idade. Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida. Atrás de cada sucesso, há outro desafio. Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo. Se sentes falta do que fazias, volta a fazê-lo. Não vivas de fotos amareladas…Continua, ainda que todos esperem que abandones. Não deixe que oxide a fé que existe em ti. Faz com que, em vez de piedade, te tenham respeito. Quando não puderes mais correr, caminha. Quando não puderes mais caminhar, apóia-te em uma bengala. Mas nunca pare”.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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Corpus Christi – 2009

FESTA DO CORPO E SANGUE DE CRISTO
A Solenidade de “Corpus Christi” foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula “Transiturus de hoc mundo” de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Antes de se tornar Papa, Urbano IV foi o cônego Jacques Pantaleón, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. A festa mundial de “Corpus Christi” foi decretada em 1264, 6 anos após a morte de irmã Juliana em 1258, com 66 anos. Santa Juliana de Mont Cornillon foi canonizada em 1599 pelo Papa Clemente VIII. Desde esta dada é celebrada a Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor em todas as Igrejas. Em horários diversos, cada Igreja celebra a missa e em seguida a procissão com a hóstia consagrada naquela missa. O caminho pelas ruas da cidade ou quando não é possível dentro do próprio templo, significa que Jesus Eucarístico não está preso no sacrário e sim caminha conosco como “pão vivo descido do céu para a vida do mundo”. A Procissão nos faz recordar a caminhada do povo de Deus, que liberto da escravidão egípcia, vai ao encontro da terra prometida. Deus nunca abandona o seu povo, envia o seu Filho Jesus como caminho, verdade e vida, e ao mesmo tempo o seu Filho quis continuar no meio de nós como um sinal visível, sob as espécies de pão e de vinho. Na última ceia, quando se despede dos seus, deixa uma missão perene para aqueles e para os que depois deles continuariam a missão de evangelizar. Tendo nas mãos o pão e o vinho, depois de ter dado graças a Deus Pai, entregou aos seus discípulos dizendo: “Isto é o meu Corpo; isto é o meu Sangue. Fazei isto em memória de mim”. O sinal visível, comível, pão e vinho são transformados em corpo e sangue do Senhor. O mandato é perpétuo como foi perpétua a celebração da páscoa judaica. “Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para o Senhor; nas vossas gerações a festejareis; é um decreto perpétuo”(Ex 12,1-14). Assim, Jesus no novo testamento transforma aquela festa, numa festa do seu corpo e do seu sangue dado e derramando para a remissão de todos. A memória agora não é mais da libertação do Egito e sim a libertação definitiva que Jesus realizou no mistério Pascal. Por isso a festa de “Corpus Christi” é uma atualização, um memorial que jamais passará. Não é um teatro onde se representa uma cena do passado e tudo fica como antes. Em cada missa se atualiza de forma real a presença de Jesus, na forma de pão e de vinho, sinais que nos levam a contemplar com os olhos da fé e adorar, porque é o mesmo Jesus, da Palestina, de Nazaré, de Belém. É “pão vivo descido céu; e quem comer deste pão viverá para sempre”. Então, a homenagem que fazemos hoje a Jesus, com tapetes, com cantos, com procissão é para manifestar nosso reconhecimento e nossa adoração. Ao mesmo tempo recordar que Jesus se fez e faz comida e bebida, alimento da caminhada. Nenhum povo tem um “Deus igual ao nosso Deus” capaz de se fazer um de nós e dar-se perpetuamente como alimento, a fim de proporcionar a todos nós as forças necessárias para construir aqui e agora um reinado de paz, de amor e de fraternidade. Essa graça que temos não é privilégio de alguns, ou oferecido a um único povo. O Pão da Vida é oferecido a todos, do presente do passado e do futuro. Por isso recordamos a frase do centurião que clama a Jesus a cura do seu filho: “Senhor eu não sou digno de que entreis em minha casa mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Como diz João Paulo II na carta sobre a Eucaristia: “Nos sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados no seu corpo e sangue, Cristo caminha conosco, como nossa força e nosso alimento, e torna-nos testemunhas de esperança para todos.”(EH 61)

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A VIDA NÃO É UMA BALADA

A VIDA NÃO É UMA BALADA

O direito de se divertir e encontrar os amigos para algumas horas de distração juntos, nunca pode tirar, da consciência, o dever de cuidar-se e cuidar dos outros. Os encontros sempre foram uma oportunidade bonita de estreitar laços de amizade e construir relacionamentos verdadeiros. As baladas são uma oportunidade positiva, para quem tem a cabeça no lugar, assim outros ambientes sociais, e podem conduzir a uma verdadeira vivência dos valores da vida humana, como por exemplo a amizade, o respeito e a valorização do outro e da vida. Somos ou não somos corresponsáveis para criar um mundo melhor? Acreditamos ou não que a vida é presente de Deus e que deve ser preservada a todo custo?
Diante de tantos fatos de jovens se matando no trânsito, excedendo em bebida alcoólica, em drogas que afetam diretamente a consciência e o correto uso da razão; diante das reuniões exclusivas para determinados grupos sociais; diante da diversidade de opções que levam jovens ou adultos a viverem alienados em um mundo ilusório, acreditando serem felizes, pergunto: Quantas vidas foram e estão sendo ceifadas, a cada dia, por causa dos abusos e extravagâncias? Como convencer esta gente que pensa que a vida não vale nada? Como os pais podem ficar tranquilos em casa em um fim de semana, sem ver os filhos de volta? Quando e como voltam? Quantos não voltaram, senão em um carro funerário!
Como parte deste mundo imundo, não podemos estar de braços cruzados. Muitas iniciativas foram tomadas e estão sendo levadas a bom termo. Atitudes de repressão, como também de educação e de prevenção, são realizadas em todos os ambientes, com o objetivo de proporcionar qualidade de vida e favorecer a construção de uma sociedade cada vez mais solidária e segura. Além de todo o trabalho feito, a prevenção e a verdadeira educação vêm da família, onde, desde pequenos, aprendem a viver os limites da vida, onde aprendem o quanto vale cada coisa que usam, sabem de onde veio e quanto suor custou. Ao mesmo tempo, aprendem, com os pais, o caminho da igreja, do amor e o temor de Deus. Desde o colo materno e paterno os pequenos aprendem que a vida vale mais, que acima de tudo temos um Deus que nos ama e nos quer ver felizes, aqui e na eternidade.
Sem querer fazer dos filhos estátuas ou múmias sem sentimentos ou desejos, os pais devem, como missão, oferecer um caminho onde saibam valorizar o pouco, onde saibam viver na abundância e na carência, onde aprendam deste a tenra idade a orar e dobrar os joelhos, reconhecer que não estão sozinhos. Ninguém pode furtar-se a esse dever. É puro engano pensar: Vou deixar meus filhos crescerem e quando grande eles decidem o que querem seguir. A primeira escola, a primeira igreja, a primeira professora, o primeiro catequista é a sua casa, é o seu colo, é sua experiência de Deus. Quantos pais e mães, vazios de Deus, sem nenhuma experiência espiritual para apresentar aos filhos! Ninguém dá o que não tem. Com certeza, muitos deram tudo, menos o essencial. Com certeza, muitos não tinham nada e deram o que tinham: o amor e o carinho de quem acredita que a vida é dom de Deus Pai. Assim vamos contemplar um mundo, onde a morte não ocupa o primeiro lugar e nem nossas ruas ficarão manchadas de sangue de inocentes e de irresponsáveis que matam e morrem. A vida não é uma balada.
Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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