Mês: julho 2009



O MEDO DO SILÊNCIO

O MEDO DO SILENCIO

Nestes dias, lia uma pequena lição que dizia assim: Alguns irmãos de Sketis iam visitar o patriarca Antão. Para chegar até onde ele se encontrava, embarcaram em um navio. Ali encontraram um velho que também queria ir para lá, mas os irmãos não o conheciam. Enquanto no navio, eles conversavam uns com os outros sobre os ensinamentos dos escritos populares e também sobre os seus trabalhos. O velho, porém, permanecia calado. Quando chegaram ao destino, viu-se que o velho também ia para o patriarca Antão. Chegando eles na sua presença, Antão disse: “Encontraste um bom companheiro neste ancião”. E disse também a este: “Gente boa, tens contigo”. O ancião replicou: “Bons , bem que eles são, mas sua fazenda não tem porta e qualquer um pode entrar no estábulo e soltar o burro”. Isto ele disse por que eles falavam tudo que lhes dava na cabeça.
Quem não sabe guardar segredo não é capaz de entender os mistérios da vida. O grande mérito para ganhar a confiança e a credibilidade diante dos outros, está na capacidade de falar o que precisa, a quem precisa. Em nenhum momento estamos autorizados a abrir a porteira da fazenda para quem quiser entrar e nela amarrar os burros que a mim não me pertencem. O cuidar com o que dizer, a quem dizer e porque dizer, favorece a tranqüilidade de consciência e abre caminhos para um conhecimento verdadeiro de si mesmo e do outro. O livro dos Provérbios diz; “No muito falar não faltará o pecado”(Prov. 10,19). Recordo um velho ditado popular: “Boca fechada não entra mosca”. Isto nos alerta para a necessidade de frear a língua e soltá-la do jeito certo, na hora certa.
Assim, mais do que nunca, vivemos numa sociedade barulhenta, ensurdecedora, o silêncio oprime e mata, porque não queremos dar tempo a nós mesmos para ouvir a verdade em nós. Não gostamos de calar, porque não sabemos ouvir os outros. Até quando os nossos ouvidos serão capazes de ouvir o que queremos? Será que um dia não seremos obrigados a ouvir o que não queremos? O silêncio da surdez obrigatória, gerada hoje nos decibéis de sons automotivos, amordaçando a verdadeira voz em nós e nos outros, será a herança que muitos levarão para o resto da vida. Já ouvi pesquisas onde relatam verdadeiros problemas auditivos no futuro, para quem não souber usar os seus ouvidos, adequadamente, hoje. Queira ou não, nós fomos feitos para falar e ouvir. Hoje mais do que nunca, a sociedade, o homem moderno necessita de gente que saiba ouvir. Por isso estamos vendo os consultórios de psicologia sem horários.
Diante da necessidade de ouvir e ser ouvido, surge a exigência de cultivar em nós a dinâmica do silêncio. Como faz bem parar e sair da rotina estressante, para estar tranqüilo em um ambiente onde só ouvimos a nós mesmos e a voz de Deus que em nós ecoa, despertando sentimentos, harmonizando desejos, abrindo perspectivas, favorecendo o equilíbrio emocional e afetivo, tão necessário para um correto e verdadeiro relacionamento. De nada adianta o muito falar, porque só abafa a verdade e deixa brotar as máscaras do ser e do conviver. “O silêncio e a fala não são dois pólos opostos, mas eles se complementam mutuamente. O que importa é falar de modo a não destruir a atitude de silêncio….Quando em silêncio, eu conversei comigo mesmo e ensaiei meu papel, então ao falar ele jorra de mim sem qualquer barreira”. São Bento o criador da vida contemplativa diz aos seus monges: “O monge deve falar com humildade, com seriedade e dignidade, com respeito, com coerência, com amor, submetendo-se, com mansidão, com modéstia e com temor de Deus”.(Anselm Grün, “As exigências do Silêncio”).

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TEMPERANÇA E MODERÇÃO

TEMPERANÇA E MODERAÇÃO

No encontro de um jovem, com um senhor de quase noventa anos, o jovem disse: Como você está velho! Ao que o senhor respondeu: Capriche que você chega lá! Com certeza, a melhor idade se constrói agora, na juventude que sabe viver e viver bem, com temperança e moderação. A beleza, a jovialidade, a pujança da fase jovem se conservará até o fim, se ela for levada como presente a ser cuidado e nunca como presente a ser abusado. Como chegar aos noventa e três anos, se não fossem colocados limites, entusiasmo, valor à vida, amor incondicional ao próximo, dedicação e serviço pelo bem comum de todos, principalmente aos mais necessitados. Como chegar a jovialidade dos noventa e três anos se não fossem colocados amor à própria vida, equilibrando trabalho pastoral, com vida de oração! Como chegar à lucidez dos noventa e três anos se não fosse a amizade solidária da família e de milhares de amigos que souberam estender a mão nas horas mais difíceis?
Assim, estamos às vésperas de mais um ano de vida de nosso querido irmão e amigo, Dom Jaime Luiz Coelho. Nada mais bonito do que celebrar essa data, lançando um documentário feito com muito carinho e dedicação, mostrando ao vivo, o testemunho, a voz límpida discorrendo os fatos com uma memória invejável. Uma hora e meia que não deixa espaço para distração e nem mesmo para comentários paralelos e sim um silêncio para ouvir cada palavra de uma história que se fez e se faz com muito amor e dedicação. Será para a nossa igreja e para a sociedade de Maringá um referencial histórico, um documento a ser preservado como tesouro para as gerações futuras que nunca farão idéia das vidas consumidas, para poder contemplar as belezas de uma Catedral ou as obras sociais e educativas de uma cidade como a nossa.
Além deste documentário, conservamos em nossa TV Terceiro milênio mais de doze horas de gravação, testemunhos vivos, como Dom Jaime e outros pioneiros da fé e da organização social. Como não dar graças a Deus pelo bem que Ele tem feito no meio de nós, através dos que nos antecedem? Certamente foram pessoas que atenderam ao chamado do Senhor, para serem instrumentos vivos, portadores de uma missão. Nesta corrente de gente forte e destemida, contamos hoje, como o maior e mais iluminado personagem nesta igreja e neste povo, a pessoa de nosso primeiro Arcebispo Dom Jaime Luiz Coelho. Por mais que façamos ou queiramos fazer, de nada será suficiente para reconhecer, na gratidão, a herança deixada para nós e para os que virão depois de nós.
Com certeza, a recompensa virá, não de nossas pobres e limitadas mãos, mas do Deus da vida e da história, que em nenhum momento deixou-se vencer em generosidade. Neste Deus de amor, confiamos a nossa vida presente e o nosso futuro. Nele depositamos tudo o que somos e temos, e Dele esperamos que nunca falte as graças necessárias para continuar construindo aqui e agora uma igreja melhor, uma cidade melhor, um povo melhor e mais abençoado! Nas trilhas, nos caminhos, nas veredas, cruzando vales, enfrentando intempéries, queremos seguir o exemplo, o testemunho deste homem de Deus, que fez dele o porta voz, o obreiro, o incansável apóstolo de uma igreja e cidade que brotou da mata, do pó e do suor de quem nunca duvidou da providência divina. “A temperança e a moderação na mocidade servem de passaporte para a velhice” (Plutarco). Parabéns Dom Jaime!
Parabéns, vovô e vovó, pelo seu dia!

Dom Anuar Battisti – Arcebispo de Maringá

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O MEDO DO DESCONHECIDO EM NÓS

O MEDO DO DESCONHECIDO EM NÓS

No mundo das relações humanas, a base fundamental é conhecer-se e, conhecendo, estabelecer relacionamentos verdadeiros. Muitas vezes, prevalece o medo de entrar em nosso interior e tomar posse do que realmente somos e cremos, sem criar máscaras de proteção, que escondem nossa verdadeira imagem. A busca de conhecimento do outro, passa necessariamente pelo conhecimento de nós mesmos. O desconhecido em nós, faz com que não tenhamos a força suficiente para ir ao encontro do outro, como somos. Tomar posse do meu eu, para possuir o eu do outro.
Anselm Grün, monge escritor alemão afirma: “Quanto mais o medo me leva a evitar um olhar para o meu interior, mais forte torna-se o medo do desconhecido em mim. Jesus fala desse medo do desconhecido quando dirige suas palavras aos doze que escolhera: “Não tenhais medo deles, porque não há nada encoberto que não venha a ser revelado, nem escondido que não venha a ser conhecido. Dizei à luz do dia o que vos digo na escuridão e proclamai de cima dos telhados o que vos digo ao pé do ouvido””(MT 10,26). Certamente, Jesus estava falando aos seus colaboradores em circunstências bem diferentes à nossa, porém, penso que essas palavras podem ser referidas ao medo que existe em nós.
A capacidade de parar e encarar o positivo e o negativo que existe em nós, muitas vezes é abafada pelo medo de nos surpreender com uma explosão do que realmente somos. O medo é fruto de uma atitude muito pessimista em relação a nós mesmos. Na medida em que revelamos, a nós, o nosso interior e assumimos a realidade pessoal do jeito que ela é, passamos a viver uma liberdade jamais vivida. Não temos nada a esconder e muito menos a guardar sob sete chaves. A transparência é o espelho da alma que acredita ser o que ela é para conhecer e amar o outro como ele é. Vivemos tão pouco, porque não estabelecer relacionamentos sinceros e verdadeiros sem medo de nós e do outro? Na medida que amo em mim, a riqueza e a pobreza com que Deus me fez, serei capaz de amar a riqueza e a pobreza do outro.
“Para Deus nada fica no escuro. Já o Salmo 139, assim se expressa: “ Se eu disser: As trevas, ao menos, vão me envolver e a luz, à minha volta, se fará noite, nem sequer as trevas são bastante escuras para ti, e a noite é tão clara como o dia, tanto faz a luz como as trevas. Pois tu plasmaste meus rins, tu me tecestes no seio de minha mãe. Graças te dou pela maneira espantosa como fui feito tão maravilhosamente”(Sl 139,11-14). A escuridão não é o lugar do afastamento de Deus, mas de sua especial proximidade. Lá ele fala ao meu coração e ilumina tudo em mim com a luz de seu amor. Ele sabe o que existe dentro de mim. Ele o desvenda para mim. Por isso não preciso mais encobri-lo de mim nem dos outros. Tudo o que há em mim é perpassado pela luz de Jesus. O próprio Jesus desceu para esta escuridão a fim de iluminá-la com sua luz”.(Anselm Gün).
No caminho da realização pessoal, o passo fundamental para ser feliz está no abandono do medo de nós mesmos, para mergulhar no nosso interior conhecendo o mais profundo de nossos sentimentos e emoções, iluminados pela luz de Jesus. Assim seremos capazes de mergulhar no conhecimento dos outros e estabelecer relacionamentos verdadeiros, sem preconceitos ou julgamentos indevidos. Nossa convivência em casa, no trabalho, no lazer, na comunidade será agradavelmente prazerosa, quando amarmos o que conhecemos em nós, para poder amar o que conhecemos no outro.
Dom Anuar Battisti

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A VERDADE NA CARIDADE

A VERDADE NA CARIDADE

Esse é o título da nova carta Encíclica do Papa Bento XVI, lançada ontem para todos que creem no desenvolvimento integral do ser humano. Me reporto a alguns trechos da introdução para lembrar que é do homem a responsabilidade diante dos desafios da nova realidade econômica e social. Assim começa o Santo Padre: “A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — « caritas » — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. “A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus — a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos.
O verdadeiro sentido da caridade, muitas vezes, enfrenta o risco de ser mal entendido, excluído da ética, impedindo a sua correta valorização. Não é difícil ouvir declarações de irrelevância do seu conceito, nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e econômico, a fim de interpretar e orientar as responsabilidades morais. Mas a verdade deve ser procurada, encontrada e expressa na “economia” da caridade, compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à comunidade, mas também contribuído para que todos acreditem na verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta.
Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações humanas. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. Sem caridade, o amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente e acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada, que acaba por significar o oposto do que é realmente.
No atual contexto social e cultural, em que a verdade é relativizada, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e indispensável para a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social, mas marginais, sem o devido lugar para Deus. Sem a verdade, a caridade fica excluída dos projetos e processos de construção de um desenvolvimento humano de alcance universal, do diálogo entre o saber e a realização prática.
A proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade é serviço da caridade que, sem verdade, não tem consciência e responsabilidade social; as atividades ficam à mercê de interesses privados, com efeitos desagregadores, principalmente nos momentos difíceis. A doutrina social da Igreja gira em torno do princípio “Caritas in veritate”, que determina critérios orientadores da ação moral. Destes, destaco dois em particular, especialmente nessa época de globalização: a justiça e o bem comum.
Cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, mas não existe sem ela, porque amar é doar-se, a si e aquilo que se tem, pensando no bem comum. O desenvolvimento não envolve apenas direitos e de deveres, mas antes e, sobretudo, relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. Todo cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as suas possibilidades. Devemos ser protagonistas do desenvolvimento, atuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade.
A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer, mas tem uma missão: estar a serviço da verdade. Sem verdade, cai-se numa visão empirista e cética da vida, incapaz de se estar acima da ação porque não está interessada em identificar os valores. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Para a Igreja, esta missão a serviço da verdade é irrenunciável, posto que é a verdade que liberta.

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COMO É BOM, COMO É SUAVE VIVER UNIDOS (SALMO 132)

COMO É BOM, COMO É SUAVE VIVER UNIDOS
Salmo 132

Diante da diversidade de idéias, de formas diferentes de expressar a fé, compreender a vida, de assumir os valores éticos e morais, enfim, diante do imenso pluralismo cultural e religioso, surge uma pergunta: É possível manter viva, em nossos propósitos, a meta de construir a unidade, buscar o entendimento, propor caminhos de união?
A resposta nasce a partir de uma constatação fundamental: Por natureza somos diferentes e fazemos a diferença.
Ao mesmo tempo, carregamos em nós, o que nos faz ser gente, pessoas dotadas de razão, cuja necessidade primordial é viver em sociedade. Necessitamos do outro, seja ele quem for, para viver e viver bem. Por isso, viver unidos, construir a união, não significa querer que sejamos todos iguais, que tenhamos os mesmos hábitos, as mesmas maneiras de conviver. A unidade, na diversidade, nos desafia na capacidade de aceitar o outro, amando-o como ele é.
A partir desta atitude iniciamos a construção de um relacionamento humano e divino, que permite acolher o próximo sem nenhum preconceito ou desejo de conquistá-lo. A abertura, o diálogo, a acolhida se fundamentam na empatia respeitosa, reconhecendo outros valores diferentes dos meus. Nesta postura, ninguém está autorizado a julgar, porque na “medida que eu julgo, também serei julgado”. Amar simplesmente, de maneira especial o inimigo, constitui a base para garantir atitudes de compreensão, de aceitação, de amor concreto ao irmão.
A partir destes valores humanos e cristãos, a convivência humana, em família ou em sociedade, se torna cada vez mais, uma luz a iluminar cada encontro, criando relacionamentos verdadeiros, deixando de lado as máscaras, para mostrar o verdadeiro rosto de cada um. O salmo bíblico nos leva a contemplar como Deus nos trata “Misericórdia e piedade é o Senhor, Ele é amor, paciência e compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura” (SL 144, 8-9)
A ternura de Deus que abraça a todos, no amor, na paciência e na dor, em todos os momentos e com todas as pessoas, indo além das diferenças, deve ser a meta pela qual devemos lutar sempre. Certamente, assim, não vamos excluir alguém que pensa, crê ou vive diferente de mim.
Neste mundo diversificado, precisamos brilhar como luz, acentuando o que nos une e não o que nos divide. Se o outro pensa diferente de mim, ele me enriquece, dizia Dom Helder Câmara.
Assim, a unidade não é uma utopia e muito menos, o sonho de alienados, mas uma proposta do Mestre Jesus:
“Que todos sejam um, para que o mundo creia” (Jo 17)

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