O que é mais importante, quantidade ou qualidade?

Nos últimos dias, temos acompanhado o sensacionalismo midiático a respeito dos dados do Censo 2010. Muito se fala sobre a diminuição do número de católicos e o aumento do número de evangélicos. Destaca-se também o número daqueles que se declaram sem religião. Parece haver uma tentativa de dizer que a Igreja Católica está fadada à falência e ao fracasso. Mas será que tudo isso é realmente verdade?

Não há como negar que o número de pessoas que se dizem católicas tem diminuído. E isso não deve cessar nos anos vindouros. Provavelmente, no próximo censo, o número de católicos seja ainda menor. E novamente a mídia sensacionalista aproveitará a oportunidade para criticar a Igreja.

Alguns fenômenos modernos colaboram para tal estatística. Discursos sobre a emancipação da pessoa, a liberdade de expressão e a autonomia do ser humano fazem com que o indivíduo que não participa de nenhuma Igreja não se declare mais como católico ou evangélico. Atualmente, parece estar “na moda” que as pessoas afirmem ter “uma crença”, um “lado espiritual independentemente de religião”. Será que ser cristão atrapalha o funcionamento de uma ideologia que coloca o foco na atitude pessoal, individualista?

A modernidade – que insistentemente repete e sustenta que “se você quiser, você pode e você consegue tudo” – e também o advento das diversas religiões fizeram com que a cristandade ficasse no passado e agora, no mundo contemporâneo, as pessoas têm a liberdade para expressar opinião sobre a religião (ou sobre essas ditas “crenças” colocadas fora de qualquer religião) sem se preocupar com tradições familiares ou costumes culturais religiosos tão arraigados na história do povo brasileiro.

Contudo, queridos leitores, tirando um pouco o olhar dessas constatações construídas pelas mídias, a realidade eclesial interna nos apresenta, segundo dados do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), uma “Igreja viva”, em que as ações pastorais crescem a cada dia e as pessoas se mostram mais comprometidas com a fé que professam.

 

Alguns fatores nos chamam a atenção para essa realidade: 

a) O expressivo crescimento no número de paróquias: Segundo o CERIS, “os teóricos da secularização dizem que a religião está fadada ao fracasso, mas o que vemos é o contrário, pois à medida que surge a necessidade da criação de mais paróquias e estas de serem setorizadas, ampliando, assim, o seu alcance, supõe-se que os resultados são de uma maior adesão religiosa, inclusive de pessoas afastadas”. A criação de novas paróquias mostra que o número de fiéis tem aumentado. Em nossa arquidiocese, de 2000 a 2010, foram criadas 8 novas paróquias (Em Maringá: Santa Joaquina de Vedruna, Nossa Senhora Aparecida, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora do Rosário, Santo Expedito; Em Sarandi: Nossa Senhora da Esperança; Em Uniflor: Imaculada Conceição). E no dia 1º de setembro será criada uma nova paróquia em Maringá: Santa Paulina – que irá se desmembrar da Paróquia Santa Izabel de Portugal. 

b) O aumento significativo de padres nos últimos anos. No ano 2000, no Brasil, havia 16.772 padres. Em 2010, há 22.119. A distribuição de padres por habitantes é outro fator relevante. Em 2000, havia pouco mais de 169 milhões de habitantes e, para cada presbítero, contabilizavam-se 10.123,97 habitantes. Dez anos depois, havia aproximadamente 190 milhões de habitantes e cada padre seria responsável pelo número de 8.624,97 habitantes. Em nossa arquidiocese, de 2000 a 2010, foram ordenados 25 novos padres.

Olhando para a realidade da Arquidiocese de Maringá, percebemos um crescimento qualitativo na formação dos leigos (ex: escolas de teologia, escola catequética), uma ação pastoral mais orgânica e sistemática a partir do 22º Plano da Ação Evangelizadora (ex: revitalização da Pastoral Familiar, fortalecimento dos Grupos de Reflexão, o interesse sempre crescente pela Juventude) e posicionamento crítico (profético) da Igreja diante das questões sociais, demonstrando que a Igreja defende a vida em todas as instâncias e está a favor dos mais desfavorecidos.

Retomando os dados do CERIS, o relatório final dessa pesquisa aponta que “o quadro geral mostra uma vitalidade da religião católica, por meio de um borbulhar de novas modalidades, ou novas formas de viver a fé católica, por meio das novas comunidades, novos movimentos eclesiais e da volta às origens dos ideais das primeiras comunidades cristãs (…). Isso indica um retorno ao catolicismo dos afastados, mas também uma identificação maior daqueles que já praticavam o catolicismo, mas não se sentiam muito firmes, identificados com a doutrina católica. Sendo assim, por mais que se diga que houve aumento no número dos que se dizem sem religião, ou que cresceu o interesse e as adesões a novos grupos religiosos e a novas igrejas, a Igreja Católica se revela ainda mais estruturada e em franca expansão, com seus empreendimentos missionários como, por exemplo, os que foram propostos pela Missão Continental”.

Enfim, não negamos que haja uma realidade nova e desafiante (para a qual precisamos buscar respostas), mas também percebemos que tem crescido a qualidade daqueles que se denominam cristãos católicos. A missão do cristão é ser sal e luz. Mesmo que os cristãos sejam poucos, se cumprirem essa missão serão capazes de dar sentido à vida de muitos que perderam a razão de viver e de tantos outros que vivem na escuridão, sem saberem por onde caminhar.

Que o Deus da vida e da luz nos ajude a permanecer firmes na evangelização e nos dê sabedoria e discernimento para enfrentar os novos desafios do mundo contemporâneo.

 

Pe. Sandro Ferreira

Paróquia Santo Antônio de Pádua – Maringá-PR

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