Artigo de Dom Anuar Battisti



O abraço de cada dia

Nestes dias em Visita Pastoral nas paróquias de Cruzeiro do Sul, Uniflor, Paranacity e Inajá pude viver muitas experiências edificantes e de grande valia para o meu ministério. Tive contatos com as realidades religiosa, social e política de cada município e, de maneira especial, conheci melhor as lideranças que atuam nas pastorais e movimentos eclesiais, formando uma verdadeira frente de trabalho na Ação Evangelizadora.

Como em outras ocasiões, a grande motivação para esta missão do bispo é o conhecimento, pois só se ama aquilo que se conhece, como diz Santo Agostinho.

No meio a tantos contatos, no ambiente escolar, junto aos pequenos e grandes, aos professores e funcionários, o que mais me alegrou foi ver as escolas repletas. Porém, faltam vagas para acolher a todos. Escolas com disciplina, com organização, com pessoas preparadas para viver o dia a dia.

Mesmo sabendo que a missão é árdua, todos parecem cientes de que um é que semeia e outro é que colhe. Como me fez bem ver e ouvir pessoas felizes trabalhando na educação. Uma diretora dizia: “Aqui estão os meus filhos. Eu amo esses jovens, pois eles são maravilhosos”.

Um outro aspecto marcante: Em uma das paróquias, o padre tem o costume de ficar, em alguns dias, na frente da casa paroquial enquanto os alunos passam para ir à escola. Um deles, de seis aninhos, quando vê o padre se aproxima e dá um abraço e segue contente o caminho para sala de aula.

Um determinado dia ele passa, vê o padre e não faz a costumeira saudação ao seu amigo. Aliás, eu o conheci na comunidade, pois é sempre o primeiro a chegar à Igreja e sempre pronto a prestar serviço. Então o padre reclama: “E o meu abraço amiguinho?” Ele responde: “Hoje não tem. Estou estressado”! Quando o padre me contou o fato eu me perguntei: Como estar estressado às 7h, um menino de seis aninhos? O que será que aconteceu para que ele se sentisse estressado ao ponto de não querer o abraço do bom amigo de todos os dias?

Não é o caso de muitas explicações, mas não deixa de ser um fato que toca também os grandes. Como faz bem receber um abraço quando se está estressado. Como faz bem receber um abraço quando começa ou termina o dia, mesmo sem estresse.

Como faz bem à mente e ao coração o carinho e o afeto do povo, ao chegar às comunidades, nas repartições públicas, nas casas dos doentes, nas empresas, nas escolas, e ao encontrar as pessoas nas ruas. Ninguém é de ferro.

Chega o fim do dia cansado, porém um cansaço que não pesa, que faz a gente dizer: Que dia abençoado! Quanta gente encontrei! Quantas coisas bonitas! Quantas dificuldades, quantas coisas a serem feitas! Quantos desafios na educação, nas famílias, no meio da juventude! Quanto trabalho na evangelização a ser feito!

Em uma das cidades, durante a visita ao hospital, um dos médicos, muito jovem e animado com o trabalho, entusiasmado com o futuro da instituição, dizia: “Eu venho ao hospital mesmo quando não é o meu plantão. Eu amo o que faço! Fico feliz por tantas coisas bonitas e positivas, que existem em nossa realidade.

O trabalho mais gratificante na missão do bispo são as Visitas Pastorais, pois é ali, no meio do povo de Deus, que posso abraçar e ser abraçado. Não deixe de dar um abraço, mesmo quando estiver estressado.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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A criança chora e chama pela mãe

Quem nunca chorou? Quem nunca viu alguém chorar? Certamente já fizemos esta experiência onde sentimos a necessidade de ter alguém, ou chamar por alguém. Ninguém chora sem ter um motivo. O próprio filho de Deus chorou, ao saber da morte do seu amigo Lázaro, mexeu na estima profunda que tinha pelo seu amigo. O choro na maioria das vezes acontece sempre na presença de outros.

Também por vezes na solidão ou na calada da noite para que ninguém veja. Em ambos momentos existe alguém presente fisicamente ou espiritualmente vendo e ouvindo. Essa presença do outro e do Totalmente Outro, Deus, sempre trás alívio, conforto, serenidade, acalma e muda os sentimentos.

O choro é a manifestação visível de que somos limitados e a experiência do limite faz buscar auxílio, exige sair ao encontro de alguém para preencher o vazio, ou aquela necessidade. Querendo ou não somos limitados, vivemos a contingência da vida humana com todos os seus sentidos.

Diante da onipotência da técnica, dos modernos meios de comunicação, o ser humano é vencido pelas tragédias e catástrofes naturais. A lição mais forte destes fenômenos é a destruição da onipotência do homem. Ele não é Deus. O ser humano não tem outra saída a não ser reconhecer-se limitado e pedir socorro. Essa é a experiência da criança que chora e chama pela mãe. Na contingência humana que se manifesta o poder de Deus.

É aqui que entra a experiência humana e divina da oração. Uma carta do século quarto atribuída a Crisóstomo diz: “A oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não pense que essa oração se reduz a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: “Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis”(Rm 8,16).

Praticando a oração em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade. Como cúpula de todo o edifício coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada. Assim terás um esplêndido palácio real para recebê-lo, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

Diante de todas as tragédias humanas, da fúria da natureza, sentindo o nada que somos, a transitoriedade de tudo e de todos. De nada adianta interpretações apocalípticas, levando o ser humano ao medo desesperado.

Não ao medo e sim à fé que leva confiar no Criador que fez tudo muito bom e confiou em nós a missão de cuidar e aperfeiçoar a Sua obra. Se eu não fizer, ninguém fará por mim. “Vai depender só de nós”.

A experiência do limite nos leva às lágrimas, que fazem levantar a cabeça, olhar ao redor, abrir os braços, ajudar e buscar ajuda no outro e no Totalmente outro, Deus, como a criança que chora e chama pela mãe.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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Nada antes ou depois. Tudo a seu tempo

Nestes dias, vendo e ouvindo notícias sobre as trágicas ocorrências das enchentes e chuvas torrenciais, principalmente a perda de tanta gente, pessoas e famílias inteiras destruídas, desaparecidas, pergunto: o que fazer?

O que fazer diante de tantos lares sem lar, tantas famílias sem nada, nem mesmo os seus mais queridos? O que fazer quando as catástrofes naturais não marcam dia e nem hora e muito menos as consequências?

De nada adianta interpretações climáticas, culpar este ou aquele, ou dizer que são sinais do fim dos tempos quando menos responsabilizar o Deus Criador.

Ele fez tudo tão bom, “viu que tudo era muito bom”. Situações semelhantes já ocorreram em outros lugares do planeta, com intensidades muito mais graves e consequências que levarão anos para ser remediadas. Não será o primeiro e nem o último fenômeno da natureza a nos assustar.

Humanos que somos, criados “para crescer, multiplicar e aperfeiçoar a terra” resta-nos retomar a missão que Deus nos deixou e não lamentar como alguém que manchou a branca toalha ao derramar uma taça de vinho tinto.

Lamentações, não. Solidariedade, sim. Sentir mesmo à distância a dor e o sofrimento alheio, participar com gestos concretos, dando o pouco que temos na ordem material, acompanhado da prece que brota da fé, é o que faz a diferença nestes momentos de tragédias.

É hora de somar na busca de gestos concretos para dar às vítimas, irmãos e irmãs brasileiros, que nesta hora necessitam de nosso gesto de amor.

Nada mais toca a nossa sensibilidade humana do que a dor pessoal e do outro que jamais esperava por ela. Não somos máquinas e sim pessoas com sentimentos e desejos, coração que sente e chora, que grita e agradece.

Somos gente cuja vida encontramos sentido na luta e labuta diária, com a força do Senhor que gritou: “Se for possível afasta de mim este cálice, porém não faça a minha vontade e sim a Tua”.

A dor e o sofrimento são partes integrantes do nosso ser humano. Não fomos feitos para o sofrimento e sim para passar por ele, entender que só se chega ao amor, passando pelo fogo da dor.

Quantas situações pessoais só resolvidas através da dor, da perda e da morte. Se não entenderes pelo amor, entenderás pela dor. Por isso o sofrimento humano não é inútil. Encontramos a razão do seu existir quando nele somos capazes de ver, marcado com todo o carinho, o amor de Deus, pois Ele “prova aqueles a quem mais ama”. Por mais que se queira tirar o sofrimento e a dor, estes jamais vão deixar de habitar o coração humano, pois ao contrário deixaria de ser humano.

O caminho é o amor solidário, que vai além de uma simples doação. Doar muitas das vezes é fácil. Doar-se amando custa um pouco mais, pois o amor permanece como exigência do ser criado a imagem e semelhança do Criador.

Gestos momentâneos passam. Já o amor permanece como razão do ser e existir para nós e para os outros. Por isso aqui está uma forma concreta do amor solidário: A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Cáritas, realiza no próximo dia 30 uma coleta nacional em todas as paróquias para ajudar as vítimas das enchentes ocorridas neste mês de janeiro.

Se você não puder ir à missa no próximo domingo faça a sua doação através das contas bancárias: Campanha “SOS Sudeste”(CNBB e Cáritas Brasileira) Caixa Econômica Federal (CEF). Agência-1041–OP.003, conta-corrente 1490-8, ou Banco do Brasil, agência-3475-4, conta-corrente 32.000-5.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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Não quero ser notícia, mas levo uma Boa Notícia

Ao concluir o Ano Sacerdotal no dia de amanhã, gostaria de reportar aqui alguns depoimentos de um missionário, que deixando a sua pátria, não vai para tirar dinheiro dos pobres para construir templos majestosos e nem criar tesouros nos grandes fundos financeiros, e sim para promover e defender a vida. O sacerdote Martín Lasarte, que está há mais de 20 anos em Angola, relata enternecedoras histórias de sacerdotes que entregam as suas vidas até limites inimagináveis, mas…não são notícia. O missionário uruguaio Martín Lasarte, um missionário que vive há mais de 20 anos em Angola, define-se a si mesmo numa carta enviada ao The New York Times como «um simples sacerdote católico» que se sente «feliz e orgulhoso» da sua vocação.

 “O diário norte-americano, que liderou a campanha contra a Igreja e o Papa por causa dos casos de pedofilia cometidos por alguns clérigos, ainda não respondeu. Nela, Lasarte explica o trabalho silencioso a favor dos mais desfavorecidos que a maioria dos sacerdotes da Igreja católica fazem nestas paragens, mas que, no entanto, «não é notícia». «Causa-me uma grande dor que pessoas que deveriam ser sinais do amor de Deus tenham sido um punhal na vida de inocentes. Não existem palavras que justifique tais atos. Não há dúvida que a Igreja só pode estar do lado dos fracos, dos mais indefesos. Portanto todas as medidas que venham a ser tomadas para a proteção, prevenção da dignidade das crianças serão sempre uma prioridade absoluta», afirma o missionário na sua carta.

 No entanto, acrescenta o missionário, «é curiosa a escassez de notícias e o desinteresse pelos milhares e milhares de sacerdotes que se consomem pelos milhões de crianças, pelos adolescentes e os mais desfavorecidos nos quatro cantos do mundo». Não é notícia transportar crianças através de campos minados.

Não é noticia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes, religiosos tenham deixado a sua terra, a sua família para servir os seus irmãos em leprosarios, hospitais, campos de refugiados, orfanatos para crianças acusadas de feiticeiras ou órfãos de pais que faleceram com aids, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros que prestam cuidados a soropositivos… ou sobretudo em paróquias e missões para motivar as pessoas a viver e amar.

Não é notícia -diz- que o meu amigo, o padre Marcos Aurélio, para salvar alguns jovens durante a guerra em Angola, tenha sido fuzilado no caminho; que o irmão Francisco, com cinco catequistas, por terem ido ajudar em áreas rurais mais recônditas tenham falecido num acidente; que dezenas de missionários em Angola tenham falecido por falta de socorro sanitário, por causa de uma simples malária; que outros tenham saltado pelo ar, por causa de uma mina. Não é notícia acompanhar a vida dum sacerdote “normal” no seu dia a dia, nas suas dificuldades e alegrias consumindo sem ruído a sua vida a favor da comunidade que serve. A verdade é que não procuramos ser notícia, mas simplesmente levar a Boa Noticia, essa notícia que sem ruído começou na noite de Páscoa.

Faz mais ruído uma árvore que cai do que uma floresta inteira que cresce! O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um simples homem, que com a sua humanidade procura seguir Jesus e servir os seus irmãos. Existem misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura.

Insistir de forma obcecada e persecutória num tema perdendo a visão de conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico com as quais me sinto ofendido, afirma o missionário. E conclui: Só lhe peço amigo periodista, que procure a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso torna-lo-á nobre na sua profissão”.

Esse testemunho caracteriza muito bem a nossa presença no mundo e marca profundamente o sentido do nosso sacerdócio hoje. Por isso recordo o que diz o Apóstolo Paulo: “Somos o que somos pela graça de Deus”. A Ele entregamos tudo, para dele sermos herdeiros de tudo.

Artigo semanal de Dom Anuar Battisti

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