Artigo semanal de Dom Anuar Battisti



Artigo sobre Miguel Kfouri Neto

Na última sexta-feira, tive a oportunidade de participar de uma confraternização em homenagem ao desembargador Miguel Kfouri Neto, Presidente do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR). Ambiente de festa e de congraçamento de amigos, família e companheiros de caminhada no trabalho da Justiça no Paraná.

Entre tantos, cada qual com seus méritos, o objetivo principal era homenagear alguém que galgou as alturas pisando o chão das terras maringaenses e hoje ocupa um cargo de altíssima importância na vida do nosso povo, promovendo a justiça, a defesa dos direitos e a dignidade de todas as pessoas.

Entre os vários pronunciamentos, todos bem colocados, chamou-me atenção a fala do doutor Kfouri. Ao ser chamado para a tribuna levou consigo um discurso pronto, certamente bem elaborado para aquela circunstância solene.

Inicia de forma espontânea e livre, saudando todos aqueles que, além do protocolo, foram seus amigos e companheiros nos estudos e na profissão, destacando qualidades e virtudes que distinguem pessoas comprometidas com a vida.

Não se importando com os papéis abriu o coração relatando as várias etapas da vida de estudante e profissional, emocionando-se várias vezes ao falar dos amigos e, principalmente, ao falar da família.

Não é fácil encontrar pessoas que falem do coração, com o coração e para os corações. Pessoas assim, mais que profissionais, são pessoas que vivem intensamente cada momento e deixam marcas no caminho da vida.

As relações não são de funcionários desempenhando tarefas, cumprindo rituais de trabalho, e sim relações carregadas de amor, de um coração que vibra e sente a presença do outro, como alguém importante e indispensável para a realização pessoal.

Como nos faz falta gente que se emociona ao falar da família, da própria família. Como seria diferente se antes das formalidades e burocracias colocássemos as pessoas que amamos e as que ainda não amamos como os mais importantes da vida.

Na carta de despedida do grande poeta Gabriel Garcia Marques, ele diz: “Que o homem só tem direito de olhar de cima para baixo quando está ajudando o outro a levantar-se. Aprendi que todo mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subi-la.”

Certamente estes exemplos nós os encontramos de forma muito discreta e silenciosa. Tudo seria muito diferente se o coração humano fosse mais humano, onde a razão deixasse o primeiro lugar ao coração. As relações entre nós seriam de outro colorido se antes de tudo reinasse a igualdade, o respeito, a dignidade de cada ser humano.

Muitos lares estão desfeitos porque alguém quis estar sempre no topo da montanha, do amor próprio, do senhorio sobre as coisas e as pessoas. Muita gente amargada e depressiva porque se afogaram em desejos utópicos, esquecendo-se de fazer hoje, porque o amanhã pode nunca chegar.

Tudo seria muito diferente se ao falar dos amigos e da família regássemos as palavras com as lágrimas da emoção. Meus parabéns ao desembargador Miguel Kfouri Neto.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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Relacionamento, solidão e aproximação

Nestes tempos de ativismo exagerado, onde não se tem tempo, nem para deliciar um jantar com os amigos, desta forma, coloca-se em cheque também o valor bonito do encontro e de relações amigáveis duradouras. Entre idas e vindas, a solidão e a aproximação jogam um papel definitivo na busca de um relacionamento verdadeiro.

Tanto uma como a outra são carregadas de significados positivos e negativos. Nem sempre se consegue o equilíbrio exigido, que pode ser comparado ao de um malabarista ao transpor um espaço vazio pisando em corda bamba. Quantas vezes tudo termina em frustrações e desencantos como também em alegrias e satisfações.

A relação humana é uma arte em que aprendemos viver juntos com os outros. Toda relação humana é fonte de problemas, conflitos e realizações. Buscamos o outro porque temos solidão, o frio inverno da angústia.

Queremos sair do silêncio ensurdecedor do isolamento, na pretensão de satisfazer as carências do amor/gratidão. Muitas vezes falta a pedagogia do saber esperar. Assim a busca demasiada de aproximação pode provocar sufocamento, ou seja, um exagerado esperar do outro pelo excesso de apego. Por isso que relar demais machuca e dói. Relar nunca foi relacionar-se.

Relacionar-se com certa distância por sua vez, aquece. Solidão e isolamento constituem uma experiência essencial para o relacionamento humano. A solidão é a experiência que potencializa e proporciona o encontro e a comunicação com o outro.

A experiência de solidão remete à individuação e a uma ruptura com o estado de fusão com o outro. Somos seres separados e não colados. A experiência da solidão é a capacidade de amar com independência e autonomia, elaborando a dor da ausência entre o eu e o outro.

O mundo das relações vem carregado do medo de estar só. Ao mesmo tempo a aprendizagem na solidão e no isolamento, quando vividos intensamente não como fuga e sim como encontro consigo mesmo é capaz de fecundar o nascer de relações reveladoras do divino presente em cada ser humano.

Na medida em que revelamos o que realmente somos e temos, não com a razão, mas com o coração capaz de amar e ser amado, teremos a certeza de construir a base firme de uma vida de relações realizadoras, plenificando toda existência.

Acredito que a realização pessoal está em construir pontes entre corações que sabem curtir e assumir juntos os conflitos. Enquanto não estabelecer o direito de ser feliz junto, na busca constante de revelar o mais profundo do ser humano, do meu ser gente, nunca a gratuidade do amor de Deus encontrará espaço para transformar o humano em divino.

Quantas situações poderiam ser resolvidas de maneira simples e direta se o coração humano soubesse que jamais está sozinho. “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”, diz o Senhor. Preciso viver a solidão, não como fuga e sim como graça. Preciso me aproximar, não como compensação e sim como complemento. Preciso de relações com o outro e com o totalmente outro para revelar o que sou e compreender o que Deus fez e faz em mim cada dia.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

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Aonde estavam os amigos naquela noite?

Depois de ouvir a triste notícia envolvendo o Padre Silvio Andrei, tentei me colocar no lugar dele e procurei interpretar o que teria passado em seu coração naquele dia e como ele estaria vivendo estes momentos.

Assim, fiz a seguinte reflexão: Aonde estavam os amigos que me convidaram para participar do casamento? Aonde foram aqueles que comigo beberam e fizeram festa e quem sabe até caçoaram do meu estado? Ninguém viu que eu estava com o comportamento diferente depois daquelas bodas que abençoei?

Certamente, descontrolado fiquei sozinho e sem rumo. Fui invadido por sentimentos e desejos que conscientemente nunca teriam espaço e visibilidade em meu ser gente. Até que ponto posso contar com amigos de verdade, amigos que ao redor da mesa e nos desequilíbrios do cotidiano são capazes de dar tudo até a própria vida, se for preciso? Sei que o humano, marcadamente frágil, tomou o lugar do divino, profundamente forte. O mal agiu, porque eu estava sozinho.
Como senti naquela noite a falta de um amigo verdadeiro! Assim não teria passado pelo ridículo vexatório, não teria sido tratado como marginal, como trapo humano, ridicularizado pela mídia ingrata e sensacionalista, em que conta o ibope criado sobre a desgraça do outro. Sem minimamente se preocupar com o ser humano, o pecador é pisado, maltratado sem piedade. Os direitos humanos desaparecem imediatamente.
O importante é o pecado, a desgraça alheia.  Lamentavelmente é sempre assim. Ridicularizado, não pela culpa e sim pelos atos conscientes ou não. Naquela hora não valeu o meu passado, ninguém me reconheceu, ninguém me conhecia, fui colocado no fogo do inferno. Fui jogado e algemado como criminoso, perdi a identidade de ser humano.
A dor do pecado é doída demais. A cruz neste calvário pesa enormemente. Nunca me passou pela cabeça viver momentos tão difíceis. Agora eu preciso viver esses momentos intensamente, sem olhar para trás, querendo consertar o passado. Hoje vibra em meu ser e no meu coração as Palavras do Mestre: “Quem não tem pecado atire a primeira pedra. Aonde estão aqueles que te condenaram? Ninguém te condenou, nem eu te condeno, vai, e não voltes a pecar”.

Como faz bem trazer ao coração as Palavras daquele que me chamou, contou e continua contando comigo. Sei disso. Não só sei, tenho certeza. A minha mãe é a Igreja na qual sou servo. Certamente ela não me abandonará, porque ela é mãe.
Sou o que sou. Fiz o que fiz. Estou profundamente arrependido. A justiça humana julgará. Sinto que diante de Deus sou tratado como filho, sou querido como sempre fui, porque conheço o Pai que tenho. Afastei-me, machuquei o meu coração e o coração do Pai, da minha família humana e espiritual. Manchei sim as vestes do meu ministério. A minha vocação que nasceu de maneira tão simples e cresceu de forma tão equilibrada, agora se desequilibra. Sei, porém, que essa aparente vitória do maligno é passageira. 

Sei em quem acreditei e vou continuar acreditando, porque o amor de Deus por mim é maior do que tudo. Ele me amou por primeiro, e seu amor por mim é verdadeiro! Eu falhei, mas Ele não falha. Ele me ama. Como me faz bem tomar consciência de que, apesar de tudo isso, posso contar com alguém que olha nos meus olhos e me acolhe, me abraça e quer contar comigo como filho.

Dom Anuar Battisti é Arcebispo Metropolitano de Maringá

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