Jesus Cristo



Maria Madalena, de madrugada, viu o túmulo vazio

O evangelista João começa a narrativa do túmulo vazio na madrugada do primeiro dia da semana, dizendo: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo amado e disse-lhes: Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram” (Jo.20,1-2).

Naquela madrugada Maria Madalena fez e experiência do vazio. Nem mesmo o cadáver do Senhor Jesus estava ali. Nada restava para fazer o luto. Como é doloroso a morte de um ente querido quando seu corpo desapareceu, onde não existe túmulo para ir em homenagem. Quantas Madalenas, quantos Pedros e Joãos ainda hoje vivem a mesma experiência.

Aquele coração de mulher, transpassado pela dor, nunca imaginaria que se tratava de ressurreição.  Era o primeiro dia da semana, um novo dia, um novo tempo, uma nova vida começava a existir fora do túmulo.

O Homem novo iniciava a sua existência constatado por uma mulher que vai sozinha, na madrugada, no escuro. Foi ela que fez Pedro e João correrem para testemunhar que o túmulo estava vazio e os lençóis dobrados. Dois sinais apenas: o túmulo e os lençóis. Caminho de perda e de silêncio, nenhuma explicação, só o tempo vai dar razões para continuar vivendo.

A comunidade começa a acreditar na notícia depois do testemunho, da mulher e dos discípulos. Tudo começa no escuro da madrugada, do nascer de um novo dia. No caminho da vida, as noites escuras podem oferecer um novo caminho. As trevas não são só causa de domínio do mal, são oportunidades de ver a luz de maneira nova, ver de novo que tudo pode ter um recomeço mesmo sem saber como será.

A pergunta que certamente cruzava a mente e o coração daqueles homens e mulheres era: O que faremos agora depois que perdemos o Mestre?

Na medida em que a comunidade se une para buscar uma saída, aparece Jesus, e o povo começa a entender que Jesus devia ressuscitar dos mortos.

A experiência do ressuscitado não acontece automaticamente. Não se torna algo compreensível de imediato. Tudo será entendido na medida em que juntos buscam uma luz.

Mesmo sem a presença de todos, ali se manifesta o Senhor, o Mestre, Aquele que sopra sobre Ele o Espírito da vida, do entusiasmo, da alegria, dissipando o medo. “Não tenhais medo! Sou eu que falo com vocês”.  O sopro do Espírito abre a mente  e o coração e faz cantar : Aleluia o Senhor ressuscitou! Ele está vivo. Aleluia! Desde aquela madrugada escura e fria, a notícia é sempre a mesma: “O túmulo está vazio, só ficou o lençol dobrado. A vida venceu a morte! Eu também vou vencer e contemplar o túmulo da minha vida, vazio das minhas misérias, e recomeçar um caminho novo na direção do céu, da verdadeira vida. Assim a Páscoa (passagem) não será um dia e sim um propósito de vida.

 

Dom Anuar Battisti

Arcebispo de Maringá-PR

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Semana Santa: “Deus não se cansa de perdoar”

Semana Santa: “Deus não se cansa de perdoar”

 

Celebramos ontem (24) o Domingo de Ramos, também chamado de Domingo da Paixão, quando iniciamos a Semana Santa; tempo único durante o ano para parar, contemplar e recomeçar um caminho a exemplo de Jesus.

Eu chamo esta semana de a “grande semana do perdão”. O perdão de todas as nossas falhas, a vida nova conquistada na Paixão, morte e ressureição do Senhor Jesus.

Estes fatos aconteceram porque temos um Deus que nos ama, que tomou por primeiro a iniciativa de nos resgatar da miséria humana e nos cobrir para sempre com a Sua infinita misericórdia. Por isso é uma semana especial, um tempo que revivemos a cada ano, não como fatos do passado e sim como atualização aqui e agora da presença de Deus que continua  salvando a cada um de nós, criaturas feitas a Sua imagem e semelhança.

Ao contemplar o Pai Deus que em seu Filho Jesus nos ama perdoando e nos perdoa amando, nos chama para realizar aqui e agora a mesma realidade do amor perdão entre nós humanos.

Sem merecimento fomos perdoados por um Deus tão humano e próximo de nós. Por que somos tão mesquinhos em negar o perdão ou ficar guardando rancor e raiva de quem com motivos ou não nos feriu em nossos sentimentos?

Nas nossas relações humanas nunca se deve buscar culpados e sim estabelecer relações verdadeiras, no amor desinteressado, construindo o que nos aproxima e nunca o que nos divide.

Nesta semana os fatos que vamos reviver começam na quinta-feira às 9h30 na Catedral com a missa da benção dos óleos do crisma, do batismo e dos enfermos.

Na presença de todos os presbíteros, os quais renovam nesta missa os compromissos presbiterais, pois foi na quinta- feira que Jesus instituiu a Eucaristia e o presbiterato.

Esta celebração marca o início de todos os fatos de nossa salvação. À noite, em todas as igrejas, haverá celebração da Ceia do Senhor com o lava pés.

Relembrando aquele gesto e aquelas palavras de Jesus: “Se eu  Mestre e Senhor lavei-vos os pés, vos deveis lavar os pés uns dos outros”.

Naquela memorável noite Jesus deixa a sua presença nas espécies de pão e vinho dizendo: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue, fazei isto em memória de mim”.

Na Sexta-feira Santa comtemplamos a Paixão de Jesus, às 15h na leitura da Paixão e nas orações por toda humanidade. Celebração que não é a missa; aliás, esse é o único dia do ano que não celebramos a missa, mas distribuímos a Eucaristia, consagrada na missa de quinta- feira santa. Sexta-feira Santa é o dia da morte do Senhor, quando derrama do alto da cruz sangue e água, num grito de salvação: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito”.

Contemplamos a cruz, beijamos a cruz, como sinal de  nosso resgate, como reconhecimento do imenso amor de Deus em Jesus por todos e cada um de nós. Ninguém como Ele para nos amar tanto e de tal forma.

Sábado da Vigília Pascal, abençoamos o fogo, e acendemos a coluna de cera, simbolizando a luz de Jesus que dissipa as trevas e ilumina a noite do pecado.

Abençoamos a água, vida nova, nascimento para Deus, batismo, banho de regeneração, noite do aleluia, de um grito de vitória que culminará na madrugada de domingo.

Naquela penumbra do terceiro dia, algumas mulheres e três apóstolos são as primeiras testemunhas do túmulo vazio.

A notícia não parou até hoje. Continuamos nós também a proclamar que o Senhor está vivo. O ressuscitado está no meio de nós, caminha conosco, como nos diz o apóstolo Paulo: “Se Cristo não tivesse ressuscitado vazia seria nossa fé”. Essa é a nossa Páscoa, vida nova em Cristo Deus que não se cansa de perdoar.

 

Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá-PR

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A Semana Maior, a Semana Santa

No Domingo de Ramos termina a Quaresma e iniciamos um tempo forte de graça em nossas vidas e de nossas comunidades. Esta semana tem início com o Domingo de Ramos. A liturgia desse dia une, na mesma celebração, dois momentos contrastantes. O de aclamar o Rei da glória erguendo ramos em saudação – “Bendito o que vem em nome do Senhor” – e o de condenar o servo sofredor, levantando os punhos enraivecidos — “Crucifica-o!”. As duas vozes nascem das mesmas pessoas. Essa contradição é a marca da vulnerabilidade do ser humano no caminho do seguimento de Jesus.

A Semana Santa permite ao cristão, a cada ano, mergulhar em maior profundidade nos acontecimentos de sua fé e sair para novos rumos na vida pessoal e comunitária. Por isso que esses dias são diferentes e nos levam a reviver os fatos fundamentais da nossa fé.

A vida se encontra com a morte e a morte é vencida pela ressurreição. As celebrações desta semana nos levam a entender melhor o que motivou a morte de Cristo e se aprofundar nas palavras dirigidas a Madalena: “Porque muito amou, muito será perdoado” (Lucas 7, 47).

O “Tríduo Pascal’ – os três dias mais importantes desse período – começa na Quinta-feira Santa. Pela manhã, na Catedral, vamos celebrar com todos os Presbíteros a Missa do Crisma com a benção do óleo dos enfermos e dos catecúmenos (aqueles que serão batizados).

Este mesmo óleo também é usado para ungir os Presbíteros no sacramento da Ordem como também os que serão ordenados bispos. A celebração Eucarística da noite nos faz reviver o imensurável amor de Deus pela pessoa humana. É a inesquecível `lição´ do lava-pés, e a instituição perpétua da eucaristia.

Um gesto que escapa da nossa humana compreensão: “Jesus, tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até fim” (Jo 13,1). Amor este que não podia ir mais longe do que foi: “Se eu, Senhor e mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros” (Jo 13,14). Em outras palavras: “Do modo como vos amei, amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34).

O Amor onipotente de Deus quis tornar-se presente para sempre, na forma de sacramento: “É o meu corpo entregue por vós… O meu sangue por vós derramado”. Em todas as missas que se celebra, o passado torna-se presente — a morte e a ressurreição — e o presente anuncia o futuro: “Vinde, Senhor Jesus!”

Na Sexta-feira Santa, precisamente às 15h, quando, segundo os Evangelhos, Jesus suspenso na cruz “inclinando a cabeça entregou o espírito” (Jo 19,30) a Igreja reúne os fieis para a grande oração constituída em quatro momentos.

 

O primeiro deles é o da escuta da paixão narrada pelo evangelista João. Somos conduzidos a seguir os últimos passos daquele que não veio ser servido, mas servir e dar a vida em resgate por muitos. Desde o Jardim das Oliveiras, até o Monte Calvário onde, pendendo da cruz, braços abertos sobre o mundo, entrega seu espírito nas mãos do pai, exclamando em alta voz: “Tudo está consumado!”.

No Sábado Santo, durante a noite que se estende pela madrugada, acontece o mais esperado momento durante toda a Quaresma e a mais esplêndida e significativa celebração entre todas as liturgias da Igreja: a Vigília Pascal, a festa da Luz: o Cristo ressuscitado, simbolizado no Círio Pascal.

Diante dessa luz canta-se a exultação do céu, da terra e da mãe Igreja pela vitória da vida sobre a morte. “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24, 6). Diante dessa luz renovam-se as promessas do batismo pelo qual se morre e se é sepultado com Cristo e se ressuscita com Ele.

Ó madrugada bendita, do terceiro dia, cuja notícia veio das mulheres. Ele não esta aqui, o túmulo está vazio! Ressuscitou! Aleluia!

Aqui está a Páscoa do Senhor e a nossa Páscoa. Ele está vivo! Cristo ressuscitado. A luz venceu as trevas e nesta luz queremos caminhar sempre. Feliz Páscoa, feliz passagem da morte, da violência, do ódio, da vingança, do pecado, para a vida da graça e da ressurreição!

 

 

Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá-PR

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