Mês: maio 2013



Bircat Hachamá – A Bênção do Sol

De acordo com o Talmud (Tratado Berachot, pg. 59b), a cada 28 anos o sol completa um ciclo e volta ao lugar que ocupava quando foi criado por D’us, no quarto dia da Criação. Esse fenômeno ocorrerá neste ano, numa quarta-feira, no dia 8 de abril (ver Morashá edição 63, dezembro de 2008). Nossos Sábios pediram para que nessa data seja reunido o maior número possível de pessoas, amigos e familiares, nas sinagogas, para que juntos recitem a Bênção do Sol:

“Baruch Ata Ado-nai Elo-hei-nu Melech HaOlam Ossê Maassê Bereshit”.

“Bendito és Tu, Senhor nosso D’us, que renova os atos da Criação”.

 

A recitação dessa bênção é uma das mitzvot (mandamentos Divinos) mais raras de ser cumpridas, já que ocorre somente a cada 28 anos. Que nesta data tão singular de nosso calendário, possamos, através do cumprimento dessa mitzvá, iluminar o mundo que nos rodeia, trazendo paz e alegria aos seres humanos e apressando a chegada de Mashiach, brevemente em nossos dias.

O sentido da Sefirat HaOmer

A Contagem do Omer dura 49 dias. O mandamento da Contagem do Omer (Sefirat HaOmer) tem vários propósitos, um deles sendo ligar a festa de Pessach à de Shavuot. A Contagem do Omer começa na segunda noite de Pessach – após a reza da noite (Arvit), antes do Seder. Se alguém se esquecer de contar o Omer à noite, poderá fazê-lo no dia seguinte, mas sem recitar a berachá (bênção) associada a essa mitzvá. Este ano, a Contagem do Omer se iniciará na noite do dia 9 de abril. Ao final dos 49 dias da Contagem, é celebrada a festa de Shavuot, que comemora a outorga da Torá, sendo o ponto culminante da libertação física e espiritual do povo judeu. A Contagem do Omer tem profundo significado místico, mas também nos ensina várias lições de vida.

 

Quando se faz uma contagem ou medição, é para assegurar que certa quantidade variável corresponde a um determinado número ou medida exata. Contar os dias do Omer parece não ter um propósito prático, pois o tempo é algo que está além do controle e da influência humana. Sabemos que o tempo avança independentemente do homem. Não se pode acrescentar nada aos 60 minutos compreendidos em uma hora ou às 24 horas que constituem um dia. Porém, cabe ao homem preencher o tempo que lhe é dado de forma proveitosa. A mesma unidade de tempo pode significar muito para alguns e quase nada para outros. Em termos relativos, o tempo é medido conforme é utilizado.

É aí que se encontra um dos sentidos especiais da contagem dos dias até o recebimento da Torá, cuja “medida é mais longa que a Terra e mais larga que o oceano”. A Torá contém a infinita Sabedoria de D’us. Ao mesmo tempo, ela foi dada ao homem, que é finito, e cuja expectativa de vida é limitada. Como pode um ser limitado apreciar um presente eterno?

Para preparar o homem para receber a Torá, D’us ordenou que se contassem os dias até a sua outorga. Esta foi uma forma de ensinar ao ser humano a excepcional dimensão do tempo. Quando um homem estuda a Torá ou cumpre seus mandamentos, ele cria um vínculo com um Ser Infinito. Portanto, seu ato se torna eterno e sua vida passa a ter um significado imensurável. Apesar de o tempo ser praticamente fixo e imutável, se o homem o medir em função de suas realizações no domínio da Torá e dos seus mandamentos, que são eternos, é possível transformar o tempo, que é limitado, em algo ilimitado e eterno.

 

 

 

Obrigado pela leitura!

Pesquisa, tradução e edição: Rakel Mastrandea Eretyz e Vital Ben Waisermman.

 

Jerusálem,   15 Sivan 5773 /Maringá,24 de maio 

 

de 2013

Atenciosamente, Vital Ben Waisermman,  responsável pelo Blog

 

 

 

 

 

 

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A mecenas da arte moderna ….Peggy Guggenheim

 

Peggy Guggenheim foi uma das mais importantes mecenas e colecionadoras de arte do século XX.

O nome Guggenheim é sinônimo de arte em todo o mundo.

 

A simples menção do nome remete imediatamente ao Museu Guggenheim de Nova York, cuja fundação leva o nome de seu tio, Salomon. O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que o amor à arte estava presente em outros ramos da família deste, e, em especial, no coração de sua sobrinha.

Ao longo dos anos, Peggy organizou uma das mais importantes coleções de arte moderna do mundo e patrocinou inúmeros artistas nos Estados Unidos e na Europa, entre os quais, Jackson Pollock. Escreveu dois livros sobre sua tumultuada vida pessoal: Out of This Century, de 1946, e Confession of an Art Addict, de 1960. Em 1970, nove anos antes de sua morte, ela reuniu as duas obras em uma só, postumamente publicada em 1980.

Peggy passou grande parte de sua vida na Europa, apesar de ter nascido em Nova York, em 26 de agosto 1898. Filha de Benjamin e Florette Seligman Guggenheim, Peggy, originalmente chamada de Marguerite, tinha mais duas irmãs. Apesar de sua riqueza, teve uma infância infeliz. Vivia isolada estudando em casa e não teve contato com outras crianças. A grande fortuna que herdou tanto do lado paterno quanto materno, no decorrer de sua vida, foi destinada à arte. Seu avô materno, Seligman, era proveniente de uma família de fazendeiros e apesar de ter iniciado sua vida como pedreiro, logo prospera e se torna um grande banqueiro. O avô paterno, Meyer Guggenheim, por sua vez, nasceu na Suíça alemã e se tornou proprietário da maioria das minas de cobre do mundo, garantindo uma imensa fortuna para sua família, por muitas gerações. Segundo estudiosos, no entanto, o patrimônio que Peggy herdara poderia ser ainda maior se o pai não se tivesse retirado dos negócios familiares em 1910, passando a morar na Europa. Dois anos mais tarde, em 1912, morreu no trágico naufrágio do transatlântico Titanic. Foi justamente dele que ela herdou o amor pela arte.

Foi este sentimento que a levou à Europa ao receber sua herança, em 1919. Até então, havia estudado inicialmente com tutores e, aos 15 anos, freqüentara a Jacobo School, uma escola judaica para meninas, em Nova York, de onde se formou, em 1915. Quando decidiu partir para a Europa, pretendia, a princípio, apenas fazer uma curta visita, que acabou transformando-se em uma estadia de 21 anos. Foi na Europa, mais especificamente em Paris, que ela se casou com o pintor Laurence Vail, em 1922. Tiveram dois filhos: um menino e uma menina. O casamento, no entanto, acabou em divórcio, em 1930. Através do marido, ela passou a se interessar pela arte e a se aprofundar na arte italiana e européia. Influenciada por amigos artistas, como Marcel Duchamps, começou a enveredar pela arte moderna – que pouco conhecia – e abriu sua primeira galeria, a Guggenheim Jeune, em Londres, em 1938. A vernissage de inauguração trazia obras de artistas de vanguarda, como Jean Cocteau e Vassily Kandinsky. De cada autor que expunha, Peggy sempre comprava uma obra. Assim iniciaram-se uma grande coleção e uma carreira que iriam influenciar profundamente a arte do pós-guerra.

Seu entusiasmo crescia a cada dia e, dentro de pouco tempo, fazia planos para transformar sua galeria em museu de arte moderna. A eclosão da Segunda Guerra Mundial, no entanto, acabou com o seu projeto. Ela, porém, não desistiu do objetivo de montar uma grande coleção e foi à França, em busca de novas obras. A chegada das tropas alemãs ao território francês, em 1941, forçou-a a retornar aos EUA. Com o avanço da tropas nazistas, Peggy reuniu, em alguns meses, umas cinqüenta obras importantes, entre as quais Klee, Miró, Dali, Maigritte, com o intuito de preservar esses maravilhosos testemunhos de uma época, inestimável patrimônio cultural. Mas como salvar a coleção das mãos dos nazistas? Peggy esperava que o Louvre fizesse um gesto neste sentido, mas o Museu considerou que as obras eram muito recentes para serem salvas juntamente com os “tesouros nacionais”. Finalmente, escondida na granja de um castelo próximo a Vichy, a coleção de Peggy Guggenheim escapou da destruição. A coleção é, em seguida, enviada para Nova York, disfarçada no meio de seus vestidos e casacos, onde estava marcado “objetos pessoais”. Nessa época conturbada da guerra, Peggy não se concentrou apenas na arte, dando, também, considerável apoio aos artistas em dificuldades ou em perigo de vida. Graças a ela, dez artistas judeus escaparam dos nazistas. Entre eles, o grande pintor, Max Ernst, que se refugiou nos Estados Unidos. Ernst e Peggy acabam tornando-se muito próximos, em Nova York, e se casam em 1941. Mas definitivamente, ela não foi feliz em sua vida particular: acaba divorciando-se novamente, em 1946.

Tornou-se conhecida como uma das mais importantes incentivadoras do expressionismo abstrato da escola nova-iorquina. Nova York foi também a cidade que Peggy escolheu para abrir a Art of the Century, uma galeria de vanguarda na qual montou um acervo permanente com a coleção que já possuía e onde realizava também outras mostras especiais. Na agenda, incluíam-se nomes como Jackson Pollock, Robert Motherwell, Mark Rothko e outros pintores modernos. De todos os artistas que patrocinou, Peggy manteve uma relação mais especial com Pollock. Confiante no seu talento, dedicou-se de 1943 a 1947 à promoção de sua carreira, tendo assinado um contrato com o artista que lhe garantia inclusive um salário fixo mensal.

Seu amor pela Europa, onde passara duas décadas, levou-a de volta ao velho continente ao término da Segunda Guerra Mundial. Dessa vez, escolheu Veneza para morar, comprando o Palazzo Venier dei Leoni, construído no século XVIII, para ser seu novo lar. Foi lá que ela montou uma exposição permanente das obras que colecionara, mantendo-a aberta ao público. Esporadicamente, realizava mostras em outras cidades européias. Para os italianos, Peggy era L’Ultima Dogaressa, a mecenas de inúmeros artistas do país, entre os quais, Trancredi Parmeggiani. Sua coleção era considerada única por especialistas europeus, seja pela perspectiva histórica das obras, seja por ser uma das mais representativas manifestações do expressionismo abstrato norte-americano.

Peggy morreu em 23 de dezembro de 1979 na cidade de Camposampiero, sendo enterrada em Veneza, cidade que considerava seu verdadeiro lar. Curiosamente, Veneza está localizada a poucos quilômetros da cidade suíça onde seus avós, Meyer e Bárbara, nasceram. Foi como se um círculo se completasse.

Nos últimos anos de sua vida, pouco acrescentou às obras de sua coleção, dizendo que a arte contemporânea tinha-se tornado apenas “um negócio” e que os artistas produziam “obras que não mereciam sequer esse nome”. Com sua morte, deixou sua casa e a coleção de arte para a Fundação Solomon R. Guggenheim, que, assim, passou a dirigir a Coleção Peggy Guggenheim de Veneza.

A Fundação Solomon Guggenheim

Criada em Nova York, em 1937, a Fundação Guggenheim tinha como objetivo promover a arte contemporânea, ao mesmo tempo em que administrava a coleção do mecenas de origem suíça, Solomon Guggenheim (1861-1949), tio de Peggy.

Em 1943, a Fundação confia ao arquiteto Frank Lloyd Wright a concepção da estrutura em forma de espiral de seu primeiro museu, em Nova York. Com o passar dos anos e, inclusive com as doações de Peggy Guggenheim, a coleção da Fundação continua enriquecendo-se com novas aquisições e outros fundos. Contando com cerca de dez mil obras, representa atualmente a mais importante coleção moderna e contemporânea do mundo, com obras cubistas, expressionistas, surrealistas, futuristas, dadaístas e outras, de autoria de Kandinsky, Picasso, Chagal, Léger, Dali, Giacometti… ou seja, extremamente eclética.

A originalidade dessa Fundação é sua proposta de formar uma rede de locais de exposição, em diferentes pontos do planeta. Mesmo sediada em Nova York, a ausência deliberada de um centro nevrálgico preciso lhe permite reduzir os custos das exposições temporárias, aumentar suas receitas através de doações e fazer com que as obras circulem tanto quanto possível. Este sistema de gestão de coleções, próprio da Fundação Guggenheim, foi qualificado de “museu de franquia” despertando tanto a admiração de uns como a crítica de outros.

Atualmente a Fundação Solomon Robert Guggenheim dirige não apenas a coleção Peggy Guggenheim, mas também o Museu Salomon R. Guggenheim e o Museu Guggenheim Soho de Nova York, o Deutsche Guggenheim de Berlim, o Guggenheim Hermitage de São Petersburgo, o Guggenheim Museum de Las Vegas e o Guggenheim Museum de Bilbao, aberto há dez anos, na Espanha.

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Pesquisa, tradução e edição: Rakel Mastrandea Eretyz e Vital Ben Waisermman.

Jerusalém,   7 Sivan 5773 /Maringá,16 de junho de 2013

Atenciosamente, Vital Ben Waisermman,  responsável pelo Blog

 

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A invenção do telefone[Johann Philipp Reis ]

Quatro inventores, em três países diferentes, disputam o cobiçado título de “pai do telefone”. apesar de Alexander Graham Bell ser tradicionalmente creditado como o “vencedor” da corrida pela invenção do telefone, marco do final do século XIX, Johann Philipp Reis, Antonio Meucci e Elisha Gray também criaram aparelhos com semelhante finalidade.

A descoberta de documentos, em outubro de 2003, no Museu das Ciências de Londres (Grã-Bretanha), reforçou a tese de que teria sido J. Philipp Reis, judeu alemão de descendência portuguesa, quem, 15 anos antes de Alexander Bell, criara um aparelho que transmitia e recebia sons. Os documentos encontrados pelo curador de comunicações da instituição, John Liffen, comprovam a realização, já em 1863, de testes bem-sucedidos com a engenhoca. O aparelho transmitia conversas com sinais fracos, recebendo sons de boa qualidade – mas o padrão dos sons era de baixa eficiência. Reis deu ao aparelho o nome de “telefone” – das Telephon, em alemão, termo que passaria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos seguintes. Essa palavra já havia sido utilizada antes em outros sentidos, como por exemplo, para descrever tubos de comunicação. O equipamento criado por Reis, no entanto, foi o primeiro “telefone” elétrico capaz de transmitir sons.

A vida do inventor

 

Johann Philipp Reis nasceu em janeiro de 1834, na pequena cidade alemã de Gelnhausen. Seu pai, Segismundo Reis, padeiro sem maiores recursos, era filho de judeus portugueses oriundos da Beira Baixa, estabelecidos, desde fins do século 18, em Hamburgo, onde florescia uma comunidade oriunda de Portugal.

 

Órfão de pai e mãe, Johann Philipp foi criado pela avó materna, mulher culta e religiosa, que matriculou o neto no conceituado Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, arredores de Frankfurt. O jovem passava horas na biblioteca do Instituto Hanssell, lendo tudo o que conseguia, principalmente sobre suas matérias preferidas: geografia, matemática, física e idiomas. Seu amor às ciências já era evidente e seus professores recomendaram aos tutores que o fizessem seguir os estudos na Escola Politécnica de Karlsrühe. Mas um de seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, e, em 1850, começa a trabalhar como aprendiz em uma firma de corantes, em Frankfurt. Mas o jovem tinha outras aspirações. Autodidata, em seu tempo livre continuou a estudar matemática e física, filiando-se à Associação de Físicos de Frankfurt. Foi em 1852 que, pela primeira vez, deu expressão às suas idéias de gerar sons através da eletricidade.

Em 1858, Hofrath Garnier, amigo e antigo professor, contrata-o para lecionar matemática e ciências no Instituto Garnier, onde estudara. Um ano mais tarde, Johann Philipp casa-se com a filha de seu tutor, com a qual teve dois filhos. A casa onde moravam em Friedrichsdorf foi transformada em um museu dedicado ao inventor.

 

O acaso levaria Johann Philipp a iniciar a caminhada em direção à invenção do telefone. Sua avó, já em idade avançada, tinha problemas auditivos e, em 1852, com apenas 18 anos, o jovem começou a investigar a possibilidade de criar uma “orelha artificial” para reduzir a surdez da avó que o criara. Nos fundos de casa, em um barracão rudimentar, improvisou um laboratório. Conseguiu criar seu primeiro aparelho com componentes inusitados: um violino, uma agulha, uma rolha de cortiça oca, fios de cobre e pele de salsicha. Esticada sobre a rolha, a pele servia de membrana para seu rudimentar microfone. Em seguida, usou cera para ligar o fio de cobre à membrana. Essa conexão era, então, ligada às cordas do violino, que funcionava como receptor e caixa acústica. Os primeiros resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.

 

Dois anos mais tarde, em 1854, um artigo do telegrafista francês, Charles Bourseul, publicado na revista L’Illustration de Paris, fornece uma base teórica às experiências de Reis. No trabalho, o autor descrevia sua teoria sobre a transmissão de sons através de uma corrente elétrica intermitente.

 

Longo caminho

 

Philipp Reis imaginava que a eletricidade poderia propagar-se através do espaço da mesma maneira que a luz, sem o auxílio de materiais condutores, e realizou alguns experimentos neste sentido. Os resultados obtidos foram descritos no trabalho “Sobre a Radiação da Eletricidade”, enviado em 1859 ao professor J. C. Poggendorf, para ser incluído no respeitado periódico Annalen der Physik. Para grande decepção do jovem autor, o texto foi rejeitado. Nem assim, no entanto, desistiu de suas idéias.

 

Em 1860, 16 anos antes de Bell registrar sua patente e quase dez anos após as primeiras experiências de Reis, suas tentativas começam a produzir resultados significativos. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi “das pferd frisst keinen gurkensalat” (literalmente, “o cavalo não come salada de pepino”). Escolheu esta frase curiosa para ter certeza de que cada palavra seria entendida sem que o ouvinte precisasse “adivinhar” o significado da sentença.

No ano seguinte, com apenas 27 anos, Johann Philipp Reis decide fazer sua primeira demonstração pública, provando, com sucesso, a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente elétrica em ondas sonoras. Em 26 de outubro de 1861, proferiu a palestra “Telefonia através de Corrente Galvânica”, perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt. Durante a demonstração foi possível ouvir uma música cantada por um cantor profissional posicionado a cem metros de distância. No entanto, só era possível reconhecer a seqüência de sons musicais, o aparelho não reproduzia nem as variações de intensidade do som nem as palavras cantadas, quanto menos as características da voz do cantor. “Das Telephon” não foi recebido com o entusiasmo que esperava seu inventor. A Sociedade de Físicos e parte da comunidade cientifica alemã classificaram a invenção como mero “brinquedo filosófico”. Mesmo assim, a primeira demonstração pública proporcionara a Reis relativo sucesso.

 

O assunto tornou-se tema tanto de conferências populares quanto de encontros científicos, a portas fechadas. Protótipos de sua invenção foram enviados para Londres, Dublin e outras grandes cidades. Dois anos mais tarde, 50 aparelhos foram fabricados por uma firma alemã e mais alguns na Inglaterra, porém sem grandes resultados. Enquanto alguns aparelhos funcionavam bem, outros transmitiam apenas ruídos de estática.

 

J.P.Reis realizou numerosas outras demonstrações de versões mais aprimoradas da invenção. O aparelho estava longe de ser perfeito e era preciso que o som fosse sempre muito forte para manter a oscilação da corrente. Construído para converter quebras de corrente elétrica em som, o equipamento conseguia transmitir música, mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida, na época, como “telefone musical”. Pode-se dizer que Reis inventou o primeiro aparelho para transmitir sons à distância por meio da eletricidade, o qual, porém não transmitia voz à distância. Infelizmente, não tinha aplicação prática suficiente para se transformar em sucesso comercial, pela dificuldade na compreensão das palavras e pelo fato de ser um equipamento delicado. Reis, no entanto, jamais desistiu e continuou com o aprimoramento até morrer.

Pouco antes de sua morte, escreveu: “Olhando para a minha vida, posso dizer, que tem sido de ‘trabalho e sofrimento’. Mas tenho também de agradecer a D’us, que deu a Sua bênção à minha carreira e à minha família, e me concedeu mais do que ousaria pedir. D’us ajudou-me até aqui. Ele há de me ajudar daqui para frente”. Morreu vítima de tuberculose, em 24 de janeiro de 1874, com apenas 40 anos de idade.

 

Em 22 de março de 1876, um editorial do The New York Times intitulado “The Telephone” apontava Johann Phillipp Reis como o inventor do fantástico aparelho. O texto não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois obteria uma patente norte-americana, sob o registro de “melhoramentos na telefonia”.

 

Posteriormente Bell afirmava ter transmitido sua mensagem doze dias antes da publicação do tal editorial. Ironicamente, quando Elisha Gray entrou na disputa com Bell pela patente, usou como sustentação para seu argumento o fato de o aparelho ter sido inventado por Reis – e não por Bell. O tribunal, no entanto, determinou que além de Bell ter entregado seu pedido antes, a invenção de Reis não poderia ser considerada um telefone de fato. Assim sendo, Bell ganhou a disputa pela patente.

 

Em 1878, um grupo de físicos da Sociedade de Frankfurt mandou erguer um monumento a Reis, definindo-o como “o inventor do telefone”. A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa.

 

Com a subida de Hitler ao poder, pelo fato de Johann Philipp Reis ser judeu, o regime nazista haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães, sendo reabilitado somente após a 2ª Guerra. Em 1952, ele foi homenageado pelo governo de seu país com uma coleção de selos comemorativos dos 75 anos do serviço telefônico na Alemanha. Um novo selo, este com uma gravura da invenção, seria emitido em 1989.

 

Em 1986, as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o “Johann Philipp Reis Preis”, prêmio que concede uma bolsa anual de 10 mil euros, destinado a premiar jovens cientistas que se distinguem no campo das telecomunicações.

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Pesquisa, tradução e edição: Rakel Mastrandea Eretyz e Vital Ben Waisermman.

Jerusalém,  23 Iyyar 5773 / Maringá, 03 maio de 2013.

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