Mês: julho 2011



Família

 

Extraído do livro “Arroz de Palma” – de Francisco Azevedo

Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um.

Os truques, os segredos, o imprevisível.  Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.

O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você?  É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida.

Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados.

Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre.

Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.

Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo,  em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria.

Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.  Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Enfim, receita de família não se copia, se inventa.

A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

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Mitos sobre mãe

 

Há vários mitos no mundo, cada um sobre temas tão diversos e que muitas vezes são ditos com tanta propriedade que compramos como verdadeiro. Elizabeth Badinter escreveu um livro na década de oitenta sobre o mito do amor materno onde descreve que é uma mentira que toda mãe ama instintivamente ao filho e que toda mulher quer ser mãe. Com base em uma avaliação profunda da história da vida social e familiar somado a estudos antropológicos, Badinter comprova que este amor materno é uma construção histórica social e religiosa.

É uma teoria densa e que contradiz toda uma cultura estabelecida. Entretanto, possibilita que as pessoas escolham se querem, se combinam com a ideia de ser mãe. O que não implica ser uma pessoa má ou egoista, mas somente alguém que prioriza suas verdades. Pois quantas mulheres tornam-se mãe e se sentem infelizes nesta tarefa?

Se esta ideia fosse mais divulgada quem sabe teríamos menos mães assassinando filhos ou os abandonando. Lembrando que abandono não é só físico, mas (e principalmente talvez) emocional.

Este ano Badinter lança outro livro em que descontroi o mito da mãe perfeita. Este material eu ainda não li, então vou descrever sobre as prévias que lí sobre ele. Neste material Badinter defende que cada mãe é diferente em seu jeito de ser e afirmar que há uma única maneira de ser mãe é exigir da mulher uma prisão. Onde ele precisa o tempo todo se adequar a padrões que muitas vezes não alcança. Não por ser incapaz ou má, mas simplismente por ser diferente, em sua personalidade, gostos e crenças. Se cada mulher puder ser a mãe que pode, com menos exigências e culpas, os filhos poderão desfrutar dela com muito mais prazer, assim como a própria maternidade será mais agradável e, quem sabe, mais desejada.

São teorias, que creio nos deixam mais humanos e tranquilos.

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Meu filho, você não merece nada!

 

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada

ELIANE BRUM – Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido.. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

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A porta do lado

 

 

Este material é ótimo para reflexão, dizem que é do Drauzio Varella, não sei se é verdade. Independente de quem seja é ótimo!

Em entrevista dada pelo médico Drauzio Varella, disse ele que temos um nível de exigência absurdo em relação à vida, que queremos que absolutamente tudo dê certo, e que, às vezes, por aborrecimentos mínimos, somos capazes de passar um dia inteiro de cara amarrada. E aí ele deu um exemplo trivial, que acontece todo dia na vida da gente…

É quando um vizinho estaciona o carro muito encostado ao seu na garagem (ou pode ser na vaga do estacionamento do shopping). Em vez de simplesmente entrar pela outra porta, sair com o carro e tratar da sua vida, você bufa, pragueja, esperneia e estraga o que resta do seu dia.

Eu acho que esta história de dois carros alinhados, impedindo a abertura da porta do motorista, é um bom exemplo do que torna a vida de algumas pessoas melhor, e de outras, pior.

Tem gente que tem a vida muito parecida com a de seus amigos, mas não entende por que eles parecem ser tão mais felizes.

Será que nada dá errado pra eles? Dá aos montes. Só que, para eles, entrar pela porta do lado, uma vez ou outra, não faz a menor diferença.

O que não falta neste mundo é gente que se acha o último biscoito do pacote. Que “audácia” contrariá-los! São aqueles que nunca ouviram falar em saídas de emergência: fincam o pé, compram briga e não deixam barato.

Alguém aí falou em complexo de perseguição? Justamente. O mundo versus eles.

Eu entro muito pela outra porta, e às vezes saio por ela também. É incômodo, tem um freio de mão no meio do caminho, mas é um problema solúvel. E como esse, a maioria dos nossos problemões podem ser resolvidos assim, rapidinho. Basta um telefonema, um e-mail, um pedido de desculpas, um deixar barato.

Eu ando deixando de graça… Pra ser sincero vinte e quatro horas tem sido pouco prá tudo o que eu tenho que fazer, então não vou perder ainda mais tempo ficando mal-humorado.

Se eu procurar, vou encontrar dezenas de situações irritantes e gente idem; pilhas de pessoas que vão atrasar meu dia. Então eu uso a “porta do lado” e vou tratar do que é importante de fato.

Eis a chave do mistério, a fórmula da felicidade, o elixir do bom humor, a razão porque parece que tão pouca coisa na vida dos outros dá errado.

Quando os desacertos da vida ameaçarem o seu bom humor, não estrague o seu dia… Use a porta do lado e mantenha a sua harmonia. Lembre-se, o humor é contagiante – para o bem e para o mal – portanto, sorria, e contagie todos ao seu redor com a sua alegria. A “Porta do lado” pode ser uma boa entrada ou uma boa saída… Experimente!

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Velhas tradições

 

Diante de cada circunstância temos uma tendência a agir ou reagir conforme experiências anteriores. Algumas vezes dá certo e outras não. Contudo, independente do resultado, nem sempre aquele comportamento vem de encontro com uma percepção pessoal da situação e sim como uma cópia da atitude de alguém. Alguém que adimiramos, alguém em quem confiamos, ou que tem autoridade sobre nós. Um exemplo deste último são os familiares.

O perigo de agir assim é o deixar de lado o seu jeito de ser, de pensar e de perceber o seu olhar sobre a situação. Será que você acredita naquilo? Que você pensa desta mesma forma? Que essa reação será boa para você? São ideias importantes para avaliar.

Se essa reflexão não acontece podemos agir como a moçinha recem-csada que foi fazer carne de panela. Comprou uma peça de carne a cortou ao meio e colocou cada metade em uma panela de pressão, pôs os ingredientes e deixou cozinhar. O marido quando chegou perguntou o por que de usar duas panelas. Ao que ela responde que foi assim que aprendeu com sua mãe. Após o almoço, ainda intrigada com a pergunta, foi conversar com a mãe e lhe questionou o por que de usar duas panelas. A mãe lhe responde que foi assim que aprendeu com sua mãe. A moça foi, então, perguntar a sua avó. Que lhe explica que foi como aprendeu com sua mãe. Como a bisavó ainda era viva e lúcida, a moça resolveu lhe perguntar. E a bisavó lhe respondeu que a família era grande, as panelas pequenas e por isso precisava usar duas panelas.

Quando não refletimos agimos assim: igual ao passado, mas por motivos que não são existem mais.

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Encontrar-se

 

Água Viva

Clarice Lispector

E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.

O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.

Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

 

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Realidade Factual X Realidade Psíquica

 

A saga Harry Potter arrebatou adolescentes, e alguns adultos, com uma profundidade vista por muitos como inexplicável. Entretanto, é a história de todo adolescente: medo, vergonha, sentimento de despertencer ao grupo, amizades, fidelidade, confiança, dificuldades. Quem não passa por tudo isto?

Todos passamos, mas na adolescência esses sentimetnos estão mais intensos. E devido a imaturidade são vivenciados com muito mais dor. Criar um mundo onde se é admirado, poderoso, onde se vence inimigos, e os que não te gostam acabam conquistados, é o desejo natural de todo ser humano.

Pois com estas ideias em mente fui assistir a última parte do filme ontem. E o que mais me chamou a atenção foi uma conversa entre Harry e Dumbledore:

Harry – Tudo isto está acontecendo ou é a minha mente?

Dumbledore – Ora, claro que é em sua mente, o que não significa que não seja verdade!

Este pequeno diálogo me fez pensar na ideia, conhecida alías, de que é menos importante o que acontece de fato do que aquilo que ocorre em nossa mente. Pois acontecem coisas dentro de nós sem que ninguém a nossa volta perceba, são sentimentos, pensamentos, confabulações, interpretações, enfim, tantas coisas e que muitas vezes são desprezadas, ditas por nós mesmos como incorretas, ou se ditas a outros são criticadas. Contudo, a realidade psiquíca é a verdade de cada um. A maneira como cada um recebe, vivencia uma mesma experiencia a torna tão complexa, tão única e por isso mesmo tão impossível de ser criticada. Pode ser discutida, conversada, mas nunca menosprezada.

É a realidade de cada um. O quanto é importante que seja valorizada, pensada, refletida, no mínimo por nós mesmos. Quando um paciente conta a um psicólogo sua história, não nos importa se aquilo aconteceu de fato, o que ouvimos é que aconteceu para ele. Dentro das emoções dele.

Na filosofia subjetivista a compreensão do pensamento se baseia em como cada indivíduo registra o conhecimento. Se for mostrado para várias pessoas um quadro abstrato, raros serão os casos de interpretações iguais. Tudo bem, este é um caso extremo. Vou exemplificar com outro: se estamos num mesmo local e somos assaltados, o assalto será de um jeito para mim e de outro para você. Se estamos dirigindo e uma pessoa buzina, um indivíduo entende como grosseria e outro como um pedido de licença. Isso é realidade psiquíca, é o entender de cada um. É como uma mesma história ecoa em cada ser de maneira tão única e desigual. Para mim, é o que nós faz diferentes e ao mesmo tempo tão especiais.

Que possamos valorizar as nossas verdades! Pois ainda que uma árvore caia na floresta e ninguém escute, isto não torna sua queda uma mentira.

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Nossas cavernas emocionais

 

O Mito da Caverna

Platão

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.

Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o priosioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo.

Extraído do livro “Convite à Filosofia” de Marilena Chaui.

Cada um de nós tem uma caverna, uma verdade absoluta, ou ao menos uma fenda nos olhos que serve de prisão, de impedimento para enxergar a vida num outro contexto, de outro prisma, de outra forma. Qual a sua caverna?

Além do fato de quantas vezes tentamos “matar” pessoas ou partes nossas (não ouvindo, não refletindo, não tentando) que nos contrariam, que nos mostram novos caminhos e possibilidades. Pelo medo de mudar nos mantemos num comportamento igual, mesmo que signifique escuridão.

A luz e a liberdade pode estar a sua frente. Que partes suas o impedem de vivê-la?

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Troca de ohares

 

Um poema para reflexão, de Jacob Levy Moreno

Divisa

“Mais importante do que a ciência é o seu resulto, uma resposta provoca uma centena de perguntas.

Mais importante do que a poesia é o seu resultado, um poema invoca uma centena de atos heroicos.

Mais importante do que o reconhecimento é o seu resultado, o resultado é dor e culpa.

Mais importante do que que a procriação é a criança.

Mais importante do que a evolução da criação é a evolução do criador.

Em lugar de passos imperativos, o imperador.

Em lugar de passos criativos, o criador.

Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face e quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e coloca-los-ei no lugar dos meus.

E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus.

Então ver-te-ei com os teus olhos.

E tu ver-me-as com os meus.

Assim, até a coisa comum serve o silêncio.

E nosso encontro permanece a meta sem cadeias: o lugar indeterminado, num tempo indeterminado, a palavra indeterminada para o homem indeterminado”

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A construção da identidade

 

Betty Milan, psicanalista e colunista da Revista Veja, fez um texto esta semana sobre o que a arte ensina de melhor. Há um trecho que me fez pensar muito:

“A história de Manet mostra que o verdadeiro artista renuncia ao reconhecimento imediato para fazer valer um ponto de vista novo. Não quer fazer o que os predecessores já fizeram, insite na originalidade. O que a arte ensina de melhor é isto: resistir aos imperativos do sucesso e valorizar a própria singularidade. Em outras palavras, ensina  a coragem de diferir e a ter a paciência necessária para si impor, o que não é pouco”

Que ideia valoroza! Numa sociedade que impõe o aceitável, correto, adequado como normas de conduta ter personalidade própria soa como errado. O que nos impossibilita de sermos nós mesmos. Cada ser é tão único que nos máximo as vezes pensamos igual, mas no geral somos diferentes. O que tem grande valor. Construir uma identidade é se posicionar, se escolher em detrimento do que os outros vão querer ou penar.

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