A casa interna

O lugar onde crescemos tem um grande significado em nossa história. Os que tem a sorte de crescer numa mesma casa fazem desta idéia algo ainda mais amplo. O local onde vivemos nos proporciona senso de localização, espaço, limites e deveres, além de todas as marcas emocionais que ali vivenciamos. Aprender a cuidar deste espaço, a ter por ele carinho é que indica que ali pode ser um lar. Ou seja, um espaço único e pessoal, com significados.

Da mesma forma que com este espaço físico também temos um lar mental. Uma mente com capacidades de nos acolher e cuidar. Contudo, muitas pessoas não conseguem fazer um bom uso deste espaço, cada um por razões diferentes. Mas não é incomum nem o desperdício nem o maltratato com a mente.

Numa casa mal cuidada surgem sujeiras, bichos, brechas, problemas serios e por vezes difíceis – e caros – de se resolver. O mesmo ocorre com nosso psíquismo, cuidar de nossas emoções, parar e pensar antes de reagir, se acolher diante de uma dor, se apoiar mesmo quando outros nos reprovam, se valorizar, se perdoar, são alguns cuidados que podemos ter com nossa casa mental.

Infelizmente não somos ensinados a isto, nossa sociedade nos induz a uma vida mais focado no externo, no outro, no visível. Talves por esta razão as casas sejam mais limpas para os outros verem do que nos cantinhos escondidos, não é a toa os ditados: limpar para inglês ver ou jogar sujeira embaixo do tapete! Uma limpeza de verdade, a tão conhecida faxina, da muito trabalho. Mas é ela que possibilita um espaço agradável para viver. Não será o mesmo com nossas emoções?

Entrar em contato com nossas emoções é remexer com o passado, é entrar em contato com lembranças ou sujeiras nem sempre fáceis de encarar. Metas não alcançadas, sonhos desfeitos, relações perdidas, erros. Isso dói, dói muito! Então deixamos ali, como sujeira embaixo do tapete, o problema é que uma hora o monte fica grande e acabamos tropeçando.

Temos um universo de emoções dentro de nos, como as organizaremos é uma tarefa única, pessoal e intransferivel.

Finalizo com um lindo e profundo trecho do livro O tempo perdido de Marcel Proust:

“Alegam os poetas que, ao aldentrar alguma casa ou algum jardim onde moramos quando jovens, reencontramos por um instante aquilo que já fomos. São peregrinações muito arriscadas, que produzem em igual medida sucessos e desilusões. Esses lugares fixos, contemporâneos de outros anos, é dentro de nos mesmos que mais convém encontra-los”.

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