Mês: novembro 2012



A poeira nossa de cada dia

Limpar a casa, tirar pó dos móveis, lavar roupa, arrumar a cama são atividades que por mais que se faça hoje precisará ser feito de novo no outro dia, talvez por isso a antiga música “lavar roupa todo dia que agonia…” Pois é uma agonia mesmo. São atividades corriqueiras que demandam tempo, capricho, dedicação e atenção e que não tem fim, se repetem diária e eternamente. Quanto  tempo dura uma casa limpa? Bem, isso depende de cada casa o que pode variar de algumas horas até alguns dias. Mas não passam de 2 ou 3 dias e a sujeira está lá, novamente instalada, se achando a dona do espaço. E dai não tem jeito, a faxina precisa ser feita.

Será que com nossas emoções não ocorre o mesmo?

Também precisamos cuidar do que esta dentro de nós, limpar as emoções das poeiras e bagunças como mágoas, raivas, invejas, sofrimentos que se não cuidadas vão crescendo e tornando a vida mais pesada. Fazendo com que a mente se torne não um refúgio, um espaço de proteção e prazer, mas sim um espaço de tristeza e angústia intensa.

Sabe qual o cúmulo da rebeldia?

Morar sozinho e fugir de casa.

Esta piadinha de criança tem tanto a ver com a saúde emocional! O desejo de morte ou chegar as vias de fato e se suicidar esta relacionado a isto. A angustia que esta na mente é tão intensa que o desejo é fugir de si mesmo. É tão insuportável lidar com os pensamentos, com os sentimentos, com as lembranças que romper com a vida parece o único caminho de livramento. Na verdade não é a morte que o suicida busca e sim o estancamento da dor.

Entender que há outras saídas. Que esses sentimentos por piores que sejam, que as circunstâncias por mais graves que estejam, podem ser alteradas. Que há possibilidade de enfrentamento. Mas que este é, tal como a limpeza da casa, diário, contínuo e até extenuante.

Porem, o quanto vale a pena. Não é uma delícia ver a casa limpa, cheirosa e arrumada? Então, deu trabalho, mas foi válido.

Cuidar do esta dentro de nós também. Dá um trabalhão, cansa, mas faz um bem tão grande!

Contudo, diferente do lar, com as emoções os resultados são mais duradouros, pois aquilo que a mente apreende não se perde com o tempo. Isto é aprender a pensar os próprios pensamentos / sentimentos, ou seja, aprender a lidar com o que esta dentro de nós, não no intuito de não ter mais tal emoção e sim para aprender a pensar e enfrentar, pensar e suportar, pensar e não se desintegrar.

Comparando ainda com a limpeza é o ver a sujeira (emoções) é não se assustar com ela, é desenvolver uma maneira toda sua, particular, de enfrentar essa faxina. Não há fórmula mágica, mas há como desenvolver a sua fórmula de enfrentamento.

Então, que tal começar? Mãos à obra!

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Entre tapas e beijos…

O programa Tapas & Beijos transmitido pela Rede Globo nas terças a noite é, em minha opinião  o melhor do momento. Garantia certa de risadas e diversão. A dupla Fátima e Sueli super bem representadas por Fernanda Torrres e Andréa Beltrão demonstram de forma cômico-caricata as neuroses de relacionamentos: ciumes em excesso, impulsividade, conclusões precipitadas e por ai vai. Assistir ao programa é fantástico. Mas ser parte deste tipo de vivência já não é tão divertido assim, ao contrário, pode ser bem sofrido.

Há alguns capítulos atras fiquei pensativa no comportamento de Fátima e Armani, que apesar de apaixonados um pelo outro estão em processo de separação. Não é o que eles querem, eles se gostam, se dão bem juntos, mas o ciúmes dela e o jeito folgado dele são como álcool e fogo: matam qualquer relação. Tudo ali se resolve ou no sexo ou em virar a cara um para o outro, por isso a música: “entre tapas e beijos é ódio é desejo é sonho é ternura. Um casal que se ama até mesmo na cama provoca loucuras”.

Todo programa que faz sucesso tem um mote na realidade e casais que vivem assim são extremamente comuns. São relações cheias de adrenalina onde a química sexual normalmente é altíssima e a comunicação fraquíssima. Estar junto é muito prazeroso, desejado, mas conversar é garantia de briga. Trocar opiniões sempre dá confusão e o se resolver tem que ser na base do impulso.

Fátima e Armani assim como Sueli e Jorge tem muita dificuldade em serem sinceros um com o outro, ficam com tanto medo de como o outro receberá o que tem a dizer qeu preferem esconder. Com isto vão se enrolando em frases pela metade que dão impressão de mentiras ou em omissões. Nunca eles completam uma conversa ela sempre termina antes durante um ímpeto de braveza.

Ter uma comunicação efetiva com alguém indica intimidade. E isto passa pela intimidade que se tem consigo mesmo. Em que há uma percepção clara do que se quer e do que não quer, há segurança de pode ser firme em demonstrar seus pensamentos, que o outro (e nem você mesmo) sairá correndo por isso. Quando esta percepção esta falha a outra pessoa fica visualizada como alguém de quem tenho que me proteger, com isto o relacionamento fica cheio de lacunas, fica o dito pelo não dito e a conversa fica de maluco. Como em todo episódio do programa podemos ver.

Procurar de que maneiras temos cooperado para que os nossos relacionamentos fiquem como estão é uma tarefa diária e importantíssima. Claro que é muito mais fácil perceber onde o outro esta falhando, no que o outro esta errado. O sofrimento nos leva a olhar para fora. Contudo, toda relação é feita de duas pessoas e mesmo que não nos demos conta (ou não queiramos assumir) temos uma carga de responsabilidade na situação. Parar, observar e mudar isto pode transformar o relacionamento e elevá-lo a um outro patamar. E isto é em toda relação não apenas nas amorosas, mas também entre pais e filhos, no trabalho, nas amizades e assim por diante.

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Adaptação ou resignação? Como você tem enfrentado as mudanças da vida?

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia, Eu não encho mais a casa de alegria, Os anos se passaram enquanto eu dormia, E quem eu queria bem me esquecia. Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia? Eu não vou me adaptar, me adaptar. Eu não tenho mais a cara que eu tinha, No espelho essa cara já não é minha, É que quando eu me toquei achei tão estranho. A minha barba estava deste tamanho” (Nando Reis – Não vou me adaptar)

 Sabe aquela sensação de ser um peixe fora d’água?

De olhar em volta e se sentir distante daquele grupo, daquele local que até pouco parecia familiar?

Aquela sensação de que a conversa não combina mais, de que as piadas já não são tão engraçadas, de que aquela pessoa já não é tão interessante? Ou, pior, de que não me acha mais interessante?

Então, esta sensação – bastante desagradável e confusa – chega um dia para todo mundo (em tese parte pelo menos). Há vários nomes para ela: chatice, velhice, rabugice e outros com tons de deboche. Mas há também uma compreensão diferente para este fenômeno que dá a ele o nome de amadurecimento.

E amadurecer é assustador. Envelhecer então, nem se fale! Abandonar a vida de fantasias, idealizações chega a ser doloroso, fisicamente doloroso.

Lembro-me de um livro chamado Nunca lhe prometi um jardim de rosas, em que uma garota no inicio da juventude se dá conta do quanto a vida é pesada, cheia de pequenas (ou grandes) decepções, projetos não conquistados, sonhos abandonados, desejos inalcançados. E na tentativa de negar tal verdade ela enlouquece.

Viver é para os fortes, diz um ditado popular. Ser jovem é fantástico, pois a percepção do amanha não é clara. Assim, fica mais fácil ser corajoso, aventureiro, inconsequente. Pois as consequências tendem a se concretizar com o tempo e por entender menos os perigos convivemos melhor com as que chegam, e sempre tem alguém (um adulto!) que de alguma maneira ameniza a situação e se responsabiliza junto. Ah, como isto é bom! Como alivia, como facilita a vida. Outras coisas também ajudam neste alívio: as drogas tem o mesmo efeito e ser um workaholick também.

Afinal de contas, qualquer comportamento que signifique não ter que pensar, não ter que parar e entrar em contato com as emoções, nos mantem na vida de ilusão, numa sensação de prazer ou no minimo de amortecimento da emoção.

Porque encarar as palavras de Nando Reis de que “eu não caibo mais nas roupas que eu cabia, eu não encho mais a casa de alegria” é difícil demais! Cair na real e entender que não exite o tal “felizes para sempre”. Que depois do dia feliz da conquista há muito para ser feito pelo casal, pelo trabalho, pela vida social, pelas amizades e para que tudo o mais se mantenha de pé e funcionante.

Sim, todo este trabalho faz parte do desenrolar de nossa história. A vida exige esta trabalheira de nós!

Perceber que crescemos, que as coisas mudaram, que seja pela idade, pelo jeito de ser ou pelas novas crenças já não somos daquela tribo, já não fazemos parte daquele local, que as roupas de antes já não combinam e que o jeito que sou já não traz prazer – seja para mim ou para os que estão em volta.

No auge dos 14, 15 anos sonham-se coisas lindas e muito bacanas sobre a vida amorosa, social, de trabalho, familiar e tudo mais. Dez anos depois muitas já ficaram pra traz, não aconteceram conforme sonhávamos. Vinte anos depois então, meu Deus, quanta coisa saiu diferente. E como isto pode ser frustrante! Principalmente se não foi percebido e encarado enquanto acontecia.

A tão falada crise da meia idade é decorrente, em minha opinião, disto. Desta avaliação da vida, onde ao olhar para traz se percebe o quanto de coisas deram “errado”, saíram tão distantes do que foi almejado. Alguns deprimem, outros reagem e outros negam a frustração. Poucos são os que a enfrentam.

E a estes que não resta gritar: NÃO VOU ME ADAPTAR!

Porem, cabe pensar: O que é adaptação?

Esta palavrinha é muito mal interpretada, na maior parte das vezes é assimilada com conformismo ou  resignação. Porem não é a isto que a adaptação convida. Se resignar / conformar é aceitar a situação sem nenhuma tentativa de alterá-la. É entender que a situação esta como está e nada há para fazer e nem meios para enfrentá-la. Assim, a tristeza, o abatimento alcançam o individuo, o brilho nos olhos vai embora e a vida fica sem graça. Como que empurrando com a barriga. Isto é uma falsa adaptação.

Adaptação é outro processo. Envolve atitude. A atitude de encarar a situação, de enfrentá-la. Envolve acordar do sono da ilusão, pois sim quando nos damos conta a situação já esta mais grave do que supúnhamos. E enfrentar isto significa fazer uma análise do momento, das emoções, bem como uma compreensão do que houve, como se chegou ali e os por quês. Significa parar e pensar. Somente com esta clareza é que a adaptação eficaz se faz possível.

E com esta visão a observação do guarda-roupa físico e emocional fica plausível. Aqui é possível perceber o que ainda cabe ou não, o que, com que, com quem você ainda combina e o que já não dá mais para usar. Pois se usar ficará com cara de bobo, fazendo papel de ridículo. E o que de novo pode ser feito, o que pode ser confeccionado que tem a ver com quem você é atualmente (e por que não hoje verdadeiramente?!)

Resistir a esta adaptação não protege de nada e nem é sinal de força. Ao contrário, é uma tentativa Peterpanesca (inventei esta palavra) de ser eternamente um menino-adolescente que fica na terra do nunca. A Wendy veio para o mundo real, envelheceu, teve suas frustrações, mas viveu de verdade, comeu comidas de verdade, saboreou o que existia e não só o que havia no mundo da ilusão.

Crescer é dolorosos (e é mesmo quem não teve dores na perna durante a madrugada?). Porem o que é preferível uma vida de verdades ou de a mentiras ilusórias?

Encaro amadurecer como a possibilidade de encontrar as dores e delícias de descobrir quem você é. Este enfrentamento exige muita força, muita coragem, muita boa vontade. É a prova maior de se tornar adulto: responsável por si, por suas escolhas, atuações e consequências.

Com qual arma você tem feito tal enfrentamento: negação, resignação ou adaptação?

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Os três macacos

A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em VEJA.com. Uma vez por mês, ela publica em Veja um artigo especialmente escrito para a revista impressa.

Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer

Betty Milan

Um músico me escreve contando que pertence a uma grande orquesta, mas não tem prazer no trabalho por causa dos colegas. Não suporta o despotismo, a vaidade, a prepotência, a arrogância e a mania de grandeza de alguns. O convívio com “egos inflados” é demasiadamente penoso, e ele me pergunta o que fazer.

Eu, que sempre faço a apologia do ato generoso da escuta, sugiro ao músico que faça ouvidos moucos. Lembro que ele tem o privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao que não interessa. Inclusive porque egos inflados estão em toda parte e a luta contra eles não leva a nada. Evitar a luta de prestígio é um bem que nós fazemos a nós e aos outros.

Para viver, nem tudo nós podemos ver, escutar ou dizer. Isso é representado, desde a Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. Cada um cobre uma parte diferente do rosto com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o segundo, as orelhas e o terceiro, a boca. A representação é originária da China. Foi introduzida no Japão, no século VIII, por um monge budista. A máxima que ela implica é “não ver, não ouvir e não dizer nada de mau”. Foi adotada por Gandhi, que levava sempre consigo os três macaquinhos, o cego, o surdo e o mudo – Mizaru, Kikazaru e Iwazaru.

Eles ensinam a não enxergar tudo o que vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é decisivo para uma atitude construtiva, mas não é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos prejudica – impelidos por um gozo masoquista ao qual temos de nos opor continuamente. Só a consciência disso permite não sair do caminho em que a vida desabrocha.

Seleção e contenção tornam a existência mais fácil. Desque que não sejam um efeito da repressão, como na educação tradicional, e sim do desejo do sujeito – um desejo vital de se opor às forças do inconsciente que podem nos fazer mal. Isso implica a humildade de aceitar que o inconsciente existe e nós não somos donos de nós mesmos.

A ideia não é nova. Data da descoberta da psicanálise por Freud, no fim do século XIX, mas continua a ser ignorada porque é difícil nos livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade como a nossa, que tanto valoriza, e que não condena a vaidade, a prepotência, a arrogância. Pelo contrário, estimula-as para se perpetuar.

Revista Veja, página 92, Editora Abril, edição 2.199 – ano 44 – n.º 02 – 12jan2011

 

 

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O que você faria se pudesse viver de novo?

 

Instantes

Jorge Luiz Borges (com pseudônimo de Eustáquio)

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo”

Estes foram os desejos de Jorge Luiz Borges quando bem próximo da morte. Ele não teve tempo de viver tais coisas, morreu pouco depois. Mas você e eu estamos vivos e ainda que não dê para voltar no tempo, há tempo hoje, agora, para viver de modo novo e diferente.

Então o que você quer fazer diferente?

 

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A culpa é das estrelas

Acabei ontem de ler o livro A culpa é das estrelas. Que conta a história de dois adolescentes com câncer que se apaixonam. É um livro açucarado em alguns sentidos e um tanto horrível em outros (é daqueles que você chora até dizer chega!). Malditamente interessante, pois fala de câncer, doença que assusta a todos nos. Amedronta, preocupa, ronda. Talvez todos conheçam alguém que teve. Muitos cânceres tem cura, mas o medo da morte é muito presente nesta doença.

Duas coisas se destacaram pra mim durante a leitura. Primeiro a forma como estes adolescentes encaram a doença: com humor. Tiram sarro de si mesmos e uns do outro, falam da dor de forma leve e não esperam que ninguém resolva seus sofrimentos. Sabem que a culpa não é de ninguém, por isso o título: a culpa é das estrelas.

O segundo destaque vai para o fato de que nos Estados Unidos quando uma pessoa falece parentes e amigos fazem um elogio fúnebre para esta pessoa. Onde citam momentos divertidos, vivências juntos, como enxergavam aquela pessoa. É um gesto de carinho, uma bela despedida. Porém a pessoa não ouve, não pode retribuir este carinho com um abraço, com uma resposta. Muitos morrem sem nem saber o quanto são especiais, o quanto significam na vida de outra pessoa, o quanto poder ama-las foi um privilégio.

Privilégio, pois se a dor da perda é excruciante é uma prova de que houve um grande amor. Seria melhor não ter amado? Não ter tido aquele filho, aquele companheiro, aquele amigo, aqueles pais? Não, não seria melhor.

Talvez o que precisemos é aprender hoje a dizer o que sentimos. Agora.

Pois citando o livro “Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, mas é possível escolher quem vai ferí-lo. Eu aceito as minhas escolhas.”

Quem você tem escolhido e como tem demonstrado tal escolha?

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Medo de morrer ou medo de viver?

Uma senhorinha alegre, independente, geniosa, mentirosinha e maluquinha conhece um homem recém-viúvo, sério, rígido, desesperançoso e hipocondríaco. Desta união surge uma paixão e desta um novo olhar sobre a vida.

Esta é a sinopse do excelente filme de Marcos Carnevale chamado Elsa e Fred.  Um filme que retrata a velhice, os medos desta época, a dor das perdas – não só dos parentes e amigos, mas também da saúde, do trabalho, da independência, do respeito, do valor, enfim, perdas dolorosíssimas de se vivenciar.

Elsa num momento de descontração com Fred diz que ele não tem medo de morrer e sim de viver. Esta frase me fez refletir sobre como e o quanto isto é comum, não apenas para os idosos, mas também para muitos jovens. Morrer é assustador, só que viver também é. Tanto em um quanto em outro há que se lidar com o desconhecido, com o não saber, coisas que nos incomodam profundamente. Queremos saber, queremos estar no controle. E a vida é um convite à descoberta. Podemos nos planejar, preparar, mas nunca temos como saber se o resultado será ou não o desejado. A surpresa (boa ou ruim) esta sempre a espreita e saber lidar com o novo é uma habilidade que poucos de nós têm desenvolvida.

As vezes focamos tanto na morte (ou nas coisas ruins, que é um sinônimo de morte) na preocupação de quando ela virá, em não adoecer, em ser saudável (o limiar entre isto e hipocondria é muito tênue!), focamos também em tudo que já perdermos – parentes amigos trabalho sonhos… Ficamos tão preocupados com o amanha, com o que ocorrerá que esquecemos que a vida é hoje. Ela está acontecendo aqui e agora.

Dizem que só se tem duas certezas na vida: teremos que pagar impostos e a morte chegará.
Viver, apesar de tudo, é tão bom que dá muito medo mesmo dizer adeus. Ter amor à vida é saudável, querer viver bem e com saúde é uma busca admirável.

Diante de dificuldades, perdas, doenças e da velhice a esperança se esvai, as dúvidas crescem e a desilusão se torna o foco. A vida nestas horas parece perder o sentido, como se por não saber o que ocorrerá no amanha o hoje ficasse, então, impedido. Restrito. Não vivido. Aqui surge o medo de viver. Pois enquanto o coração esta batendo (não importa de que forma, nem com que força) é porque se esta vivo. Não fazer uso deste dia, não sonhar, não lutar por uma mudança, é entregar os pontos e viver a morte antes do tempo.

Algumas pessoas vivem de forma a vencer todos os seus limites, a extrapolar tudo, a não deixar passar nada. Parecem viver num binômio: Pensou – fez. Desejou – buscou. Outros vivem no não pode. Rígidos demais, com nãos o tempo todo, focados em agir “corretamente”. Como se o binômio fosse: pensou – se censurou (quando não à outros também!). Pois em tudo vê o negativo, o que pode dar errado.

Nos dois modelos há excessos. A vida não é um binômio, a vida é muito mais complexa que isto. Por isto não há formulas, não há um ou o jeito certo de agir. Penso que ao longo dos anos a opção que temos é o tentar, é o acertar e errar e acertar de novo e errar mais uma vez. Só assim aprendemos, só assim amadurecemos.

Se entendermos a morte como inércia, como um fim, será que focar nos problemas, deixar de sonhar, não ter mais planos, se ocupar da vida dos outros, esquecer seus prazeres, não buscar por novos, tudo isto não é uma morte em vida?

Se fechar porque deu errado, se impedir porque a doença lhe alcançou ou a idade chegou protege do que? O hoje está aqui. Está acontecendo. Como você o está vivendo? Em direção à morte ou vida?

Segue o trailler do filme:

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Culpa X responsabilidade

Há algum tempo foi lançada uma matéria em algumas revistas femininas falando sobre as mulheres não se sentirem culpadas em relação ao pouco tempo com os filhos ou suas falhas em relação a eles. Houveram as que amaram a idéia e as que as detestaram, poucas ficaram no meio termo.

Dois bons blogs brasileiros reagiram com matérias reflexivas e que, na minha opinião, colocam a culpa no lugar que ela deve ter: de nos fazer pensar e assim assumir responsabilidades ao invés de sentimentos torturantes.

Uma das matérias reproduzo aqui e a outra deixo como indicação. A primeira é do Blog Mamíferas (http://www.mamiferas.com/blog/2012/11/culpa-nao-responsabilidade-sim-ou-da-responsabilidade-sobre-as-proprias-culpas.html) e a segunda é do Blog Cientista que virou mãe (http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/10/sobre-culpas-sobre-voltar-atras-e-sobre.html). Os dois são excelentes e valem cada instante lido. Confiram!

Culpa não, responsabiliodade sim! ou das responsabilidades sobre as culpas.

“Culpa, não!”, diz a incisiva campanha proposta por uma famosa publicação para pais e mães. Fez cesárea? Não amamentou? Dá uns tapinhas de vez em quando? A alimentação da família é ruim? Larga o seu filho na frente da TV? Não tem tempo suficiente para se dedicar a eles?  Não, não sinta culpa, a vida é assim mesmo!

Primeiro, sinto vontade de rir. Logo em seguida, de chorar. Não, não é um sinal precoce de bipolaridade, apenas um sentimento intenso e contraditório que mistura uma certa graça pelo patético da campanha (no melhor estilo ‘seria cômico, se não fosse trágico’), uma enorme angústia pelas crianças criadas por estes pais ‘libertos de todas as culpas’ e uma indisfarçável irritação pela ignorância que grassa na imprensa direcionada a mães e pais.

Incrível como uma ideia que poderia ser bacana se bem direcionada, chamando à conscientização e ao protagonismo, à maternidade e à paternidade ativas, sem sofrimentos desnecessários e ilusões de perfeição mas sem desistências covardes e justificativas vazias e mentirosas, pode ser retorcida a tal ponto, e prestar tamanho desserviço às mães, aos pais e, principalmente, às crianças.

Não, eu não vou levantar aqui a bandeira da ‘culpa, sim, não tem nada melhor!”. Também acredito firmemente que culpa é um negócio vazio e inútil, e não ajuda em nada. Culpa só serve para causar dor e tristeza, empurrando a gente para baixo. Mas – e esse é um conceito fundamental que a tal campanha ignora solenemente – é preciso que se faça a distinção cuidadosa e atenta entre culpa e responsabilidade. A primeira só empata, paralisa e impede de seguir adiante, mas a segunda traz amadurecimento, faz crescer, melhora e ensina.

Então, se o objetivo da tal campanha fosse mesmo eliminar a culpa da vida de pais e mães, seria um negócio fantástico – e teria todo o meu apoio, assim como o de muitas mães e pais que eu conheço. Mas o equívoco é tamanho que, ao invés de liberar do peso da culpa e ajudar a seguir adiante fazendo sempre o melhor, a campanha faz uma confusão danada e elimina toda e qualquer responsabilidade envolvida no processo. A partir daí, o que vier é lucro.

Se a gente parar para pensar, assim ser pai e mãe fica bem fácil, não? Faz de qualquer jeito, do jeito que sair está bom. Não deu pra fazer direito? Paciência, a vida é assim mesmo! Podia ter feito melhor e não fez? Desencana, que a vida engana! Podia ter ido adiante, tentado um pouquinho mais, mas desistiu antes de saber se era possível ou não? Beleza, todo mundo faz isso, um a mais, um a menos, não vai fazer a menor diferença!

O resultado? Pais e mães felizes, soltinhos, libertos de todo e qualquer sentimento negativo em relação a si mesmos e a suas escolhas. Do outro lado, totalmente esquecidos nesta conversa, estão aqueles que mais perdem: os filhos. Que têm menos, muito menos do que o mínimo aceitável, porque papai e mamãe “fazem do jeito que der”. E acham que isso já está mais do que bom.

A martirização pela culpa não leva ninguém a lugar nenhum. Mas somos todos adultos, donos de nossos narizes e capazes de fazer escolhas e assumir as consequências. Ninguém precisa se autoflagelar por um caminho equivocado, por uma falta, por um tropeço. Mas é preciso olhar este desvio de frente, assumi-lo, compreende-lo. Assumir a responsabilidade. Isso é ser mãe. Isso é ser pai. O resto é brincar de boneca (mal e porcamente aliás, que até minhas filhas cuidam melhor de suas bonecas e bichinhos de pelúcia!).

Ser pai e mãe é uma escolha pessoal (consciente ou inconsciente, não importa). Ninguém é obrigado a ter filhos, mas a partir do momento que se os tem, é preciso assumir a responsabilidade. Cada um faz o que pode dentro de suas possibilidades, desejos e limitações, mas há (e deve haver mesmo, pelo bem de nossas crianças) um mínimo aceitável, e neste mínimo está incluído fazer o melhor possível – e este melhor deve ser olhado de maneira íntegra e sincera, sem contemplações e sem justificativas vazias.

Então, respondendo à zombeteira pergunta proposta pela revista, ‘de quem é a culpa?’: a culpa pode até não ser de ninguém mas a responsabilidade, essa é toda sua. E – feliz ou infelizmente, dependendo da sua forma de ver e viver a sua vida – não dá para empurrar para mais ninguém.

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