Crônicas e contos



Um dia no orfanato de Campo Comprido, 1976, em Curitiba

Capítulo III

Os louquinhos

Sentei-me
num claro de tempo.
Era um remanso
de silêncio,
de um branco silêncio,
anel formidável
onde os luzeiros
se chocavam com os doze
flutuantes números negros.
F. G. Lorca

Formamos pela manhã. Eu continuava mal. Tivera hemorragia, perdera muito sangue. Felizmente, numa rara demonstração de sensibilidade, o funcionário Fausto, talvez por ter sofrido tanto pelo mesmo motivo, já que era desdentado, retomou sua alma ao diabo e tirou-me da fila do trabalho. Esse ato de misericórdia, quase me fez esquecer daquela surra covarde do primeiro dia e o roubo de minhas moedas. Eis o encanto de satã ao conquistar o ignorante: guardá-lo no vazio do não se saber. E quem não sabe de si, não sabe do mundo, nada pensa; sem ser demente, faz as coisas e não se dá conta do bem ou mal que está realizando.

orf1Enquanto o restante dos internos trabalhava, os louquinhos e os inválidos ficavam soltos no pátio, a perambular de um lado para o outro, ou sentados, às vezes mudos, às vezes falando barbaridades desconexas. Sentei-me à sombra de um jasmineiro. De lá foi possível observar um por um dos penados esquecidos por Deus e seus prestimosos auxiliares.

Zé Coqueiro, um autista, corpo de faquir indiano, de cócoras justificava o seu apelido. Sorrindo o doce sorriso dos alienados, o Zé desenhava numa rapidez incrível coqueiros com as pontas dos dedos na terra fofa. Terminado o coqueiro, ele o apagava imediatamente e num ato contínuo, outro coqueiro desenhava; milhares de vezes, infinitas vezes.

O autista, abandonado pela família, deveria ter uns 15 anos e nunca recebera uma visita. Zé, porque não possuía registro civil. Coqueiro, sua assinatura para o mundo. Nem mesmo a assistente social desconfiava qual seria o seu nome verdadeiro. Um dia ele deve ter aparecido ali, transportado igual a um porco num carro de polícia ou ambulância, sem defesas e comunicação, como quase todos os louquinhos que estavam “estocados” naquele armazém de alienados.

orf2Albino e com feridas na pele, se chegou para perto de minha árvore o Treme-treme, menino da cabeça quadrada e olhos miúdos. Frank, como também era chamado, sofria de algo que eu nunca tinha visto. Involuntariamente, os seus músculos descontrolados o faziam tremer todo.

“A…me…a…meu…”, balbuciava o infeliz e não passava disso, porque os músculos de sua face repuxavam e seu corpo tremia. Depois sorria e voltava a tremer, molhando-se com a própria urina e lambuzando-se com a merda que escorriam pelas pernas.

Novo na escola, Pinguim era entrevado. Também próximo de mim. com os pés virados para dentro, ele andava passinho por passinho. Não falava, apenas ria (o riso é a única propriedade dos loucos), exibindo restos de comida nos seus dentes acavalados.

“Punheteiro”, gritava um interno que passava.

“Filho da puta”, respondia aos berros o Sorvete, demente solitário que se escondia por detrás das árvores. Ali estava a única expressão possível de se ouvir da boca do pobre diabo. De resto, creio que Sorvete não sabia falar mais nada.

Badu, negro, deficiente mental (agia como se tivesse 12 anos, embora fosse adulto), muito alto e forte, fazia-se defensor do Sorvete, assim como de todos os louquinhos. Bastava mexer com um deles e a resposta vinha na hora: um tijolo ou pedra sibilava por nossas orelhas, sem direção, pegasse em quem pegasse e a vingança estava feita. Por sorte, naquele dia, o tijolo não atingiu ninguém.

Mesmo entre os louquinhos tínhamos líderes. Os goiabas mais antigos e com, digamos, alguma “inteligência” mandavam nos mais novos. Badu e Joaquim Maia estavam nessa condição e recebiam tratamento diferenciado dos outros louquinhos e até mesmo dos funcionários. Para termos uma ideia do nível mental dos dois, basta saber que eles ficavam muito tempo no portão da escola num jogo absurdo. Joaquim Maia, de costas para a rua e para os carros que passavam, gritava o nome de uma cor:

“Verde!”.

“Vermelho!”, adivinhava o velho Badu.

O carro que passara não era verde nem vermelho, tinha outra cor qualquer. O interessante ainda é que este jogo de malucos não havia pontuação nem ganhadores. Depois de horas jogando, os dois simplesmente iam embora. Não sabiam contar.

Joaquim Maia tinha uns 30 anos, barrigudo e quase anão, sofria de epilepsia, com cardápio variado de ataques, que variava desde o convencional até uma grande corrida que terminava no alto de alguma árvore. Pensei que o louco exagerava e fingia, mas um dia ele teve dois ataques seguidos. Correu, trepou num pinheiro alto e lá em cima começou a se estrebuchar. Caiu, sangue para todo lado e fraturas expostas.

Esses eram os loucos permanentes, os da casa. Às vezes apareciam novos, surgidos sabe deus donde. Os marmanjos urinavam e cagavam na cama. Fediam por falta de banho.

Os aleijados, vítimas da paralisia infantil, viviam com os loucos. Os “motoqueiros”, assim chamados pelo uso das muletas, revelavam quase sempre a mesma história. No princípio, tratados pela família e parentes. Depois internados em hospitais e mais tarde abandonados no orfanato.

orf3Não obstante suas deficiências, os motoqueiros demonstravam-se muito unidos e procuravam desenvolver atividades e propunham a si mesmos desafios. Assim, muito antes do Poder Público esboçar qualquer projeto de esportes para deficientes, eles se reuniam e disputavam jogos de futebol. As muletas de madeira se chocavam com violência e os que tinham apenas uma perna, envolta pelo metal dos aparelhos, arriscavam chutes na bola de meia ou borracha. Jogávamos com eles e os tratávamos como iguais, inclusive no trabalho e até mesmo quando o assunto era porrada. Eles brigavam entre si e com os outros internos. Desse costume, só posso dizer que uma muletada no pé do ouvido dói bastante.

Em número reduzido, existiam também os totalmente inválidos, praticamente paraplégicos, vítimas da poliomielite. Braulino, um deles, mais velho do que os outros, usava óculos modelo fundo de garrafa. Como só tinha movimento nos braços, uma armação de ferro sustentava-o. Duro, andava de muletas e demorava horas para vencer alguns metros. Não tomava banho e cheirava mal. Também, como se livrar daquele esqueleto esquisito? Sem o que fazer, ele vivia sentado no jardim, e com o nariz encostado na Bíblia pregava absurdos apocalípticos, misturando apóstolos aos profetas e emendando textos para dar maior drama ao que falava.

Não faz muito tempo vi o Braulino, cabelos brancos, esmolando nas ruas de Curitiba. Vivia por certo seu próprio apocalipse e de mãos estendidas esperava o final do mundo que, segundo ele, terminaria numa infernal fogueira.

Tentei várias vezes fazer uma escala de intensidades para o abandono. Tenho muita prática nesta praga que nos sufoca o espírito. Qual deles seria o pior e qual deles seria o menos grave? Inútil qualquer resposta. O abandono é isso: abandono. E a escala se faz no coração do abandonado e na consciência atormentada de quem abandona. Ao analisar minha história e de centenas de meninos que viriam a conviver comigo, conclui que as famílias, os pais ou responsáveis legais, ao abandonarem seus filhos podem ser guiados a mais das vezes por três motivos básicos: o econômico, desajustes familiares e preconceitos sociais. Esses motivos não raro aparecem juntos. Veja bem, eu parto de observações puramente empíricas que me chegaram aos sentidos, sem a ciência dos números e estatística, desprezando as variáveis psicológicas, que por elas mesmas dariam um grande tratado para um pesquisador que esteja disposto a executá-lo.

Os mais comuns de serem encontrados num orfanato são os abandonados por motivo econômico combinado com o desajuste familiar. É o pai e a mãe que não têm como sustentar os seus, por falta de trabalho ou renda, além de uma grande dose de ignorância provocada pela baixa escolaridade. Na falta de recursos econômicos, os laços que unem o frágil núcleo familiar simplesmente são rompidos, seja pela fome, seja pela miséria, depressão ou loucura decorrentes. Imediatamente, os membros dessa família são empurrados para a marginalidade, delinquência, alcoolismo, drogas e agressões mútuas. O próximo passo é a desagregação familiar. Os adultos, quando não presos ou mortos, somem pelo mundo, deixando sua prole ao deus dará. Note, caro leitor, que aqui falo da família comum, com papéis bem definidos de pai e mãe. Mas o mesmo se repete, e de forma mais dramática, em proles sustentadas apenas por um desses atores.

Nos desajustes familiares também incluo as causas naturais como a morte ou doença dos provedores e ausência de parentes e amigos da família para a adoção. Mas esses são casos raros nos orfanatos, se comparados aos anteriores. Dos internos que conheci, poucos se diziam realmente órfãos.

Por último, temos o preconceito social. É a mãe solteira que por motivos “morais”, religiosos, ignorância — a própria, dos seus pais ou companheiro — insiste na gravidez e é obrigada a abandonar a coisa que se fez em seu útero. É a gravidez indesejada de mulheres adolescentes ou das que caíram na vida. É o patrão que dormiu com a funcionária, amante ou empregada e para amenizar o escândalo força a mãe a entregar seu bebê para instituições de caridade.

Assim, creio, que é muito difícil de se saber qual dos abandonos é o menos cruel. Todos têm um grande grau de crueldade que culmina numa culpa tremenda naquele que abandona e um enorme complexo de rejeição no abandonado.

Felizes eram aqueles alienados que não tinham consciência de suas condições. Pobres aleijados que se sabiam punidos duas vezes pelo terrível crime de terem nascido.

Naquele tempo brutal, sempre ao final do dia, como já era costume, ônibus despejavam levas de meninos na escola. Não eram fujões e sim órfãos vindos de outras instituições, geralmente religiosas, que haviam completado a idade de 10 ou 12 anos. Prudentes e pudicas, as freiras só cuidavam de seus órfãos masculinos até o início da adolescência. Por certo, evitavam assim o apego demasiado e outros pecados menores.

No internato, esses meninos tinham singular comportamento. Dóceis, raramente desobedeciam, acostumados que estavam com a orfandade. Eles se tratavam como irmãos, posto que se conheciam desde o berço. Dispensados do rito de iniciação, logo esses guris estavam o uniforme da 1ª Cia e brincavam descontraídos misturados aos outros no pátio.

Mais tarde fiz amizade com alguns deles que atendiam por apelidos numerais. Assim tínhamos o “Trinta” e o “Vinte Oito”, números pelos quais foram identificados nos antigos orfanatos. Os dois, um Manoel e o outro Manuel, sentaram praça na Marinha de Guerra ao deixarem o internato de Campo Comprido, isso muitos anos depois.

O Trinta contava que não conhecera a família. Desde nenê no orfanato das freiras, entrava seguidamente na fila de adoção. Negro, sempre preterido. Os casais que por lá costumavam procurar “filhos” davam preferência aos brancos e loirinhos. Dizem que o marinheiro morreu em serviço ao tentar salvar pessoas que se afogavam no rio Paraná. Não duvido, ingênuo, perverso às vezes, possuía grande alma.

Antes do jantar, os funcionários fizeram os arranjos para dar equilíbrio às companhias. A terceira e quarta contavam um número reduzido de alunos, com muitas camas vazias, ao passo que as outras duas companhias estavam lotadas com os novos que não paravam de chegar. Muitos foram promovidos.

orf4As vagas na terceira e quarta companhias apareciam porque os que completavam 18 anos deixavam a escola. Esse processo demonstrava-se tão doloroso e incerto quanto o de entrada no orfanato. Todos os anos formavam-se dezenas de sapateiros, alfaiates, gráficos e padeiros, com um nível de escolaridade muito baixo. As assistentes sociais arrumavam-lhes emprego. Ainda na condição de internos, esses rapazes ficavam por ali por mais três meses até juntarem algum dinheiro. Depois eram encaminhados para uma modesta pensão particular, com direito a simplório enxoval: lençóis, fronha, duas camisas e uma calça.

Desamparados, recebendo salários miseráveis, solitários, desajustados e extasiados com a repentina liberdade, os egressos do orfanato praticavam besteiras. Perdiam o emprego, roubavam e acabavam presos em menos de um ano. Poucos eram os que realmente encontravam um novo caminho na vida. Acompanhávamos as notícias que vinham lá de fora e ficávamos inseguros quanto ao nosso futuro, se é que assim poderia ser chamada aquela desgraça anunciada.

Não é à toa que alguns internos tentavam não deixar o internato, mentindo a idade e fingindo insanidade mental, caso do João Louco, que todo mundo desconfiava que não era louco porra nenhuma, mas vivia entre eles. Tínhamos vários alunos em condições semelhantes. Velhos, alguns com mais de 30 anos, que procuravam em si alguma utilidade para o sistema montado na escola. Os “peixes” da direção realmente eram úteis. Funcionavam como amortecedores entre o peso da ira dos funcionários e a nossa fragilidade, assumindo funções de monitores ou até mesmo de servidores contratados. Três deles eram muito antigos na escola, com direito a salários e moradias especiais.

Valtinho morava próximo à horta com a família, mulher e dois filhos. Magro e pequenino, contava uns 55 anos de idade e ainda jogava muito bem futebol, um craque. Ele dedicava-se aos serviços gerais, encanamentos, reformas, etc. Nas horas vagas, cuidava de pequena horta e de seu galo de briga, que um dia roubamos e cozinhamos com abóbora (ficou um horror, a carne dura dispersa numa gosma aguada doce e amarela; fome ignora os olhos, e comemos tudo). Ele nunca descobriu quem foi, mas garanto que caso isso ocorresse sua vingança seria medonha, dado o apego de Valtinho ao bicho.

Zelas, o zelador, contemporâneo de Valtinho quando esteve internado, sofria de epilepsia. Morava num cubículo imundo do lado da 4ª Cia. O material de limpeza que estava sob sua guarda se misturava a roupas e pertences embolados por sobre a cama repleta de manchinhas de sangue das pulgas esmagadas. Contrariando o nome e a função, Zelas não zelava por nada, já que os imundos banheiros teoricamente estavam por sua conta e pelo estoque de desinfetantes, pastas vassouras e sabões em seu quarto, via-se que o problema de higiene na escola não era a falta de produtos de limpeza, era preguiça mesmo. Vivia batendo papo, defendendo posições absurdas em discussões vazias com alunos e outros funcionários. Contava-se que fora noivo e que abandonou a ideia de casamento depois que descobriu que a noiva era fã do Tarcísio Meira. Numa noite ao visitar sua futura senhora, ele foi solenemente ignorado até o término do capítulo da novela. Nunca mais voltou. Sorte da moça.

Venâncio, o homem manco, com a boca meio torta, exercia a função de almoxarife. Quieto, realmente triste, morava num quartinho isolado. Escravo de doenças, logo após minha chegada morreu. Acompanhamos o enterro. Naquele dia de chuva, o caixão simples desceu à cova sem choros e lamentações. Parente algum deixou na tumba suas lágrimas. Viveu órfão, morreu órfão.

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UnB abre curso de Física Aplicada à Terra Plana

Depois de oferecer a inédita disciplina “O golpe de 2016 e o futuro da democracia do Brasil”, no curso do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) neste semestre, na graduação, a UnB planeja oferecer o curso a “Física Aplicada à Terra Plana”. A matrícula é optativa e há 80 vagas disponíveis, sendo que a disciplina sobre o “Golpe de 2016” é pré-requisito para o curso oferecido na área de Física. As aulas serão ministradas pelo professor titular Jandisclay do Perpétuo Socorro, auxiliado pelo mestrando Clariço Inspector.

Ementa:

A Terra plana e a Lei da Atração Universal; O Sol plano, solidariedade astral; aplicação das leis de Newton na Terra Plana, uma nova abordagem. A Lei da Gravidade e seus efeitos sobre a Terra Plana – por que a Lua Plana não cai sobre a Terra Plana?. Os mecanismos dos ventos e comportamento das marés na Terra Plana.

No final do curso, o aluno deverá desenvolver uma monografia sobre o tema geral: “A Terra Plana pode ser representada também por uma rosquinha queimada de acordo com as novas teorias da Mecânica Quântica?”. Mais informações na Universidade.

 

 

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O Burrinho e o Camelo

baba_de_camelo21O jovem Burrinho encontrou um Camelo descansando sob uma árvore ao lado do rio, enquanto chovia muito. Arrogante em sua juventude, ele desafiou o Camelo:
– Vamos atravessar o rio agora, do outro lado tem muita comida…
– Não – disse o velho Camelo – vamos esperar terminar a tempestade e depois passamos.
Sem observar a prudência do ancião, o Burrinho entrou na água e foi imediatamente arrastado pela forte correnteza e, se afogando, gritou:
– Salve-me, Camelo!
E o Camelo respondeu:
– Não posso. O que poderia fazer já fiz. Avisei-te. Pede ajuda a tua soberba que, com a gula, te fizeram ignorar a experiência dos mais velhos.

Aos que escutaram esta fábula, saibam que há limites ao se ajudar o teimoso.

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Quantos orfanatos teremos que construir para os microcefálicos abandonados?

Fato é que essas crianças com microcefalia estão sendo abandonadas e, fatalmente, parte delas terá que ser acolhida em orfanatos (abrigos públicos).

micro1

 

Muito vivi e vi. E no que fui obrigado a ver, muitas vezes desejei arrancar meus olhos. Nunca escondi de ninguém que passei parte de minha vida em orfanato, aqui em Curitiba, entre 1975 e 1982, não me envergonho disso, o motivo era muito simples, faltaram-me os pais. Os órfãos são conformados, pois não há como alimentar revoltas contra os mortos ou desaparecidos.

Entretanto no orfanato também havia o espaço para a revolta, naqueles que lá estavam comigo e não eram órfãos. Crianças que foram abandonadas pelos mais diferentes motivos, sobremodo os econômicos, doenças e desajustes familiares. Tínhamos os filhos de mães solteiras, os doentes, geralmente epiléticos, ou deficientes mentais, e um número enorme de deficientes físicos, vítimas da poliomielite. Na época, não tínhamos as cartilhas que mascaram o nome dessas moléstias e, não obstante nos considerarmos irmãos, dividíamos esses meninos em dois grandes grupos, os loucos e os aleijados.

microFelizmente, com mudanças na legislação e incentivos à adoção, esses grandes depósitos de crianças praticamente desapareceram. Mas, preocupa-me notícias como essa: “No Nordeste, vítimas da microcefalia enfrentam o abandono”, em que se aponta o abandono de crianças vítimas de microcefalia, associada ao Zika. Caso a pandemia avance, e não há dúvidas que avançará, é certo que o número de abandonos ganhará a mesma proporção.

Seria aqui, para mim, muito fácil condenar as mães e os pais que optam pelo abandono de seus filhos, mas não o faço. Num país de miseráveis, em que o governo prima por oferecer uma educação indigente e uma saúde no mesmo nível, condenar essas mães e pais seria tangenciar a hipocrisia.

Fato é que essas crianças estão sendo abandonadas e, fatalmente, parte delas terá que ser acolhida em orfanatos (abrigos públicos). Sei que haverá gente que se comoverá e as adotará, mas nem todas terão esta sorte. O número de nascidos encefálicos ruma para o exponencial, uma tragédia já vista inclusive durante a difusão da poliomielite em décadas passadas.

Lembro-me que, na fila de adoção, os mais velhos eram preteridos, assim como os negros e os que apresentavam alguma deficiência. Não sei se a alma humana melhorou pelo menos um pouco nessas últimas décadas e temo – e como temo! – que essas adoções não aconteçam em atendimento à demanda, que será crescente até que se encontre alguma cura para a doença e maneiras menos medievais de se combater o mosquito vetor do Zika.

Abaixo publico um capítulo de livro que escrevi e que creio que jamais publicarei por inteiro, que descreve um pouco daquilo que tornou meus olhos cansados já na infância:

Capítulo III

Os louquinhos

Sentei-me
num claro de tempo.
Era um remanso
de silêncio,
de um branco silêncio,
anel formidável
onde os luzeiros
se chocavam com os doze
flutuantes números negros.
F. G. Lorca

 

Formamos pela manhã. Eu continuava mal. Tivera hemorragia, perdera muito sangue. Felizmente, numa rara demonstração de sensibilidade, o funcionário Fausto, talvez por ter sofrido tanto pelo mesmo motivo, já que era desdentado, retomou sua alma ao diabo e tirou-me da fila do trabalho. Esse ato de misericórdia, quase me fez esquecer daquela surra covarde do primeiro dia e o roubo de minhas moedas. Eis o encanto de satã ao conquistar o ignorante: guardá-lo no vazio do não se saber. E quem não sabe de si, não sabe do mundo, nada pensa; sem ser demente, faz as coisas e não se dá conta do bem ou mal que está realizando.

orf1Enquanto o restante dos internos trabalhava, os louquinhos e os inválidos ficavam soltos no pátio, a perambular de um lado para o outro, ou sentados, às vezes mudos, às vezes falando barbaridades desconexas. Sentei-me à sombra de um jasmineiro. De lá foi possível observar um por um dos penados esquecidos por Deus e seus prestimosos auxiliares.

Zé Coqueiro, um autista, corpo de faquir indiano, de cócoras justificava o seu apelido. Sorrindo o doce sorriso dos alienados, o Zé desenhava numa rapidez incrível coqueiros com as pontas dos dedos na terra fofa. Terminado o coqueiro, ele o apagava imediatamente e num ato contínuo, outro coqueiro desenhava; milhares de vezes, infinitas vezes.

O autista, abandonado pela família, deveria ter uns 15 anos e nunca recebera uma visita. Zé, porque não possuía registro civil. Coqueiro, sua assinatura para o mundo. Nem mesmo a assistente social desconfiava qual seria o seu nome verdadeiro. Um dia ele deve ter aparecido ali, transportado igual a um porco num carro de polícia ou ambulância, sem defesas e comunicação, como quase todos os louquinhos que estavam “estocados” naquele armazém de alienados.

orf2Albino e com feridas na pele, se chegou para perto de minha árvore o Treme-treme, menino da cabeça quadrada e olhos miúdos. Frank, como também era chamado, sofria de algo que eu nunca tinha visto. Involuntariamente, os seus músculos descontrolados o faziam tremer todo.

“A…me…a…meu…”, balbuciava o infeliz e não passava disso, porque os músculos de sua face repuxavam e seu corpo tremia. Depois sorria e voltava a tremer, molhando-se com a própria urina e lambuzando-se com a merda que escorriam pelas pernas.

Novo na escola, Pinguim era entrevado. Também próximo de mim. com os pés virados para dentro, ele andava passinho por passinho. Não falava, apenas ria (o riso é a única propriedade dos loucos), exibindo restos de comida nos seus dentes acavalados.

“Punheteiro”, gritava um interno que passava.

“Filho da puta”, respondia aos berros o Sorvete, demente solitário que se escondia por detrás das árvores. Ali estava a única expressão possível de se ouvir da boca do pobre diabo. De resto, creio que Sorvete não sabia falar mais nada.

Badu, negro, deficiente mental (agia como se tivesse 12 anos, embora fosse adulto), muito alto e forte, fazia-se defensor do Sorvete, assim como de todos os louquinhos. Bastava mexer com um deles e a resposta vinha na hora: um tijolo ou pedra sibilava por nossas orelhas, sem direção, pegasse em quem pegasse e a vingança estava feita. Por sorte, naquele dia, o tijolo não atingiu ninguém.

Mesmo entre os louquinhos tínhamos líderes. Os goiabas mais antigos e com, digamos, alguma “inteligência” mandavam nos mais novos. Badu e Joaquim Maia estavam nessa condição e recebiam tratamento diferenciado dos outros louquinhos e até mesmo dos funcionários. Para termos uma ideia do nível mental dos dois, basta saber que eles ficavam muito tempo no portão da escola num jogo absurdo. Joaquim Maia, de costas para a rua e para os carros que passavam, gritava o nome de uma cor:

“Verde!”.

“Vermelho!”, adivinhava o velho Badu.

O carro que passara não era verde nem vermelho, tinha outra cor qualquer. O interessante ainda é que este jogo de malucos não havia pontuação nem ganhadores. Depois de horas jogando, os dois simplesmente iam embora. Não sabiam contar.

Joaquim Maia tinha uns 30 anos, barrigudo e quase anão, sofria de epilepsia, com cardápio variado de ataques, que variava desde o convencional até uma grande corrida que terminava no alto de alguma árvore. Pensei que o louco exagerava e fingia, mas um dia ele teve dois ataques seguidos. Correu, trepou num pinheiro alto e lá em cima começou a se estrebuchar. Caiu, sangue para todo lado e fraturas expostas.

Esses eram os loucos permanentes, os da casa. Às vezes apareciam novos, surgidos sabe deus donde. Os marmanjos urinavam e cagavam na cama. Fediam por falta de banho.

Os aleijados, vítimas da paralisia infantil, viviam com os loucos. Os “motoqueiros”, assim chamados pelo uso das muletas, revelavam quase sempre a mesma história. No princípio, tratados pela família e parentes. Depois internados em hospitais e mais tarde abandonados no orfanato.

orf3Não obstante suas deficiências, os motoqueiros demonstravam-se muito unidos e procuravam desenvolver atividades e propunham a si mesmos desafios. Assim, muito antes do Poder Público esboçar qualquer projeto de esportes para deficientes, eles se reuniam e disputavam jogos de futebol. As muletas de madeira se chocavam com violência e os que tinham apenas uma perna, envolta pelo metal dos aparelhos, arriscavam chutes na bola de meia ou borracha. Jogávamos com eles e os tratávamos como iguais, inclusive no trabalho e até mesmo quando o assunto era porrada. Eles brigavam entre si e com os outros internos. Desse costume, só posso dizer que uma muletada no pé do ouvido dói bastante.

Em número reduzido, existiam também os totalmente inválidos, praticamente paraplégicos, vítimas da poliomielite. Braulino, um deles, mais velho do que os outros, usava óculos modelo fundo de garrafa. Como só tinha movimento nos braços, uma armação de ferro sustentava-o. Duro, andava de muletas e demorava horas para vencer alguns metros. Não tomava banho e cheirava mal. Também, como se livrar daquele esqueleto esquisito? Sem o que fazer, ele vivia sentado no jardim, e com o nariz encostado na Bíblia pregava absurdos apocalípticos, misturando apóstolos aos profetas e emendando textos para dar maior drama ao que falava.

Não faz muito tempo vi o Braulino, cabelos brancos, esmolando nas ruas de Curitiba. Vivia por certo seu próprio apocalipse e de mãos estendidas esperava o final do mundo que, segundo ele, terminaria numa infernal fogueira.

Tentei várias vezes fazer uma escala de intensidades para o abandono. Tenho muita prática nesta praga que nos sufoca o espírito. Qual deles seria o pior e qual deles seria o menos grave? Inútil qualquer resposta. O abandono é isso: abandono. E a escala se faz no coração do abandonado e na consciência atormentada de quem abandona. Ao analisar minha história e de centenas de meninos que viriam a conviver comigo, conclui que as famílias, os pais ou responsáveis legais, ao abandonarem seus filhos podem ser guiados a mais das vezes por três motivos básicos: o econômico, desajustes familiares e preconceitos sociais. Esses motivos não raro aparecem juntos. Veja bem, eu parto de observações puramente empíricas que me chegaram aos sentidos, sem a ciência dos números e estatística, desprezando as variáveis psicológicas, que por elas mesmas dariam um grande tratado para um pesquisador que esteja disposto a executá-lo.

Os mais comuns de serem encontrados num orfanato são os abandonados por motivo econômico combinado com o desajuste familiar. É o pai e a mãe que não têm como sustentar os seus, por falta de trabalho ou renda, além de uma grande dose de ignorância provocada pela baixa escolaridade. Na falta de recursos econômicos, os laços que unem o frágil núcleo familiar simplesmente são rompidos, seja pela fome, seja pela miséria, depressão ou loucura decorrentes. Imediatamente, os membros dessa família são empurrados para a marginalidade, delinquência, alcoolismo, drogas e agressões mútuas. O próximo passo é a desagregação familiar. Os adultos, quando não presos ou mortos, somem pelo mundo, deixando sua prole ao deus dará. Note, caro leitor, que aqui falo da família comum, com papéis bem definidos de pai e mãe. Mas o mesmo se repete, e de forma mais dramática, em proles sustentadas apenas por um desses atores.

Nos desajustes familiares também incluo as causas naturais como a morte ou doença dos provedores e ausência de parentes e amigos da família para a adoção. Mas esses são casos raros nos orfanatos, se comparados aos anteriores. Dos internos que conheci, poucos se diziam realmente órfãos.

Por último, temos o preconceito social. É a mãe solteira que por motivos “morais”, religiosos, ignorância — a própria, dos seus pais ou companheiro — insiste na gravidez e é obrigada a abandonar a coisa que se fez em seu útero. É a gravidez indesejada de mulheres adolescentes ou das que caíram na vida. É o patrão que dormiu com a funcionária, amante ou empregada e para amenizar o escândalo força a mãe a entregar seu bebê para instituições de caridade.

Assim, creio, que é muito difícil de se saber qual dos abandonos é o menos cruel. Todos têm um grande grau de crueldade que culmina numa culpa tremenda naquele que abandona e um enorme complexo de rejeição no abandonado.

Felizes eram aqueles alienados que não tinham consciência de suas condições. Pobres aleijados que se sabiam punidos duas vezes pelo terrível crime de terem nascido.

Naquele tempo brutal, sempre ao final do dia, como já era costume, ônibus despejavam levas de meninos na escola. Não eram fujões e sim órfãos vindos de outras instituições, geralmente religiosas, que haviam completado a idade de 10 ou 12 anos. Prudentes e pudicas, as freiras só cuidavam de seus órfãos masculinos até o início da adolescência. Por certo, evitavam assim o apego demasiado e outros pecados menores.

No internato, esses meninos tinham singular comportamento. Dóceis, raramente desobedeciam, acostumados que estavam com a orfandade. Eles se tratavam como irmãos, posto que se conheciam desde o berço. Dispensados do rito de iniciação, logo esses guris estavam o uniforme da 1ª Cia e brincavam descontraídos misturados aos outros no pátio.

Mais tarde fiz amizade com alguns deles que atendiam por apelidos numerais. Assim tínhamos o “Trinta” e o “Vinte Oito”, números pelos quais foram identificados nos antigos orfanatos. Os dois, um Manoel e o outro Manuel, sentaram praça na Marinha de Guerra ao deixarem o internato de Campo Comprido, isso muitos anos depois.

O Trinta contava que não conhecera a família. Desde nenê no orfanato das freiras, entrava seguidamente na fila de adoção. Negro, sempre preterido. Os casais que por lá costumavam procurar “filhos” davam preferência aos brancos e loirinhos. Dizem que o marinheiro morreu em serviço ao tentar salvar pessoas que se afogavam no rio Paraná. Não duvido, ingênuo, perverso às vezes, possuía grande alma.

Antes do jantar, os funcionários fizeram os arranjos para dar equilíbrio às companhias. A terceira e quarta contavam um número reduzido de alunos, com muitas camas vazias, ao passo que as outras duas companhias estavam lotadas com os novos que não paravam de chegar. Muitos foram promovidos.

orf4As vagas na terceira e quarta companhias apareciam porque os que completavam 18 anos deixavam a escola. Esse processo demonstrava-se tão doloroso e incerto quanto o de entrada no orfanato. Todos os anos formavam-se dezenas de sapateiros, alfaiates, gráficos e padeiros, com um nível de escolaridade muito baixo. As assistentes sociais arrumavam-lhes emprego. Ainda na condição de internos, esses rapazes ficavam por ali por mais três meses até juntarem algum dinheiro. Depois eram encaminhados para uma modesta pensão particular, com direito a simplório enxoval: lençóis, fronha, duas camisas e uma calça.

Desamparados, recebendo salários miseráveis, solitários, desajustados e extasiados com a repentina liberdade, os egressos do orfanato praticavam besteiras. Perdiam o emprego, roubavam e acabavam presos em menos de um ano. Poucos eram os que realmente encontravam um novo caminho na vida. Acompanhávamos as notícias que vinham lá de fora e ficávamos inseguros quanto ao nosso futuro, se é que assim poderia ser chamada aquela desgraça anunciada.

Não é à toa que alguns internos tentavam não deixar o internato, mentindo a idade e fingindo insanidade mental, caso do João Louco, que todo mundo desconfiava que não era louco porra nenhuma, mas vivia entre eles. Tínhamos vários alunos em condições semelhantes. Velhos, alguns com mais de 30 anos, que procuravam em si alguma utilidade para o sistema montado na escola. Os “peixes” da direção realmente eram úteis. Funcionavam como amortecedores entre o peso da ira dos funcionários e a nossa fragilidade, assumindo funções de monitores ou até mesmo de servidores contratados. Três deles eram muito antigos na escola, com direito a salários e moradias especiais.

Valtinho morava próximo à horta com a família, mulher e dois filhos. Magro e pequenino, contava uns 55 anos de idade e ainda jogava muito bem futebol, um craque. Ele dedicava-se aos serviços gerais, encanamentos, reformas, etc. Nas horas vagas, cuidava de pequena horta e de seu galo de briga, que um dia roubamos e cozinhamos com abóbora (ficou um horror, a carne dura dispersa numa gosma aguada doce e amarela; fome ignora os olhos, e comemos tudo). Ele nunca descobriu quem foi, mas garanto que caso isso ocorresse sua vingança seria medonha, dado o apego de Valtinho ao bicho.

Zelas, o zelador, contemporâneo de Valtinho quando esteve internado, sofria de epilepsia. Morava num cubículo imundo do lado da 4ª Cia. O material de limpeza que estava sob sua guarda se misturava a roupas e pertences embolados por sobre a cama repleta de manchinhas de sangue das pulgas esmagadas. Contrariando o nome e a função, Zelas não zelava por nada, já que os imundos banheiros teoricamente estavam por sua conta e pelo estoque de desinfetantes, pastas vassouras e sabões em seu quarto, via-se que o problema de higiene na escola não era a falta de produtos de limpeza, era preguiça mesmo. Vivia batendo papo, defendendo posições absurdas em discussões vazias com alunos e outros funcionários. Contava-se que fora noivo e que abandonou a ideia de casamento depois que descobriu que a noiva era fã do Tarcísio Meira. Numa noite ao visitar sua futura senhora, ele foi solenemente ignorado até o término do capítulo da novela. Nunca mais voltou. Sorte da moça.

Venâncio, o homem manco, com a boca meio torta, exercia a função de almoxarife. Quieto, realmente triste, morava num quartinho isolado. Escravo de doenças, logo após minha chegada morreu. Acompanhamos o enterro. Naquele dia de chuva, o caixão simples desceu à cova sem choros e lamentações. Parente algum deixou na tumba suas lágrimas. Viveu órfão, morreu órfão.

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Adão era andarilho e colhia alho

pecado_originalTenho a pior memória do mundo, aquela que nada esquece. Absolutamente nada. Lembro-me dos primeiros brinquedos feitos por minhas mãos infantis, alguns de lata, outros de madeira, ou ainda de qualquer quinquilharia que encontrava. Em criança, o brinquedo não está somente no objeto, mas no que imaginamos ser o objeto. Uma lata de óleo arrastada por um cordão pode virar um trem, ou ainda qualquer coisa que possa carregar carga. Uma estrada desenhada no chão por uma enxada vira uma rodovia inteira, ligando cidades imaginárias.

Dessa época que evoco, na primeira infância, brincar por tempo mínimo era-me a fuga da realidade que já me obrigava ao trabalho. Lembro-me que num sábado frio, tive que ir até um sítio colher alho, a troco de alguns centavos. O solo estava úmido e gelado. Em poucos minutos envolvido na tarefa, junto com outros maltrapilhos, a dor nas costas se fazia insuportável, já que trabalhávamos agachados e com o corpo voltado para frente.

Havíamos começado cedinho e só fizemos uma pausa para o almoço. O problema é que não tinha almoço, poucos trabalhadores haviam levado algo para distrair o estômago.  Um dos peões, andarilho, bem mais velho do que os outros miseráveis que no eito penavam, cedeu-me um naco de pão e ensinou-me a preparar uma massa de alho para recheio. Um horror para um guri de 10 anos que sonhava com doces, mas suficiente para matar a fome, infinitamente ampliada pela dura jornada naquela lavoura que até as formigas evitavam.

Creio que o nome daquele sujeito, o qual me dera o que comer, era Adão – assim ele dizia ser seu nome e assim acredito. Adão vivia neste mundo seguindo, letra por letra, o castigo divino: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”. Além disso, ouvi comentários de que ele era ex-presidiário, pois no seu destino de Adão, havia matado a mulher e seu compadre, que andavam dividindo a maçã oferecida pela serpente da traição: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.

Enquanto eu quase chorava comendo aquele pedaço de pão amanhecido com alho e água, Adão matutava em voz alta:

– Pensei ter tudo na vida, mas tudo era engano, nem meus filhos sei se são meus. Perdi o nada que pensava ter. Não tenho mais nada, além dessas pernas que me levam longe… Fujo de mim mesmo…

Olhei para o andarilho e vi que ele falava e falava para algum ser imaginário ao meu lado. Confesso ter sentido medo. Os olhos vermelhos do desgraçado davam-me medo. Mas logo isso passou, quando, com certa ternura na voz, ele me aconselhou:

– Escuta menino – disse-me Adão, segurando a Bíblia que tirou do seu embornal – e isso é um conselho, antes que você conheça mulher e tenha filhos, leia este livro, mas não a leia como um crente; leia o Gênesis como se estivesse ouvindo um sábio. Infelizmente, só fiquei sabendo desse livro na prisão e se soubesse dele antes, não teria feito tanta besteira na vida.

Ao dizer-me isso, o andarilho abriu o livro de páginas sujas e quase soltas e leu em voz alta para que todos escutassem:

– “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.”

Trabalhamos até o escurecer. Recebemos nossos trocados e foi a última vez que vi o andarilho. Alguns dias depois fiquei sabendo que, naquele mesmo sábado, à noite, ele fora atropelado e morto na rodovia do Café, depois de ter tomado um litro de pinga numa vendinha de beira de estrada. Adão cumprira seu destino, tornara ao pó sem mais esperanças no Paraíso que a si imaginara.

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Um adeus para a Curitiba polaca

miss-poloniaCuritiba deixou de ser polaca. — Quando? — Há pelo menos três décadas. Quando se despejou no Norte do Paraná a geada negra que pôs fim aos verdes pés de café que brotavam da terra roxa. O ano era o de 1975, coincidentemente o ano da última neve na capital.
Depois da tragédia que dividiu a história do Paraná em antes e depois da geada, a população das novíssimas cidades do norte paranaense viu-se obrigada a procurar outros cenários para a realização de suas esperanças, pois o homem não se faz vivo sem esperanças. Com exceção de três grandes centros urbanos, Maringá, Londrina, Curitiba — e mais tarde Foz do Iguaçu, com a construção da usina de Itaipu — as cidades paranaenses começaram a minguar, quando não a desaparecer por completo, principalmente as dependentes da monocultura cafeeira.
À medida que a região setentrional se esvaziava, com rotas migratórias definidas para regiões do Mato Grosso e outros estados mais ao norte do país, uma grande leva de ex-agricultores saiu de suas cidades para engrossar as franjas urbanas, notadamente a de Curitiba, capital do estado com vocação acadêmica, administrativa e habitada por mais de século por povos oriundos da Europa.
Assim, em bairros predominantemente polacos, habitados por italianos e poloneses — São Brás, Campo Comprido, Órleans e até mesmo Santa Felicidade — que se colocavam no caminho da planejada Cidade Industrial de Curitiba, cresceram os conjuntos habitacionais e as sub-habitações, conhecidas como favelas. Com a industrialização resolveu-se em parte o problema do emprego. Curitiba não mais era somente dos estudantes e dos funcionários públicos e os antigos bairros bucólicos ganharam massas de operários e trabalhadores com um sotaque bem brasileiro que se funde aos antigos dialetos. O curitibano fala hoje uma nova língua que ainda está em processo de formação, com uma gramática própria, que incorpora expressões polacas, gaúchas, mineiras, catarinas e paulistas.
A Curitiba do “leitê quentê” é como um velho cartão postal amarelado da Praça Tiradentes ou do Passeio Público. Em nossos dias, a polaca da pele alvíssima e olhos azuis só tem existência garantida nas páginas dos contos do Dalton Trevisan. Ela, se ainda existir, não vai à panificadora comprar “salame, vina, pão bengala e cuca”. A poloca, esta nova polaca, vai para a padaria cantando um pagode e compra mortadela, salsicha, pão e bolo. Broa com banha nem pensar. Os tempos são outros, pão com margarina será a pedida.

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A estupidez como modelo social

Esquenta_Regina_Case_1200x800Dizem que a coisa começou lá com os gregos e ganhou força sobremodo com os romanos: nosso gosto por tudo quanto possa ser considerado dramático. A dureza da realidade nos força, inclusive para alguma saúde mental, a sonhar de olhos abertos.

Por herança, além das línguas românticas (Português, Francês, Italiano, etc), ganhamos, em nosso sangue latino, a paixão: esta capacidade de sofrer, que nada mais é do que tocar a vida adiante sem muita lucidez e afastados da razão. Por isso, amamos a tragédia e a comédia. Por isso, endeusamos nossos atores, artistas e perdemos tempo em frente à TV vendo novelas, programas sofríveis de humor e filmes.

Porém, nosso pão e circo têm lá suas limitações. O pão sempre foi pouco. No circo eletrônico onírico-virtual, os autores debatem-se para descobrir uma nova fórmula em suas ficções esgotadíssimas em qualidade e criatividade, que determinam a constante queda de audiência dos novelões, repetidos em forma, esquetes e tipos.

Nessa crise de criatividade ficcional, o que nos sobra é apelar para a tragédia ou comédia real e, se possível, dramas particulares eivados de irracionalidade e estupidez, como se isso nunca tivesse feito parte da condição humana. A criança arremessada pela janela por um casal, ou a moça sequestrada e morta pelo namorado, ou o menino morto em alguma praia europeia, ou um golfinho maltratado e morto por turistas, são sequências de uma mesma história de horror televisiva. É o horror como notícia, é o horror para nossa distração.

Nessa tragédia real, colocamos entre os atributos da notícia a capacidade dela tornar-se um drama desenvolvido em capítulos desconexos, porque a realidade não nos parece conexa. A paixão levada do privado para o público, do particular para o coletivo.

Mas dentro da tragédia em escala industrial, manda o manual da audiência, misturarmos algum riso ao trágico. Nessa nova comédia real, votamos em candidatos engraçados e estúpidos para assim garantirmos esse riso extra. Rimos das tolices dos programas especializados na desgraça alheia, que julgamos engraçada. Rimos do humor duvidoso e pouco inteligente desses programas da piada industrializada. Rimos de nossa própria condição de massa manipulável.

Nada disso é novo, como disse. Porém, o rir e o chorar alcançaram a escala industrial dentro dessa indústria que busca nos distrair de nossa condição de condenados dentro de uma sociedade que perdeu o juízo. Ou dentro de uma civilização que, a rigor, nunca alcançamos.

Derivam dessas misérias da pós-modernidade, a necessidade de ter assunto por meio das redes sociais; as novas fórmulas para espalhar o boato, a notícia nos modernos meios eletrônicos, em escala, velocidade e alcance, antes inimagináveis. Na verdade, estamos dando nova roupa ao velho fuxico de cerca de nossos avós, quando tudo era contado de ouvido para ouvido.

Temos dois mil anos de desenvolvimento da técnica que culminou na Sociedade da Informação, rápida, global e deficiente ao informar. Dois milênios usando todo nosso gênio para que lembremos em instantes que, sob os efeitos das paixões, não somos diferentes dos nossos semelhantes que habitavam as cavernas: estúpidos e desgraçadamente animais, que riem e choram por distração, conscientes que são do próprio fim.

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Elias, o abduzido

ft2A vida normal – aquela com horários definidos, com hora para respirar, com hora para cuspir, hora de rir e beijar a patroa – sempre agradou a Elias. Ele era um cara de hábitos e que se dava ao luxo de apenas afagar poucas paixões: o Corinthians, time do coração e uma cervejinha, tomada aos golinhos, no sábado à tarde, no bar perto de casa.

Mas os céus conspiram contra a normalidade. A mesmice dá tremendo tédio aos deuses e por isso eles são mal-humorados. Num dia qualquer, os deuses escolhem suas vítimas, de preferência aquelas que, para serem consideradas mortas, só faltam deitar na cova. Pois bem, nosso Elias se apresentava como esse panaca perfeito para o tédio divino.

Foi numa sexta-feira depois do expediente. Estava calor. A turma da repartição resolveu tomar umas e outras. Elias, nada afeito à quebra de rotina, relutou, declinou do convite, mas ao sentir o olhar severo de seu chefe imediato, cedeu. Antes de sair, avisou a mulher por telefone. Deu a notícia e prosseguiu na conversa apenas com monossílabos “sim”, entremeados por “querida”.

No bar, à medida que Elias esvaziava o seu copo de cerveja, o mundo ficava mais descontraído, as pessoas, e ele mesmo, mais alegres. Logo, D. Terezinha, secretária muito solicita e que trabalhava há anos ao seu lado, puxou conversa. Disse que havia se separado. Estava só, precisava se abrir com alguém…

Papo vai, papo vem; copo vai, copo vem… Elias acordou em um lugar estranho. Não reconhecia o teto, não reconhecia os lustres. E a cabeça? Que dor terrível. Aos poucos foi se lembrando da noite anterior. Susto. Olhou para o lado e viu que D. Terezinha dormia. De súbito, levantou-se, apanhou suas roupas, o sapato e foi para a sala. Vestiu-se rapidamente. Esquecera a dor de cabeça. Pensava apenas em como se explicaria para a sua mulher. Dormira uma noite fora… Isso nunca havia ocorrido.

Já na rua, apanhou um táxi. No caminho pensou em mil desculpas… A viagem demoraria, estava num bairro afastado de sua casa. Como chegara ali? Enquanto pensava, o motorista puxava conversa:
“Tive um amigo caminhoneiro, acho que em 1980. Sabe que ele foi abduzido, sequestrado por um disco voador?”

“Não”, respondeu Elias, sem dar muita bola para o motorista.

Mas o cara era insistente:

“Agora este meu amigo é celebridade, veja esta revista aí em cima do banco”, insistiu o taxista.

Elias apanhou a revista com as mãos trêmulas, um gesto educado apenas. Revista de Ufologia que explicava a história do caminhoneiro. Mas foi ler o primeiro nome, e Elias devorou a matéria em três minutos:

“Elias Seixas de Mattos, carioca, era caminhoneiro em 1980, quando teria vivenciado uma experiência inexplicável. Seu relato, junto ao de outros dois amigos, entrou para a história da Ufologia brasileira pela riqueza de detalhes com que descreveu as situações pelas quais passou à pesquisadora Irene Granchi e ao hipnólogo Silvio Lago. No dia 25 de setembro de 1980, Elias e os acompanhantes na boleia do caminhão, seu primo Alberto Seixas Vieira e o amigo Guaraci de Souza, voltavam de Goiás, onde tinham ido deixar uma carga. (…) A partir daí, nenhum deles lembrava-se da seqüência de acontecimentos muito bem, exceto a sonolência com que retornaram à cabine do caminhão e o fato de chegarem à próxima parada…”.

Nosso Elias, o encrencado, chegou em casa e imediatamente inventou louca história sobre sua abdução. E para dar veracidade ao que falava, procurou misturá-la com todos os detalhes da abdução do caminhoneiro Elias, o da revista. A mulher de Elias ouvira tudo atenta, porém com o rosto cada vez mais vermelho, do sangue que lhe subia, em pura raiva. A última coisa que Elias lembra ter ouvido ao final de sua história foi “cachorro!”. Depois, somente lembrava-se da escuridão dos que caminham pelo vale da sombra da morte.

A história poderia ter dado certo, se não fossem dois detalhes: os filhos de Elias adoravam ufologia e já haviam contado a mesma história para a mãe e lhe mostrado a revista; e ela era muito boa em arremesso de  cabo de vassoura.

Confuso mentalmente, Elias ficou internado algum tempo no hospital. Com as piadinhas dos amigos e pela própria confusão mental, ele passou a acreditar na própria história de homem abduzido. Perdeu a mulher. D. Terezinha nem lhe deu bola mais. Porém estava contente e suas horas nesta vida, tornaram-se uma longa espera por mais uma abdução. Os deuses, por caridade, haviam tirado dos dias de Elias, o tédio.

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Loira Fantasma protesta: ‘R$ 3,70 é um roubo’ e ameaça deixar Curitiba

loiraOntem, depois de deixar uns amigos torrados no bar, lá pela meia-noite, passei ao lado do muro do Cemitério Municipal de Curitiba. Garoa, escuro, um pouco de frio. Dei a volta no cemitério e não vi viva alma. Só do outro lado, perto das escadarias da entrada, é que avistei uma outra pessoa. Quem será? – pensei – Curitiba está muito violenta, precisava ter cuidado. Aproximei-me devagar e me desarmei ao ver que era minha velha amiga, a Loira Fantasma.

Mas a estranhei, dela não ganhei nem o habitual abraço ou o beijinho gelado de amável defunta. Depois, vi que estava puta da cara, pois ao contrario que muita gente pensa, ela é alma honesta, pobre e honesta, e não anda de táxi. – É minha gente, não é de hoje que a loirona se aperta no busão entre um cemitério e outro. (Fique esperto!).

salto15Perguntei-lhe o que estava acontecendo, por que da tristeza? E ela me respondeu com cara de choro e dó: “A tarifa do ônibus em Curitiba é um abuso, R$ 3,70! Um roubo!”. Dei-lhe um lenço, ela me agradeceu e continuou: “Vou ter que começar a andar a pé. Veja meu salto 15, com essas calçadas! Vai ser um horror! Mas isso não fica assim, vou protestar: ah, vou!”.

Depois, ela me devolveu o lenço agradecida, ainda em soluços. Não poderia deixar minha amiga daquele jeito. Fiz questão de continuar a conversa. Falamos mais um pouco para relaxar, banalidades: sobre o Coxa, seu time do coração; sobre a insegurança das ruas; sobre políticos imprestáveis… Ao nos despedirmos, a Loira Fantasma já bem mais calma me disse, em tom de segredo: “Caso a tarifa não baixe, eu volto para Osasco, Curitiba nunca mais!”.

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Governo que brinca com o estômago vazio do povo não se sustenta

fomeA rigor, as necessidades do homem para se manter vivo são poucas, mas os recursos (mão-de-obra, terra, capital…) para satisfazê-las são escassos. Este é o dilema da Economia, que procura a melhor forma de alocar recursos produtivos finitos para satisfazer as necessidades humanas infinitas.

Nos anos 1960, o psicólogo norte-americano Abraham Harold Maslow (1908–1970) reinventou a roda ao determinar uma escala das necessidades humanas. A escala começava com as fisiológicas – comer, dormir, sexo, etc. –, depois, segurança – a casa, por exemplo –,  sociais – clubes, grupos de afinidades –, status – sinais exteriores que indiquem nossa posição social, carros, jóias, etc – e por último, as de auto-estima – a satisfação plena das necessidades do homem, inclusive intelectuais e espirituais. Digo que Maslow reinventou a roda, porque Voltaire (1694–1778) já havia tratado deste tema no seu Dicionário Filosófico, embora de forma menos detalhada.

piramide

Para os capitalistas, a escala de Maslow caiu como uma luva para justificar a crueldade do sistema. Nesta escala, ficam claros os “fatores psicológicos” que determinam o consumo dos seres humanos. Quanto mais avançamos na escala, mais sofisticados ficamos, mais artigos supérfluos consumimos. Isto seria o lógico dentro de um cenário favorável, numa economia que nos proporcione renda ou emprego.

Mas nem tudo são flores no jardim da safadeza. Como ainda não descobrimos um método para fazer nascer dinheiro em árvore, é evidente que, em tempos de crise econômica, o consumo dos bens supérfluos, principalmente os que têm alto valor agregado, sofrem redução de demanda, porque dependem de crédito ao consumidor. E a crise nada mais é do que isso, desconfiança do mercado e pouca oferta de crédito, ou crédito caro, com taxas de juros absurdas, com influência direta na queda da produção. Sob o ponto de vista lógico é uma loucura, o capital deseja ser remunerado sem nada produzir!

Ao contrário do que muitos pensam, é de nossa natureza a prudência quando o assunto é o estômago, porquanto as nossas necessidades básicas imperam sobre as outras. É o que está acontecendo na economia brasileira hoje. A poupança dos tempos das vacas gordas está se consumindo aos poucos, principalmente para os setores médios da população. Na realidade, estamos chegando a um patamar pior ainda, com o esgotamento da poupança, as dívidas não estão sendo pagas, a inadimplência atinge boa parte dos brasileiros, o que encarece ainda mais o crédito, diminui sobremodo o consumo de qualquer tipo de bem, inclusive da cesta de alimentos e produtos de primeira necessidade. Isso sem contar com os efeitos da crise política, inflação e desemprego crescentes. O resultado é a recessão e ou depressão econômica que afetam toda a cadeia produtiva, ou a economia como um todo, com número recorde de falências de empresas grandes, médias e pequenas.

Há pelo menos dois anos, com os primeiros sinais da crise, o brasileiro previdente está poupando e cortando despesas. O problema, à medida que o tempo avança, é que sobra pouco ou quase nada para poupar e o número de cortes em despesas só aumenta. Há um limite matemático e natural para isso. Chega-se à hora em que não dá mais, esgotamento máximo, e essa hora parece estar chegando para a maioria das famílias brasileiras.

Estamos bem perto do limite, com um dos pés sobre o abismo. Como a administração da crise está diretamente ligada ao governo, que não tem demonstrado capacidade de planejamento e reação, os pais de família, que têm que colocar comida todos os dias sobre a mesa, já não dormem.

A história da humanidade demonstra que  o descaso com estômagos alheios não costuma acabar bem, porque os conflitos sociais, as revoltas ou sedições, geralmente acompanhadas da ascensão do autoritarismo, conservadorismo ou populismo se dão, justamente, quando a base da pirâmide de Maslow é desprezada pelos governos. Ou seja, governo com o mínimo de juízo tem que respeitar o estômago do povo e jamais deixá-lo vazio. Caso isso aconteça (e está acontecendo no Brasil, e que ninguém duvide disso!) não há governo que se sustente, por mais piruetas que dê, por mais que se pinte de ouro.(FN)

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