literatura



A ditadura da vaidade estética chega à política

O Brasil é campeão em cirurgias plásticas. Aqui, qualquer guria de 16 anos é explorada pelos modismos e entra no bisturi por besteiras e com risco até mesmo de morte: um nariz assim assado; um umbigo nada assanhado; um peito de ovo frito; ou um olho de peixe morto; uma bunda que imita tábua. Falo da mulheres, mas há tempo que a marmanjada também apela para transformações estéticas para lá de desnecessárias, numa luta inglória contra o natural envelhecimento.
O objetivo dessa lucrativa indústria da vaidade é apelar para o falso porém estético, sem se importar com quem estabelece padrões de beleza. Pobres mentes imersas na vaidade, soubessem história, saberiam que a humanidade sempre experimenta as artificialidades e tende a retornar ao natural.
Chegará o dia que o bonito, o estético, será apenas o natural, como sempre foi. Daí, minha nega, o estrago já estará feito e o negócio será optar por cirurgias para desfazer antigas vaidades e gastar mais uma grana preta. E quer saber, não vai ficar bom.
Na política, principalmente depois do primeiro debate da Band, muito se falou do aspecto físico do candidato a presidente Alvaro Dias. Ora, é notória a preocupação de Alvaro com a estética, pois ela sempre fez parte de seu apelo em busca de votos junto ao eleitorado feminino. Sou testemunha disso, quando ainda criança, testemunhei um comício em que o então vereador Alvaro Dias arrancava suspiros das mocinhas que iriam votar pela primeira vez. Talvez, Alvaro no intento de manter o juvenil visual, tenha exagerado e hoje, o que lhe ressaltava a imagem, atrapalha, pois se presta mais atenção na sua figura do que nas suas razoáveis propostas de governo.

Pobre povo do Paraná
Os medíocres partidos do Paraná nos empurraram pelo menos três candidatos teleguiados por seus clãs políticos: uma madame e dois piás pançudos mimados: um sobrinho e outro júnior.

Safadeza de pai para filho
Em levantamento feito pela Folha de S. Paulo, verifica-se que há pelo menos 60 candidatos no Brasil pertencentes à dinastias políticas, naquele negócio de passar, geralmente, a safadeza como um legado para os filhos e parentes.

Famílias que mandam na política
O Brasil tem pelo menos 20 grandes clãs políticos, informa a Folha. O mais conhecido é o da Família Sarney. Aqui no Paraná, também os há, mas ainda em fase embrionária se comparados aos mais antigos em atividade no Brasil, como os Barros, no Norte do Paraná e os Requião e Richa, na capital do Estado.

Desonra no Tribunal
Desembargador teria aceitado R$ 300 mil para liberar suspeito, no TO. Aqui, um cargo no governo para a filha é o suficiente.

Vergonha
“Perderam a vergonha no Brasil, praticam crimes com naturalidade”, juiz Marcelo Bretas, em entrevista ao Estadão.

O “gópi” da ONU
Foi gópi. Dos 18 membros do Comitê da ONU que diz ter se solidarizado com o condenado Lula, somente dois lambe-sacos assinaram a petição.

O “gópi” da ONU
Nessas condições, uma liminar da ONU vale tanto quanto um peido n’água.

Poema azul

Um hoje extremamente azul celeste
E aquela vontade que ao espírito veste
De transformar tudo em verso

O mundo carece de poesia
Que cante cada amanhecer
Principalmente os hojes azulados em doirado

E tu, que vi nesta manhã incógnita na rua,
Com os olhos banhados na aurora da esperança
Terás aqui o registro da luz de teu sorriso amanhecido

E a Paz, que é boa senhora e vilipendiada sempre,
Ganhará neste matinal céu de Inverno
Versos que rogam aos homens o Seu sagrado nome.

 

Patientia, fratres meis.

2 Comentários


A estupidez como modelo social na Modernidade Líquida

Dizem que a coisa começou lá com os gregos e ganhou força sobremodo com os romanos: nosso gosto por tudo quanto possa ser considerado dramático. A dureza da realidade nos força, inclusive para alguma saúde mental, a sonhar de olhos abertos.
Por herança, além das línguas românticas (Português, Francês, Italiano, etc), ganhamos, em nosso sangue latino, a paixão: esta capacidade de sofrer, que nada mais é do que tocar a vida adiante sem muita lucidez e afastados da razão. Por isso, amamos a tragédia e a comédia. Por isso, endeusamos nossos atores, artistas e perdemos tempo em frente à TV vendo novelas, programas sofríveis de humor e filmes.
Porém, nosso pão e circo têm lá suas limitações. O pão sempre foi pouco. No circo eletrônico onírico-virtual, os autores debatem-se para descobrir uma nova fórmula em suas ficções esgotadíssimas em qualidade e criatividade, que determinam a constante queda de audiência dos novelões, repetidos em forma, esquetes e tipos.
Nessa crise de criatividade ficcional, o que nos sobra é apelar para a tragédia ou comédia real e, se possível, dramas particulares eivados de irracionalidade e estupidez, como se isso nunca tivesse feito parte da condição humana. A criança arremessada pela janela por um casal, ou a moça sequestrada e morta pelo namorado, ou o menino morto em alguma praia europeia, ou um golfinho maltratado e morto por turistas, ou uma advogada arremessada pela janela por um animal identificado como marido ou namorado, ou uma vereadora morta que vira heroína do nada, são sequências de uma mesma história de horror televisiva. É o horror como notícia, é o horror para nossa distração.
Nessa tragédia real, colocamos entre os atributos da notícia a capacidade dela tornar-se um drama desenvolvido em capítulos desconexos, porque a realidade não nos parece conexa. A paixão levada do privado para o público, do particular para o coletivo.
Mas dentro da tragédia em escala industrial, manda o manual da audiência, misturarmos algum riso ao trágico. Nessa nova comédia real, votamos em candidatos engraçados e estúpidos para assim garantirmos esse riso extra. Rimos das tolices dos programas especializados na desgraça alheia, que julgamos engraçada. Rimos do humor duvidoso e pouco inteligente desses programas da piada industrializada. Rimos de nossa própria condição de massa manipulável.
Nada disso é novo, como disse. Porém, o rir e o chorar alcançaram a escala industrial dentro dessa indústria que busca nos distrair de nossa condição de condenados dentro de uma sociedade que perdeu o juízo. Ou dentro de uma civilização que, a rigor, nunca alcançamos.
Deriva dessas misérias da pós-modernidade, ou Modernidade Líquida, a necessidade de ter assunto por meio das redes sociais; as novas fórmulas para espalhar o boato, a notícia nos modernos meios eletrônicos, em escala, velocidade e alcance, antes inimagináveis. Na verdade, estamos dando nova roupa ao velho fuxico de cerca de nossos avós, quando tudo era contado de ouvido para ouvido.
Temos dois mil anos de desenvolvimento da técnica que culminou na Sociedade da Informação, rápida, global e deficiente ao informar. Dois milênios usando todo nosso gênio para que lembremos em instantes que, sob os efeitos das paixões, não somos diferentes dos nossos semelhantes que habitavam as cavernas: estúpidos e desgraçadamente animais, que riem e choram por distração, conscientes que somos do nosso próprio fim.
1 Comentário


A arte de nomear incompetentes úteis ao governante

José Fernando Nandé

Na época do Brasil Colônia, as nomeações de funcionários em Portugal eram garantidas por lei e dependiam única e exclusivamente da vontade do rei. Esse costume ainda sobrevive, e com força, aqui entre nós. Interessa saber a razão. Para isso, vamos fazer uma breve retrospectiva histórica desse velho costume de nomear, herdado pelos países da Península Ibérica, em especial Portugal e depois introduzido nas colônias, como foi o caso brasileiro.

A primeira pista sobre a instalação desse costume, no Brasil, vem da própria formação política da Península Ibérica. Tanto Portugal quanto a Espanha têm suas origens profundamente marcadas pela expansão do Império Romano. Aliás, uma das razões da decadência e queda do Império vem justamente do ato de nomear. A rigor, para se obter cargos públicos e dessa maneira buscar uma carreira política, o cidadão romano dispunha de cinco formas: herança de sangue; eleição; nomeação; suborno; ou por assassinato em que também concorria o suborno.

Em seus últimos anos, o Império praticamente adotou as duas últimas formas. Assim, qualquer cargo poderia ser comprado com os devidos acertos políticos, desde um posto na magistratura ou até mesmo o de general, ou imperador. Ora, não há império que sustente em tamanho nível de corrupção, e o Império Romano do Ocidente veio abaixo em 476 d.C.; e no período dos Césares, praticamente todos foram vítimas de conspirações e morreram violentamente por pancadas, punhaladas ou envenenados.

Portugal deriva do Império Romano do Ocidente, sendo que o Brasil, como colônia, vai absorver grande parte dessa herança imperial, inclusive no Direito. Assim, para seguirmos adiante em nossa investigação, vamos ter que, antes de tudo, comentar o pensamento reinante na Grécia e sobremodo, em Roma. Origens políticas da raiz desse nosso costume de nomear.

O primeiro tópico que devemos levar em consideração ao se examinar as relações de poder nesses estados antigos, ainda modelos do nosso, é a noção de liberdade do homem e porque ele se submetia tão facilmente à autoridade de um soberano, ditador, rei ou imperador. Conforme nos explica o historiador Fustel de Coulanges (1830-1889), em sua obra máxima denominada de A Cidade Antiga, a liberdade nunca teve, tanto no Estado Grego quanto no Romano, o mesmo entendimento que temos dela nos dias de hoje.

”É, pois, um erro singular entre todos os erros humanos ter crido que nas cidades antigas o homem gozasse de liberdade. Ele nem sequer tinha ideia dela. Não acreditava que pudesse haver direito em relação à cidade e seus deuses (…) o governo mudou várias vezes de forma; mas a natureza do Estado permaneceu mais ou menos a mesma, e a sua onipotência diminuiu pouco. O governo chamou-se alternadamente monarquia, aristocracia, democracia; mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberdade, a liberdade individual. Ter direitos políticos, votar, nomear magistrados, poder ser arconte, a isso se chamava liberdade; mas nem por isso o homem deixava de estar submetido ao Estado. Os antigos, e sobretudo os gregos, sempre exageraram a importância e os direitos da sociedade; esse fato se deve, sem dúvida, ao caráter sagrado e religioso que a sociedade assumira originalmente.¹

Em outras palavras, Coulanges infere que o direito de comando de algum homem dentre os outros homens é, para os antigos, decorrência da vontade dos deuses, numa sociedade que nasce a partir de simples religiões familiares individuais, com seus deuses lares e avança para uma forma mais complexa, à medida que essas famílias se agrupam em cidades, com deuses não mais somente familiares, mas deidades de natureza coletiva. São esses deuses coletivos que darão a certos escolhidos o direito de governar sobre os outros homens, com várias prerrogativas, inclusive a de indicar seus auxiliares para a tarefa.

Notem que, nos dias atuais, embora não exista mais a necessidade da concordância dos deuses para que um homem venha a governar, a metodologia para o estabelecimento das investiduras em cargos públicos por nomeação continua praticamente a mesma, passados mais de dois mil anos.

Em nossos dias, ainda cabe ao governante eleito, ou guindado ao posto de governante por outros métodos, inclusive os não-democráticos, a nomeação de seus auxiliares para a formação de uma estrutura burocrática de sua confiança. Pressupõe-se que, por ter sobrevivido por todo esse tempo, não importando o regime adotado pelo Estado, a nomeação, ou modernamente, a condução para cargos comissionados, é o que dá sustentação a qualquer governo.

Portanto, não se concebe o Estado, mesmo nas mais refinadas democracias, sem o cargo em comissão, pois sua existência parte do princípio da confiança de quem nomeia e governa. Nomear, em última análise, é um direito do governante; agora, se a nomeação é correta, moral, de conformidade com a lei, ou legítima e necessária, são ponderações que vamos fazer mais adiante.

O poder de nomear entre os antigos romanos

Boa parte da civilização romana tem seu molde na civilização grega, assim como a nossa tem seus princípios e costumes na romana. Por isso, como já observamos, vamos nos concentrar nos romanos e mostrar aqui alguns pormenores da época para que possamos traçar paralelos com os nossos dias. Essa digressão histórica é necessária para a boa compreensão das teses que sustentaremos em nosso trabalho e sem elas, quaisquer futuras afirmações que façamos estarão desprovidas das fortes colunas que devem sustentar a construção de nossas argumentações. Inicialmente, para nosso propósito, devemos verificar como as nomeações eram tratadas no Império Romano e para tal, contaremos com a ajuda do historiador Suetônio (69-122 d.C.), que retrata os bárbaros costumes imperiais e o início da decadência do poder romano.

Caio Júlio César (100 – 44 a.C.), por exemplo, tinha a firme crença, como outros imperadores, que seu direito de governar vinha de sua descendência direta dos deuses, ou seja, além da herança de sangue, ele governava por direito divino: “Minha tia Júlia é descendente de reis por parte de família de sua mãe; por parte da família de seu pai encontram-se ligados os deuses imortais (…) os Júlios, antepassados de nossa família, são descendentes de Vênus. Desta forma, misturam-se a nossa raça a santidade dos reis que exercem tão poderosa influência sobre os homens, e a majestade dos deuses, que mantêm debaixo de sua autoridade os próprios reis”

Quanto ao ato de se nomear, ou do cidadão ser indicado a cargos públicos, são várias as passagens que encontramos em Suetônio. As mais reveladoras estão nos capítulos dedicados a Calígula e ao seu sucessor, Cláudio (Nero Cláudio César; que viveu do ano 37 ao ano de 68 depois de Cristo), que era considerado um imbecil e, mesmo assim, exerceu vários cargos públicos, inclusive o de imperador, aos 50 anos de idade, após a morte de seu antecessor, Calígula, consolidado na história como louco.

Escreve Suetônio sobre ascensão Cláudio, ainda antes de obter o cargo máximo do Império:

“Sob a autoridade de Caio, filho de seu irmão, que no início de seu reinado procurava por meio de toda espécie de obséquios fazer-se uma reputação favorável, alcançou as honras exerceu o consulado com ele durante dois meses. No entanto, a primeira vez que se dirigiu ao Fórum com os fasces, uma águia pousou na sua espádua direita. Dessa forma, foi designado pela sorte para exercer, ao termo de quatro anos, um segundo consulado”.³

Uma bela passagem que ilustra costumes que ainda temos aqui no Brasil, como veremos adiante, em que, até mesmo alguém de notória ignorância, consegue altos postos em governos (vide casos da atual composição do Judiciário), desde que conte com um bom pistolão e golpes de sorte. Ou seja, tudo fica mais fácil para quem tem um parente em destacada posição de mando dentro de um governo.

Falamos até agora das benesses obtidas por parente próximo do imperador. Mas, o poder dele nomear chegava a qualquer cidadão. Tiremos como exemplo Tibério Nero César (viveu de 42 a.C até 37 d.C.; sucessor de Augusto), que decidia, afora os cargos eletivos, que em sua época já eram poucos, o destino de praticamente todos os funcionários do Império. Tibério “conseguiu introduzir no Estado uma certa aparência de liberdade que conservou a antiga majestade, e o antigo poder do Senado e da Magistratura”, narra Suetônio. “Não existiu nenhum negócio, pequeno ou grande, público ou particular, do qual não prestasse contas aos padres conscritos. Sobre os consultava sobre impostos, os monopólios, os edifícios a serem construídos ou reparados e até mesmo sobre recrutamento e licenciamentos militares e sobre a distribuição de legiões e das tropas auxiliares. Também lhes perguntava sobre quais generais deveriam ser conservados nos postos de comando; a quem entregar a direção das guerras extraordinárias; em que sentido e de acordo com tais fórmulas se deveria responder às cartas dos reis…”. (4) Eis como um tirano pode mascarar seu governo, pois é sabido que, embora mostrando-se generoso em público, Tibério também exercia o governo com mão de ferro e que não dispensava o uso da pena capital para eliminar seus inimigos, cassando seus antigos títulos de nobreza e se apossando de seus bens. Ávido por dinheiro, se entregou à rapinagem e arranjava os mais ignóbeis motivos para jogar em desgraça qualquer cidadão ou província que lhes pudessem gerar algum lucro.

Quanto ao costume de se indicar sucessores aos cargos vacantes por meio de suborno ou assassinato, a história romana está repleta de exemplos. Tantos que somos forçados a escolher um caso aleatório.  Vamos, portanto, ao mais famoso deles, a morte de Nero, que foi forçado ao suicídio depois de uma conspiração familiar e dos próprios palacianos, que estavam cheios de seus desmandos, temerosos inclusive de perderem a própria vida. Com Nero, a família inteira dos Césares deixou de existir. Sucedeu-lhe Sérvio Suplício Galba, que não pertencia à casa dos Césares, porém era da alta nobreza. Assim que assumiu, Galba fez colocar no vestíbulo do palácio sua árvore genealógica, a qual mostrava sua origem.  Por parte de pai, ela chegava até Júpiter, deus que garantia, dessa forma, a origem divina dos poderes concedidos ao novo imperador, mas sem, no entanto, renegar o título de César, que em si, por tradição, também lembrava a divindade do soberano. Aliás, esse costume de ter “uma indicação divina” para o exercício do máximo poder, vai continuar pelos séculos seguintes nas monarquias, mesmo depois da queda do Império, com o poder sendo uma outorga não mais de deuses pagãos, mas do Deus cristão, com a aprovação da Igreja Católica Apostólica Romana, que guardaria para si esse privilégio de ungir os reis e príncipes por mais de mil anos.

Parece-nos, neste contexto do divino que, durante o episódio de sua prisão, o condenado Luís Inácio Lula da Silva, tentou, mas sem sucesso, numa missa chamada por muitos de “negra”, passar à religiosa sociedade brasileira, a ideia que havia uma unção dos céus pelo seu direito ao poder, mas não mais por direito de sangue, mas sim por direito de origem sindical, ou seja, por supostos serviços prestados ao povo.

 

NOTAS

¹A Cidade Antiga, Coulanges, pg. 239

²A Vida dos Doze Césares, Suetônio, pg. 16.

³Idem, pg. 247

4 Ibidem, pp. 165, 166.

1 Comentário


A lenda da corrupção no DNA do brasileiro – Foi Caminha o primeiro corrupto a pisar no Brasil?

José Fernando Nandé

Há uma lenda na política brasileira a ganhar terreno todos os dias e que concede a Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, em 1500, a primazia no afamado “jeitinho brasileiro”. Pela lenda, no final de extensa carta ao rei Dom Manuel I, em que Caminha tece pormenores sobre a nova terra descoberta e da própria expedição, o escrivão pedira ao rei um cargo para seu sobrinho. Mas, de acordo com o historiador e jornalista Sinval Medina, essa história toda não passa de exagero até mesmo da própria imprensa que, toda vez que corrupção no Brasil toma destaque nos noticiários, a revive para ilustrar o tema.

Ou seja, por essa visão simplista da história, há uma indução para se fazer crer que a corrupção no Brasil está profundamente atrelada aos detentores de cargos públicos e a outros vícios administrativos e que isso se deve ao DNA político herdado dos portugueses. Genes que teríamos até hoje em nosso sangue, conforme destaca o historiador Boris Fausto: “Uma percepção corrente aponta a eternidade da corrupção em nosso país, invocando as raízes da formação ibérica em que imperaram as relações sociopoliticas patrimonialistas e, portanto, a indistinção do patrimônio público e do privado. Uma decorrência dessa perspectiva é o fatalismo que tende a acompanhá-la. Se esse e outros problemas graves do país estão inscritos no seu DNA, as possibilidades de superá-los seriam remotas, na melhor das hipóteses“. (O Estado de S. Paulo 19/6/09, pg.2).¹

Ora, examinando esse suposto DNA da corrupção, podemos adiantar que Caminha realmente se utilizou do cargo para pedir um benefício ao rei, mas não um cargo para o sobrinho. Observem leitoras e leitores, como o próprio Caminha escreve em sua tão famosa carta, em seu final, já como um pós-escrito:

“(…) E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se a um pouco me alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez proceder assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que Dela receberei em muita mercê. Hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500).²

Pelo exposto, no final da carta observamos que Caminha realmente tenta fazer uso de seus privilégios de funcionário da Coroa ao elaborar o relato, que seria de sua obrigação de função junto à frota. Para isso ele usa da estratégia de informar um grande fato, na esperança de que, com a alegria de Dom Manuel I, o seu objetivo fosse alcançado: a remoção novamente para Portugal de seu genro, um tal de Jorge Osório, que fora condenado a degredo na ilha de São Tomé, em África. Pelo que explicam os historiadores, o genro de Caminha não era flor que se cheirasse, pois havia recebido a condenação pelos seus maus costumes, dentre eles, o assalto à mão armada. Isso também nos dá a dimensão do drama pessoal de Caminha. Ao que parece, ele preferia ver Isabel, sua única filha, juntada a semelhante sujeito, em mau casamento, a tê-la sem ninguém, numa sociedade conservadora em que a mulher casada, vivendo longe do marido, seria quase que um pecado, embora estivessem em vigência em Portugal as Ordenações Afonsinas (1446)³, as quais separavam o Direito Canônico do temporal.

E tinha razão o escrivão da frota, pois ele jamais retornaria aos portos lusitanos para amparar sua filha. Caminha seria morto em combate (dezembro de 1500) alguns meses depois de ter registrado o nascimento do Brasil em carta, que fora levada ao rei pelo capitão Gaspar Lemos, destacado para essa missão, enquanto o restante da frota seguia para a Índia. Sabe-se que Dom Manuel I recebeu a missiva, mas quanto ao pedido de Caminha, por ausência de dados históricos, ninguém imagina o desfecho.

Portanto, se Caminha não usou de seu posto para almejar cargo para seu sobrinho, ele lançou mão do privilégio de pedir um favor ao rei em assunto legal. Ora, esse pedido do escrivão da frota de Cabral, pela moral comum, seria condenável, mas pela moral do Direito, seria um ato admissível, posto que as tais Ordenações vigentes facultavam ao rei a prerrogativa de perdoar ou comutar penas impostas. Recentemente, essa tradição do Direito brasileiro, em que se dão ao réu recursos à última instância, foi relembrada durante os debates do Supremo Tribunal Federal (STF) por ocasião da admissão dos polêmicos embargos infringentes no julgamento da Ação Penal 470, conhecida popularmente como ação do Mensalão.

Uso do cargo para pedir favores, o tráfico de influência

Para o escopo deste artigo, a história de caminha só nos serve para levantarmos dois pontos morais. O primeiro, a investidura em cargo público. Segundo, o uso que se faz desse cargo para interesses pessoais ou de grupos interessados.

No caso do genro de Caminha exclusivamente, notamos que, pelas Ordenações se previam penas para os autores de crimes contra a Coroa, como a adulteração de moedas ou atos de lesa-majestade. A maior parte dos crimes era punida com o degredo, forçando o infrator a se ausentar temporariamente, ou para sempre, de Portugal. Também estavam sujeitos ao degredo aquele que praticasse sedução de moça virgem ou viúva honesta, roubo, lesões corporais, e má-fé em transações comerciais. Dependendo da natureza de seus crimes, concorriam contra os criminosos outras penas, como a capital ou condenação às galés, castigos muito mais pesados do que o banimento ou degredo perpétuo. Uma vez transitada em julgado, a sentença não podia ser comutada, a não ser “por uma graça especial” do rei. Ou seja, o monarca tinha poderes, previstos em lei, para conceder indulto aos apenados. Então, o pleito de Caminha era justo e qualquer atitude tomada pelo rei estava respaldada pela lei.

Embora o pedido de Caminha pudesse hoje ser interpretado como oportunismo, por se aproveitar da situação do descobrimento, não nos parece que há crime no pedido. Com muito esforço, poderíamos admitir certa tentativa de tráfico de influência à luz de nossas leis atuais, que consiste na prática ilegal de uma pessoa se aproveitar da sua posição privilegiada dentro de uma empresa ou entidade, ou das suas conexões com pessoas em posição de autoridade, para obter favores ou benefícios para terceiros, geralmente em troca de outros favores ou pagamento. Ora, Caminha detinha essa posição privilegiada, além de nomeado escrivão da frota, ele fora também vereador em Lisboa, cargo reservado aos súditos do rei de boa origem, mas não se utilizou de outros recursos, a não ser pedir, para colocar adiante o seu desejo em relação ao seu genro e também não ofereceu pagamento ou outro favor que não fosse a garantia de que iria continuar servindo bem ao seu soberano (Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida).

Notas

¹Observatório da Imprensa, número 776.

²Conforme texto original, Fundação Biblioteca Nacional

³ Temos ainda as Ordenações Manuelinas (1521) e Ordenações Filipinas (1603)

1 Comentário


Um dia no orfanato de Campo Comprido, 1976, em Curitiba

Capítulo III

Os louquinhos

Sentei-me
num claro de tempo.
Era um remanso
de silêncio,
de um branco silêncio,
anel formidável
onde os luzeiros
se chocavam com os doze
flutuantes números negros.
F. G. Lorca

Formamos pela manhã. Eu continuava mal. Tivera hemorragia, perdera muito sangue. Felizmente, numa rara demonstração de sensibilidade, o funcionário Fausto, talvez por ter sofrido tanto pelo mesmo motivo, já que era desdentado, retomou sua alma ao diabo e tirou-me da fila do trabalho. Esse ato de misericórdia, quase me fez esquecer daquela surra covarde do primeiro dia e o roubo de minhas moedas. Eis o encanto de satã ao conquistar o ignorante: guardá-lo no vazio do não se saber. E quem não sabe de si, não sabe do mundo, nada pensa; sem ser demente, faz as coisas e não se dá conta do bem ou mal que está realizando.

orf1Enquanto o restante dos internos trabalhava, os louquinhos e os inválidos ficavam soltos no pátio, a perambular de um lado para o outro, ou sentados, às vezes mudos, às vezes falando barbaridades desconexas. Sentei-me à sombra de um jasmineiro. De lá foi possível observar um por um dos penados esquecidos por Deus e seus prestimosos auxiliares.

Zé Coqueiro, um autista, corpo de faquir indiano, de cócoras justificava o seu apelido. Sorrindo o doce sorriso dos alienados, o Zé desenhava numa rapidez incrível coqueiros com as pontas dos dedos na terra fofa. Terminado o coqueiro, ele o apagava imediatamente e num ato contínuo, outro coqueiro desenhava; milhares de vezes, infinitas vezes.

O autista, abandonado pela família, deveria ter uns 15 anos e nunca recebera uma visita. Zé, porque não possuía registro civil. Coqueiro, sua assinatura para o mundo. Nem mesmo a assistente social desconfiava qual seria o seu nome verdadeiro. Um dia ele deve ter aparecido ali, transportado igual a um porco num carro de polícia ou ambulância, sem defesas e comunicação, como quase todos os louquinhos que estavam “estocados” naquele armazém de alienados.

orf2Albino e com feridas na pele, se chegou para perto de minha árvore o Treme-treme, menino da cabeça quadrada e olhos miúdos. Frank, como também era chamado, sofria de algo que eu nunca tinha visto. Involuntariamente, os seus músculos descontrolados o faziam tremer todo.

“A…me…a…meu…”, balbuciava o infeliz e não passava disso, porque os músculos de sua face repuxavam e seu corpo tremia. Depois sorria e voltava a tremer, molhando-se com a própria urina e lambuzando-se com a merda que escorriam pelas pernas.

Novo na escola, Pinguim era entrevado. Também próximo de mim. com os pés virados para dentro, ele andava passinho por passinho. Não falava, apenas ria (o riso é a única propriedade dos loucos), exibindo restos de comida nos seus dentes acavalados.

“Punheteiro”, gritava um interno que passava.

“Filho da puta”, respondia aos berros o Sorvete, demente solitário que se escondia por detrás das árvores. Ali estava a única expressão possível de se ouvir da boca do pobre diabo. De resto, creio que Sorvete não sabia falar mais nada.

Badu, negro, deficiente mental (agia como se tivesse 12 anos, embora fosse adulto), muito alto e forte, fazia-se defensor do Sorvete, assim como de todos os louquinhos. Bastava mexer com um deles e a resposta vinha na hora: um tijolo ou pedra sibilava por nossas orelhas, sem direção, pegasse em quem pegasse e a vingança estava feita. Por sorte, naquele dia, o tijolo não atingiu ninguém.

Mesmo entre os louquinhos tínhamos líderes. Os goiabas mais antigos e com, digamos, alguma “inteligência” mandavam nos mais novos. Badu e Joaquim Maia estavam nessa condição e recebiam tratamento diferenciado dos outros louquinhos e até mesmo dos funcionários. Para termos uma ideia do nível mental dos dois, basta saber que eles ficavam muito tempo no portão da escola num jogo absurdo. Joaquim Maia, de costas para a rua e para os carros que passavam, gritava o nome de uma cor:

“Verde!”.

“Vermelho!”, adivinhava o velho Badu.

O carro que passara não era verde nem vermelho, tinha outra cor qualquer. O interessante ainda é que este jogo de malucos não havia pontuação nem ganhadores. Depois de horas jogando, os dois simplesmente iam embora. Não sabiam contar.

Joaquim Maia tinha uns 30 anos, barrigudo e quase anão, sofria de epilepsia, com cardápio variado de ataques, que variava desde o convencional até uma grande corrida que terminava no alto de alguma árvore. Pensei que o louco exagerava e fingia, mas um dia ele teve dois ataques seguidos. Correu, trepou num pinheiro alto e lá em cima começou a se estrebuchar. Caiu, sangue para todo lado e fraturas expostas.

Esses eram os loucos permanentes, os da casa. Às vezes apareciam novos, surgidos sabe deus donde. Os marmanjos urinavam e cagavam na cama. Fediam por falta de banho.

Os aleijados, vítimas da paralisia infantil, viviam com os loucos. Os “motoqueiros”, assim chamados pelo uso das muletas, revelavam quase sempre a mesma história. No princípio, tratados pela família e parentes. Depois internados em hospitais e mais tarde abandonados no orfanato.

orf3Não obstante suas deficiências, os motoqueiros demonstravam-se muito unidos e procuravam desenvolver atividades e propunham a si mesmos desafios. Assim, muito antes do Poder Público esboçar qualquer projeto de esportes para deficientes, eles se reuniam e disputavam jogos de futebol. As muletas de madeira se chocavam com violência e os que tinham apenas uma perna, envolta pelo metal dos aparelhos, arriscavam chutes na bola de meia ou borracha. Jogávamos com eles e os tratávamos como iguais, inclusive no trabalho e até mesmo quando o assunto era porrada. Eles brigavam entre si e com os outros internos. Desse costume, só posso dizer que uma muletada no pé do ouvido dói bastante.

Em número reduzido, existiam também os totalmente inválidos, praticamente paraplégicos, vítimas da poliomielite. Braulino, um deles, mais velho do que os outros, usava óculos modelo fundo de garrafa. Como só tinha movimento nos braços, uma armação de ferro sustentava-o. Duro, andava de muletas e demorava horas para vencer alguns metros. Não tomava banho e cheirava mal. Também, como se livrar daquele esqueleto esquisito? Sem o que fazer, ele vivia sentado no jardim, e com o nariz encostado na Bíblia pregava absurdos apocalípticos, misturando apóstolos aos profetas e emendando textos para dar maior drama ao que falava.

Não faz muito tempo vi o Braulino, cabelos brancos, esmolando nas ruas de Curitiba. Vivia por certo seu próprio apocalipse e de mãos estendidas esperava o final do mundo que, segundo ele, terminaria numa infernal fogueira.

Tentei várias vezes fazer uma escala de intensidades para o abandono. Tenho muita prática nesta praga que nos sufoca o espírito. Qual deles seria o pior e qual deles seria o menos grave? Inútil qualquer resposta. O abandono é isso: abandono. E a escala se faz no coração do abandonado e na consciência atormentada de quem abandona. Ao analisar minha história e de centenas de meninos que viriam a conviver comigo, conclui que as famílias, os pais ou responsáveis legais, ao abandonarem seus filhos podem ser guiados a mais das vezes por três motivos básicos: o econômico, desajustes familiares e preconceitos sociais. Esses motivos não raro aparecem juntos. Veja bem, eu parto de observações puramente empíricas que me chegaram aos sentidos, sem a ciência dos números e estatística, desprezando as variáveis psicológicas, que por elas mesmas dariam um grande tratado para um pesquisador que esteja disposto a executá-lo.

Os mais comuns de serem encontrados num orfanato são os abandonados por motivo econômico combinado com o desajuste familiar. É o pai e a mãe que não têm como sustentar os seus, por falta de trabalho ou renda, além de uma grande dose de ignorância provocada pela baixa escolaridade. Na falta de recursos econômicos, os laços que unem o frágil núcleo familiar simplesmente são rompidos, seja pela fome, seja pela miséria, depressão ou loucura decorrentes. Imediatamente, os membros dessa família são empurrados para a marginalidade, delinquência, alcoolismo, drogas e agressões mútuas. O próximo passo é a desagregação familiar. Os adultos, quando não presos ou mortos, somem pelo mundo, deixando sua prole ao deus dará. Note, caro leitor, que aqui falo da família comum, com papéis bem definidos de pai e mãe. Mas o mesmo se repete, e de forma mais dramática, em proles sustentadas apenas por um desses atores.

Nos desajustes familiares também incluo as causas naturais como a morte ou doença dos provedores e ausência de parentes e amigos da família para a adoção. Mas esses são casos raros nos orfanatos, se comparados aos anteriores. Dos internos que conheci, poucos se diziam realmente órfãos.

Por último, temos o preconceito social. É a mãe solteira que por motivos “morais”, religiosos, ignorância — a própria, dos seus pais ou companheiro — insiste na gravidez e é obrigada a abandonar a coisa que se fez em seu útero. É a gravidez indesejada de mulheres adolescentes ou das que caíram na vida. É o patrão que dormiu com a funcionária, amante ou empregada e para amenizar o escândalo força a mãe a entregar seu bebê para instituições de caridade.

Assim, creio, que é muito difícil de se saber qual dos abandonos é o menos cruel. Todos têm um grande grau de crueldade que culmina numa culpa tremenda naquele que abandona e um enorme complexo de rejeição no abandonado.

Felizes eram aqueles alienados que não tinham consciência de suas condições. Pobres aleijados que se sabiam punidos duas vezes pelo terrível crime de terem nascido.

Naquele tempo brutal, sempre ao final do dia, como já era costume, ônibus despejavam levas de meninos na escola. Não eram fujões e sim órfãos vindos de outras instituições, geralmente religiosas, que haviam completado a idade de 10 ou 12 anos. Prudentes e pudicas, as freiras só cuidavam de seus órfãos masculinos até o início da adolescência. Por certo, evitavam assim o apego demasiado e outros pecados menores.

No internato, esses meninos tinham singular comportamento. Dóceis, raramente desobedeciam, acostumados que estavam com a orfandade. Eles se tratavam como irmãos, posto que se conheciam desde o berço. Dispensados do rito de iniciação, logo esses guris estavam o uniforme da 1ª Cia e brincavam descontraídos misturados aos outros no pátio.

Mais tarde fiz amizade com alguns deles que atendiam por apelidos numerais. Assim tínhamos o “Trinta” e o “Vinte Oito”, números pelos quais foram identificados nos antigos orfanatos. Os dois, um Manoel e o outro Manuel, sentaram praça na Marinha de Guerra ao deixarem o internato de Campo Comprido, isso muitos anos depois.

O Trinta contava que não conhecera a família. Desde nenê no orfanato das freiras, entrava seguidamente na fila de adoção. Negro, sempre preterido. Os casais que por lá costumavam procurar “filhos” davam preferência aos brancos e loirinhos. Dizem que o marinheiro morreu em serviço ao tentar salvar pessoas que se afogavam no rio Paraná. Não duvido, ingênuo, perverso às vezes, possuía grande alma.

Antes do jantar, os funcionários fizeram os arranjos para dar equilíbrio às companhias. A terceira e quarta contavam um número reduzido de alunos, com muitas camas vazias, ao passo que as outras duas companhias estavam lotadas com os novos que não paravam de chegar. Muitos foram promovidos.

orf4As vagas na terceira e quarta companhias apareciam porque os que completavam 18 anos deixavam a escola. Esse processo demonstrava-se tão doloroso e incerto quanto o de entrada no orfanato. Todos os anos formavam-se dezenas de sapateiros, alfaiates, gráficos e padeiros, com um nível de escolaridade muito baixo. As assistentes sociais arrumavam-lhes emprego. Ainda na condição de internos, esses rapazes ficavam por ali por mais três meses até juntarem algum dinheiro. Depois eram encaminhados para uma modesta pensão particular, com direito a simplório enxoval: lençóis, fronha, duas camisas e uma calça.

Desamparados, recebendo salários miseráveis, solitários, desajustados e extasiados com a repentina liberdade, os egressos do orfanato praticavam besteiras. Perdiam o emprego, roubavam e acabavam presos em menos de um ano. Poucos eram os que realmente encontravam um novo caminho na vida. Acompanhávamos as notícias que vinham lá de fora e ficávamos inseguros quanto ao nosso futuro, se é que assim poderia ser chamada aquela desgraça anunciada.

Não é à toa que alguns internos tentavam não deixar o internato, mentindo a idade e fingindo insanidade mental, caso do João Louco, que todo mundo desconfiava que não era louco porra nenhuma, mas vivia entre eles. Tínhamos vários alunos em condições semelhantes. Velhos, alguns com mais de 30 anos, que procuravam em si alguma utilidade para o sistema montado na escola. Os “peixes” da direção realmente eram úteis. Funcionavam como amortecedores entre o peso da ira dos funcionários e a nossa fragilidade, assumindo funções de monitores ou até mesmo de servidores contratados. Três deles eram muito antigos na escola, com direito a salários e moradias especiais.

Valtinho morava próximo à horta com a família, mulher e dois filhos. Magro e pequenino, contava uns 55 anos de idade e ainda jogava muito bem futebol, um craque. Ele dedicava-se aos serviços gerais, encanamentos, reformas, etc. Nas horas vagas, cuidava de pequena horta e de seu galo de briga, que um dia roubamos e cozinhamos com abóbora (ficou um horror, a carne dura dispersa numa gosma aguada doce e amarela; fome ignora os olhos, e comemos tudo). Ele nunca descobriu quem foi, mas garanto que caso isso ocorresse sua vingança seria medonha, dado o apego de Valtinho ao bicho.

Zelas, o zelador, contemporâneo de Valtinho quando esteve internado, sofria de epilepsia. Morava num cubículo imundo do lado da 4ª Cia. O material de limpeza que estava sob sua guarda se misturava a roupas e pertences embolados por sobre a cama repleta de manchinhas de sangue das pulgas esmagadas. Contrariando o nome e a função, Zelas não zelava por nada, já que os imundos banheiros teoricamente estavam por sua conta e pelo estoque de desinfetantes, pastas vassouras e sabões em seu quarto, via-se que o problema de higiene na escola não era a falta de produtos de limpeza, era preguiça mesmo. Vivia batendo papo, defendendo posições absurdas em discussões vazias com alunos e outros funcionários. Contava-se que fora noivo e que abandonou a ideia de casamento depois que descobriu que a noiva era fã do Tarcísio Meira. Numa noite ao visitar sua futura senhora, ele foi solenemente ignorado até o término do capítulo da novela. Nunca mais voltou. Sorte da moça.

Venâncio, o homem manco, com a boca meio torta, exercia a função de almoxarife. Quieto, realmente triste, morava num quartinho isolado. Escravo de doenças, logo após minha chegada morreu. Acompanhamos o enterro. Naquele dia de chuva, o caixão simples desceu à cova sem choros e lamentações. Parente algum deixou na tumba suas lágrimas. Viveu órfão, morreu órfão.

2 Comentários


Meditações diante do Ovo de Páscoa

Eis a vida como a entendo e como a vejo, pequenas partículas de areia a se juntarem na soma de nossas horas. Vi meu mundo e do meu mundo apenas o pedaço que me coube, nada além disso.

ilustracoes-antiga-de-pascoa

Dos deuses
Poucas são as coisas que, ainda, me causam espanto nesta vida. Uma delas é a coincidência, ou congruência, dos eventos aparentemente desconexos. Os deuses têm vocação para dramaturgos e por anos desencadeiam fatos que só tomam sentido quando se cruzam na linha do tempo.

Das paixões
A mais das vezes, o coração transtornado é um acelerador da sucessão dos eventos que determinam grandes tragédias. Junte-se a isso desejos secretos, ciúmes, paixões irracionais, segredos nunca revelados e teremos aí o material que é feito o caldeirão do inferno.

Da loucura
A loucura é outro grande mistério que nos fascina. Há os que nascem dementes. Mas, há outros que ficam insanos aos poucos. Nascem e vivem por um tempo aparentemente com bom juízo, mas são apanhados por algum infortúnio, uma faísca a incendiar o inferno, que os empurram para o abismo espiralado da alienação. Caem, caem e caem nele continuamente, até desaparecerem como seres humanos.

Da pobreza
A pobreza tem suas virtudes, uma delas é forjar corações endurecidos. A luta pela sobrevivência marca indelevelmente a infância das crianças que não compreendem muito bem a diferença entre os que têm e os que não têm recursos.

Da recompensa
Faz o bem para o bem do teu fado
E tua alma se sentirá recompensada
Mesmo que tu não escutes o obrigado.

Do coração
Joga fora o que tu pensas amar e não te ama
Teu coração é o templo das coisas puras e boas
E não quartinho de despejo para velhas tralhas.

Dos ingratos
Eu trago as mãos estendidas
Como quem oferece o pão
Feito de verdade e poesia
Para quem tem paz no coração
E aos ingratos em tormentos
Ofereço o silêncio do perdão.

Dos medíocres
Creio na evolução dos seres. O medíocre, por exemplo, inevitavelmente há de se tornar um tolo completo e, sem modéstia, alcançará a glória dos estúpidos.

Patientia, fratres mei! Felix Pascha!

Comente aqui


Quem sabe? – a dúvida de amor de Carlos Gomes

cg

Carlos Gomes

Aos deterministas que afirmam ser o meio e as condições de vida fatores condicionantes do destino das pessoas, Antônio Carlos Gomes (1836-1896) é a antítese dessa manca teoria tão cara aos “filósofos” de um livro só. Carlos Gomes, ou simplesmente Nhô Tonico, como ele mesmo gostava de ser chamado e assim assinava, nasceu em Campinas.  Criança, perdeu a mãe, assassinada aos 28 anos de idade. Foi criado com os irmãos pelo pai, sempre em grandes dificuldades e, por isso, trabalhou em alfaiataria costurando calças e paletós para “financiar” seus estudos musicais.

Antes de alcançar fama mundial, a partir da Itália, como compositor de Ópera, a trajetória de Carlos Gomes passa pela música “popular”, ou por o que poderíamos considerar “popular” para a época. Aos 15 anos de idade compunha valsas, quadrilhas e polcas. Em 1857 compõe a modinha “Suspiro D’alma”, com versos de Almeida Garret.

Depois da apresentação de algumas de suas obras no Rio de Janeiro e já com fama na corte e financiado por uma bolsa do Império, ele foi estudar na Itália, onde teve seu talento reconhecido. Daí em diante a história do autor da ópera “O Guarani” é bem conhecida. Por isso vou me ater somente à música “Quem Sabe?”, uma das canções de cunho popular e muito ao gosto de todos os públicos por mais de século, com versões de arranjos gravadas por cantores populares e eruditos.

Bittencourt Sampaio

Bittencourt Sampaio

A letra tem como base os versos do jovem poeta romântico Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895). A data da pareceria é de 1859, e essa canção tem seu espírito romântico reforçado pela saudade que Carlos Gomes sentia de Ambrosina, sua namorada, filha da família Correia do Lago. Ambrosina teve sua memória eternizada na música, mas foi só isso. Carlos Gomes haveria de casar-se na Itália, com Adelina Péri.

 

Aqui vão os versos da primeira estrofe, para uma breve análise:

Quem Sabe?

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento

Já no primeiro verso, notamos a vocação para música imposta ao poema em sete sílabas poéticas bem medidas. O tema já sobressai nele, a distância que separa os amantes e, a partir daí, o poeta avança para a dúvida, coisa tão cara aos românticos, ao questionar onde estaria o pensamento da amada. Nos versos seguintes, são varições sobre a distância que os separa e a dúvida no coração de quem ama a partir de juras de amor. Fórmula perfeita, juntada à genialidade da música de Carlos Gomes, para a canção cair no gosto popular, pois este tema, o amor com seus sofrimentos, é eterno na poesia e, portanto, fala aos corações de todas as gentes. Veja no restante da letra e na interpretação selecionada de Diana Pequeno:

Quisera saber agora
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Da saudade agro tormento

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Da saudade agro tormento

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto

Suspiros, angustias, dores
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, são as vozes
São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh’alma cheia d’amores
Te entreguei já n’este canto

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh’alma cheia d’amores
Te entreguei já n’este canto.

1 Comentário