literatura



Um dia no orfanato de Campo Comprido, 1976, em Curitiba

Capítulo III

Os louquinhos

Sentei-me
num claro de tempo.
Era um remanso
de silêncio,
de um branco silêncio,
anel formidável
onde os luzeiros
se chocavam com os doze
flutuantes números negros.
F. G. Lorca

Formamos pela manhã. Eu continuava mal. Tivera hemorragia, perdera muito sangue. Felizmente, numa rara demonstração de sensibilidade, o funcionário Fausto, talvez por ter sofrido tanto pelo mesmo motivo, já que era desdentado, retomou sua alma ao diabo e tirou-me da fila do trabalho. Esse ato de misericórdia, quase me fez esquecer daquela surra covarde do primeiro dia e o roubo de minhas moedas. Eis o encanto de satã ao conquistar o ignorante: guardá-lo no vazio do não se saber. E quem não sabe de si, não sabe do mundo, nada pensa; sem ser demente, faz as coisas e não se dá conta do bem ou mal que está realizando.

orf1Enquanto o restante dos internos trabalhava, os louquinhos e os inválidos ficavam soltos no pátio, a perambular de um lado para o outro, ou sentados, às vezes mudos, às vezes falando barbaridades desconexas. Sentei-me à sombra de um jasmineiro. De lá foi possível observar um por um dos penados esquecidos por Deus e seus prestimosos auxiliares.

Zé Coqueiro, um autista, corpo de faquir indiano, de cócoras justificava o seu apelido. Sorrindo o doce sorriso dos alienados, o Zé desenhava numa rapidez incrível coqueiros com as pontas dos dedos na terra fofa. Terminado o coqueiro, ele o apagava imediatamente e num ato contínuo, outro coqueiro desenhava; milhares de vezes, infinitas vezes.

O autista, abandonado pela família, deveria ter uns 15 anos e nunca recebera uma visita. Zé, porque não possuía registro civil. Coqueiro, sua assinatura para o mundo. Nem mesmo a assistente social desconfiava qual seria o seu nome verdadeiro. Um dia ele deve ter aparecido ali, transportado igual a um porco num carro de polícia ou ambulância, sem defesas e comunicação, como quase todos os louquinhos que estavam “estocados” naquele armazém de alienados.

orf2Albino e com feridas na pele, se chegou para perto de minha árvore o Treme-treme, menino da cabeça quadrada e olhos miúdos. Frank, como também era chamado, sofria de algo que eu nunca tinha visto. Involuntariamente, os seus músculos descontrolados o faziam tremer todo.

“A…me…a…meu…”, balbuciava o infeliz e não passava disso, porque os músculos de sua face repuxavam e seu corpo tremia. Depois sorria e voltava a tremer, molhando-se com a própria urina e lambuzando-se com a merda que escorriam pelas pernas.

Novo na escola, Pinguim era entrevado. Também próximo de mim. com os pés virados para dentro, ele andava passinho por passinho. Não falava, apenas ria (o riso é a única propriedade dos loucos), exibindo restos de comida nos seus dentes acavalados.

“Punheteiro”, gritava um interno que passava.

“Filho da puta”, respondia aos berros o Sorvete, demente solitário que se escondia por detrás das árvores. Ali estava a única expressão possível de se ouvir da boca do pobre diabo. De resto, creio que Sorvete não sabia falar mais nada.

Badu, negro, deficiente mental (agia como se tivesse 12 anos, embora fosse adulto), muito alto e forte, fazia-se defensor do Sorvete, assim como de todos os louquinhos. Bastava mexer com um deles e a resposta vinha na hora: um tijolo ou pedra sibilava por nossas orelhas, sem direção, pegasse em quem pegasse e a vingança estava feita. Por sorte, naquele dia, o tijolo não atingiu ninguém.

Mesmo entre os louquinhos tínhamos líderes. Os goiabas mais antigos e com, digamos, alguma “inteligência” mandavam nos mais novos. Badu e Joaquim Maia estavam nessa condição e recebiam tratamento diferenciado dos outros louquinhos e até mesmo dos funcionários. Para termos uma ideia do nível mental dos dois, basta saber que eles ficavam muito tempo no portão da escola num jogo absurdo. Joaquim Maia, de costas para a rua e para os carros que passavam, gritava o nome de uma cor:

“Verde!”.

“Vermelho!”, adivinhava o velho Badu.

O carro que passara não era verde nem vermelho, tinha outra cor qualquer. O interessante ainda é que este jogo de malucos não havia pontuação nem ganhadores. Depois de horas jogando, os dois simplesmente iam embora. Não sabiam contar.

Joaquim Maia tinha uns 30 anos, barrigudo e quase anão, sofria de epilepsia, com cardápio variado de ataques, que variava desde o convencional até uma grande corrida que terminava no alto de alguma árvore. Pensei que o louco exagerava e fingia, mas um dia ele teve dois ataques seguidos. Correu, trepou num pinheiro alto e lá em cima começou a se estrebuchar. Caiu, sangue para todo lado e fraturas expostas.

Esses eram os loucos permanentes, os da casa. Às vezes apareciam novos, surgidos sabe deus donde. Os marmanjos urinavam e cagavam na cama. Fediam por falta de banho.

Os aleijados, vítimas da paralisia infantil, viviam com os loucos. Os “motoqueiros”, assim chamados pelo uso das muletas, revelavam quase sempre a mesma história. No princípio, tratados pela família e parentes. Depois internados em hospitais e mais tarde abandonados no orfanato.

orf3Não obstante suas deficiências, os motoqueiros demonstravam-se muito unidos e procuravam desenvolver atividades e propunham a si mesmos desafios. Assim, muito antes do Poder Público esboçar qualquer projeto de esportes para deficientes, eles se reuniam e disputavam jogos de futebol. As muletas de madeira se chocavam com violência e os que tinham apenas uma perna, envolta pelo metal dos aparelhos, arriscavam chutes na bola de meia ou borracha. Jogávamos com eles e os tratávamos como iguais, inclusive no trabalho e até mesmo quando o assunto era porrada. Eles brigavam entre si e com os outros internos. Desse costume, só posso dizer que uma muletada no pé do ouvido dói bastante.

Em número reduzido, existiam também os totalmente inválidos, praticamente paraplégicos, vítimas da poliomielite. Braulino, um deles, mais velho do que os outros, usava óculos modelo fundo de garrafa. Como só tinha movimento nos braços, uma armação de ferro sustentava-o. Duro, andava de muletas e demorava horas para vencer alguns metros. Não tomava banho e cheirava mal. Também, como se livrar daquele esqueleto esquisito? Sem o que fazer, ele vivia sentado no jardim, e com o nariz encostado na Bíblia pregava absurdos apocalípticos, misturando apóstolos aos profetas e emendando textos para dar maior drama ao que falava.

Não faz muito tempo vi o Braulino, cabelos brancos, esmolando nas ruas de Curitiba. Vivia por certo seu próprio apocalipse e de mãos estendidas esperava o final do mundo que, segundo ele, terminaria numa infernal fogueira.

Tentei várias vezes fazer uma escala de intensidades para o abandono. Tenho muita prática nesta praga que nos sufoca o espírito. Qual deles seria o pior e qual deles seria o menos grave? Inútil qualquer resposta. O abandono é isso: abandono. E a escala se faz no coração do abandonado e na consciência atormentada de quem abandona. Ao analisar minha história e de centenas de meninos que viriam a conviver comigo, conclui que as famílias, os pais ou responsáveis legais, ao abandonarem seus filhos podem ser guiados a mais das vezes por três motivos básicos: o econômico, desajustes familiares e preconceitos sociais. Esses motivos não raro aparecem juntos. Veja bem, eu parto de observações puramente empíricas que me chegaram aos sentidos, sem a ciência dos números e estatística, desprezando as variáveis psicológicas, que por elas mesmas dariam um grande tratado para um pesquisador que esteja disposto a executá-lo.

Os mais comuns de serem encontrados num orfanato são os abandonados por motivo econômico combinado com o desajuste familiar. É o pai e a mãe que não têm como sustentar os seus, por falta de trabalho ou renda, além de uma grande dose de ignorância provocada pela baixa escolaridade. Na falta de recursos econômicos, os laços que unem o frágil núcleo familiar simplesmente são rompidos, seja pela fome, seja pela miséria, depressão ou loucura decorrentes. Imediatamente, os membros dessa família são empurrados para a marginalidade, delinquência, alcoolismo, drogas e agressões mútuas. O próximo passo é a desagregação familiar. Os adultos, quando não presos ou mortos, somem pelo mundo, deixando sua prole ao deus dará. Note, caro leitor, que aqui falo da família comum, com papéis bem definidos de pai e mãe. Mas o mesmo se repete, e de forma mais dramática, em proles sustentadas apenas por um desses atores.

Nos desajustes familiares também incluo as causas naturais como a morte ou doença dos provedores e ausência de parentes e amigos da família para a adoção. Mas esses são casos raros nos orfanatos, se comparados aos anteriores. Dos internos que conheci, poucos se diziam realmente órfãos.

Por último, temos o preconceito social. É a mãe solteira que por motivos “morais”, religiosos, ignorância — a própria, dos seus pais ou companheiro — insiste na gravidez e é obrigada a abandonar a coisa que se fez em seu útero. É a gravidez indesejada de mulheres adolescentes ou das que caíram na vida. É o patrão que dormiu com a funcionária, amante ou empregada e para amenizar o escândalo força a mãe a entregar seu bebê para instituições de caridade.

Assim, creio, que é muito difícil de se saber qual dos abandonos é o menos cruel. Todos têm um grande grau de crueldade que culmina numa culpa tremenda naquele que abandona e um enorme complexo de rejeição no abandonado.

Felizes eram aqueles alienados que não tinham consciência de suas condições. Pobres aleijados que se sabiam punidos duas vezes pelo terrível crime de terem nascido.

Naquele tempo brutal, sempre ao final do dia, como já era costume, ônibus despejavam levas de meninos na escola. Não eram fujões e sim órfãos vindos de outras instituições, geralmente religiosas, que haviam completado a idade de 10 ou 12 anos. Prudentes e pudicas, as freiras só cuidavam de seus órfãos masculinos até o início da adolescência. Por certo, evitavam assim o apego demasiado e outros pecados menores.

No internato, esses meninos tinham singular comportamento. Dóceis, raramente desobedeciam, acostumados que estavam com a orfandade. Eles se tratavam como irmãos, posto que se conheciam desde o berço. Dispensados do rito de iniciação, logo esses guris estavam o uniforme da 1ª Cia e brincavam descontraídos misturados aos outros no pátio.

Mais tarde fiz amizade com alguns deles que atendiam por apelidos numerais. Assim tínhamos o “Trinta” e o “Vinte Oito”, números pelos quais foram identificados nos antigos orfanatos. Os dois, um Manoel e o outro Manuel, sentaram praça na Marinha de Guerra ao deixarem o internato de Campo Comprido, isso muitos anos depois.

O Trinta contava que não conhecera a família. Desde nenê no orfanato das freiras, entrava seguidamente na fila de adoção. Negro, sempre preterido. Os casais que por lá costumavam procurar “filhos” davam preferência aos brancos e loirinhos. Dizem que o marinheiro morreu em serviço ao tentar salvar pessoas que se afogavam no rio Paraná. Não duvido, ingênuo, perverso às vezes, possuía grande alma.

Antes do jantar, os funcionários fizeram os arranjos para dar equilíbrio às companhias. A terceira e quarta contavam um número reduzido de alunos, com muitas camas vazias, ao passo que as outras duas companhias estavam lotadas com os novos que não paravam de chegar. Muitos foram promovidos.

orf4As vagas na terceira e quarta companhias apareciam porque os que completavam 18 anos deixavam a escola. Esse processo demonstrava-se tão doloroso e incerto quanto o de entrada no orfanato. Todos os anos formavam-se dezenas de sapateiros, alfaiates, gráficos e padeiros, com um nível de escolaridade muito baixo. As assistentes sociais arrumavam-lhes emprego. Ainda na condição de internos, esses rapazes ficavam por ali por mais três meses até juntarem algum dinheiro. Depois eram encaminhados para uma modesta pensão particular, com direito a simplório enxoval: lençóis, fronha, duas camisas e uma calça.

Desamparados, recebendo salários miseráveis, solitários, desajustados e extasiados com a repentina liberdade, os egressos do orfanato praticavam besteiras. Perdiam o emprego, roubavam e acabavam presos em menos de um ano. Poucos eram os que realmente encontravam um novo caminho na vida. Acompanhávamos as notícias que vinham lá de fora e ficávamos inseguros quanto ao nosso futuro, se é que assim poderia ser chamada aquela desgraça anunciada.

Não é à toa que alguns internos tentavam não deixar o internato, mentindo a idade e fingindo insanidade mental, caso do João Louco, que todo mundo desconfiava que não era louco porra nenhuma, mas vivia entre eles. Tínhamos vários alunos em condições semelhantes. Velhos, alguns com mais de 30 anos, que procuravam em si alguma utilidade para o sistema montado na escola. Os “peixes” da direção realmente eram úteis. Funcionavam como amortecedores entre o peso da ira dos funcionários e a nossa fragilidade, assumindo funções de monitores ou até mesmo de servidores contratados. Três deles eram muito antigos na escola, com direito a salários e moradias especiais.

Valtinho morava próximo à horta com a família, mulher e dois filhos. Magro e pequenino, contava uns 55 anos de idade e ainda jogava muito bem futebol, um craque. Ele dedicava-se aos serviços gerais, encanamentos, reformas, etc. Nas horas vagas, cuidava de pequena horta e de seu galo de briga, que um dia roubamos e cozinhamos com abóbora (ficou um horror, a carne dura dispersa numa gosma aguada doce e amarela; fome ignora os olhos, e comemos tudo). Ele nunca descobriu quem foi, mas garanto que caso isso ocorresse sua vingança seria medonha, dado o apego de Valtinho ao bicho.

Zelas, o zelador, contemporâneo de Valtinho quando esteve internado, sofria de epilepsia. Morava num cubículo imundo do lado da 4ª Cia. O material de limpeza que estava sob sua guarda se misturava a roupas e pertences embolados por sobre a cama repleta de manchinhas de sangue das pulgas esmagadas. Contrariando o nome e a função, Zelas não zelava por nada, já que os imundos banheiros teoricamente estavam por sua conta e pelo estoque de desinfetantes, pastas vassouras e sabões em seu quarto, via-se que o problema de higiene na escola não era a falta de produtos de limpeza, era preguiça mesmo. Vivia batendo papo, defendendo posições absurdas em discussões vazias com alunos e outros funcionários. Contava-se que fora noivo e que abandonou a ideia de casamento depois que descobriu que a noiva era fã do Tarcísio Meira. Numa noite ao visitar sua futura senhora, ele foi solenemente ignorado até o término do capítulo da novela. Nunca mais voltou. Sorte da moça.

Venâncio, o homem manco, com a boca meio torta, exercia a função de almoxarife. Quieto, realmente triste, morava num quartinho isolado. Escravo de doenças, logo após minha chegada morreu. Acompanhamos o enterro. Naquele dia de chuva, o caixão simples desceu à cova sem choros e lamentações. Parente algum deixou na tumba suas lágrimas. Viveu órfão, morreu órfão.

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Meditações diante do Ovo de Páscoa

Eis a vida como a entendo e como a vejo, pequenas partículas de areia a se juntarem na soma de nossas horas. Vi meu mundo e do meu mundo apenas o pedaço que me coube, nada além disso.

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Dos deuses
Poucas são as coisas que, ainda, me causam espanto nesta vida. Uma delas é a coincidência, ou congruência, dos eventos aparentemente desconexos. Os deuses têm vocação para dramaturgos e por anos desencadeiam fatos que só tomam sentido quando se cruzam na linha do tempo.

Das paixões
A mais das vezes, o coração transtornado é um acelerador da sucessão dos eventos que determinam grandes tragédias. Junte-se a isso desejos secretos, ciúmes, paixões irracionais, segredos nunca revelados e teremos aí o material que é feito o caldeirão do inferno.

Da loucura
A loucura é outro grande mistério que nos fascina. Há os que nascem dementes. Mas, há outros que ficam insanos aos poucos. Nascem e vivem por um tempo aparentemente com bom juízo, mas são apanhados por algum infortúnio, uma faísca a incendiar o inferno, que os empurram para o abismo espiralado da alienação. Caem, caem e caem nele continuamente, até desaparecerem como seres humanos.

Da pobreza
A pobreza tem suas virtudes, uma delas é forjar corações endurecidos. A luta pela sobrevivência marca indelevelmente a infância das crianças que não compreendem muito bem a diferença entre os que têm e os que não têm recursos.

Da recompensa
Faz o bem para o bem do teu fado
E tua alma se sentirá recompensada
Mesmo que tu não escutes o obrigado.

Do coração
Joga fora o que tu pensas amar e não te ama
Teu coração é o templo das coisas puras e boas
E não quartinho de despejo para velhas tralhas.

Dos ingratos
Eu trago as mãos estendidas
Como quem oferece o pão
Feito de verdade e poesia
Para quem tem paz no coração
E aos ingratos em tormentos
Ofereço o silêncio do perdão.

Dos medíocres
Creio na evolução dos seres. O medíocre, por exemplo, inevitavelmente há de se tornar um tolo completo e, sem modéstia, alcançará a glória dos estúpidos.

Patientia, fratres mei! Felix Pascha!

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Quem sabe? – a dúvida de amor de Carlos Gomes

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Carlos Gomes

Aos deterministas que afirmam ser o meio e as condições de vida fatores condicionantes do destino das pessoas, Antônio Carlos Gomes (1836-1896) é a antítese dessa manca teoria tão cara aos “filósofos” de um livro só. Carlos Gomes, ou simplesmente Nhô Tonico, como ele mesmo gostava de ser chamado e assim assinava, nasceu em Campinas.  Criança, perdeu a mãe, assassinada aos 28 anos de idade. Foi criado com os irmãos pelo pai, sempre em grandes dificuldades e, por isso, trabalhou em alfaiataria costurando calças e paletós para “financiar” seus estudos musicais.

Antes de alcançar fama mundial, a partir da Itália, como compositor de Ópera, a trajetória de Carlos Gomes passa pela música “popular”, ou por o que poderíamos considerar “popular” para a época. Aos 15 anos de idade compunha valsas, quadrilhas e polcas. Em 1857 compõe a modinha “Suspiro D’alma”, com versos de Almeida Garret.

Depois da apresentação de algumas de suas obras no Rio de Janeiro e já com fama na corte e financiado por uma bolsa do Império, ele foi estudar na Itália, onde teve seu talento reconhecido. Daí em diante a história do autor da ópera “O Guarani” é bem conhecida. Por isso vou me ater somente à música “Quem Sabe?”, uma das canções de cunho popular e muito ao gosto de todos os públicos por mais de século, com versões de arranjos gravadas por cantores populares e eruditos.

Bittencourt Sampaio

Bittencourt Sampaio

A letra tem como base os versos do jovem poeta romântico Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895). A data da pareceria é de 1859, e essa canção tem seu espírito romântico reforçado pela saudade que Carlos Gomes sentia de Ambrosina, sua namorada, filha da família Correia do Lago. Ambrosina teve sua memória eternizada na música, mas foi só isso. Carlos Gomes haveria de casar-se na Itália, com Adelina Péri.

 

Aqui vão os versos da primeira estrofe, para uma breve análise:

Quem Sabe?

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento

Já no primeiro verso, notamos a vocação para música imposta ao poema em sete sílabas poéticas bem medidas. O tema já sobressai nele, a distância que separa os amantes e, a partir daí, o poeta avança para a dúvida, coisa tão cara aos românticos, ao questionar onde estaria o pensamento da amada. Nos versos seguintes, são varições sobre a distância que os separa e a dúvida no coração de quem ama a partir de juras de amor. Fórmula perfeita, juntada à genialidade da música de Carlos Gomes, para a canção cair no gosto popular, pois este tema, o amor com seus sofrimentos, é eterno na poesia e, portanto, fala aos corações de todas as gentes. Veja no restante da letra e na interpretação selecionada de Diana Pequeno:

Quisera saber agora
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Da saudade agro tormento

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Da saudade agro tormento

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto

Suspiros, angustias, dores
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, são as vozes
São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh’alma cheia d’amores
Te entreguei já n’este canto

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh’alma cheia d’amores
Te entreguei já n’este canto.

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