poesia



A vida é teima do tempo

É, minha amiga, pelo áspero caminho
Chegamos a este tempo
Porquanto, quantos ficaram
Desesperançados
E aqui não chegaram

Cansados, talvez
Sem consolo, talvez
Gastos, certamente
Pelo caminho ficaram

Dá-me teu braço, amiga
O adiante nos chama
Ignorando nossas gasturas
Em miragens nos oferecendo tolices
Enquanto nos doira a realidade

É teima do tempo, amiga
Esta doida vida

É teima minha, querida
Ter teus braços
Teus passos
Juntos aos meus.

A canga
Ajeita a canga
Dos pesos que ganhaste no lombo
Novo ano
Mas o caminho é o mesmo.

Criança
Amanhecer e renascer todos os dias.
Olhar este mundo com olhos de criança,
Com a curiosidade de criança
E, principalmente,
Com a alegria de uma criança.

Vento na janela
Há um vento que sopra em minha janela
Veio da madrugada e do teu coração em festa
Tem tua voz e sussurra a paz que pediste em prece.

O que importa é simples

Sou um caipira letrado que não se esqueceu da dureza da terra a qual capinou e que por isso ainda se encanta com a semente que se arrebenta e se faz flor e se faz alimento; com as cores dos ipês, com a imponência dos pinheiros, com o cantar dos passarinhos, com a beleza das borboletas e joaninhas. Meu viver é bruto, feito pelas asperezas das labutas de sol a sol. Mas, do lado do fogão à lenha, no peito trago o coração que se derrete como vela que brilha na escuridão, ao ouvir uma viola, ao amar o simples e verdadeiro que emana dos que comigo vão sem ver importância onde vai dar esse caminho, cada vez mais estreito e repleto de saudades.

 

 

Patientia, fratres!

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Unidos da Carceragem já tem samba para o Carnaval

A República de Curitiba vai ter o bloco Unidos da Carceragem, financiado pela Rouanet.

As escolas de samba e blocos já estão ensaiando para o Carnaval 2019, inclusive em Curitiba, que tem o Carnaval mais desanimado do Brasil. Mas as coisas podem mudar por efeito dos hóspedes da Polícia Federal na cidade. Atenção, República de Curitiba! Enquanto a Mangueira não entra, aqui vai a Marchinha do BUC (Bloco Unidos da Carceragem).

Ô, ô, seu Moro,
Ô, ô, seu Moro
A vida aqui
Tá ruim pra cachorro (bis)

Eu tinha tudo na vida
Propina, grana e muié
Agora durmo de conchinha
Do jeito que o diabo qué
Ô, ô seu…(bis)
Ô, ô seu.. (bis)
(Favor completar a letra!).

Vinho francês
Sacanagem é marcar com os amigos a virada de ano perto da carceragem da PF em Curitiba, fazer a contagem regressiva, soltar fogos e gritar: alguém quer champagne, vinho francês, caviar…?!

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Um governo que começa pequeno
Seremos governados por um ratinho conhecido por Juninho. Não tivemos opções, todos os candidatos eram sofríveis. Com a eleição, nada mudou no Paraná. Um governo que começará no diminutivo, repetindo a velha política e o mesmo esquema do medíocre secretariado manjado de sempre.

Rachou a mamona
Jandisclay, filósofo e sanfoneiro de zona, esqueceu a sogra trancada dentro do carro por 5 horas e num solão de rachar mamona. “Quando abri a porta do Chevetão, vi a véia babando, vivinha, dormindo como uma jararaca que engoliu um cabrito!”, lamentou-se Jandisclay, em noite etílica no Bar do Espiga.

Burrice militante
A poesia sempre foi usada para cantadas
Daquelas classudas, bem elaboradas
Para namoro, casamento, ou até um caso
Mas, poetas enamorados
Cuidado com os galanteios
Neste mundo tomado pelas toupeiras das cartilhas
É mister fazer poema e mandar flores
Para mulher sensível e inteligente
Pois declarar amor a asno pode ser sexual assédio
E para burrice militante não há remédio!

Só para informar
Todos os posts que aqui coloco são autorais, não são copiados. Raramente faço citações de terceiros e quando as faço, tenho o bom hábito de citar o autor.

Todo burro
Essa moda politicamente imbecilizada de agrado a gêneros ignora inclusive a noção de conjunto e faz o sujeito (ou sujeita) passar vergonha. A ideia de “todo” já contempla a totalidade, portanto, dizer “bom-dia a todos e a todas”, revela ignorância de lógica aritmética (o todo já contém tudo!) e desconhecimento gramatical, pois “todo ou toda” nunca foram pronomes de tratamento. De acordo com a sintaxe da oração, “todo” pode ser pronome indefinido (qualquer); adjetivo (inteiro); ou ainda substantivo. Latim: totus, a, um.

Direto da feira
Sempre gostei do rádio e sobremodo radiojornalismo. Quando criança, na década de 70, escutava até a Voz da América. Mas havia os jornais locais, com matérias de serviço. Todos os dias, um repórter da Rádio Cultura de Maringá encostava uma Brasília vermelha na feira e entrava ao vivo na programação com os preços do dia – Alface, tanto; repolho, tanto; ABOBORINHA… tanto… Quando estive há alguns anos em Maringá, vi a mesma Brasília estacionada no pátio do Diário.

 

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Obrigado.
patientia, fratres!
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A erudição da caipira Maróca

marioandrade

Mario de Andrade

Foi na poesia e na música que Mario de Andrade procurou atingir o coração de nosso povo. Consta de sua produção “popular” duas músicas apenas (Maróca, ou Viola Quebrada e o Hino do grupo do Gambá), que vou considerar como breves ensaios ou tentativas de diálogo com o público  que não dava a mínima para o que acontecia nos círculos acadêmicos da pauliceia endinheirada.

Dessas músicas, nos interessa “Maróca” (Viola quebrada), caipira por excelência, na linguagem das gentes que habitavam as lavouras e tiravam o sustento da lida com a terra, ou seja, a maioria da população brasileira, no distante 1920.

Na letra de Maróca, já no primeiro verso, Mario de Andrade usa elementos da poesia “erudita” (ou vamos dizer “acadêmica”?), com a sintaxe inversa própria do latim, além das figuras de linguagem incomuns nas letras de música do gênero.  A genialidade disso tudo e que demonstra a sua vontade de estabelecer uma comunicação com as gentes mais simples, está no uso da expressão “se acurvou”, o que dá a vestimenta caipira necessária ao verso do poeta, pois essa expressão não é de uso dos poucos “letrados” de sua época. Observemos a primeira estrofe:

Quando da brisa no açoite a flor da noite se acurvou
Fui encontra com a Maróca meu amor
Eu senti n’alma um golpe duro
Quando ao muro lá no escuro
Meu olhar andou buscando a cara dela e não achou

E o esforço de Mario de Andrade, na sua transfiguração caipira, continua versos adentro, na escolha, por exemplos, do nome da personagem central da música, Maróca, apelido familiar de várias marias; na cacofonia da expressão “cara dela”; e na substituição proposital da palavra rosto por “cara”, também não usual no português das tertúlias de salão, rotineiros nas primeiras décadas do século passado.

A pergunta é, Mario conseguiu seu objetivo, o de cantar sua poesia para as camadas mais populares? É evidente que sim, basta ver que essa música foi gravada e regravada por renomados intérpretes e ainda é. A seguir o restante da letra e no final, a gravação na notável interpretação de Rolando Boldrin.

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Minha Maróca resolveu prá gosto seu me abandonar
Porque o fadista nunca sabe trabalhar
Isto é besteira pois da flor
Que brilha e cheira a noite inteira
Vem de´pois a fruta que dá gosto de saborear

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Por causa dela sou um rapaz muito capaz de trabalhar
E todos os dias todas as noites capinar
Eu sei carpir porque minh’alma está arada e loteada
Capinada com as foiçadas desta luz do seu olhar Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 

 

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