Educomunicação: entrevista com a especialista Talita Moretto

Cléber Gonçalves

Qual a relação entre mídia e educação? O educador domina o uso de métodos voltados a tal prática? Falar do uso dos meios de comunicação/informação no contexto educativo parece ser algo recente e não conhecido profundamente pelos profissionais de educação. Tal prática insere-se numa proposta que denomina-se Educomunicação, termo que indica o uso sistemático dos media, de modo a favorecer a formação crítica e autônoma dos educandos.

Talita Moretto é formada em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e atualmente é coordenadora do Projeto Vamos Ler – Programa Jornal e Educação -, além de  educomunicadora e blogueira. Ela expôs conhecimentos e visões acerca do fenômeno educomuticativo, uma contribuição para a prática de todos aqueles que exercem o magistério, independentemente do nível ou categoria do ensino.

 
 GN: A educomunicação, em geral, ainda foge do domínio de grande parte dos professores. O que é esse fenômeno e qual a sua importância?

Talita Moretto: Ouço muitas definições equivocadas sobre educomunicação. Muitos professores acreditam que, pelo simples fato de terem um exemplar de jornal em suas aulas, passarem um vídeo aos alunos, utilizarem a internet ou qualquer tecnologia, estão praticando educomunicação. E na verdade não estão. Práticas educomunicativas vão muito além disso. Eu poderia ficar por páginas escrevendo sobre o conceito, mas prefiro definir com uma sentença simples: “criar ecossistemas comunicativos em ambientes educativos, fazendo com que os jovens recuperem sua autonomia em relação à influência da mídia”.  Não adianta ter um instrumento midiático na sala de aula se o mesmo, no planejamento pedagógico, não cumprir sua função de promover a comunicação para e com o aluno, resultando então na formação crítica do cidadão. São poucas as escolas que já conseguem inserir a educomunicação em sua rotina. A maioria ainda não a entende ou não aceita.

Quem é o ‘maior responsável’ por promover a prática pedagógica por meio da mídia?

Acredito que existe mais de um. Esse processo envolve o diretor em uma ponta e o professor em outra. Se os responsáveis pela escola não derem o primeiro passo, que é levar a prática para a instituição e envolver a equipe pedagógica, e isso entra na parte de gestão da escola, o professor não entenderá que ele precisa desenvolver um trabalho deste tipo porque além de não enxergar a importância, não verá o mesmo como pertencente à sua escola. Claro que podemos discutir aqui a falta de investimento do governo, o atropelo de fases na implantação de projetos, o despreparo do profissional, mas o interesse da escola e, consequentemente, do professor em sala de aula, que percebe a importância de inovar sua prática didática, isso é essencial.

 

O Programa Jornal e Educação criado através do Comitê de Responsabilidade Social da Associação Nacional de Jornais (ANJ) é um importante veículo para divulgação dos programas. Na sua visão, faltam ações ao órgão para promover a discussão e os trabalhos envolvendo mídia?

A ANJ estimula seus associados a criarem Programas Jornal e Educação (PJE) porque acredita na relevância do acesso à informação para a formação da cidadania. Por isso implantou, através de seu comitê de responsabilidade, o PJE/ANJ, com o objetivo de dar suporte, fiscalizar e avaliar o desenvolvimento dos programas desenvolvidos pelos jornais filiados. Por meio do PJE/ANJ são promovidos encontros nacionais de coordenadores, são firmadas parcerias culturais com outros órgãos que desenvolvem trabalhos semelhantes, como forma de unir forças em prol de uma mudança coletiva, além de serem promovidos concursos para incentivar a discussão do tema liberdade de imprensa/liberdade de expressão entre os jovens. A linha metodológica a ser seguida é uma escolha individual e cada jornal é livre para desenvolver seu programa da forma que julgar ideal para seu público alvo. Neste sentido, não acredito que faltem ações ao órgão porque é responsabilidade de cada jornal zelar e colocar seus programas em prática, contando sempre com o suporte da ANJ. O que poderia haver é uma maior mobilização para conseguir apoio financeiro para o desenvolvimento dos programas em geral. Os PJEs são caros e só conseguem sair do papel se há parceria com a iniciativa privada, empresas que ajudam a financiar, mas essas parcerias são firmadas individualmente, cada jornal, cada programa busca as suas.

Para os sistemas de ensino e professores interessados em unir a comunicação ao contexto educativo, quais fontes, bibliografias e trabalhos que podem ser consultados?

No site do Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE/USP) é disponibilizado bastante material sobre educomunicação, vários artigos do Ismar Soares, precursor no Brasil, falando inclusive sobre a gestão em educomunicação. Em seguida, sugiro a leitura da revista Educomunicar, lançada pela Rede CEP em 2009. Ela traz experiências reais de projetos que trabalham mídia e educação com jovens. É bem interessante e está disponível para download gratuito. Além disso, existe uma bibliografia bem ampla que ocuparia muito espaço se citada aqui. Então convido os leitores a visitarem meu blog (salaaberta.wordpress.com). Lá eu disponibilizo uma série de títulos para serem consultados, tanto livros, artigos, quanto sites de trabalhos, projetos e programas desenvolvidos a partir da interface mídia e educação. Os links para a Rede CEP e para o NCE/USP também podem ser encontrados lá.

 

 O Projeto Vamos Ler tem quanto tempo de existência?

O Vamos Ler, do Jornal da Manhã, existe desde março de 2008. Estamos entrando no quinto ano de ações.

Quais os principais aprendizados e resultados que você,     enquanto responsável, observou neste tempo?

Eu tenho que confessar que cresci junto com o programa. Desde que comecei, não parei de pesquisar, estudar, aprender, desenvolver e aplicar as práticas que desvendava. Sou formada em comunicação e fiz pós-graduação em educação, para atender e entender as duas áreas. De qualquer modo, pelo tempo e intensidade de minha atuação me considero especialista quando o assunto é mídia na educação, embora não tenha um título disso. O que observo é que para um programa ser bem sucedido não basta enviar os jornais para as escolas, mas é imprescindível um acompanhamento e uma sistematização de ações para que o instrumento cumpra sua proposta de tornar-se um material educativo através de seu conteúdo informacional. O aluno, em contato com a realidade através das notícias, tem a possibilidade de abrir os olhos para a sociedade em que vive, torna-se mais seletivo e crítico, aprende a comunicar-se com quem está ao seu redor. Claro que a leitura e a produção textual melhoram consideravelmente, isto já está intrínseco na proposta de um programa que também é de incentivo à leitura, mas ver esse jovem opinando sobre assuntos econômicos e sociais, por exemplo, entendendo as relações em sua comunidade, dialogando com seus pais e professores, e não mais apenas ouvindo passivamente o que lhe é dito; acompanhar a evolução desse aluno-espectador para um aluno-autor e perceber que realmente o conhecimento é construído de forma colaborativa entre aprendiz e mestre, este, acredito eu, é o resultado que todos que trabalham com PJEs, com educomunicação, com mídia em geral, almejam. E eu me deparo com esse resultado frequentemente.

Quais as dificuldades que os docentes enfrentam ao se interessarem pelo uso de mídia na sala de aula?

Eu diria que quem se interessa enfrenta dificuldades técnicas e estruturais. O problema, na verdade, é com quem não se interessa. O profissional que não vê, ou não aceita que a mídia e as tecnologias estão influenciando não somente a sociedade em que estamos inseridos, mas também a educação que fazemos, e que essas mesmas tecnologias fazem parte do cotidiano da juventude que, como todos costumam dizer, nasceu em um mundo midiático, que não é o mesmo mundo de quando o professor era aluno, esse educador tem grandes dificuldades quando resolve levar a mídia para suas aulas porque enfrenta muitos obstáculos consigo mesmo, o que dificulta até o preparo de um plano pedagógico.

 

Contato: [email protected]

Site do Projeto Vamos Ler: www.vamoslerjornaldamanha.com.br

Blog Sala Aberta: http://salaaberta.wordpress.com/

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