Mês: novembro 2015



Acumulação Compulsiva: uma doença que ajuda a proliferar outra

Com o aumento de casos de focos da Dengue em Maringá, um outro fator tornou-se preocupante no que diz respeito ao combate a situações que propiciem a reprodução de larvas do mosquito, trate-se do acúmulo de lixo encontrado em quintais de algumas residências no município.

No entanto, não se trata apenas de um acúmulo considerado comum, mas, de montanhas de  lixo acumulado por pessoas que sofrem de um distúrbio psicológico, os chamados acumuladores compulsivos.

Esses indivíduos que sofrem com a patologia da Acumulação Compulsiva, também conhecida por outros termos, como Síndrome de Diógenes, Síndrome da Miséria Senil, Acumulação Patológica ou Disposofobia, apresentam tendência a acumular bens, objetos e animais, que já foram lançados ao lixo ou a rua, por outras pessoas, com a ideia fixa de algum dia utilizarem um desses itens, situação que muitas vezes, nunca acontece.

Em Maringá, uma parceria entre Vigilância Ambiental, profissionais da saúdee servidores dos serviços públicos vem auxiliando na descoberta de residências com sinais de acúmulo de lixo. Por meio dos Agentes de Saúde Ambiental (ASAS) que trabalham no combate a Dengue e através de denúncias via ouvidoria pelo telefone 156, as informações chegam até o Gerente de Vigilância Ambiental de Maringá, Silvio Torrecilha,  que direciona a equipe até o local e demanda as providências a serem tomadas, sempre com o acompanhamento de profissionais da Unidade de Saúde Básica (UBS) do bairro em questão.

O que para alguns pode ser considerado um “hobby”  estranho, já que os acumuladores também recebem o pejorativo apelido de “Colecionadores de Lixo”, revela na verdade, sintomas de uma grave perturbação que afeta inúmeras pessoas, em sua maioria, idosos que moram sozinhos e, em razão de suas condições, isolam-se da sociedade e passam a viver em situações precárias, uma vez que, são incapazes de usar ou jogar fora os bens ou objetos mesmo quando eles não têm utilidade, representam perigoso ou estão em situação degradante.

Recentemente em  visita a casa de uma idosa que reside em Maringá, numa propriedade que mede cerca de 60m², foram retirados apenas no primeiro dia de limpeza, 6 caminhões de lixo. Tal feito só foi possível, graças a ajuda da família, de uma psicóloga, da vigilância ambiental e de funcionários da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (SEMUSP), munidos com pá carregadeira e caminhões.

A retirada que teve início às 8h30 e terminou às 19h impressionou Torrecilhas e sua equipe. Ele conta, que lá foram encontradas muitas roupas, recipientes plásticos, garrafas, baratas, ratos. Três caixas com 12 litros de leite vencidos, que devido ao grande acúmulo era impossível para a idosa encontrar, pois estavam por baixo da bagunça.

Silvio Torrecilhas diz ainda que, não pode afirmar que a doença possa ser  considerada um problema social, pois não tem vínculo com a questão econômica da pessoa, essas pessoas não vendem os objetos que acumulam. Não sou psicólogo, mas é mais para problema psicológico do que social. Pode-se dizer que esse problema tem consequências sociais, como conflitos com a própria família e também com vizinhos, se pensar por esse lado é um problema de caráter social. Mas também pode ser considerado como um transtorno psicossocial, explica.

Embora a maioria dos casos da doença se manifeste em idosos, esta desordem mental pode afetar também, pessoas mais novas e aparentemente imunes a patologia, principalmente as pessoas que já apresentam algum sintoma de doença obsessiva compulsiva, como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), ou que sofrem de esquizofrenia. Assim como acontece na evolução de pacientes com outros comportamentos obsessivos, o acumulador compulsivo começa a manifestar-se de forma lenta e sutil e aos poucos, de maneira progressiva vai desenvolvendo os sintomas até chegar ao ápice.

Mesmo se tratando de um doença grave e que prejudica não só o portador, mas os demais que convivem ao seu redor, a acumulação compulsiva tem tratamento. É possível atenuar o problema através de psicoterapia e medicamentos que auxiliem na diminuição dos sintomas neurofisiológicos  (ansiedade, por exemplo), explica o especialista em psicologia junguiana, Mauro Rocha.

Rocha, salienta que assim como qualquer tipo de transtorno, a não manutenção do tratamento pode levar à uma recaída. Durante o tratamento o sujeito passa por algumas transformações comportamentais e psíquicas que possibilitam uma melhora do quadro e possível cura. Todavia, quando se abandona essa postura vinculada ao tratamento ou sob um evento estressante ou angustiante, esse sujeito pode retornar ao antigo quadro.

Ou seja, o psicólogo enfatiza que o apoio familiar é sempre importante. Uma postura sem julgamentos, sem preconceitos ou cobranças, auxilia no processo de cura. As pessoas devem compreender que trata-se de uma doença e que a pessoa está em sofrimento. Buscar incentivar o indivíduo noutros comportamentos e colaborar para que ele retome algumas atividades de seu estado saudável colaboram na permanência das relações. Talvez, assim, todos possam conviver de forma melhor e longe do fantasma do acúmulo.

A ajuda por parte de denúncias é de extrema importância para combater casos de acúmulo de lixo e ajudar os portadores da doença e se libertarem. Após detectados, os acumuladores compulsivos residentes em Maringá, passam a ter um prontuário na Secretaria de Saúde, onde, por meio de um sistema, é possível saber o perfil sócio econômico e verificar o acompanhamento psicológico de cada um deles. Essa tarefa realizada pela prefeitura do município, não isenta os vizinhos de pessoas que apresentem sintomas de compulsão de estarem sempre atentos, mas de acordo com Torrecilhas, às vezes nem os vizinhos sabem, pois o acúmulo ocorre no interior da casa.

Ao entra na casa da idosa, Silvio Torrecilhas conta que dá pena de ver a situação que a pessoa fica, que na maioria das vezes, em algum momento da sua vida ela teve alguma decepção ou alguma perda afetiva, fazendo com ocorresse uma certa compensação com relação ao acúmulo, para suprir uma falta, uma viu vez por exemplo, separação do filho e da nora, etc. Além de estar ali cumprindo a nossa função, o fator emocional é constante, pois é uma situação muito delicada, relata.

O fato é que os problemas causados pelos sintomas da doença ainda que grave e podendo representar riscos à saúde do indivíduo acumulador e dos demais que com ele convivem ou o cercam, podem ser solucionados. Para fazer denúncias de casos de acúmulo de lixo em Maringá basta entrar em contato com os Agentes de Saúde Ambiental (ASAS) que trabalham no combate a Dengue em diversas regiões da cidade, ou com a ouvidoria que transmite as reclamações para a Vigilância Ambiental de Maringá,  via 156.

Patrícia Marques é acadêmica do 4º ano de Jornalismo do UniCesumar.

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