Robocop indígena do Paraguai mora em Maringá

“Você não viu nada ainda.” Essa é a frase mais repetida pelo indígena paraguaio Hemídio Pereira do Maral (“é sem ‘a’ mesmo, povo escreve com ‘a’, mas está errado”). Insistindo ter 54 anos, Seo Amaral – até ele se rendeu ao erro e se denomina Amaral, com “a” – chegou ao Conjunto Residencial Ney Braga, região oeste de Maringá, na década de 1980.

“No documento, a minha idade está quase 80, está lá que eu tenho 78. Mas na verdade eu tenho 54 anos. Uma família mineira foi me registrar, eu e mais oito filhos, e fez confusão”, diz o índio.

Até os oito anos, Maral viveu na aldeia em que nasceu, no Paraguai – não sabe dizer exatamente onde -, nadou muito no rio onde diz ter sido parido pela mãe, filha de xavante e neto de cheyennes, e aprendeu muito com o pai africano. Depois veio direto para o estado de São Paulo, em 90 marchas – cada dia na viagem a cavalo ele conta como marcha –, com uma família de japoneses.

“O japonês era do exército lá no Paraguai e quando foi dar o décimo sexto salto de paraquedas caiu em cima de uma árvore sucupira, que jogou ele para outra sucupira e ele quebrou o pescoço. A japonesa ficou traumatizada e veio para o Brasil e eu vim junto”, relatou, com precisão, a história.

“Vim conhecer roupa com idade de 13 anos. Não tinha preconceito como aqui.” Vestido, enquanto cumprimentava todos que passavam pela rua e olhava, preocupado, os meninos subindo no pé de goiaba no terreno da frente de casa, cuidando para que ninguém ali “puxasse maconha”, Seo Amaral distribuiu histórias e conhecimentos.

A expressão dita diversas vezes anteriormente, “você não viu nada ainda”, ganhou significado quando as histórias passaram a ser contadas para o lado de dentro da casa do aposentado. Entulhos e mais entulhos cobrem os muros e as paredes externas na construção. No interior, apenas corredores para ir de um cômodo ao outro. O restante, entulhos.

Mas “entulhos” apenas aqui no texto. Para Seo Amaral, “entulho não, aqui tem fogão”. Tem bastante fogão também. Segundo a contagem do próprio arrumador/limpador de eletrodomésticos, são 390 apenas na construção exclusivamente construída para guardar os “fogões”.

Entre as centenas de fogões que inundam o terreno e as duas casas, muitos guarda-chuvas, isqueiros, tábuas de carne penduradas na porta (bati a cabeça ao entrar e sair da casa), roupas, malas, armários, camas (“essa tem 28 molas. É antiga, da década de 1960”), máquinas de lavar, ventiladores, televisores, rádios, mais fogões, mais guarda-chuvas, recipientes de óleo, manteiga, o pinico ao lado da cama (“quando o cara tem preguiça de ir ao banheiro durante a noite”) e tudo mais que resolve se procurar por ali. E uma gata que acompanhava a visita. Ele diz não ser dele.

E em épocas de vigilância do mosquito Aedes aegypti, o pacato aposentado dá o recado. “Não acredito em dengue não. Dengue tem lá dentro da prefeitura: fiscais, secretários, prefeito, isso sim é dengue. Fiscal da prefeitura só parou de vir aqui porque eu ameacei cortar o saco deles. No outro eu joguei um pinico de urina.”

Aposentado como vigilante, o índio paraguaio conta que serviu o exército em Curitiba e já trabalhou na guarda urbana de Maringá, operador de máquina e tratorista do município de Maringá. Hoje diz arrumar desde fogão até guarda-chuva para ganhar um dinheiro extra.

“Só não arrumo mulher porque quando põe o pino falta a trava e quando põe a trava falta a mola.” Casamento então, Seo Amaral passa longe. A única experiência foi há muitos anos e durou apenas alguns dias. “Casamento é atraso de vida.”

Na região, apenas a vizinha de muro implica com o morador da Rua Pintassilgo. Mas segundo Edineuza e Claudia – que ele carinhosamente chama de “briguentas” –, vizinhas de Maral há 30 anos, o problema é que tem gente que gosta de implicar com tudo. Para elas, ele é um vizinho muito bom, não incomoda ninguém e é educado com todo mundo.

Sem contar que todos ali usufruem dos passatempos do indígena. Todos comem da manga, goiaba, mandioca, abobrinha, tomate cereja e tudo mais que o índio planta nos dois terrenos vazios em frente à casa.

“Eu estou aposentado, mas faço das tripas coração para não parar. Se não trabalhar, enferruja tudo”, diz, disposto, o senhor de 78 anos (ou seriam 54?). E Seo Amaral faz tudo de bom coração. “Espero em troca apenas a graça do senhor, das pessoas eu não espero nada.”

E olha que tem muito o que enferrujar naquele corpo. São 17 operações, segundo o próprio Robocop paraguaio. “Lado direito é todo platina. Operei até do saco”, conta, entre muitas risadas.

O órgão operado funcionou em duas ocasiões. Maral tem dois filhos biológicos, um homem e uma mulher, com quem tem contatos por telefone – não passa o número para mais ninguém. Mas tem também alguns filhos não biológicos, que ele registrou, e outros 16 enteados. “Tem que dar amor para receber amor”, solta mais um ensinamento, perdido entre tantos.

Para Maral, religião é uma forma de ser mais humano. “Nasci e me criei no espiritismo, mas eu examino a bíblia, ajudo um ser humano ali com uma cesta básica, ajudo outro que precisa aqui, vou ajudando. Mas tem pessoas que só furam os olhos da gente. Esses não tem religião, são salafrários. Gostam de se aproveitar do suor dos outros.”

Cuidando para não se perder entre os fogões e a gata que procura algumas presas por ali, é possível passar horas ouvindo os contos de Seo Amaral. Mas mesmo após horas de conversa, uma única frase ecoa na cabeça: “Você não viu nada ainda”.

Rafael Donadio, estudante do 4º ano de Jornalismo da Unicesumar

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.