Do prazer à obsessão: os dilemas de um viciado em sexo

Segundo o dicionário Aurélio, vício é um defeito ou imperfeição; prática frequente de ato considerado pecaminoso; tendência para contrariar a moral estabelecida; hábito inveterado; dependência do consumo de uma substância. Simplificando, vício é aquilo que te condiciona a um estilo de vida que não corresponde à realidade. É o que faz o fumante abandonar o transe da música para procurar a varanda da balada para um cigarro, o que faz um compulsivo por doces atacar uma caixa de chocolates mesmo estando de dieta. É deixar de fazer algo por prazer e começar a fazer apenas por necessidade.

Essa é a realidade de quem é viciado em sexo. Mas não se engane, ser viciado em sexo é totalmente diferente de gostar de sexo e querer fazê-lo sempre que possível. O viciado em sexo é capaz de qualquer coisa para saciar a sua obsessão, sem lhe importar as consequências que isso possa trazer. Suas condutas sexuais são compulsivas e muito obsessivas, dificilmente controláveis. Talvez aí esteja o desafio mais importante desta condição: o fato de não saber parar significa um problema maior do que ter um desejo mais acentuado do que outras pessoas.

Mestre em promoção da saúde, especialista em saúde mental e em arteterapia, a psicóloga Paula Cardoso explica que os estímulos sexuais podem começar desde a infância. “Normalmente, os pais deixam as crianças dormirem no mesmo quarto que eles, então, quando eles transam, a criança está ali ouvindo e ela acaba sendo estimulada involuntariamente”, salientou.

Entretanto, sintomas como estresse e baixa autoestima são normais para pessoas que têm compulsão. Segundo Paula, alguns pensam até em suicídio para conseguir fugir da situação. “As pessoas, às vezes, acham que é legal ser compulsivo por sexo, mas não tem nada de legal. É maltratar o corpo, é se sentir diferente, se sentir tentado a fazer algo mesmo que não queira apenas para saciar o vício”, explicou.

Um universitário maringaense de 20 anos, que não quis se identificar, considera-se viciado. Segundo ele, o estresse aumenta muito quando não consegue saciar sua vontade. Além disso, ele afirma que pensa muito sobre o assunto, o tempo todo, mas que, apesar das consequências, há um lado bom. “Como fico muito vidrado nisso, acabo estudando bastante sobre o assunto. Já cheguei a ler dois livros sobre Kama Sutra e vou aprendendo cada vez mais”, disse.

Uma jovem maringaense, de 27 anos, que também não quis ter o nome divulgado, afirma ter desejos e vontades fora do normal quando fica sem fazer sexo. Para ela, ser uma mulher viciada é muito pior do que ser um homem viciado, devido aos preconceitos que a mulher sofre. “Como vivemos em um mundo machista, eu, que sou solteira, não posso ter o prazer que eu quero, a hora e com quem eu quero, que as pessoas já julgam”, contou.

Para saciar o vício, muitos recorrem a métodos mais fáceis. É o caso do rapaz de 20 anos que busca o prazer em casas noturnas. “Eu nunca achei que iria a um lugar assim para conseguir sexo, mas como a vontade era maior e não conseguir mais ficar sem, precisei ir atrás”, revelou.

Atualmente, ele namora e teme que o vício possa atrapalhar o relacionamento. “Tenho medo de não aguentar e acabar sendo infiel com a minha namorada”, relatou.

Paula revela que pessoas que são compulsivas sofrem muito com o problema. Segundo ela, a pessoa pode se excluir socialmente, porque sabe que esse tipo de comportamento não é normal. “Eles normalmente não procuram ajuda, porque pensam que ninguém vai entender, acham que é esquisito ou promiscuo. A pessoa pode até usar drogas e achar que não pode ter um casamento saudável. Ela se sente impedida de ter uma vida normal”, afirmou.

Tratamento

A psicóloga conta que a compulsão tem cura, mas assim como qualquer vício precisa ser tratado aos poucos e necessita ser “preenchido” de outra maneira. “O tratamento é você ajudar a pessoa a tirar esse comportamento fazendo outro. Por exemplo, apresentar um novo hábito que não cause nenhum mal. Uma pessoa acima do peso que come desenfreadamente pode trocar o hábito por uma corrida. É como se fosse um armário cheio de gavetas: se você tirar uma gaveta, vai ficar um espaço vazio que precisa ser preenchido, é a mesma coisa com uma pessoa viciada”, explicou.

Ana Paula Foltran, acadêmica do 4º ano de Jornalismo da Unicesumar

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