O mediador é essencial para criar o hábito de leitura nas crianças, afirma escritora gaúcha

Natural de Cachoeirinha-RS, a escritora, atriz, roteirista e contadora de histórias Rosane Castro foi uma das atrações da 36o Semana Literária do Sesc em Maringá. Rosane, que já havia participado da 1º Flim (Festa Literária Internacional de Maringá), volta à cidade com a apresentação “As minhas as tuas e as nossas histórias – o universo literário e suas possibilidades de integração“. A gaúcha conquistou desde as turmas mais jovens de 7 a 9 anos das escolas municipais, até os jovens de 11 a 14 anos dos programas de aprendizagem do SESC. Graduada em Letras e Literatura, Rosane contou aos pequenos que sonhava em trabalhar junto a uma editora de livros. Ela se via lendo muitas histórias em sua profissão e sempre foi e reconhecida pela ótima memória. A autora publicou três livros infantis, entre eles a obra “A menina dos olhos verdes”. O livro já foi interpretado em diferentes gêneros artísticos, inclusive em Maringá.

1)Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, onde as crianças não brincam mais na rua ou tem o costume de desenhar através do tablet, por exemplo. As atividades lúdicas como contar histórias, ainda são capazes de prender a atenção delas? Talvez por ser uma plataforma diferente da que estão acostumadas, gera maior curiosidade?

Rosane: Com certeza isso ajuda. Mas, talvez, não seja uma plataforma tão diferente do que é o universo infantil. Porque nesse universo eles brincam o tempo todo e trabalham com o lúdico. De certar forma, antes da internet, já existia essa ação de se expressar através da voz, do corpo e da brincadeira. A tecnologia vem depois disso. Não podemos esquecer que a tecnologia, sim, é essa ferramenta. O contar histórias ainda é parte deste universo tão necessário ao homem que é essa forma de se expressar através da brincadeira e do sentimento.

2)Há quem diga que crianças são como uma folha em branco e evoluem de acordo com o exemplo que recebem. Porém, muitas vezes isso pode não ser suficiente. De acordo com sua experiência em educação, a que atribui alguns problemas da nova geração, como a falta do hábito de leitura?

Rosane: O exemplo, sem dúvidas, é muito significativo. Uma família leitora e pais que consomem livros e ter livros dentro de casa são fundamentais. A criança está vendo isso. É importante ter acesso aos livros na escola, em uma biblioteca, na livraria ou feira de livros. Isso vai fazer toda diferença e vai influenciar na vida da criança enquanto leitora. Quem não tem essas oportunidades não vai ter as mesmas necessidades. Mas estamos nos encaminhando cada vez mais para isso. Há cada vez mais projetos de incentivo a leitura. Muitas escolas e entidades estão promovendo, como aqui no SESC por exemplo. Hoje nós vivemos uma situação em que a própria criança ensina o adulto. A criança vê o adulto jogando papel no chão ou fumando em ambiente fechado e o corrige. Acho que temos uma grande oportunidade de virar esse jogo e termos mais oportunidades com relação ao livro e à leitura.

3)Qual a importância de transformar a leitura em um momento de prazer para as crianças?

Rosane: Para descobrir esse prazer é preciso navegar por um universo literário. Ler uma história e não gostar, não significa não gostar de ler. É preciso oportunizar, não dá para dizer que não eu gosto de algo que não experimentei. É necessário se envolver cada vez mais nesse universo dos livros e das boas histórias. Tem quem goste mais de histórias de amor ou de terror, até que encontramos aquilo que nos identificamos. Por isso é importante o mediador de leitura, na escola ou fora dela. A leitura é prazerosa, mas verbalizar isso é subjetivo, porque o prazer que eu sinto não é o mesmo que você sente. Por isso, o livro que eu gosto não é o mesmo que você gosta, portanto, é preciso mediar.

4)Além da possibilidade de interação com as crianças, o que mais te encanta no seu trabalho?

Rosane: Estar com pessoas. Eu me interesso por pessoas, gosto de estar com pessoas. Isso é o que mais me encanta, essa oportunidade que tenho de me encontrar com seres humanos, ter esse momento de partilha. Todos nós temos determinado conhecimento e acredito que vamos ao longo do tempo criando nossas histórias. Mesmo as crianças… Eu aprendo muito com os pequenos, pela espontaneidade, pelo carisma e pelo afeto com que eles nos recebem. A criatividade e a forma de brincar deles, que é tão expressiva, também. Eles se jogam mesmo na história, eles imaginam. Os adolescentes, eu adoro, porque eles estão em uma transição e isso é legal porque eu me coloco no lugar deles, eu sei como é. Embora em um primeiro momento exista a resistência, contar histórias para adolescentes é importantíssimo.

5)Em relação à responsabilidade de quem conta uma história a uma criança ou ao jovem, é possível passar diferentes valores, ideais, ou até preconceitos a partir da maneira que o enredo é interpretado? Como isso se dá?

Rosane: Com certeza. Mas há também o ouvinte, que vai interpretar a partir das expectativas dele, das experiências dele e do conhecimento de vida. Eu posso contar uma história e no primeiro momento isso talvez não transmitiria nenhum tipo de conhecimento, mas naquele momento pode acabar transmitindo para alguém. Nem toda história tem que ter uma moral no final, mas as pessoas podem identificar com um momento da própria vida. Mas é preciso ter uma preocupação em como contar e porquê contar cada história.

5)É perceptível durante as apresentações que você trabalha muito com o improviso. Trata-se de uma técnica ou é apenas um traço singular do seu trabalho?

Rosane: Pode ser os dois. Eu não consigo contar histórias sem a resposta do outro, é muito interativo. Isso cria um vínculo, traz proximidade, uma empatia. Se eu trago um trabalho muito pronto esteticamente, sem a possibilidade de interação da criança, pode ser que eu não tenha o retorno que espero. Quero que a história tenha significado para eles, que eles sintam no próprio corpo aquilo que estou contando.

6)Em relação a esse comportamento do seu público, é importante quando a criança fica concentrada, compenetrada na história ou os momentos ideais são realmente quando ficam agitadas, querendo interagir e participar ativamente?

Rosane: Tem as duas coisas. Tem histórias que conto com o propósito de que a criança ouça sossegadamente e preste atenção no enredo. Quando faço uma proposta interativa, em que elas podem falar, quero estimular a imaginação delas. Elas ficam agitadas e querem contribuir. Porém, tem que ser dentro do contexto: as crianças têm que falar o que tem a ver com a história.

7)Você citou que tudo que faz hoje tem relação com sua infância. Também comentou durante sua apresentação para os jovens um pouco sobre a importância do conhecimento que não está escrito em lugar nenhum. Que tipo de conhecimento transmitido a você oralmente mudou sua trajetória profissional?

Rosane: Bom, a minha mãe não tinha livros em casa, então o que ela me contava eram histórias da memória, através da oralidade. Além disso, eu fui uma criança que brinquei muito e todas minhas brincadeiras envolviam teatro, eu e a turminha da rua sempre interpretávamos, fazíamos figurinos. Quando fiz teatro profissionalmente eu já tinha essa experiência. Na época em que comecei a trabalhar com a literatura, a escrita vinha naturalmente, por uma necessidade de expressão. Nunca foi obrigatório, fazia parte da brincadeira, porque eu gostava de dar aula para os meus amigos, por exemplo. Algo que também mudou tudo foi uma apresentação que assisti há 12 anos, de um mágico contador de histórias, o que acabou transformando e criando significado nas coisas que eu fazia até então. Isso fez eu me dedicar mais na minha área.

8)Você criou alguns projetos de incentivo à leitura. Conte um pouco sobre o projeto de cultura africana nas escolas.

Rosane: O projeto Biblioteca Itinerante Griô foi aprovado pelo Governo Federal a partir de um outro projeto, chamado Mais Cultura Ponto de Leitura. Eu já tinha uma biblioteca comunitária na minha casa e, então, apresentei essa biblioteca itinerante em que livros de literatura afro-brasileira circulariam pela região. O intuito era contribuir com a lei 10/639 que versa sobre o ensino da cultura afro na escola, com livros para crianças, jovens e adultos. Passamos a instrumentalizar os professores no trabalho com literatura e a cultura afro brasileira, incentivando a leitura e ao mesmo tempo trabalhando a cultura na sala de aula. Hoje por exemplo, o projeto está em Canoas-RS. Eu trabalho fornecendo 150 livros do acervo e a professora responsável tem que mediar a leitura com os alunos. Quando me devolvem o material, eu recebo o retorno de como foi a experiência.

 

Ana Luiza Berbert Ferreira, acadêmica do 4º ano de Jornalismo da Unicesumar

 

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