Entre o direito, a opinião e a psicologia: a ‘Cura Gay’ é uma realidade?

“É uma grande injustiça e uma crueldade enxergar a homossexualidade como um crime. Se não acredita nisso, leia os livros de Havelok Ellis (1859-1939) [médico inglês que estudou a sexualidade humana]. Ao pedir minha ajuda, subentende-se que eu poderia acabar com a homossexualidade e substituí-la pela heterossexualidade. A resposta, de maneira geral, é que não podemos prometer esse resultado”

Esse trecho é de uma carta remetida pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, em 1935, em resposta às ânsias de uma mãe que buscava a cura da homossexualidade do filho. Após 82 anos, a carta ressurgiu em grandes veículos de comunicação do Brasil e do mundo, para talhar opiniões sobre a chamada “Cura Gay”, que polarizou as discussões sobre homossexualidade.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) colocou na resolução 001/99, de 22 de março de 1999, no artigo 3º que “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”

O debate foi acentuado pela decisão judicial do juiz da 14ª vara do Distrito Federal, Waldemar Cláudio de Carvalho que institui – deixa legalmente possível – que os psicólogos ofereçam pseudoterapias de reversão sexual.

O documento de 15 de setembro deste ano diz que os psicólogos podem “estudar ou atender àqueles que voluntariamente venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade, sem qualquer forma de censura, preconceito ou discriminação”. A decisão foi alicerçada em preceito constitucional que “garante a liberdade científica bem como a plena realização da dignidade da pessoa humana, inclusive sob o aspecto da sexualidade”.

Sobre essa decisão, um aluno maringaense de administração, que não quis se identificar, comentou que o juiz foi “inocente” ao destacar a voluntariedade da consulta para reversão sexual. “Eu acho que muita gente se sente culpado por estar nessa condição [homossexualidade], mas a culpa está atrelada, muitas vezes, às questões sociais: um familiar que não aceita, chacota de um ou outro amigo. Não quer dizer que seja uma culpa por ‘simplesmente ser’, é algo que é construído”, destacou o rapaz de 22 anos.

Um adolescente maringaense de 16 anos, que também não quis se identificar, disse que acredita que os pais não entenderiam, caso ele revelasse ser homossexual. “Tenho certeza que eles fariam eu ir até um psicólogo para me tratar. Minha família é muito conservadora. Não seria voluntário ir ao psicólogo, mas tenho certeza que dariam um jeito. Por isso evito esses assuntos”, explicou.

O editor de vídeos Igor Bonfim disse que a “Cura Gay” lhe traz preocupações. “Eu, como gay assumido e vivendo em Maringá – cidade grande, comparada a Santa Isabel do Ivaí [cidade natal], não vou sentir muito o impacto disso [Cura Gay], porque dá brechas para mais discurso de ódio. Não se trata esse tipo de coisa, trata-se o preconceito. Porque se há problema, com certeza não é em ser gay”, disse.

Bonfim destacou, ainda, que para pessoas na situação em que ele se encontra é mais fácil lidar com esse tipo de coisa, diferente de quem vive as margens de se assumir. “Eu era uma criança que apanhava na escola e me sentia um lixo. Pedia à Deus para para me mudar. Eu sentia vergonha de quem eu era. Sentia muito medo de envergonhar meus pais e hoje sou o maior orgulho deles. Como eu viveria? Transtornado? Isso [ser homossexual] não é um problema. O problema é não ser quem a gente é, por medo, vergonha ou ignorância. É difícil viver refém de uma mentira”, contou.

 

Igualdade na arte

A banda Código de Conduta, de Araçatuba (interior de São Paulo, 340km de Maringá), lançou em setembro de 2015, uma canção chamada “Desse Equilíbrio”. O vocalista da banda e compositor da música, Otávio Almeida, destacou que o clipe da música busca mostrar a pluralidade do amor.

“Essa foi uma música que foi escrita para falar apenas sobre amores incompreendidos pela sociedade e acabou se tornando uma arte. O amor, acompanhado do diálogo, evita idas desnecessárias, o amor vai além de crenças, religiões e discriminações”, ressaltou.

No vídeo, as diversas facetas do amor, representadas em diversos tipos de casais, se cruzam em um pré-refrão que grita ao mundo: “olha lá fora sem medo”, mas também alerta: “O mundo vai querer te condenar”.

Assista ao clipe da banda Código de Conduta.

Victor Duarte Faria – acadêmico do 4º ano de jornalismo da Unicesumar

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