Cesare Battisti: transgressões e perdões mundo a fora

O ano de 1979 foi marcado por alguns fatos memoráveis. No Brasil, tomava posse João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, cuja máxima era “Eu prendo e arrebento”, um recado a todos que não concordavam com a anistia. Presos políticos começavam a retornar ao país, figuras como Fernando Gabeira e Leonel Brizola tiveram seus passaportes devolvidos. Na literatura, a escritora e fotógrafa, Zélia Gattai, conhecida por sua forte militância no cenário político nacional e pelo casamento com o também escritor Jorge Amado, estreava com a obra “Anarquistas, Graças a Deus”.

Neste mesmo ano, um escritor, com raízes cravadas na República Italiana, assim como Gattai e com ideais tão ou mais revolucionários que a esposa de Jorge Amado é preso durante as investigações do assassinato de um joalheiro.

A pele alva e os cabelos ralos e claros não escondem o deboche no sorriso descuidado, típico no país onde o tratamento ortodôntico é uma fortuna. Natural da região de Cisterna di Latina, descendente de linhagem da mais pura de comunistas, Battisti foi criado como um pequeno devoto de Stalin. A mãe, católica muito atuante, mantinha a imagem do soviético como ícone sagrado na sala de casa.

Adulto, e já membro filiado dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo extremista de esquerda ativo na Itália desde a década de 1970, Battisti foi condenado a 12 anos e 10 meses de prisão por “participação em grupo armada” e “ocultamento de armas”. Torna-se então, um foragido. Refugia-se na França e no México. De volta a Paris, tem uma nova chance, ao receber o perdão do presidente francês, junto aos demais ativistas italianos. Coloca em prática seus dons literários se tornando autor de romances policiais. Talvez houvesse muita criatividade e algum talento, mas ainda, suficiente crueldade na mente, deste, que já foi capaz de algumas atrocidades.

Durante a permanência na capital francesa, muita polêmica envolvendo seu caso vem à tona. É condenado à prisão perpétua. Da Cidade “Luz”, à privação total dela. Literalmente, como terrorista, termo que foi designado ao italiano, a condenação incluía a restrição de luz solar. Da justiça do Velho Mundo, Battisti não se safaria mais.

A fuga para as Terras Tupiniquins se dá em 2007. No Brasil, aterrissa movimentando os defensores dos direitos humanos no país e inflamando discussões entre as extremidades políticas. Com o amparo político do Presidente Lula, que em seu último dia de governo se viu honrando a ideologia esquerdista ao negar o pedido de extradição italiano, Battisti continua com problemas com a justiça.

Em tese, o criminoso é hoje monitorado pela Polícia Federal, porém, Battisti se tornou pai de família e se casou com uma cidadã brasileira. Como última aventura, foi flagrado em fuga por meio da tríplice fronteira, em Corumbá-MT. Atrevido, mas ao menos, realista, não tem a pretensão de voltar vivo à Itália. O momento de morrer, segundo ele, ainda está escolhendo.

Ana Luiza Berbert Ferreira, acadêmica do 4º ano de Jornalismo.

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