Belinati e a irônica e quase impossível missão de salvar o Sercomtel

Irônica e quase impossível missão a do prefeito Marcelo Belinati: resgatar as finanças do Sercomtel, empresa de telefonia controlada pelo município e Copel e cuja concessão está ameaçada pela Anatel.

Quase impossível porque, cercada de gigantes por todos os lados, a nanica Sercomtel, apesar de prestar serviços além dos telefônicos, tem pouca margem de manobra. Está tecnicamente sucateada e suas finanças, severamente comprometidas – embora o estado não seja tão apocalíptico quanto o pintado por seu ex-presidente Carlos Adati, que exagerou na dose de cicuta e fez disparar o sinal de alarme na Anatel.

Belinati pediu socorro ao sócio rico, mas esse sócio – e por isso enriqueceu – não desperdiça dinheiro. Injeção de capital? Nem pensar! O máximo que a Copel se dispõe é oferecer recursos tecnológicos avançados que barateie e – perdão pelo palavrão – “otimize” os serviços do Sercomtel.

O prefeito está em papas da aranha: endossou o balanço apocalítico de Adati, foi ignorado diplomaticamente pelo sócio e, como recurso desesperado, convoca a sociedade civil para “salvar” o Sercomtel.

O que ele espera dessa convocação? Que ACIL, Sociedade Rural, Sinduscon, igrejas católicas e evangélicas, terreiros de macumba, associação de moradores, restaurantes, bares e similares, ONGs e clubes esportivos abram as burras para socorrer o Sercomtel?

O máximo que pode obter de imediato é sensibilizar os ouvintes para o drama do Sercomtel e incutir-lhes o desejo de se livrar desse problema o quanto antes.

E então esbarramos na ironia da missão de Belinati: o inferno astral do Sercomtel teve início com o desaparecimento dos R$ 150 milhões obtidos com a venda de 45% de suas ações para a Copel em maio de 1998. O valor do negócio foi R$ 36 milhões a mais, mas esse saldo foi utilizado para pagar dívidas da empresa. O dinheiro – equivalente hoje a R$ 500 milhões – desapareceu na administração de seu tio Antônio Belinati, cassado em 2000.

Duas semanas depois de ter vendido parte da empresa, Belinati tio simulou a venda de um lote generoso de ações para o Banestado (tratava-se, na verdade, de um empréstimo, cuja aplicação é uma incógnita e não foi pago). A Justiça o condenou em julho deste ano por improbidade administrativa e ao pagamento de uma multa de R$ 1,8 milhão e determinou a anulação do negócio, que gerou prejuízo (atualizado) de R$ 30 milhões. Ou seja, o Sercomtel terá de devolver esse dinheiro ao Itaú, que comprou o Banestado. Mais uma conta a pagar…

O descalabro que foi o sumiço do dinheiro da venda de parte da empresa levou os eleitores de Londrina a rejeitarem, em plebiscito realizado em 2001, que o sucessor de Antônio Belinati, o petista Nedson Micheleti, vendesse o que restara do Sercomtel, aproveitando as boas condições de mercado, aberto havia pouco ao capital privado (o quê: um petista privatizando uma empresa pública?! Golpista traidor!).

O plebiscito é uma exigência imposta pela Câmara de Vereadores e também motivada pelo desvio de recursos do Sercomtel. Revogá-lo é imperioso para que o município passe adiante a empresa, nascida da mobilização da comunidade sob o comando de Hosken de Novaes (1963-1968). A comunidade que está sendo convocada para acompanhar seu velório.

Será este o caminho desejado por Marcelo Belinati: vender o Sercomtel? Se for, e então a ironia se transformará em predestinação, ele estará concluindo o serviço iniciado pelo tio.

Restará aos londrinenses o consolo de que, se assim for, não haverá desvio de dinheiro. Não apenas por causa da índole honesta de Marcelo, mas porque não sobrará dinheiro dessa venda.

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