O recuo estratégico – e responsável – de Cida

A governadora Cida Borghetti retirou o projeto de lei que concedia reajuste de 1% ao funcionalismo público do Paraná. Aprovado em primeira votação na Assembleia Legislativa, o projeto recebeu mais de 30 emendas que o descaracterizavam – uma delas, propunha aumentar esse índice para 2,7%, igualando-o ao dos servidores dos demais poderes, Ministério Público e Defensoria.

O recuo foi interpretado pelos adversários da governadora como uma derrota em vésperas de iniciar a campanha eleitoral – Cida disputará a reeleição -, mas consolida a imagem de gestora responsável que tem caracterizado os três meses de sua administração, iniciada em abril com a renúncia de Beto Richa para disputar uma vaga no Senado.

Seria eleitoralmente mais confortável para Cida deixar as coisas como estavam – o reajuste salarial estava condicionado por lei à atualização das promoções e progressões do funcionalismo, o que somente seria possível, e olha lá, a partir do ano que vem. A imposição foi feita por seu antecessor. Mas, pressionada por alguns setores do funcionalismo, que não teve reajuste no ano passado, a repor pelo menos a inflação dos últimos doze meses, Cida fez cair essa exigência e ordenou à área técnica que estudasse a viabilidade do pleito. A resposta foi que o índice pretendido comprometia o acordo com o governo federal que permitiu a renegociação da dívida do Paraná. O máximo que se poderia conceder era 1%.

A prudência se impôs na proposta enviada à Assembleia. A prudência se impôs na retirada de pauta do projeto diante da possibilidade de o índice ser alterado pelos deputados, afrontando o compromisso de responsabilidade fiscal. Isso obrigaria a governadora a tomar uma medida ainda mais antipática – vetar o projeto.

O funcionalismo do Paraná ficará, assim, dois anos sem reajuste. Mas sua situação em relação aos servidores dos demais estados é invejável: os salários são pagos rigorosamente em dia e sua defasagem é pequena. O último reajuste – de 10,6% – foi dado em 2016, quando a maioria dos estados congelou os salários, parcelou-os ou simplesmente não teve como pagá-los.

Esse percentual (10,6%) incorpora-se aos quase 84% de reajuste concedido desde 2011, quando Richa tomou posse, ao mesmo tempo em que o IPCA do período foi de 55% – o ganho real, portanto, é flagrante. Os professores foram a categoria mais beneficiada – 146%, considerando-se progressões e promoções.

Cida promete reapresentar o projeto após as eleições. Quem sabe até lá as condições financeiras do Estado permitam um índice maior de reajuste. E, então, ela não poderá ser acusada de demagocia.


Por se tratar de tema relacionado ao governo do Paraná, este jornalista sente-se no dever de informaar que é servidor público lotado na Casa Civil, onde exerce a função de assessor de imprensa.

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