Alumiosa, a cidade do Apocalipse, desaparece na plantação de soja

Durante 15 anos, um agricultor que dizia receber ordem de Deus e de almas construiu uma cidade em Colorado que, segundo dizia, seria o único lugar da Terra que não seria destruído pelo fogo do fim do mundo; por falta de consciência de quem não sabe preservar a história, a cidade que hoje poderia ser um ponto turístico, desapareceu

 

Segundo a profecia de Miranda, quem estivesse do outro lado deste portal estaria protegido do fogo que destruiria o mundo

Segundo a profecia de Miranda, quem estivesse do outro lado deste portal estaria protegido do fogo que destruiria o mundo

Homem do sítio, analfabeto, que não gostava de visitas e só ia à cidade quando precisava fazer compras, José de Freitas Miranda se sentiu o escolhido por Deus para salvar algumas pessoas do fim do mundo. Católico fervoroso, ele se via como Noé antes do dilúvio e sabia que, como Noé, seria chamado de louco. Só que desta vez, a ordem não era para construir uma arca de madeira, já que o mundo não se acabaria em água, e sim uma pequena cidade de pedra, único lugar do mundo que não seria consumido pelo fogo divino que exterminaria a humanidade.

Miranda, que ao invés de dormir passava as noites escuras do sítio sentado do lado de fora da casa, com um pano na cabeça, dizia que Deus falava com ele todas as noites, não só Deus mas também Nossa Senhora Aparecida, anjos e almas e o assunto era sempre o fim do mundo. Verdade ou não, as vozes fizeram do lavrador um homem famoso, que foi reportagem nos grandes jornais brasileiros, saiu algumas vezes no “Fantástico” em uma época em que o programa da Rede Globo era dedicado a grandes reportagens, foi tema de teses de mestrado e doutorado e até hoje sua figura enigmática é possivelmente a personagem mais comentada da história de Colorado (a 78 quilômetros de Maringá), onde ele e a família foram fundadores.

Colorado era apenas uma corrutela no final dos anos 50, quando José Miranda decidiu que tinha que obedecer a voz de Deus e deu início à construção da Cidade Aluminosa, nome, segundo ele, escolhido pelo próprio Deus. Durante 15 anos ele trabalhou sozinho na construção da cidade dentro da propriedade da família.

A Cidade Aluminosa foi edificada na Estrada Água do Jupira, a 9 quilômetros da área urbana de Colorado, onde a família Miranda tinha 500 alqueires de terra, plantava café e criava algumas cabeças de gado. José era o mais velho dos 11 irmãos e assumiu o posto de líder da família com a morte do pai, mas como se sentia na missão de construir uma cidade para salvar pelo menos algumas pessoas do fim do mundo, abandonou o serviço e os próprios parentes começaram a tratá-lo como louco.

Na medida em que a Aluminosa foi tornando-se realidade, chamou a atenção dos moradores de Colorado e de quem passava por ali. Chamou tanto a atenção que a curiosidade atraia multidões nos finais de semana. Há quem diga que chegou a receber mais de 1 mil pessoas em um só dia.

 

Lugar de salvação

A torre, com o alto-falante por os anjos anunciariam o fim do mundo, ficava no centro da Lumiosa

A torre, com o alto-falante por os anjos anunciariam o fim do mundo, ficava no centro da Lumiosa

“O comentário de que aquele era um lugar sagrado e que quem estivesse lá dentro na hora em que o fogo consumisse o mundo ia escapar com vida tomou conta da cidade e muitas pessoas começaram a levar a sério”, diz o pioneiro de Colorado Vandir Itamar Villegas, que hoje é presidente da Câmara de Vereadores. “Eu era menino e morava em um sítio na Jupira, próximo à cidade do ‘seu’ Miranda, e pensava comigo mesmo: na hora que o fogo estiver vindo, corro, pulo a cerca da Aluminosa e fico lá quetinho vendo tudo se acabar”. Muita gente que até mangava do profeta misterioso pensava como o garoto Vandir.

JUPIRADM30O vereador lembra que a Cidade Aluminosa tinha uma aparência misteriosa e a cada dia ficava mais estranha. Foram construídas enormes torres de tijolos, portais, gruta, fonte luminosa, capela, santuário e muitas estátuas em tamanho natural, todas com o mesmo rosto e bolas de gude pretas nos olhos. “As estátuas tinham a cara do ‘seu’ Miranda, dizem que ele esculpia os rostos se olhando em um espelho”, conta Vandir Villegas.

No centro da ‘cidade’ foi erguida uma torre com um alto-falante, que seria usado pelos anjos para anunciar o momento final da humanidade, e o “Sino da Alvorada”, que daria as badaladas do momento final.

JUPIRADM33A professora Sirlene de Oliveira Moura, hoje responsável pela Casa da Cultura de Colorado e guardiã de alguns objetos construídos por Miranda, lembra que era criança quando acompanhou o pai, o pioneiro Jaime Ruela, em uma visita à Cidade Aluminosa e conheceu Miranda pessoalmente. “Ele parecia um homem simples, mas, quando começava a falar, era assustador”.

 

Fim com hora marcada

Sirlene conta que a ‘cidade’ chamava a atenção por ser diferente e, ao mesmo tempo, misteriosa. Para todo lado havia inscrições entalhadas em madeira ou nas paredes, “sempre avisos de como seria o fim do mundo”. Miranda nunca estudou, mas conseguia escrever, mesmo com alguns erros, as mensagens que dizia receber durante as conversas com Deus nas noites escuras do sítio da família, quando sentava-se no quintal ou mesmo na cama com a cabeça coberta com um lençol. “Havia inscrições com a data em que o fogo queimaria este mundo: 28 de dezembro de 1999, quatro horas da tarde”. A data e até o horário coincidem com ‘previsões’ de outros profetas milenaristas que fizeram nome mundo a fora, mas Miranda não sabia disto.

JUPIRADM17Havia também inscrições sobre comportamento que deveria ter quem pisasse no solo sagrado da cidade santa. “Canpo dos regulamentos que Deus deixo pra o povo si adivertir”, em seguida alertava que as mulheres não podiam entrar no “mistério” de vestido curto, gola aberta ou calça comprida: “Os vestidos podem ser de qualquer moda (…) mas tem que ter três dedos para baixo dos joelhos”. E alertava mais: se não se vestissem com decência poderiam ficar paralíticas, cegas ou aleijadas.

Foram construídos no centro da Aluminosa dois bancos, um com a inscrição “Deus”, onde o Senhor se sentaria, e o do lado com o nome do construtor, que, como escolhido, teria assento ao lado do Senhor no único lugar do mundo que escaparia da destruição.

A cidade dos mistérios parou de ser construída em 1975, quando José de Freitas Miranda ficou cego. Ele se sentia frustrado por não conseguir obedecer às ordens de Deus, Nossa Senhora Aparecida, anjos e almas e mesmo na escuridão da cegueira percorria as obras com a ajuda de uma bengala de madeira. Ele morreu em 1994 e não ficou sabendo que o mundo não se acabou na data ditada pelas vozes. Também não saberia que a terra que seu pai comprou ainda nos anos 40 seria vendida pelos descendentes dele e de seus irmãos e que a cidade que construiu com tanto sacrifício e obediência seria destruída logo após sua morte para dar lugar a plantações de soja e milho.

O profeta Miranda com a família no início da construção da cidade, em 1962

O profeta Miranda com a família no início da construção da cidade, em 1962

Botton

Os guardadores da história que se perdeu

Marcelo Português, parente do profeta, e Villegas, que queria se esconder na Lumiosa para escapar do fogo do fim do mundo

Marcelo Português, parente do profeta, e Villegas, que queria se esconder na Lumiosa para escapar do fogo do fim do mundo

“O Miranda podia ter problemas mentais, mas o que ele fez deveria ter sido conservado, pois faz parte da história do município e hoje poderia muito bem ser a principal atração turística de Colorado e região”. Quem diz é o administrador de fazenda Marcelo Fernandes da Silva, o Português, de 42 anos, nascido na Água do Jupira e neto de uma das 9 irmãs do profeta milenarista José de Freitas Miranda. A Cidade Aluminosa, ou a Cidade do Fim do Mundo, como chamavam, fez parte de sua infância e adolescência.

Em uma pasta Português guarda alguns pertences da avó Luzia de Freitas Miranda, que morreu aos 92 anos, principalmente as fotografias em branco e preto da família durante a construção da Cidade Aluminosa, desde as primeiras obras até a época em que o construtor ficou cego.

“Os Miranda foram dos primeiros moradores de Colorado, fazem parte da história da cidade, e a construção da Aluminosa fez com que Colorado fosse destaque em todo o Brasil durante muitos anos”, defende.

Hoje, um painel com várias fotos da Cidade Aluminosa e algumas das estátuas esculpidas por José Miranda estão no Museu Histórico de Colorado, instalado no prédio que foi a primeira escola da cidade. Segundo a professora Sirlene de Oliveira Moura, diretora da Casa da Cultura, as fotos serão digitalizadas e copiadas para não sofrerem a ação do tempo e as estátuas serão conservadas. O objetivo é criar no museu um espaço próprio para conservar a história do profeta messiânico e sua cidade de mistérios.

 

Fotos e reproduções de Douglas Marçal

3 comentários sobre “Alumiosa, a cidade do Apocalipse, desaparece na plantação de soja

  1. Joao Maria 19 de outubro de 2014 8:27

    “Nunca mais destruirei a terra por causa do homem. Porque o homem é mau desde a sua juventude, nunca mais destruirei os seres vivos como fiz.” Genesis Cap. 8:00 vers. 21.

  2. Marcos Caetano 19 de outubro de 2014 9:16

    Infelizmente poucas pessoas se importam com a história e cultura, sendo que isso é de suma importância para a humanidade.

  3. Aparecido Borges da Silva 19 de outubro de 2014 11:44

    Meu caro Luiz de Carvalho, ótima a sua colocação deste blog. eu q tive o privilegio de conhecer isso de perto, tmb vivi parte de minha infancia na água da jupira, acompanhei meu papai (Fortunato Borges da Silva) e q td isso q vc relatou é real.

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