Mês: janeiro 2016



Naná, a lenda da percussão, afrobudista e psicodélico

O Caderno de Cultura de O Diário desta nesta quarta-feira destaca uma verdadeira lenda da música, não da música brasileira ou música instrumental, mas da música do mundo, figura respeitada entre os grandes da música mundial, ganhador de oito prêmios Grammy e várias vezes considerado o melhor percussionista do mundo pela prestigiosa Down Beat.

No Brasil, Naná divide trabalhos com gente do quilate de Egberto Gismonti, Itamar Assumpção, Milton Nascimento, acompanhou Geraldo Vandré, integrou o Som Imaginário e, no exterior trabalhou com Pat Matheny, Jan Garbarek, Don Cherry, CoDoNa e Collin Walcott, só para ficar nos mais conhecidos aqui no Brasil.

Se delicie agora com a conversa de Naná com o repórter Rafael Donadio e que só o Diário publicou.

Mesmo depois de passar pelo tratamento de um câncer de pulmão, diagnosticado em agosto do ano passado, o músico Naná Vasconcelos, 71 anos, está com energia de sobra e participando, como sempre, dos preparativos da abertura oficial do Carnaval do Recife.

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Como se não bastasse toda a história de criação e genialidade do pernambucano dentro do universo musical, agora o percussionista vai chegar ao Oscar. Seu nome está ao lado de Emicida, Barbatuques e do Grupo Experimental de Música (GEM) como responsáveis pela trilha sonora do filme brasileiro “O Menino e o Mundo”, consagrado como melhor filme pelo júri e público no Festival de Cinema de Animação de Annecy (França) e que concorre ao Oscar de melhor animação.

Sobre Naná, Alê Abreu, diretor do longa, exaltou: “Entrou de verdade na pele e alma do protagonista através dos sons tirados de seus incríveis e lúdicos instrumentos”.

Depois de ser homenageado no Carnaval do Recife em 2013, o músico recebeu a Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, no grau Grã-Cruz. Ano passado, recebeu o título de doutor honoris causa da UFRPE.

Entre diversas apresentações ao lado de nomes como B. B. King, Talking Heads, Don Cherry e muitos outros, Naná realizou diversos lançamentos nos EUA. No Brasil, já lançou sete discos, entre eles o último, “4 Elementos” (2012), inspirado nos elementos fundamentais da natureza: água, ar, terra e fogo.

Naná arrumou um tempo na agenda de ensaios para conversar com o Diário, entre outros assuntos, sobre o novo disco “Budista Afrobudista” e o show que fará no festival Psicodália durante o feriado prolongado de Carnaval.


O DIÁRIO Para o Jornal do Commercio, o senhor comentou sobre alguns problemas que teve com a prefeitura de Recife em relação ao show de abertura do Carnaval. Vai participar este ano?

NANÁ VASCONCELOS Sim, claro. Isso foi algum erro da assessoria de imprensa. Eles esqueceram de me convidar para o anúncio que o prefeito fez sobre as atrações. Mas já estou trabalhando desde o início de janeiro, visitando as nações de maracatu. Faço a abertura do Carnaval de Recife há 15 anos, estou debutando.

Quais os convidados?
Eu convidei o Lenine e uma cantora que vem da África, de Cabo Verde, Sara Tavares. Eu chamei dois bailarinos cubanos, Bela Maia e Marcos Livan, e quatro grupos de caboclinhos, que é uma manifestação carnavalesca antiga muito bonita e exuberante, mas quase ninguém vê. Esses grupos estão passando despercebidos e estão desaparecendo sem registro. São vários grupos que descendem dos índios e não dos negros, como a maioria dos grupos de maracatus.

Serão quantos batuqueiros?
Cerca de 700 batuqueiros, de doze diferentes nações de maracatu. A reunião dos grupos de maracatu na abertura do Carnaval é muito forte, é um momento que eu consegui e não largo mão. É o maracatu que está levando o Carnaval de Pernambuco para o mundo todo.

O que o senhor acha da homenagem ao Chico Science do bloco Galo da Madrugada?
É maravilhoso, sensacional. Ele foi único. Ele entendeu realmente que tinha uma coisa que só ele tinha. Ele não parecia com nada. Não tem com quem comparar.
Em “Sinfonia e Batuques” (2010) e “4 Elementos” (2012), algumas canções foram gravadas na água. Como é essa gravação?
Aqui eu gravei na piscina, mas foi um negócio que começou no mar. Fico com a água na altura do peito e tocando com a mão, o instrumento é a água. Não é coisa nova não, porque na África os pigmeus fazem bastante isso. Estou sempre procurando algo novo para não virar mesmice.

O disco novo vai realmente chamar “Um Budista Afrobudista”?
Sim, vai sim. Esse nome veio de um título de uma matéria de um jornal argentino. Fizeram essa matéria enquanto eu estava no hospital e colocaram no título, “Um Budista Afro”, eu só mudei para “Budista Afrobudista” Lá eles conhecem bem minha música, porque eu saí para o mundo por lá.

Saiu por lá?
Eu fui fazer uma série de concertos em Buenos Aires, há muito tempo, e conheci o músico Gato Barbieri, que fez a música do filme “Último Tango em Paris”. Ele me falou que tinha surgido a oportunidade de fazer o disco dele em Nova Iorque, me chamou e eu fui. Acabei ficando 27 anos. Mas eu nunca sai daqui, esse que é o grande segredo.

“Nunca saiu daqui”?
Eu nunca quis ser eles. Eu entendi que, como brasileiro, eu tinha alguma coisa que eles não tinham. Esse foi meu grande sucesso. A percussão brasileira influenciou muito o jazz, porque o jazz tinha os ritmistas latinos, que faziam o latin jazz com bongôs, maracas e congas. Nós chegamos com apitos, penicos, gritos, caçarolas e uma variedade de instrumentos, então viramos moda. Trabalhávamos mais com o som e a textura.

O senhor é budista?
Não. Eu conheci e só pratiquei o budismo enquanto estava na Suécia, com o Don Cherry (músico), que praticava o budismo tibetano. A minha religião é a música.

O disco vai mesmo ter arranjos de Egberto Gismonti?
Tem que ser ele para não ficar careta. Nós já temos uma afinidade de entendimento sonoro e ele conhece as minhas ideias. Acredito que o disco já sai depois do carnaval.

O senhor teve câncer de pulmão no ano passado. Já tratou ou ainda está em tratamento?
Isso mesmo, você usou a palavra correta, eu tive, não tenho mais. Disseram que não podia operar e resolveram que seria melhor tratar. Toda vez que eu saia do meu quarto, um médico vinha com aquele aparelho para ouvir meu peito e dizia “respire fundo, diga 33”, então acabei fazendo música com isso, se chama “Respire Fundo”.

Como surgiu o convite para fazer a trilha de “O Menino e o Mundo”?
Tinham várias músicas gravadas, uma música do Emicida, uma do Grupo Experimental de Música (GEM) e uma do Barbatuque. O Alê Abreu é muito apaixonado pelo meu trabalho e falou que queria que eu costurasse a história. Então eu fiz realmente uma trilha que fizesse essa costura, das cenas e das músicas.

Como foi o processo de composição e gravação das músicas?
Foi muito legal. A música realmente tomou posse de um certo roteiro e vai costurando a história do menino. A animação do Alê é muito boa e muito moderna, foi muito gostoso fazer a trilha. Acho muito legal ele concorrer ao Oscar, isso já é um grande prêmio para um brasileiro, ainda mais com uma animação.

nana-vasconcelos1É verdade que o senhor compôs tudo em apenas um dia?
Foi, claro. Não gosto muito de estúdio. Meus discos também são assim, boto tudo na cabeça, chego lá e faço. Me acostumei a fazer discos solos e faço concerto solo, o que é difícil para um concerto de percussão, ser musical. Acredito que a música tem um potencial visual muito forte e quem me mostrou isso foi o (Heitor) Villa-Lobos, porque você escuta e vê o que a música quer te mostrar.

É dessa forma que o senhor monta os concertos?
Sim. Para eu montar um concerto solo de percussão eu preciso pensar muito nesse sentido da música ter um visual. Eu tento mostrar cenários do Brasil, levar as pessoas que ouvem minha música para a selva da Amazônia, por exemplo. Em diversos períodos da selva, porque a sonoridade muda no decorrer do dia, a sonoridade da manhã é diferente da sonoridade do entardecer.

Em que formato será a apresentação no Psicodália?
Eu vou apresentar o show “O Bater do Coração”. É um show solo que faço há mais de 20 anos. Montei um show de percussão com começo, meio e fim. Não é exibição de quem toca mais rápido ou mais alto. Eu não bato no instrumento, eu toco. Faço música com percussão. Meus instrumentos não têm nome porque são coisas que eu faço ou que fazem para mim. Tento tirar som de tudo, mas toco com o corpo também. É uma performance. O importante é eu terminar o show e as pessoas estarem bem, tanto com o corpo quanto com a mente.

Qual expectativa?
Eu soube que o festival é de uma beleza ímpar. Todos os músicos que foram me falam muito bem dele. Estou louco para chegar lá. É uma pena que eu vou e volto, porque eu gosto de fazer workshops, é uma maneira de encontrar as pessoas, conversar. Mas o festival tem um conceito lindo. Vou fazer o show com todo o carinho, de corpo e alma.

SAIBA +
NANÁ VASCONCELOS
Psicodália 2016
Quando: 5 a 10 de fevereiro
Onde: Fazenda Evaristo,
Rio Negrinho (SC)
Ingressos: Passaporte dá direito a entrada, atrações e camping
www.psicodalia.mus.br

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