Mês: abril 2016



A mãe de Laura Inês enxerga com as mãos

Mesmo sendo cega, Ana Carmen alfabetizou a filha, leu histórias, ensinou a cuidar da casa e cozinhar

Domingo tem mutirão de limpeza na casa da garota Laura Inês, de 11 anos, estudante do Colégio São Francisco Xavier. Ela vai limpar o piso, o pai, Milton, cuidará dos banheiros e a mãe, Ana Carmen, fará a limpeza da cozinha e arrumação dos móveis. Até aí, nenhuma novidade se a mãe de Laura não fosse completamente cega.

Pelo exemplo, Ana Carmen ensina à filha Laura Inês a superar barreiras

Pelo exemplo, Ana Carmen ensina à filha Laura Inês a superar barreiras

A falta de luz que impediu que Ana Carmen visse a beleza da filha em nada mais atrapalhou seu papel de mãe desde que a menina nasceu. Desde o primeiro dia, Ana assumiu o papel de mãe e foi ela quem deu os primeiros banhos, cuidou da roupa, da alimentação, cuidados com a saúde, enfim, tudo aquilo que é papel de uma mãe “normal”.

“Normal, né, mãe”, disse um dia Laura Inês quando a mãe, como faz todos os dias, foi buscá-la na saída da escola. Normal para ela, porque na rua as pessoas estranhavam o fato de uma mulher cega estar andando sozinha pelas movimentadas ruas e acidentadas calçadas de Maringá. “Muita gente pensa o contrário, acham que o filho é quem deve cuidar de uma mãe deficiente visual, mas lá em casa o entendimento é de que mãe e paí são quem cuidam dos filhos”, diz Ana Carmen Dias, professora em três cursos de graduação, palestrante, consultora de empresas e responsável pelo setor de Empregabilidade da Pessoa com Deficiência da Agência do Trabalhador em Maringá.

Ela começou a perder a visão aos poucos e há cerca de 20 anos ficou completamente cega. Mas, nunca se entregou. Aprendeu a ler Braille, um sistema de leitura com o tato, deu continuidade a seus estudos, melhorou sua posição no trabalho, namorou, casou e foi mãe. E é como mãe que ela se realiza. “A limitação somos nós que impomos. Uma pessoa só enterra um sonho se não tiver ânimo e força de vontade”, diz, lembrando que ser mãe é o desejo de toda mulher e ela não ia sufocar este sonho devido a uma limitação que ela supera a cada dia.

“Como mãe, fiz e faço tudo o que cabe a uma mãe que se interesse pelo filho”, diz. Assim, desde o primeiro dia assumiu os banhos, as trocas de fraldas, trocas de roupas, as papinhas e, principalmente o carinho. Na medida em que Laura Inês foi crescendo, foi a própria mãe que, mesmo cega, a alfabetizou. “Alfabetizar o próprio filho é desejo de toda mãe e como sou professora esta vontade era ainda maior”.

Na medida em que a menina ia crescendo, a mãe professora lia historinhas para ela, em Braille, evidentemente, preparava diferentes comidas e depois começaram a cozinhar juntas.

“Houve um momento em que ela começou a questionar que havia algo estranho. Só a mãe dela lia Braille, andava com uma bengalinha branca e a ‘olhava’ com as mãos, em vez dos olhos, mas rapidamente entendeu que eu tinha uma deficiência, mas que isto não me limitava e que ela não precisava se preocupar”, diz Ana. “Poucos dias depois, a Laura Inês começou a andar pela casa de olhos fechados, fazia tudo de olhos fechados dizendo que era para entender como era ser cego”.

Talvez tenha sido depois de viver algum tempo tateando pela casa que Laura Inês entendeu porque a mãe a via com as mãos. Desde pequena, a mãe sabe como é o rosto, a boca, os dentes, olhos, cabelos, enfim, como é a filha. O fato de não enxergar como as pessoas ditas normais não a impediu de arrumar a filha como quem brinca com boneca, ajeitando os cabelos para lá ou para cá, com este ou aquele laço de fita, com tranças, não a impediu de vesti-la como todas as mães sonham enfeitar uma filha, acompanhar o estado da pele, dos dentes, dos cabelos. Com as mãos a mãe sabia quando era hora de levar a filha ao dentista ou ao dermatologista, quando havia uns quilinhos a mais ou a menos e se os exercícios físicos estavam corretos.

“Tocar as pessoas não é somente um jeito especial de enxergar, é uma forma de conferir e, ao mesmo tempo, fazer carinho”, ensina a mulher que rejeita qualquer ajuda se isto a limitar.

Normal

A mãe de Laura Inês e mulher do Milton não tem problemas com limitações. “As barreiras existem, não podemos negar, afinal, ser cego é ter uma deficiência, mas cabe nós não permitir que estas limitações prejudiquem nossos sonhos”, declara. Talvez a luta para superar as limitações impostas pela cegueira fez de Ana Carmen mais forte do que ela seria se não tivesse surgido o problema na vida dela.

Nas palestras que faz para grupos de pessoas portadoras de deficiência ou nas empresas, ela sempre procura mostrar que as barreiras existem para serem superadas e esta é a mesma mensagem que ela tenta passar para Laura Inês, só que neste caso não é pelas palavras, mas pelo exemplo. Todos os dias ela mostra para a menina que não se deixa limitar e que ela é a mãe e são as mães que cuidam dos filhos pequenos, não o contrário. Certamente Laura Inês, mesmo sem palavras já entendeu. “Normal, né, mãe?”.

A CEGUEIRA
EM NÚMEROS

  • 582 mil pessoas no Brasil são, completamente, cegas.
  • 6 milhões apresentam baixa visão.
  • 39 milhões, no mundo, são cegas e 246 milhões têm moderada ou grave deficiência visual.
  • 80% dos casos de cegueira resultam de causas previsíveis e/ou tratáveis.
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Popular, não. Um personagem da vila

Ele não é autoridade, não tem interesses políticos e nem pode ser considerado figura folclórica no bairro, mas em qualquer estabelecimento comercial em que se entre na região do Miosótis e perguntar por Valter Fernandes, possivelmente a resposta seja positiva. Principalmente se o estabelecimento for um bar ou uma lanchonete.

O fotógrafo Valter Fernandes é um dos personagens mais populares da região do Miosótis    Foto: JC Fragoso

O fotógrafo Valter Fernandes é um dos personagens mais populares da região do Miosótis Foto: JC Fragoso

As respostas podem vir com outra pergunta: “o fotógrafo?”, “o violeiro?”, “o poeta?”, “qual, aquele da rádio?”, “o Vartão?”. Seja qual for a resposta, o fato é que Vartão é uma das figuras mais conhecidas e queridas do Miosótis, principalmente nas proximidades do Conjunto Hermann Morais Barros.

“Não faço nada para ser popular”, diz Valter Fernandes, “mas acabo ficando conhecido porque circulo muito no bairro, vou aos bares, visito amigos e, além de tudo isto, moro há muitos anos aqui”.

Ele conhece o bairro como poucos, faz do Miosótis seu quintal e, devido aos olhos treinados pela profissão que escolheu para viver, observa detalhes que geralmente passam despercebidos à maioria dos demais moradores ou trabalhadores do Miosótis.

Mas, assim como é conhecido por muita gente, Fernandes também conhece quase todo mundo, foi amigo de padres da Paróquia São Judas Tadeu, tem sido procurado para apoiar gente que se aventura a ser candidato a qualquer coisa pelo bairro e quase sempre é visto rodeado de amigos contando piadas, cantando músicas antigas enquanto se acompanha ao violão ou falando dos trabalhos que realiza como fotógrafo.

“Já trabalhei fazendo fotos de todos os tipos, desde o trabalho de assessoria até a cobertura de formaturas em vários Estados brasileiros, mas minhas principais recordações são dos anos que vi o mundo do outro lado da lente do jornalismo”. Isto porque metade de sua vida foi dedicada ao Jornalismo de O Diário.

“Como repórter fotográfico fiz de tudo, de jogos de futebol a acidentes daqueles que a gente não esquece nunca, da política aos grandes casos da crônica policial, mas considero muito importante também quando a reportagem é sobre gente comum, aquelas pessoas que geralmente estão invisíveis aos olhos da sociedade”.

Ele se refere especialmente “Vida de papel – cemitério dos esquecidos”, uma série de reportagens de O Diário coordenada pelo jornalista Edvaldo Magro, na época editor-chefe de O Diário. “Não foi somente pela lente da máquina que enxerguei aquelas pessoas simples, que viviam de catar papéis nas ruas, mas também pelos olhos da alma, vi que ali estavam seres humanos com os mesmos anseios, amor e esperança de qualquer outra pessoa, gente que sabe respeitar seus semelhantes e vivem uma vida que muitas vezes não percebemos”.

Mas, há também os casos que ele gostaria de esquecer. “Como fotógrafo de jornal vi muita gente morta, às vezes de formas bárbaras, tanto em crimes quanto em acidentes. E fico chocado principalmente quando o caso envolve criança”. Um desses casos foi o da garota Márcia Constantino, de 10 anos, que foi estuprada e morta pelo maníaco Natanael Búfalo em 2007. Ele participou da cobertura desde que o corpo da menina foi encontrado, as investigações, a prisão e do julgamento e condenação do maníaco.

 

Do past up ao clic

Com Henry Júnior, seu pupilo que morreu prematuramente aos 28 anos

Com Henry Júnior, seu pupilo que morreu prematuramente aos 28 anos

Valter Fernandes iniciou-se na fotografia em O Diário, há um quarto de século. Ele entrou na empresa como ‘pestapista’, uma profissão que não existe mais em jornais e consistia em colar em uma folha de papel recortes com os corpos das matérias digitados, títulos, legendas e até fotografias.

“Fiz amizade rapidamente com gente de todos os setores da empresa, mas o que me encantava era a fotografia, gostaria de ser fotógrafo e trabalhar em reportagens”, conta. O que não lhe faltou foram instrutores, em especial Nelson Pupin, o Jaca, e Moracy Jacques. Toda a equipe da Fotografia passou a ensiná-lo a manipular uma máquina, regular luz, asa, escolher o melhor ângulo. Não deu outra: em pouco tempo aquele rapaz moreno, magrelo e falador estava com uma máquina fotográfica a tiracolo, clicando aqui e ali. “Foi uma alegria muito grande quando abri o jornal e lá estava, pela primeira vez, uma foto feita por mim”.

Cai-cai

O que talvez muitos dos amigos que Vartão cultiva no Miosótis não sabem é que seus companheiros de imprensa evitam viajar com ele se o veículo utilizado tiver que sair pelo menos um palmo do chão. “Se sair do chão com o Vartão dentro, vai cair”, brinca Ivan Amorim, amigo e também repórter fotográfico de renome.

A fama que precede o fotógrafo se justifica. Alguns anos atrás, ele fazia a cobertura do Campeonato Sul Brasileiro de Balonismo e uma das fotos que deveria entregar, para a capa do jornal, teria que ser feita do alto, isto é, de dentro de um balão. Era um dia de tempo calmo e céu limpo, o balão subiu vagarosamente, mas quando o fotógrafo começou a clicar, o veículo começou a balançar e foi arrastado pelo vento em uma velocidade fora de controle, até que caiu, machucando os tripulantes. Em outras duas oportunidades ele fazia fotos aéreas os aviões tiveram que fazer pousos forçados.

Agora, Valter Fernandes está consciente de que jamais fará fotos em balões ou de aviões. Não porque tenha ficado traumatizado, mas porque os pilotos não aceitam sair do chão se ele estiver dentro.

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Wellington, um especial mais que especial na vida de Bete

Autista, totalmente dependente e sem condições de aprender algo, garoto foi adotado pela professora de Sarandi, quando tinha cinco anos

Desde que tornou-se membro da família de Bete, Wellington passou a ser o centro das atenções de todos na casa    Foto: João Cláudio Fragoso

Desde que tornou-se membro da família de Bete, Wellington passou a ser o centro das atenções de todos na casa Foto: João Cláudio Fragoso

“Se ficarmos olhando só para nosso próprio umbigo, podemos perder a oportunidade de sermos úteis a alguém e a nós mesmos”, foi o pensamento pensado em voz alta pela professora Elizabete Aparecida Gotardo diante das duas filhas e de um garotinho de cinco anos, que não falava, andava com dificuldades e não se importava com o que acontecia à volta dele. Como em uma votação silenciosa, Bete, Daniele e Daiane optaram por levar o garotinho para casa e fazer dele um membro da família.

Foi assim que Bete se tornou mãe de Wellington, um garoto que jamais vai evoluir, aprender e deixar de ser totalmente dependente dos outros. Ele é autista e a mãe sabia de tudo isso quando decidiu adotá-lo. Toda a família sabia e todos concordaram.

“Aquela decisão mudou a minha vida e a vida do meu marido e meus filhos em 100%. Temos em casa uma pessoa que só pode receber, jamais terá o que dar, mesmo amor. Mas, foi graças ao Wellington que Deus nos ensinou a amar incondicionalmente, e somos felizes por isso”, diz, categoricamente.

O garoto, agora com 14 anos, passa parte do dia na Associação Maringaense dos Autistas (AMA) e o resto do tempo em casa. Mas, nunca ficou um minuto sequer sozinho. A mãe, professora que mora em Sarandi, decidiu reduzir a carga horária de trabalho para ter mais tempo para o filho. As irmãs Daniele e Daiane, também, assim como o irmão Henrique, que é casado e mora em outra casa, mas se dedica ao autista. O pai, o pintor Milton Veloso, também é todo dedicação ao filho especial.

Wellington, o xodó da casa, poderia ter um destino totalmente diferente se Bete e as filhas tivessem olhado só para os próprios umbigos. Sem pai e deixado pela mãe, ele tinha cinco anos e vivia na Casa Lar da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), em Laranjeiras do Sul. Um irmão, que também tinha sido deixado lá, havia sido adotado, mas ninguém queria adotar uma criança autista.

Encontro marcado

Foi na Casa Lar que Daniele, fonoaudióloga que foi prestar serviço na Apae, conheceu o garoto, encantou-se com ele, mas não tinha como assumi-lo por ser solteira e morar longe da casa dos pais. Um dia, quando Bete e Daiane foram a Laranjeiras do Sul levar Daniele, que tinha passado uns dias em casa, também elas se apaixonaram pelo pequeno, mesmo com ele vivendo em outro mundo, um mundo em que outras pessoas não existem.

Companheirinho para todas as horas

Companheirinho para todas as horas

“Eu e minhas filhas choramos muito quando vimos que aquela criança não conseguia sequer segurar um copo de refrigerante. Sabíamos que se o trouxéssemos para casa teríamos que nos dedicar a ele todo o tempo, mas se olhássemos mais para nossos umbigos e o deixássemos lá, ele não teria futuro algum”, ressalta a professora.

Agora, 10 anos depois de ele entrar para a família, todos na casa o consideram um verdadeiro membro da família, é como se ele tivesse nascido lá.

Garoto que tinha sido deixado pela mãe biológica em entidade agora tem uma família completa

Garoto que tinha sido deixado pela mãe biológica em entidade agora tem uma família completa

A mãe diz ter certeza de que o encontro dela com Wellington foi traçado por Deus como uma forma de abençoar a família, de ensinar as pessoas da casa a dar amor sem esperar qualquer recompensa. “Foi Deus quem mandou minha filha para a Apae de Laranjeiras do Sul e cuidou para que também eu fosse lá e conhecesse o Wellington”, afirma.

Agora, o menino que sequer conseguia segurar um copo de suco, tem no registro de nascimento o nome Wellington Fernando Gotardo Veloso e consta como pais Elizabete e Milton Veloso. Assim sendo, passa a ser irmão de verdade de Henrique, Daniele e Daiane, tem sobrinhos e primos e é herdeiro de tudo o que pertence aos pais. Situação bem diferente de uma década atrás, quando tinha sido deixado pela mãe biológica, ninguém sabe quando e nem sequer tinha um sobrenome. E o que era pior: não tinha futuro.

 

Um grupo de crianças em desvantagem nas filas de adoção

Um estudo realizado recentemente, em São Paulo, mostrou que:

::: metade dos casais que deseja adotar deixa claro que não aceita crianças com problemas de saúde leves e considerados tratáveis.

::: 68% não querem grupos de irmãos.

::: 7,5% dos pretendentes declaram que aceitariam crianças em condições especiais.

::: 10% das 80 mil crianças que estão nos abrigos à espera da adoção, no Brasil, têm algum tipo de deficiência ou são portadores de doenças crônicas.

::: Dois das 80 pessoas atendidas pela Associação Maringaense dos Autistas (AMA) são adotados. Em ambos os casos, os pais sabiam do problema enfrentado pela criança.

::: Nas associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes) são muitos os adotados, mas a instituição não revela números, a não ser em casos onde os próprios adotantes concordem.

::: 2013 foi o ano em que foi aprovada, pelo Congresso Nacional, a Lei que dá prioridade aos processos de adoção nos quais a criança ou adolescente tiver deficiência ou doença crônica.©

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Zona de baixo meretrício deu origem a bairro residencial de Maringá

Muito antes do Novo Horizonte e Tabaetê, a Marumby já era uma das vilas mais famosas da cidade

Uma placa de “aluga-se” no prédio da Rua Amazonas, em frente à Praça Vereador Eurico Vieira Guido, mostra que o Bar Nordestino não existe mais. Ele foi o último resquício dos tempos em que a Vila Marumby era considerada a maior zona de baixo meretrício do noroeste paranaense.

Joaquim Caetano e seu Bar Nordestino resistiram mais de 30 anos após o fim da zona. O pioneiro morreu há dois anos  Foto: blog Angelo Rigon

Joaquim Caetano e seu Bar Nordestino resistiram mais de 30 anos após o fim da zona. O pioneiro morreu há dois anos Foto: blog Angelo Rigon

O fechamento ocorreu em função da morte do proprietário, Joaquim Caetano da Costa, que chegou à vila na década de sessenta do século passado, e instalou o bar, que durou até há pouco. Ele contava que na época do baixo meretrício ganhava muito dinheiro com a venda de bebidas e salgados e ainda tinha uma porcentagem no faturamento das mulheres de programa que faziam ponto no estabelecimento dele. Na época, os bares da vila tinham quartos nos fundos e cobravam por hora de ocupação.

Na esquina, o Bar Nordestino nos tempos em que a Vila Marumby era zona de baixo meretrício

Na esquina, o Bar Nordestino nos tempos em que a Vila Marumby era zona de baixo meretrício

A Marumby existe desde muito antes dos jardins Novo Horizonte e Tabaetê e ficava retirada da área urbana. A criação da vila foi uma exigência da sociedade e da especulação imobiliária, que pressionavam a prefeitura para acabar com a Zona Velha, uma área de dois quarteirões entre a Avenida Guaíra e a Rua Benjamin Constant, praticamente no Centro de Maringá.

Longe da cidade, onde só haviam sítios de criadores de porcos, nasceu a Marumby, que logo virou sinônimo de preocupação das donas de casa quando os maridos passavam da hora de chegar, esconderijo de bandidos, ponto de venda de maconha e palco de brigas que vez por outra terminava com um corpo estendido nas ruas de terra batida.

Mas, a vila era famosa também pelas boates, que ofereciam shows com artistas de renome. Era normal duplas virem à cidade para se apresentar em circos e, lá pela madrugada estarem dando canja em alguma boate da Marumby. Ou iam para lá para encontrar outros artistas e beber até o amanhecer.

Rozalino, já falecido, foi o mais famoso cantor da zona de Maringá durante mais de 10 anos

Rozalino, já falecido, foi o mais famoso cantor da zona de Maringá durante mais de 10 anos

O sapateiro Wanderley Guilherme da Silva era ainda um menino quando todas as noites se apresentava como cantor nos palcos das boates da Marumby. Ele diz que foi lá que desenvolveu o canto e afinou a voz para, depois, participar de bandas de baile. Lá também ganhou o apelido de Rebite, que carrega há mais de 50 anos. Outro cantor que fez sucesso no auge da vida boêmia maringaense foi Rosalino de Oliveira, o Nêgo Rosa, que morreu há seis anos.

Apenas no momento em que a Marumby já perdia força como zona de meretrício surgiu o Novo Horizonte, que também era área de chácaras e acabou loteado. O prolongamento da Avenida Cerro Azul deixou de ser estrada rural, ganhou pistas duplas, asfalto e muitos estabelecimentos comerciais. As boates da vila não resistiram à especulação imobiliária e desapareceram, dando lugar a residências, salões de beleza, lojinhas. As ruas foram asfaltadas e, pouco tempo depois, não havia quase nada que lembrasse os tempos da boemia.

 

Na maioria das casas, mulheres esperavam à porta para "programas" ou "momentos"   Foto: Arquivo Maringá Histórica

Na maioria das casas, mulheres esperavam à porta para “programas” ou “momentos”      Foto: Arquivo Maringá Histórica

O início do fim

A praça central da Vila Marumby, hoje, Praça Vereador Eurico Vieira Guido, tinha mais movimento do que o Centro de muitas cidades da região. E foi por ela que começou o fim da zona de meretrício.

O local era onde dezenas de táxis improvisavam parada a noite inteira – “se ganhava mais em uma noite na zona do que na semana inteira em outro ponto”, disse o ex-taxista Raimundo Thomaz, o Coringa. Também havia um bem movimentado ponto de charretes e muitos carros dos frequentadores.

De um dia para outro, a praça se esvaziou, dando início ao fim da zona e ao nascimento da vila residencial que é hoje. O delegado da época suspendeu em um mesmo dia todos os alvarás de bares e boates sob a alegação de que a região tinha se transformado em esconderijo de quadrilhas de assaltantes, traficantes e outros tipos de marginais.

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Novo Horizonte cobra revitalização de praças

A Associação de Moradores dos Jardins Novo Horizonte e Tabaetê e Vila Marumby recorre à Prefeitura de Maringá e mesmo aos moradores em busca de apoio para revitalizar as praças daquela região da cidade, em especial a Naturalista Augusto Ruschi e a Nilza de Oliveira Pipino.

“Esta região da cidade, que fica entre dois córregos, é relativamente nova, foi aos poucos passando de uma área de chácaras para bairros bastante populosos e um comércio respeitável e ainda parece não estar totalmente definida”, diz a presidente da Associação, jornalista Márcia Eudócia, que apresentava programas na repetidora da TV Record, em Maringá.

“Nossas praças foram construídas com o objetivo de criar espaços vagos em meio às residências, mas algumas delas não cumprem o objetivo inicial, por isso, pedimos que sejam aparelhadas para que se tornem ambientes bonitos e aconchegantes e que passem a ser frequentadas pelos moradores da área”, destaca.

Segundo Márcia, não são necessários muitos recursos para tornar as praças viáveis. “É o caso da Praça Naturalista Augusto Ruschi, que já é bonita, mas não se vê por lá a presença dos moradores”, ressalta.

Por meio de ofícios à Secretaria Municipal de Planejamento, a Associação de Moradores solicita que sejam colocadas mesas e bancos de concreto para oferecer um ambiente para que as pessoas possam se encontrar, bater papo e até jogar cartas. Márcia cita o caso da Praça Farroupilha, no Jardim Alvorada, que é uma das mais frequentadas de Maringá pelo simples fato de oferecer mesas e bancos para carteado.

Outro equipamento solicitado para a Praça Augusto Ruschi é uma Academia da Terceira Idade (ATI). Segundo a presidente da Associação, Maringá conta com dezenas de ATIs, no entanto, aquela região da cidade ainda não dispõe dos aparelhos para a prática de exercícios físicos. Márcia argumenta que esse é o tipo do benefício que não depende de recursos públicos, pois geralmente pertencem e são instalados por empresas que atuam na área de Saúde.

“Temos certeza de que com o povo frequentado a praça, ela deixará de ser alvo de vandalismo e nem continuará servindo como ambiente para drogados e andarilhos”, afirma Márcia.
Carros e flores

Foto ilustrativ

Foto ilustrativa

A Associação de Moradores realiza uma campanha para revitalizar a Praça Nilza de Oliveira Pipino, que na verdade é apenas uma rotatória gramada no cruzamento das avenidas Cerro Azul e Arquiteto Nildo Ribeiro da Rocha.

A associação está empenhada em uma revitalização sem o emprego de dinheiro público. Ali, pretende-se desenvolver o Projeto Carros e Flores, cuja proposta é conseguir um automóvel velho, 20 pneus de tratores e 12 pneus de carros, além de mudas de flores.

O objetivo é que a própria comunidade das adjacências faça a decoração. O Projeto Carros e Flores já foi executado em outras cidades e oferecem um visual novo e bonito ao ambiente, sem custos aos cofres públicos.
As pessoas interessadas em fazer doações ou contribuir com a decoração podem entrar em contato com a associação de moradores, pelo telefone 3305-4617.

Após conseguir o material, a associação precisará de autorização da prefeitura para realizar a decoração, mas a entidade está confiante de que está contribuindo com a cidade e não encontrará qualquer impedimento.
“Se for feito pela comunidade, a própria comunidade se encarregará de proteger e cuidar do que ela fez”, diz a presidente da associação, Márcia, confiante que praças revitalizadas contribuirão para levantar a autoestima dos moradores.

HOMENAGEM A DONA NILZA

Nilza de Oliveira Pipino

Nilza de Oliveira Pipino participou com o marido, Enio Pipino, da criação de várias cidades no Paraná e no Mato Grosso     Foto: Acervo do Museu Histórico de Sinop (MT)

Nilza de Oliveira Pipino participou com o marido, Enio Pipino, da criação de várias cidades no Paraná e no Mato Grosso Foto: Acervo do Museu Histórico de Sinop (MT)

– O nome da rotatória é uma homenagem à pioneira Nilza de Oliveira Pepino, esposa do fundador da Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, mais conhecida como Sinop Terras S/A, Ênio Pipino. Ela acompanhou o marido na fundação das cidades paranaenses de Terra Rica, Adhemar de Barros, Iporã, Iverã, Nilza, Ubiratã, Yolanda, Formosa do Oeste, Jesuítas, Carajá e Marajó.

– Durante os anos que viveu em Maringá, esta carioca nascida em 1920 se destacou pelo trabalho social junto aos pobres.

– Ela, junto com o marido, foi uma das mantenedoras do Lar Escola da Criança, quando da criação da entidade.

– Dona Nilza é homenageada com nome em prédios públicos de várias cidades, inclusive de um hospital e maternidade.

– A homenagem em Maringá foi uma iniciativa do vereador Claudinei Vecchi, porém na rotatória não há referência à homenageada e nem mesmo os vizinhos sabem o nome da praça.

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Entidade já garantiu o nascimento de mais de mil bebês

Helena Bressan (a terceira da esquerda para a direita) com mães e bebês atendidos no Lar Preservação da Vida

Helena Bressan (a quarta da esquerda para a direita) com mães e bebês atendidos no Lar Preservação da Vida

Graças à existência do Lar Preservação da Vida, mais de mil crianças tiveram garantido o direito de nascer. E o que é melhor: nascer em condições adequadas e com a mãe se sentindo segura e tranquila. Na maioria dos casos, as crianças são filhas de mulheres que foram abandonadas pelos companheiros ou que não tiveram a gravidez aceita pelos familiares e que, no desespero, pensam até em interromper a gravidez.

O bebê de número 1.000 é João Francisco, filho de uma garota menor de idade que mora em uma cidade próxima ao Rio Paranapanema. A chegada dele foi comemorada na entidade, que foi enfeitada com mil estrelas, cada uma representando um nascimento bem-sucedido. “Mesmo sem saber, ele vai ser para sempre um símbolo da instituição e a mãe dele já fez o compromisso de trazê-lo para a festa dos 30 anos do Lar, no ano que vem”, diz Helena Carmem Bressan, uma auditora da Receita Federal aposentada que há 29 anos juntou um grupo de pessoas para criar o Lar Preservação da Vida, foi presidente e até hoje trabalha todos os dias ajudando mães e bebês e coordenando a equipe que trabalha na instituição. A entidade maringaense é a única no Brasil e serve de modelo para a criação de similares em outros Estados.

Mas, nem todas as crianças atendidas pelo Lar são as que nasceram lá. Muitas foram acolhidas pela entidade, depois de nascidas e receberam a assistência necessária.

Sem fazer alarde, o Lar recebe contribuições, como leite em pó, cereais, mamadeiras, chupetas, produtos de higiene, sobretudo fraldas, lenços umedecidos, creme dental, papel higiênico, produtos de limpeza e roupas. Também aceita doações em dinheiro.

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Tempo de festivais: na raiz do Femucic

Festival

Foto do grupo que venceu um festival de música realizado no Colégio Estadual Doutor Gastão Vidigal em 1977. Da esquerda para direita, Samuel, Joel Dantas, Jair Rodrigues, Sérginho, Beto Collaço, Ezequiel, agachado, Luiz de Carvalho. A partir desse festival nasceu o Femusesc, organizado pelo Serviço Social do Comércio, que mais tarde foi transformado em Femucic.

 

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Nosso eterno professor

Texto: Rafael Donadio
Foto: João Carlos Fragoso

Entre boas lembranças sobre a cidade de Santa Fé trocadas entre o editor deste caderno, Wilame Prado, e o ex-professor, vereador, deputado estadual, deputado federal constituinte e eterno escritor José Tadeu Bento França, foi possível arrumar um tempo para escutar boas histórias dos livros e da vida do “professor”. Ele fez uma visita à redação na semana passada e rememorou alguns dos episódios que viveu por entre os livros publicados.

Tadeu Bento França

Tadeu Bento França

Com 70 anos de idade, quase dois metros de altura e a fala calma como a de um padre (resultado, talvez, dos onze anos de seminarista, durante a infância e adolescência), Tadeu França falou da vida nômade de professor, vivida durante 50 anos e suas inspirações na literatura e na política.

O santafeense se formou em Letras Franco Portuguesa na antiga Fuel, hoje Universidade Estadual de Londrina (UEL). Apontado como “um dos melhores oradores” já conhecidos, por um repórter da redação que foi seu aluno, França estreou na literatura em 1971, quando lançou “O orador é você”, no qual dá boas dicas de como falar em público.

Após o debute na literatura, e enquanto ainda não ingressava na carreira política e se dedicava inteiramente aos alunos e às aulas, o professor utilizou a arte da escrita como instrumento de ensino e importante ferramenta para falar dos problemas sociais que atingiam e ainda atingem o Brasil.

“O quadro social me motivava muito, como a pobreza e a exploração da população menos favorecida. Fazia denúncias da condição de miséria e falava sobre a necessidade de condições melhores para a população, reforma agrária, investimento na educação”, relata França.

Em 1972, o livro didático “Iniciação à literatura latina” foi lançado. Depois desta, cinco outras obras vieram: “Luzes negras do submundo” (1973); “Marcas de fala caipira norte paranaense” (1975), também didático; “Vem caminhar comigo, pajé” (1985); “Feitores da aldeia grande” (1985) e “Um lugar para Mayra” (1992).

Em “Luzes negras do submundo”, o ex-deputado mostra o seu viés social. “Coloquei as contradições de vida durante o ciclo do café no Paraná, que gerou riqueza de um lado, mas por outro, gerou tantos sonhos frustrados. Mostro também que houve a proliferação dos vícios e da prostituição.”

Para o livro de “Feitores da aldeia grande”, França se aproveitou dos dramas causados pela Guerra Fria para focalizar os problemas dos conflitos do Oriente Médio, levantando uma importante pergunta: “A quem interessa a guerra?” Desta forma, ele faz uma crítica à indústria bélica, a qual entende que é preciso haver um mercado de consumo para o capital investido nessas armas.

Direito dos índios

Um assunto pelo qual ficou conhecido durante a carreira política (1976-1994) é o respeito e a luta pelo direito dos índios e suas terras. Mesmo tema discutido nas obras de 1985 e 1992. O massacre da comunidade Xetá, no Paraná, resultado do processo de colonização, é o ponto principal dos textos de “Vem caminhar comigo, pajé” (1985), enquanto a obra “Um lugar para Mayra” (1992) relata as discussões e situação dos povos indígenas dentro da Assembleia Nacional Constituinte.

Essas quatro obras de França não são didáticas e sim fictícias. Para a produção, o professor se apropriou de uma extensa pesquisa e vivência com a população marginalizada e menos favorecida, principalmente aquelas com quem viveu no fundão do Jardim Alvorada, quando se mudou para Maringá em 1974, para lecionar no Departamento de Letras da UEM.

Existe uma certa dificuldade em encontrar tais escritos, mas nada que sites da internet, como o Estante Virtual, não auxilie.

Político
Como deputado federal constituinte, França fez parte da Comissão de Educação, Cultura, Esportes e Turismo e tem orgulho de lembrar que, das 70 propostas constitucionais de sua autoria, 38 foram aproveitadas integralmente pela Comissão de Sistematização. Sua trajetória política terminou como Secretário do Meio Ambiente durante o primeiro mandato de Roberto Requião (1991-1994).

Algumas enfermidades e a vida corrida da política fez com que o escritor da “pequenina” cidade de Santa Fé deixasse a literatura um pouco de lado, apesar de ter exercido a docência até 2012. Aposentado a partir de 2002, o eterno professor passou 10 anos fazendo o que gosta, dando aulas, em Florianópolis.

Atualmente, vive em Maringá com a mulher Clarice.

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Pista da marginal da BR-376 em Sarandi passa a ter sentido único

Os motoristas que utilizam a Avenida Antônio Volpato, às margens da BR-376, devem ficar ainda mais atentos. O segmento de aproximadamente um quilômetro, entre a Avenida Londrina e o acesso à rodovia, passou a ter mão única [sentido Sarandi/Marialva] a partir de sexta-feira. O trecho que estava em obras para o reforço do pavimento foi liberado novamente ao tráfego depois de aproximadamente 20 dias.

E para que acidentes sejam evitados, o secretário de Trânsito de Sarandi, Joel Inglês, pede para que os condutores tenham paciência e respeitem a sinalização. “Durante todo o dia nossos agentes e viaturas vão estar no local orientando os motoristas e pedestres”, informou, lembrando que, na segunda quinzena de março, o mesmo serviço foi realizado na outra marginal – a Avenida Ademar Bornia.

De acordo com o Departamento de Engenharia da concessionária de rodovias Viapar, empresa responsável pela administração do segmento, as obras na pista marginal estão inseridas no projeto de rebaixamento da BR-376 e construção de viadutos na Avenida Londrina e na Rua Borsari Neto. O investimento para execução do projeto é da ordem de R$ 40 milhões e está sendo bancado integralmente pela empresa.

Atualmente 120 pessoas executam as melhorias no trecho, entre os quilômetros 183,0 e 184,4. Além do reforço das vias marginais, os trabalhos estão concentrados na execução das estacas e vigas de coroamento para posterior rebaixamento. “As vias marginais estão sendo reforçadas para suportar o tráfego da rodovia, o qual será desviado conforme seja necessário”, finalizou o gerente de obras da Viapar, Antônio Clarete. (Assessoria)

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“Meu irmão ficava com um trabuco na mão para afastar as onças”, diz a mais antiga maringaense

Aos 85 anos, a dona de casa Antonia Moreno Doce é possivelmente o mais antigo maringaense vivo. Ela chegou em 1943, quando ainda não existia o Maringá Velho e nem tinham chegado os pioneiros que a história oficial conta como os primeiros moradores de Maringá.

O marido, Antonio Doce, também é pioneiro, que chegou em 1948, em um dia em que a cidade estava coberta de fumaça: “eles tinham derrubado parte da mata onde estavam sendo vendidos os terrenos do Maringá Novo e, como não tinha como tirar toda a madeira, tocavam fogo e o que sobrasse era enterrado”, lembra.

Antonia Moreno chegou um ano antes do início do Maringá Velho e Antonio Doce quando estava sendo aberto o Maringá Novo  Foto: João Cláudio Fragoso

Antonia Moreno chegou um ano antes do início do Maringá Velho e Antonio Doce quando estava sendo aberto o Maringá Novo Foto: João Cláudio Fragoso

Antonio e Antonia, que fazem festa todos os anos no Dia de Santo Antonio – até porque o pai dela também era Antonio, um irmão e um filho e a avó era Antonia -, vivem em uma aprazível casa de madeira no Jardim Aeroporto, com assoalho original de peroba, cercada de roseiras, jabuticabeiras, cycas, vários vasos com samambaia chifre-de-veado (um deles com dois metros de diâmetro) e um pé de mandioca de 25 anos e 10 metros de altura. No interior, rádios antigos que guardam desde que viviam no sítio, fotos dos pais nas paredes e muitas imagens de santos, principalmente Nossa Senhora Aparecida, indicando que ali vive um casal muito católico.

Sossegadamente, como quem fez na vida tudo o que devia ser feito, Antonia conta o quanto foi dificultoso chegar ao local onde hoje é Maringá. Ela, a mãe e os irmãos menores ficaram em uma casa alugada em Mandaguari enquanto o pai, Antonio Moreno Dias, e dois irmãos maiores se aventuraram na mata densa, abrindo caminho a facão e enfrentando os perigos da floresta virgem, para chegar até o lote que tinham comprado.

Onde hoje é a Estrada Colombo, que liga o hoje distrito Iguatemi e Paiçandu, os Moreno abriram uma clareira e trouxeram a família que estava em Mandaguari. “Viemos em um carroção e quando chegamos ficamos morando debaixo de um encerado”, lembra a pioneira, que na época tinha 13 anos.

“Não morava ninguém por perto e durante a noite as onças ficavam rondando nossa morada, durante o dia víamos vários tipos de bichos, principalmente cobras”, diz Antonia, que é um dos poucos maringaenses que conheceu pessoalmente os sutis, povo que vivia em comunidades espalhadas pelas matas do noroeste do Paraná desde o século anterior e desapareceram com a colonização da região. Os sutis, geralmente muçulmanos, eram descendentes de escravos revoltosos e índios. Eram os caboclos, segundo ela, gente do mato, mas muito bons, pessoas fáceis de fazer amizade.

“Era tudo muito difícil. Se alguém ficasse doente ou fosse picado por uma cobra, podia até morrer, porque o socorro mais próximo era em Mandaguari e era muito difícil viajar até lá”, conta a pioneira. Água para beber, higiene pessoal e lavar roupas tinha que se buscada a 500 metros, em um riozinho. “As mulheres não iam sozinhas por causa dos perigos da mata. Enquanto pegávamos a água, meu irmão ficava vigiando com um trabuco na mão”.

Antonio, que chegou quando o atual Maringá Velho já era uma pequena comunidade e o Maringá Novo estava sendo aberto pela Companhia Melhoramentos, também ainda enfrentou algumas das dificuldades do pioneirismo. Junto com o pai, a mãe, um irmão e uma cunhada, o rapaz de 22 anos foi morar também na Estrada Colombo, que a esta altura já existia e contava com vários moradores.

Por uma daquelas necessidades que o destino cria e não explica, foi morar em um rancho beira-chão, justamente onde Antonia e sua família tinham vivido alguns anos antes. A esta altura, ela já morava em uma casa melhor, mas se conheceram, namoraram, noivaram e em 1953 se casaram. Dois anos depois se mudaram para a área urbana. Aliás, quase urbana, porque na verdade foram viver em uma área de chácaras onde hoje é o Jardim Aeroporto, o Setor 8. Foram testemunhas da construção do aeroporto, da abertura das ruas, da construção das primeiras casas.

De lá para cá, Antonio fez de tudo para se adaptar à vida urbana. Foi produtor de verduras, charreteiro, mascate, botequeiro, jardineiro, tapeceiro, até cambista de bilhetes de loteria. “Também fui picareta, marreteiro, daqueles que facilitam a venda de casas, carros e outras coisas”, se diverte.

Se o casal se adaptou ou não à vida urbana, pouco importa. O que interessa é que Antonio e Antonia criaram oito filhos e há 60 anos vivem em um dos bairros mais gostosos de Maringá, em uma casa simples, mas aconchegante. “Quando Antonia chegou, não existia Maringá, nem no mapa, nem no nome, quando eu cheguei tudo estava começando e nós fomos testemunhas do nascimento, crescimento e amadurecimento de uma das melhores cidades do Brasil”, se orgulha Antonio. “Dentro daquilo que pudemos fazer, nós também fomos e somos parte desta história”.

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