“Meu irmão ficava com um trabuco na mão para afastar as onças”, diz a mais antiga maringaense

Aos 85 anos, a dona de casa Antonia Moreno Doce é possivelmente o mais antigo maringaense vivo. Ela chegou em 1943, quando ainda não existia o Maringá Velho e nem tinham chegado os pioneiros que a história oficial conta como os primeiros moradores de Maringá.

O marido, Antonio Doce, também é pioneiro, que chegou em 1948, em um dia em que a cidade estava coberta de fumaça: “eles tinham derrubado parte da mata onde estavam sendo vendidos os terrenos do Maringá Novo e, como não tinha como tirar toda a madeira, tocavam fogo e o que sobrasse era enterrado”, lembra.

Antonia Moreno chegou um ano antes do início do Maringá Velho e Antonio Doce quando estava sendo aberto o Maringá Novo  Foto: João Cláudio Fragoso

Antonia Moreno chegou um ano antes do início do Maringá Velho e Antonio Doce quando estava sendo aberto o Maringá Novo Foto: João Cláudio Fragoso

Antonio e Antonia, que fazem festa todos os anos no Dia de Santo Antonio – até porque o pai dela também era Antonio, um irmão e um filho e a avó era Antonia -, vivem em uma aprazível casa de madeira no Jardim Aeroporto, com assoalho original de peroba, cercada de roseiras, jabuticabeiras, cycas, vários vasos com samambaia chifre-de-veado (um deles com dois metros de diâmetro) e um pé de mandioca de 25 anos e 10 metros de altura. No interior, rádios antigos que guardam desde que viviam no sítio, fotos dos pais nas paredes e muitas imagens de santos, principalmente Nossa Senhora Aparecida, indicando que ali vive um casal muito católico.

Sossegadamente, como quem fez na vida tudo o que devia ser feito, Antonia conta o quanto foi dificultoso chegar ao local onde hoje é Maringá. Ela, a mãe e os irmãos menores ficaram em uma casa alugada em Mandaguari enquanto o pai, Antonio Moreno Dias, e dois irmãos maiores se aventuraram na mata densa, abrindo caminho a facão e enfrentando os perigos da floresta virgem, para chegar até o lote que tinham comprado.

Onde hoje é a Estrada Colombo, que liga o hoje distrito Iguatemi e Paiçandu, os Moreno abriram uma clareira e trouxeram a família que estava em Mandaguari. “Viemos em um carroção e quando chegamos ficamos morando debaixo de um encerado”, lembra a pioneira, que na época tinha 13 anos.

“Não morava ninguém por perto e durante a noite as onças ficavam rondando nossa morada, durante o dia víamos vários tipos de bichos, principalmente cobras”, diz Antonia, que é um dos poucos maringaenses que conheceu pessoalmente os sutis, povo que vivia em comunidades espalhadas pelas matas do noroeste do Paraná desde o século anterior e desapareceram com a colonização da região. Os sutis, geralmente muçulmanos, eram descendentes de escravos revoltosos e índios. Eram os caboclos, segundo ela, gente do mato, mas muito bons, pessoas fáceis de fazer amizade.

“Era tudo muito difícil. Se alguém ficasse doente ou fosse picado por uma cobra, podia até morrer, porque o socorro mais próximo era em Mandaguari e era muito difícil viajar até lá”, conta a pioneira. Água para beber, higiene pessoal e lavar roupas tinha que se buscada a 500 metros, em um riozinho. “As mulheres não iam sozinhas por causa dos perigos da mata. Enquanto pegávamos a água, meu irmão ficava vigiando com um trabuco na mão”.

Antonio, que chegou quando o atual Maringá Velho já era uma pequena comunidade e o Maringá Novo estava sendo aberto pela Companhia Melhoramentos, também ainda enfrentou algumas das dificuldades do pioneirismo. Junto com o pai, a mãe, um irmão e uma cunhada, o rapaz de 22 anos foi morar também na Estrada Colombo, que a esta altura já existia e contava com vários moradores.

Por uma daquelas necessidades que o destino cria e não explica, foi morar em um rancho beira-chão, justamente onde Antonia e sua família tinham vivido alguns anos antes. A esta altura, ela já morava em uma casa melhor, mas se conheceram, namoraram, noivaram e em 1953 se casaram. Dois anos depois se mudaram para a área urbana. Aliás, quase urbana, porque na verdade foram viver em uma área de chácaras onde hoje é o Jardim Aeroporto, o Setor 8. Foram testemunhas da construção do aeroporto, da abertura das ruas, da construção das primeiras casas.

De lá para cá, Antonio fez de tudo para se adaptar à vida urbana. Foi produtor de verduras, charreteiro, mascate, botequeiro, jardineiro, tapeceiro, até cambista de bilhetes de loteria. “Também fui picareta, marreteiro, daqueles que facilitam a venda de casas, carros e outras coisas”, se diverte.

Se o casal se adaptou ou não à vida urbana, pouco importa. O que interessa é que Antonio e Antonia criaram oito filhos e há 60 anos vivem em um dos bairros mais gostosos de Maringá, em uma casa simples, mas aconchegante. “Quando Antonia chegou, não existia Maringá, nem no mapa, nem no nome, quando eu cheguei tudo estava começando e nós fomos testemunhas do nascimento, crescimento e amadurecimento de uma das melhores cidades do Brasil”, se orgulha Antonio. “Dentro daquilo que pudemos fazer, nós também fomos e somos parte desta história”.

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7 comentários sobre ““Meu irmão ficava com um trabuco na mão para afastar as onças”, diz a mais antiga maringaense

  1. LUIZ CARLOS SOARES 17 de abril de 2016 14:59

    MEU SOGRO TEM 94 ANOS E É PIONEIRO DE MARINGÁ, SEGUNDO ELE CHEGOU EM MARINGÁ EM 10 DE ABRIL DE 1947 E PARTICIPOU DA FESTA DO COMEÇO DE MARINGA REALIZADA ON HOJE É O CENTRO COMERCIAL ALI NA PRAÇA, HOJE ELE MORA NA RUA RUI BARBOSA NA ZONA 07, SE ALGUEM QUISER SABER TUDO SOBRE MARINGÁ DESDE 1947 PRA CA ELE SABE E FALA ELE É TOTALMENTE LUCIDO APESAR DA IDADE

  2. WILSON. ISHIHARA 17 de abril de 2016 17:24

    PARABENS. AOS. PIONEIROS. ANTONIO. E. ANTONIA. E. AO. DIARIO. PELA. LINDA. ESTORIA. AQUI. DE. IWAKURA. CITY
    NO. JAPAO. SEMPRE. ACOMPANHANDO. O. NOTICIARIO. VALEWWW

  3. Nairde Freitas Palioto 17 de abril de 2016 19:44

    Minha tia, última, de uma família de pioneiros que chegaram em Maringá em 1943, hoje com 83 anos é totalmente lúcida e independente. Conta muitas histórias antigas. Mora no jardim internorte.

  4. maso 18 de abril de 2016 8:18

    boa história. Tenho umas fotos, mas do Keley de Marialva. Acho que é de 1939 ou 1940. Tenho umas de Maringá do tempo que se jogava bola no instituto. acho que podia mandar pra um acervo uma cópia.

  5. marcio roberto 18 de abril de 2016 14:18

    se alguém tiver conteúdo digitalizado fotos relatos e puder enviar no email [email protected] agradeço pois estou realizando um trabalho no intuito de documentar tais relatos da formação da nossa querida cidade !

  6. maso 25 de abril de 2016 7:22

    mandei contato via e-mail pra ti Marcio.

  7. Marcos Aurélio Martins Ribeiro 12 de setembro de 2017 11:51

    Meu pai chegou a Maringá em 1944, junto com os familiares. Cresci ouvindo as histórias dele. Muito bacana pensar no que era e no que se transformou Maringá, e em tão pouco tempo.

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