Mês: junho 2016



Desbravador pelado causa polêmica, mas ganha respeito

Peladão não é o nome de um dos monumentos mais famosos, significativos e divulgados de Maringá, mas um termo jocoso usado por pessoas que fizeram campanhas contra sua colocação na Praça 7 de Setembro, no limite de onde a cidade começou, o Maringá Velho, com onde ela continuou, o Maringá Novo.

 

Ao lado da escultura, três machados estilizados, feitos em concreto, são símbolos do trabalho dos desbravadores   Foto: João Cláudio Fragoso

Ao lado da escultura, três machados estilizados, feitos em concreto, são símbolos do trabalho dos desbravadores Foto: João Cláudio Fragoso

Mas, a palavra que era para ser depreciativa mudou o significado com o tempo, tornando-se uma forma carinhosa de se referir ao monumento, e hoje já não encontra-se pessoas contrárias ao Peladão. Ao contrário, é até usado em manifestações populares, como quando amanheceu usando a camisa do Grêmio de Esportes Maringá, campeão de 1977, ou a do Brasil tetracampeão de 1994, penta de 2002.

A escultura em bronze retrata, por meio de sua nudez e braços erguidos para o céu, a simplicidade e a fé daqueles desbravadores que na década de 1940 enfrentaram a dureza das matas para construir uma cidade, dos pioneiros que chegaram trazendo somente a força do trabalho, representada pelas mãos espalmadas.

Ao lado da escultura estão três machados estilizados, com as cores da bandeira do município, que simbolizam o abrir caminhos da cidade na mata virgem.

O Peladão, cujo nome é ponto de referência até em propagandas de empresas, é o Monumento ao Desbravador, encomendado pelo prefeito Adriano José Valente para as comemorações alusivas ao Jubileu de Prata de Maringá, em 1972. O prefeito disse que queria homenagear os pioneiros e saudar os que chegaram depois para ajudar a construir a cidade e o artista plástico Henrique Aragão entendeu que deveria criar um símbolo para sempre, não uma estátua comum que perde o interesse em pouco tempo.

O simbolismo do nu

Criticado no início, o Monumento ao Desbravador tornou-se um dos principais símbolos de Maringá    Foto de Valter Fernandes

Criticado no início, o Monumento ao Desbravador tornou-se um dos principais símbolos de Maringá Foto de Valter Fernandes

O artista projetou a escultura com 7,10m de altura e 980 quilos, a partir da utilização de um emaranhado de fios de aço recobertos de cobre. Os machados vermelho, amarelo e branco também fazem parte do projeto de Aragão e o conjunto associa à imagem dos desbravadores a eficácia do trabalho, reforçando-lhes o determinismo e a coragem que transformou a região em uma área promissora.

Ao entregar sua obra, Aragão explicou-a como “”um corpo imenso que procura o espaço infinito apoiado apenas pela planta dos pés. Esguio, ascético, puro, simples. Olhar no horizonte distante. Expressão de vitória consciente e sem soberba. Consciência simples do dever cumprido.”

Mas, não foi bem assim que muitos entenderam. Programas de rádio – em uma época em que o rádio era o principal veículo de comunicação de massa, faziam campanhas contra a escultura, afirmando que era um desrespeito à população um nu na entrada da cidade. As pessoas não conseguiam ver beleza e arte na obra, mas ela era assinada por um dos mais prestigiados artistas plásticos da época, com obras em vários Estados. O prefeito comprou a briga e o Peladão ficou. As costas viradas para o Maringá Velho significava que o passado ficara para trás. O olhar para o Centro era a saudação ao novo.

Praça inacabada

A Praça do Peladão chama-se na realidade Praça Sete de Setembro e integra um nicho de logradouros cujos nomes homenageiam momentos da História do Brasil. Ela está no entroncamento das avenidas Brasil e Independência, por isto chamou-se 7 de Setembro, referência à data da Independência do Brasil.

Ao escolher a praça para a instalação do Momento ao Desbravador, o prefeito da época anunciou um projeto de revitalização de toda a estrutura, com luminárias especiais, jardins, bancos e outros aparelhos. No subsolo será implantado um museu com objetos da história do Maringá Velho.

Porém, a “revitalização” parou na instalação da estátua do homem nu. O museu nunca tornou-se realidade porque antes mesmo da conclusão da obra a estrutura subterrânea foi inundada por enxurrada e os técnicos concluíram que aquilo se tornaria comum a cada chuva. E estavam certos porque até hoje as inundações ocorrem.

A iluminação especial não aconteceu nestes 44 anos depois do Jubileu de Prata, a arborização existente é a mesma de antes, com árvores que deixam a praça escura e repleta de folhas.

Bancos até chegaram a ser colocados, mas praticamente não são usados porque o acesso à praça é difícil por ela estar em uma rotatória em área de grande movimento de carros. Enfim, o peladão e seus machados coloridos são o que resta do Jubileu de Prata, saudando a quem entra ou sai da cidade pela Avenida Brasil.

Como garantiu Aragão ao entregar sua estátua de bronze, a obra, como deve ser uma obra de arte, não passou com o tempo, é hoje um dos mais importantes símbolos da cidade e, como os desbravadores que venceram todos os reveses do pioneirismo, derrotou os puristas e conservadores que foram contrários àquela concepção de arte. Com seus 44 anos, está apenas no começo de sua trajetória, como ocorre que as demais obras de Aragão espalhadas pelo mundo, entre elas o Momento ao Passageiro, que chama a atenção de quem chega ou sai da rodoviária de Londrina.

Com a camisa do time da cidade para festejar o título de campeão estadual

Com a camisa do time da cidade para festejar o título de campeão estadual

.    78457934_2a9721c2d6_mpeladaoblog

 

 

Do Sacro para o Nu

Henrique Aragão tem obras em diversos países e foi um dos mais importantes artistas do Paraná

Henrique Aragão tem obras em diversos países e foi um dos mais importantes artistas do Paraná

O artista plástico Joaquim Henrique de Aragão, criador do Peladão, morreu no dia 24 de agosto do ano passado em Ibiporã, cidade em que vivia e mantinha seu ateliê. Tinha 84 anos.

Era paraibano de Campina Grande, morou na Europa e tem obras em diversos países, como Itália e Suíça.

É um artista conhecido internacionalmente e centenas de obras que estão espalhadas por igrejas e espaços públicos do norte do Paraná.

Além do manuseio do bronze e do latão, era também pintor, desenhista, dramaturgo, poeta e animador cultural. Segundo os críticos de arte, ele desenvolveu um trabalho que o fez reconhecido como um dos grandes renovadores da arte sacra brasileira.

Em 2011, foi criada a Fundação Henrique de Aragão (FHA) para cuidar do acervo das obras do artista.

3 Comentários