Mês: dezembro 2017



Homens que puxam carroças

Com 75 anos de idade, João Dias passa pelo menos 10 horas por dia disputando espaço nas avenidas da área central de Maringá com carros, ônibus e motocicletas, puxando um carrinho de ferro maior do que as carroças que geralmente são puxadas por cavalos ou burros. Se consegue uma vaga para estacionar, terá que aguentar reclamações de motoristas que também querem a vaga, se não consegue, vai ouvir xingamentos de motoristas que reclamam que ele trafega lento demais e dificulta o trânsito.

As dificuldades para transitar pelas ruas do Centro, muitas vezes os carrinhos dos catadores atrapalhem o trânsito Foto: João Cláudio Fragoso

Seu Antonio é um dos muitos catadores de recicláveis que utilizam carrinhos puxados por eles próprios. Cada carrinho suporta uma carga tão grande e pesada quanto a levada por uma carroça.

É muito pesada (a carroça), ruim de fazer curva, o sol quente castiga, a gente não pode parar para comer e nem mesmo para ir ao banheiro, passamos fome, sede, o cansaço mata, mas o que mais dói é a humilhação”, lamenta. “Muitos motoristas pensam que só carros bons podem usar as ruas e nos humilham, não porque estamos no trânsito, mas porque somos pobres”.

Mas, a humilhação está também no ganho. João Dias trabalha das 8 horas da manhã às 18 horas, cata papelão, plástico e outros materiais, mas no fim do dia dificilmente consegue ganhar R$ 20. “Se eu tiver que comprar uma marmita para comer, talvez volte para casa sem um tostão no bolso, uma humilhação para um homem de 75 anos, que trabalhou a vida inteira e tem filho pequeno para criar”, reclama.

A situação de João Dias é a mesma dos outros catadores que puxam carrinhos no centro de Maringá em busca de recicláveis. Há informações de que eles são mais de 30, todos muito pobres e com idade avançada. Nenhum paga Previdência Social nem recolhe para o Fundo de Garantia. A maioria precisa de remédios constantes, muitos, inclusive, que não são fornecidos pelos postos de saúde.

Segundo eles, a situação já foi menos ruim. “Teve época em que ganhávamos mais R$ 1 mil no fim do mês. Hoje, dificilmente chegamos a R$ 500”. Dizem que a situação já vinha piorando, mas “ficou insustentável” depois que a prefeitura também iniciou a coleta de recicláveis por meio de cooperativas de catadores.

Apesar da Lei, carroças continuam no Centro

Apesar de Maringá contar com duas leis que, em tese, proíbem a circulação de carroças na área urbana, uma aprovada em setembro deste ano e outra 20 anos atrás, os veículos de tração animal continuam trafegando normalmente nas ruas da cidade, muitas vezes permanecendo paradas em fila dupla enquanto seu condutor revira caçambas em busca de materiais recicláveis e quase sempre dirigidas por menores de 18 anos.

Mas, esta situação deve mudar nos primeiros meses de 2018, quando o Setor de Fiscalização da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) fará valer a proibição. Carroceiro que desobedecer terá o veículo e o animal apreendidos e as multas poderão chegar a R$ 1 mil.

A proibição já existe, mas ainda não iniciamos a fiscalização porque ainda há que se definir os critérios”, disse o diretor de Fiscalização da Semob, Marcelo Filite. Assim que forem detalhados os critérios, deverá ser feito primeiro um trabalho educativo, com informação e orientação aos carroceiros. Só depois começa a fiscalização com punições a quem contrariar a Lei.

A nova Lei foi originada em um projeto do vereador Flávio Mantovani (PPS), aprovado em setembro pela Câmara de Maringá, que proíbe a circulação de equinos, asininos, muares, caprinos e bovinos com ou sem carroça, porém continua permitindo atividades com animais em estabelecimentos públicos e privados. Para cada animal recolhido, o responsável deverá pagar R$ 100 pelo transporte, R$ 50 pela diária no Centro de Zoonoses e mais R$ 1 mil de multa. Se o proprietário não fizer a retirada no prazo de 72 horas, o animal será destinado a doação.

De acordo com Mantovani, que está imbuído no movimento de proteção dos animais, um dos objetivos da Lei é a prevenção de maus-tratos a animais e também a situação de crianças e adolescentes que trafegam perigosamente em carroças, quase sempre catando materiais recicláveis nas ruas.

No início desta semana, após a publicação da sanção do prefeito Ulisses Maia (PDT), um resumo da Lei foi encaminhado ao secretário de Mobilidade Urbana, Gilberto Purpur, para a definição de como será a fiscalização. Esta fase só será concluída em janeiro e aí começa o trabalho da Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc), responsável por cadastrar e encaminhar os carroceiros para cursos profissionalizantes para evitar que o fim da circulação das carroças engrosse a fila do desemprego em Maringá.

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Geladeira Solidária será entregue sexta-feira

O Projeto Amigos Solidários de Maringá (ASM), formado por mais de 150 voluntários que entregam marmitas durante a noite a moradores de rua e colaboram com outras instituições filantrópicas, inaugura na próxima sexta-feira a primeira Geladeira Solidária de Maringá, que vai disponibilizar alimentos de graça a quem não tem condições de comprar.

Foto ilustrativa do site awebic

O eletrodoméstico, que permanecerá ligado 24 horas por dia, será instalado na próxima sexta-feira, às 14 horas, na Praça Raposo Tavares, ao lado do prédio onde funcionou o Cine Plaza, na região que mais concentra moradores de rua. Ele poderá ser abastecido por qualquer pessoa e qualquer um tem o direito de retirar alimentos sem precisar de qualquer autorização. Nela poderão ser colocadas marmitas, pão, bolacha, bolos, iogurte, refrigerantes, frutas e outros alimentos. As únicas restrições são para bebidas alcoólicas e alimentos com princípios de deterioração.

Além de ser oferecido alimento a quem precisa, a geladeira será também uma oportunidade para que qualquer pessoa possa fazer doação anonimamente”, disse o voluntário Vandré Fernando, um dos líderes do projeto. “Mesmo antes da instalação, várias pessoas já estão envolvidas, dando de si para que este benefício se torne realidade, como uma empresa que se propôs fazer, gratuitamente, a manutenção da geladeira, e várias pessoas se propuseram a fazer esporadicamente o abastecimento com doações”.

A geladeira, que utilizará energia elétrica do antigo Cine Plaza, foi doada por um dos membros do Amigos Solidários de Maringá, que prefere que seu nome permaneça no anonimato. Ela é do modelo bastante comum em lojas de conveniência, com portas de vidro.

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Presépio de Alexandro e Inês destaca a vida no campo

Alexandre diz que pensou um presépio que represente mais do que o nascimento de Jesus  Foto: João Cláudio Fragoso

A placa no portão anuncia um presépio de Natal, mas quem entra experimentará um passeio no tempo, com oportunidade para conhecer como era a vida algumas décadas atrás, sobretudo na roça. E, é claro, verá também um presépio natalino, só que não exatamente como o presépio tradicional, mas uma representação de um lugarejo rural, com a pracinha da igreja e seus frequentadores.

Assim é o presépio de Alexandro e Inês, na Avenida Brasil, na zona norte de Sarandi. Aberto no dia 9, até ontem já tinha recebido milhares de visitantes. “Os adultos gostam porque é uma oportunidade para recordarem de seu tempo, as crianças porque querem conhecer como era o mundo na época de seus pais e avós”, conta Inês, orgulhosa com tanta gente animada em sua casa. “É gostoso ver os adultos explicando as coisas às crianças, mostrando entusiasmadas as coisas que certamente as crianças não conhecem”.

O presépio de Alexandro e Inês é montado há 20 anos e a cada Natal tem um formato diferente e muitas novidades. O deste ano, por exemplo, conta alguns eventos da história da humanidade, começando com Adão e Eva no Jardim do Édem, o embarque dos bichos na Arca de Noé e o anúncio a Maria de que ela tinha sido escolhida por Deus para ser a mãe do salvador da humanidade. Tudo isto entremeado com representações da vida na roça, com casas de caipiras, com fogão a lenha, vinheira, queijeira, animais, mitório do lado de fora, banheiro com chuveiro de latão.

O presépio ocupa uma pequena casa que existe no quintal da moradia de Inês e Alexandro, usada como oficina por Alexandro, um artesão conhecido que já foi assunto de várias matérias na imprensa regional, inclusive nas páginas de O Diário.

Hoje fala-se “o presépio do Alexandro e Inês”, mas houve uma época que ele era só da Inês. A mulher que cresceu no sítio e foi obrigada a mudar-se para a cidade em 1975, quando as geadas históricas acabaram com os cafezais e provocaram o maior êxodo rural da história do Paraná, começou a montar presépio sozinha, mas o filho único, Alexandro Dias dos Santos, cresceu vendo aquilo, se interessou, desde pequeno começou a ajudar dona Inês Fávaro Calixto dos Santos e tornou-se artesão. Hoje, ele produz boa parte de tudo que há no presépio que constrói com a mãe.

Superação

Inês diz que “não estamos pagando promessa. Fazemos porque gostamos, porque queremos ver felicidade nos visitantes e, acima de tudo, como agradecimento por tudo que Deus nos dá”.

No “tudo que Deus nos dá” ela se refere à graça de ver o filho com independência e fazendo o trabalho artístico de que tanto gosta. Alexandre nasceu com deficiência auditiva e na época os médicos anunciaram que ele jamais ouviria e não aprenderia a falar. Mas, com os especialistas certos e o empenho da mãe, ele é exemplo de superação. Ouve com ajuda de aparelho, fala muito bem, estudou, fez faculdade de Moda e hoje trabalha no Escritório de Desenvolvimento de Projetos, em Maringá.

Serviço

Av. Brasil, 668 – Jardim Independência – Sarandi

Segunda a sexta-feira, de 17h às 22h30

Sábados e domingos das 15h às 23h

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Confirmada a instalação de Colégio da Polícia Militar em Maringá

O Núcleo Regional de Educação inicia em janeiro um estudo para definir qual dos colégios estaduais de Maringá será destinado à implantação do Colégio da Polícia Militar, instituição de ensino que será subordinada à Diretoria de Ensino da corporação e vinculada à Secretaria Estadual de Educação.

A instalação do colégio é uma decisão do governo e foi informada pela vice-governadora Cida Borghetti, que permaneceu no exercício do cargo de titular do governo até a última sexta-feira. Segundo ela, a pretensão do governo é que pelo menos as cidades consideradas polos regionais, que tenham sede de batalhão da PM, contem com colégios, que terão metade das vagas reservadas a filhos de policiais militares e as demais serão disponibilizadas à sociedade, mediante teste seletivo.

Alunos do CPM de Curitiba em formação

A chefe do Núcleo Regional de Educação em Maringá, Maria Inês Teixeira Barbosa, disse que o Colégio da Polícia Militar deverá começar a funcionar em Maringá somente no ano letivo de 2019, porque, além de escolher um estabelecimento, realizar as adaptações, há que ser definida a proposta pedagógica. O de Londrina, que foi autorizado antes pelo governo, poderá funcionar já em 2018.

Segundo Cida Borghetti, o CPM terá um alinhamento muito maior com a PM, objetivando criar oportunidade do jovem cidadão de conhecer a filosofia e a disciplina militares. Além das disciplinas escolares, o colégio vai trabalhar o civismo e a cidadania, hierarquia e disciplina. Os alunos usam uniforme completo e entram em formação, em um processo que visa promover o respeito às autoridades e às leis.

Os colégios do interior devem seguir o modelo do que já funciona há alguns anos em Curitiba, que nos últimos cinco anos foi considerado o melhor colégio público da Capital, além de ganhar vários prêmios pela qualidade do ensino. O CPM de Curitiba oferece 120 vagas para a 5ª série pela manhã e tarde, sendo 80 delas preferenciais para filhos de policiais e bombeiros militares. Para o primeiro ano são 90, sendo 60 preferenciais para famílias de militares.

Colégio pioneiro

A chefe do Núcleo Regional de Educação não confirma, mas o governo tem interesse que a escolha recaia sobre o Colégio Gerardo Braga, no Maringá Velho, primeiro estabelecimento de ensino de Maringá. Há dois anos já houve uma tentativa de extinguir o colégio, o que só não aconteceu devido à reação de alunos, professores e da sociedade, que foram para as ruas protestar.

O que faz do “Gerardão” o ideal para as necessidades da Polícia Militar é que é um dos raros colégios de Maringá com pátio amplo.

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OAB de Maringá cria Comissão de Direito Agrário

Aconteceu ontem à noite a primeira reunião da recém-instituída Comissão de Direito Agrário e do Agronegócio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da região de Maringá para tratar sobre o trabalho a ser realizado e admissão de mais membros na comissão.

Guilherme Bolognini Tavares agora procura interessados para participar da comissão

Comissões nas seções da OAB para tratar de assuntos do agronegócio existem em várias regiões brasileiras, mas curiosamente, em Maringá, importante centro de produção agropecuária do Brasil, só agora é criado um grupo de trabalho para se dedicar ao direito agrário”, disse Guilherme Bolognini Tavares, advogado que presta serviço a várias empresas dos setores agrícola e pecuário, professor de Direito Agrário da Faculdade Maringá e fundador da Comissão de Direito Agrário e do Agronegócio na OAB de Maringá. “Já tínhamos várias comissões internas para praticamente todas as áreas, menos para o agronegócio”.

A comissão deverá promover debates e estudos para preparar melhor os profissionais que atuam no agronegócio, tanto ao lado das grandes cooperativas quanto das empresas menores e mesmo os pequenos produtores. “O agronegócio cresceu e hoje é empresarial e tornou-se mais complexo ao produtor e toda a cadeia produtiva até o consumidor”, diz Tavares, destacando que, diante da complexidade, o produtor e as empresas precisam ter garantida a segurança jurídica, reduzindo assim os riscos da atividade e proporcionando a sustentabilidade.

De acordo com o presidente da comissão, o produtor rural hoje em dia precisa preocupar-se com normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Emprego, normas do Ministério da Agricultura, determinações do Ibama e dos órgãos de estaduais de conservação, Imposto Territorial Rural (ITR) e suas avaliações, elaboração de contratos agropecuários de acordo com o Estatuto da Terra, legislações de outros assuntos.

O produtor vai trabalhar com mais tranquilidade e foco na atividade se souber que poderá contar com advogados bem preparados para atuar em seus interesses”, diz Guilherme Tavares. “Para isto, vamos promover encontros e eventos sobre questões relacionadas ao agronegócio, com enfoque na legislação, nos direitos constitucionais, distante de discussões ideológicas sobre as questões agrárias, fundiárias, ambientais, trabalhistas e outras”.

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Mais doce e agora certificada, uva de Marialva alcança bom preço

A produtividade abaixo da esperada para esta safra de verão nem de longe significa frustração para os produtores de uva fina de mesa de Marialva, pois a qualidade da fruta colhida até agora é boa e os preços no mercado são considerados satisfatórios.

As cerca de 500 propriedades rurais que cultivam uva em regime familiar devem colher em torno de 6 mil toneladas até janeiro, volume visto como “bom” em comparação com as últimas safras, mas aproximadamente 30% inferior ao que o município poderia produzir. A produção é tida como boa porque desde 2012 os produtores de Marialva enfrentam uma sucessão de safras problemáticas provocadas por problemas climáticos, como geadas, excesso ou falta de chuvas e queda de granizo.

O produtor Antonio Peres Martines, que cultiva quatro hectares de parreiras na Estrada Marialva, espera colher 50 toneladas nesta safra e diz que sua propriedade tem capacidade para produzir 80 toneladas, mas mesmo assim ele comemora porque a qualidade “está ótima”. Além do fato de o teor de açúcar ser alto, “o brix está adiantado em duas semanas”.

Isto significa que os primeiros frutos colhidos em cada safra não são tão doces quanto os do final, mas nesta safra o teor de doçura “chegou mais cedo e pode aumentar, ainda mais, na medida em que a safra vai avançando”.

Toninho Peres, como é conhecido, não sabe o que fez as frutas adoçarem mais cedo, mas acha que o clima ajudou. Após a safra temporona, que acontece no meio do ano, os parreirais enfrentaram um período de estiagem prolongada, que pode ter tido reflexo na qualidade da fruta que está sendo colhida agora.

A engenheira agrônoma Sonia Vicentini, que como fiscal da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), da Secretaria da Agricultura, acompanha há anos o comportamento da uva de Marialva, considera que esta é uma safra média, afetada pela longa estiagem. Segundo ela, alguns produtores começaram a colher em novembro, mas o grosso da safra acontece em dezembro, quando a fruta atinge sua melhor qualidade.

“No começo de dezembro, a colheita ainda está fraca, mas a oferta atinge seu principal momento a partir do dia 15, quando acontece o forte da comercialização porque o mercado se abastece para as vendas do período natalino”, diz a técnica.

Embora a colheita ainda esteja no início, os produtores consideram que estão conseguindo preços satisfatórios. As variedades Brasil, Itália, Rubi e Benitaka estão rendendo entre R$ 3 e R$ 3,5 por quilo ao produtor. Já a Núbia, variedade desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), está sendo vendida a R$ 4,50. Pelo tamanho, cor vermelha intensa, sabor suave, baixa acidez e doçura, é a uva que mais atrai nas prateleiras dos supermercados e frutarias.

Certificada

Esta é a primeira safra em que Marialva vai vender uva som Selo de Indicação de Procedência, concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). O município entrou no Mapa das Indicações Geográficas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para isto, 15 produtores passaram dois anos realizando cursos, treinamentos e aplicação de tecnologias e métodos para melhorar a qualidade da uva fina de mesa de Marialva.

A doçura dos frutos chegou mais cedo e pode aumentar, ainda mais, na medida em que a safra vai avançando”.

Antonio Peres, produtor de uva

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Deco e a mais longa viagem de sua vida

TEXTO DO LIVRO “MARINGÁ 70 ANOS”

Nas décadas de 1960 e 1970, um homem negro, pobre e quase analfabeto se destacava em Maringá e cidades da região proferindo palestras sobre leis trabalhistas, traduzindo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para uma linguagem compreensível pelo trabalhador comum e ajudando a criar sindicatos de trabalhadores em todo o norte/noroeste do Paraná.

Em Maringá Adenias foi ensacador de café, presidente de sindicato, funcionário da prefeitura e vendedor de calçados

Este homem era o baiano Adenias Raimundo de Carvalho, na época presidente do Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá, sindicato com maior número de associados, ao lado do Sindicato dos Arrumadores. Ele tinha chamado a atenção da sociedade maringaense e dos órgãos de repressão do governo militar ao liderar, no sindicato, aquela que possivelmente tenha sido a primeira greve de trabalhadores do Brasil durante o regime que se estabeleceu no País em março de 1.964. O escritor Laércio Souto Maior, que prepara um livro sobre os movimentos sociais de Maringá nas décadas de 60, 70 e 80, escreveu em sua coluna em O Diário do Norte do Paraná que “o sempre bem humorado Adenias de Carvalho (…) na semana do golpe militar, e nas duas semanas subsequentes, liderou uma greve histórica, enfrentando com coragem as autoridades militares que invadiam as sedes dos sindicatos brasileiros, destituindo suas diretorias. A greve terminou vitoriosa e ficará para sempre na história do sindicalismo maringaense e do Paraná”.

Para presidir o poderoso sindicato por oito anos, Adenias, ou Deco, como o chamavam os mais próximos, teve que se preparar, com noites de leitura de grossos livros sobre leis trabalhistas, sindicalismo e liderança, tarefa que não devia ser fácil para homem de pouco estudo que tinha que ler sob a luz de lamparinas, já que na época, boa parte da Zona 7, onde morava, não tinha rede de energia elétrica. Além disto, a pequena casa de madeira estava sempre cheia de gente, pois era garantia de abrigo para muitas famílias que chegavam da Bahia em busca de melhores dias.

Baiano de Baixa Grande, próxima a Mundo Novo, nunca tinha se afastado mais de 100 quilômetros do lugar onde nasceu quando, no início da década de 50, decidiu fazer a maior viagem de sua vida até então para conhecer o norte do Paraná, de onde chegavam notícias sobre uma terra roxa que dava tudo que se plantasse e, o que é importante para os nordestinos, chovia. Recém-casado com Celina Maria, embarcou em um pau-de-arara junto com o sogro, sogra e uma penca de cunhados, todos menores de idade.

O dinheiro foi curto para chegar ao destino e assim a família passou um curto tempo nos cafezais de São Paulo e só depois chegou a Maringá.

A família, que na Bahia nunca soube o que é blusa e cobertor, enfrentou na chegada um frio de 0 grau. Na nova cidade, onde diariamente centenas de famílias chegavam no trem, em caminhões e nas jardineiras que faziam ponto na ‘Praça da Pernambucanas’, o baiano fez de tudo: foi roceiro e como funcionário da Companhia Melhoramentos ajudou a retirar tocos de árvores da Avenida Brasil e a plantar as palmeiras imperiais da ‘Praça da Pernambucanas’, que anos depois recebeu o nome de Napoleão Moreira da Silva.

Mas, sua esperança era sempre a safra do café. Nestes períodos, milhares de trabalhadores chegavam de outros Estados para trabalhar na colheita e os mais jovens e fortes queriam mesmo trabalhar nas máquinas de beneficiamento e armazéns, carregando sacos. “Um saqueiro ganhava em uma safra o que demoraria anos trabalhando num serviço comum”, contava sempre.

E foi como jovem e forte que ele carregou muitos sacos de café nos armazéns, encheu vagões de trem e caminhões e chegou a ir trabalhar no Porto de Paranaguá no descarregamento de caminhões e vagões para encher navios com o café paranaense que seguia para a Europa.

Mesmo ganhando muito, os saqueiros trabalhavam em péssimas condições. Como não tinham patrão, também não tinham a quem recorrer nas dificuldades, faltavam condições de segurança, armazéns impunham valores considerados injustos e a maioria não pagava a Previdência. Muitos ficavam ao léu se sofressem acidentes no trabalho – e os acidentes eram muitos e vários chegaram a ficar inválidos. Estas condições fortaleceram os movimentos de trabalhadores, que resultaram na criação de sindicatos no início da década de 1960, entre eles o dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá.

Deco participou ativamente da luta dos trabalhadores da sacaria por melhores condições e acabou sendo eleito presidente do sindicato. Quando percebeu que os armazéns e máquinas não estavam dispostos a oferecer o que a categoria cobrava, chamou uma greve que resultou na paralisação do trabalho nos armazéns, muito café não pode ser embarcado para os portos. Quando o regime militar foi instalado, com o nome de Revolução, os saqueiros de Maringá e região já estavam de braços cruzados e pareceram não ter se importado, possivelmente por não saberem dos anos de chumbo que tal regime imporia ao Brasil nos anos seguintes. Os ensacadores só voltaram a carregar sacas quando algumas garantias foram acertadas.

Quando deixou o sindicato e coincidentemente a cafeicultura entrava em baixa após as geadas de 1975, Adenias foi funcionário da prefeitura e depois foi vender calçados, o que fez até se aposentar forçado por um acidente vascular cerebral.

Se todo mundo que veio para Maringá tivesse ficado, a população hoje seria maior do que a de Curitiba”, contava sempre, quando lembrava de tantos colegas de trabalho que passaram por aqui apenas uma ou duas safras de café. “Os que tinham dinheiro, vinham para cá para se estabelecer, os pobres vinham para trabalhar e a maioria sonhava em voltar para o lugar de onde vieram. Os nordestinos, por exemplo, amam demais sua terra e só saíram de lá por precisão”. Ele, que era nordestino, saiu de sua terra ‘por precisão’, mas no dia que viu Maringá teve a certeza de que não voltaria mais.

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Era para ser dia de festa

Nos últimos anos, o dia 4 de dezembro era sempre dia de festa na nossa família. Era o aniversário do patriarca, Adenias Raimundo de Carvalho, que hoje completaria 94 anos. Deco, como era chamado pelos amigos, partiu um mês antes do aniversário e assim a data que era para ser de festa será de saudade.

O livro “Maringá 70 Anos – Famílias, personagens e fatos que contam nossa história”, lançado na semana passada pelo jornal O Diário, faz uma homenagem a Deco, um pioneiro maringaense.

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História de Maringá é contada por pioneiros em livro

Para o empresário Franklin Vieira da Silva, presidente do Grupo O Diário, o jornal tem a obrigação de fazer o resgate da história, tornando público o relato daqueles que viveram ou foram testemunhas dos fatos que fizeram a história da cidade. E é para atender a este compromisso que O Diário pela terceira vez publica em livros a história e os relatos dos pioneiros maringaenses.

Frank Silva entrega a homenagem ao ex-vereador e radialista Antonio Mário Manicardi, o Nhô Juca

O livro “Maringá 70 Anos – Famílias, personagens e fatos que contam nossa história” foi lançado quinta-feira durante café da manhã na Associação Comercial com a presença de várias pessoas que são personagens do livro. A edição, com capa dura, papel couchê e fotos atuais e da Maringá do passado, foi organizada pelo jornalista Edivaldo Magro, com textos de jornalistas com experiência em resgate histórico.

Em trabalhos anteriores O Diário já publicou a história de vários personagens da história maringaense, mas desta vez procuramos mostrar as famílias que chegaram desde a década de 1940, que relatam como era o local em que se construiria a cidade, as dificuldades que enfrentaram e também os momentos de alegria”, disse o idealizador da obra, Edivaldo Magro. “Ao contarmos a história das famílias, mostramos um novo ângulo da história da cidade”.

O engenheiro Edgar Osterroht retratou em seus quadros cenas dos primeiros anos da cidade

A publicação foi pensada como uma colaboração de O Diário às festividades do ano em que Maringá festeja seu 70º aniversário e dividiu as pessoas e famílias por áreas de atuação. O engenheiro Edgar Osterroht, por exemplo, não foi enfocado pelo fato de ter feito parte da equipe da Companhia Melhoramentos, empresa que colonizou a região. Ele foi lembrado como o primeiro artista plástico de Maringá, autor de quadros que mostram como era a cidade no passado. Em uma época em que as poucas máquinas fotográficas registravam momentos em preto e branco, as pinturas de Osterroht registravam em cores vivas cenários e pessoas nos anos 40 e 50.

Outro destacado por seu trabalho artístico é o poeta Antonio Augusto de Assis, o A.A. de Assis, primeiro jornalista da cidade e autor de vários livros de trovas.

A família Meneguetti, que chegou a Maringá em 1946 para explorar um sítio onde hoje é o distrito de Iguatemi, é destacada pelo trabalho no setor industrial, depois de elevar a Usina Santa Terezinha a uma das maiores empresas do Paraná, atrás somente da Copel, Sanepar e duas cooperativas agroindustriais.

O jornal registra a história todos os dias, mas para falarmos do início da cidade, só recorrendo a quem viveu o início da cidade”, disse Frank Silva. “Esta é a terceira vez que O Diário publica livros com os pioneiros e temos a certeza de que preparamos uma publicação digna do orgulho da cidade e de seus pioneiros, um livro para ser guardado e consultado daqui a muitas décadas. Enfim, com mais esta publicação estamos dando a Maringá mais um importante registro de sua história, fazendo o reconhecimento destas famílias que enfrentaram as dificuldades da época e legaram para o futuro uma cidade que vai bem além dos sonhos dos pioneiros”.

O lançamento do livro foi prestigiado pelo vice-prefeito Edson Scabora (PV), vereador Do Carmo (PR), vice-presidente da Associação Comercial, Michel Felippe, e representantes de outros setores.

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