Deco e a mais longa viagem de sua vida

TEXTO DO LIVRO “MARINGÁ 70 ANOS”

Nas décadas de 1960 e 1970, um homem negro, pobre e quase analfabeto se destacava em Maringá e cidades da região proferindo palestras sobre leis trabalhistas, traduzindo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para uma linguagem compreensível pelo trabalhador comum e ajudando a criar sindicatos de trabalhadores em todo o norte/noroeste do Paraná.

Em Maringá Adenias foi ensacador de café, presidente de sindicato, funcionário da prefeitura e vendedor de calçados

Este homem era o baiano Adenias Raimundo de Carvalho, na época presidente do Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá, sindicato com maior número de associados, ao lado do Sindicato dos Arrumadores. Ele tinha chamado a atenção da sociedade maringaense e dos órgãos de repressão do governo militar ao liderar, no sindicato, aquela que possivelmente tenha sido a primeira greve de trabalhadores do Brasil durante o regime que se estabeleceu no País em março de 1.964. O escritor Laércio Souto Maior, que prepara um livro sobre os movimentos sociais de Maringá nas décadas de 60, 70 e 80, escreveu em sua coluna em O Diário do Norte do Paraná que “o sempre bem humorado Adenias de Carvalho (…) na semana do golpe militar, e nas duas semanas subsequentes, liderou uma greve histórica, enfrentando com coragem as autoridades militares que invadiam as sedes dos sindicatos brasileiros, destituindo suas diretorias. A greve terminou vitoriosa e ficará para sempre na história do sindicalismo maringaense e do Paraná”.

Para presidir o poderoso sindicato por oito anos, Adenias, ou Deco, como o chamavam os mais próximos, teve que se preparar, com noites de leitura de grossos livros sobre leis trabalhistas, sindicalismo e liderança, tarefa que não devia ser fácil para homem de pouco estudo que tinha que ler sob a luz de lamparinas, já que na época, boa parte da Zona 7, onde morava, não tinha rede de energia elétrica. Além disto, a pequena casa de madeira estava sempre cheia de gente, pois era garantia de abrigo para muitas famílias que chegavam da Bahia em busca de melhores dias.

Baiano de Baixa Grande, próxima a Mundo Novo, nunca tinha se afastado mais de 100 quilômetros do lugar onde nasceu quando, no início da década de 50, decidiu fazer a maior viagem de sua vida até então para conhecer o norte do Paraná, de onde chegavam notícias sobre uma terra roxa que dava tudo que se plantasse e, o que é importante para os nordestinos, chovia. Recém-casado com Celina Maria, embarcou em um pau-de-arara junto com o sogro, sogra e uma penca de cunhados, todos menores de idade.

O dinheiro foi curto para chegar ao destino e assim a família passou um curto tempo nos cafezais de São Paulo e só depois chegou a Maringá.

A família, que na Bahia nunca soube o que é blusa e cobertor, enfrentou na chegada um frio de 0 grau. Na nova cidade, onde diariamente centenas de famílias chegavam no trem, em caminhões e nas jardineiras que faziam ponto na ‘Praça da Pernambucanas’, o baiano fez de tudo: foi roceiro e como funcionário da Companhia Melhoramentos ajudou a retirar tocos de árvores da Avenida Brasil e a plantar as palmeiras imperiais da ‘Praça da Pernambucanas’, que anos depois recebeu o nome de Napoleão Moreira da Silva.

Mas, sua esperança era sempre a safra do café. Nestes períodos, milhares de trabalhadores chegavam de outros Estados para trabalhar na colheita e os mais jovens e fortes queriam mesmo trabalhar nas máquinas de beneficiamento e armazéns, carregando sacos. “Um saqueiro ganhava em uma safra o que demoraria anos trabalhando num serviço comum”, contava sempre.

E foi como jovem e forte que ele carregou muitos sacos de café nos armazéns, encheu vagões de trem e caminhões e chegou a ir trabalhar no Porto de Paranaguá no descarregamento de caminhões e vagões para encher navios com o café paranaense que seguia para a Europa.

Mesmo ganhando muito, os saqueiros trabalhavam em péssimas condições. Como não tinham patrão, também não tinham a quem recorrer nas dificuldades, faltavam condições de segurança, armazéns impunham valores considerados injustos e a maioria não pagava a Previdência. Muitos ficavam ao léu se sofressem acidentes no trabalho – e os acidentes eram muitos e vários chegaram a ficar inválidos. Estas condições fortaleceram os movimentos de trabalhadores, que resultaram na criação de sindicatos no início da década de 1960, entre eles o dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá.

Deco participou ativamente da luta dos trabalhadores da sacaria por melhores condições e acabou sendo eleito presidente do sindicato. Quando percebeu que os armazéns e máquinas não estavam dispostos a oferecer o que a categoria cobrava, chamou uma greve que resultou na paralisação do trabalho nos armazéns, muito café não pode ser embarcado para os portos. Quando o regime militar foi instalado, com o nome de Revolução, os saqueiros de Maringá e região já estavam de braços cruzados e pareceram não ter se importado, possivelmente por não saberem dos anos de chumbo que tal regime imporia ao Brasil nos anos seguintes. Os ensacadores só voltaram a carregar sacas quando algumas garantias foram acertadas.

Quando deixou o sindicato e coincidentemente a cafeicultura entrava em baixa após as geadas de 1975, Adenias foi funcionário da prefeitura e depois foi vender calçados, o que fez até se aposentar forçado por um acidente vascular cerebral.

Se todo mundo que veio para Maringá tivesse ficado, a população hoje seria maior do que a de Curitiba”, contava sempre, quando lembrava de tantos colegas de trabalho que passaram por aqui apenas uma ou duas safras de café. “Os que tinham dinheiro, vinham para cá para se estabelecer, os pobres vinham para trabalhar e a maioria sonhava em voltar para o lugar de onde vieram. Os nordestinos, por exemplo, amam demais sua terra e só saíram de lá por precisão”. Ele, que era nordestino, saiu de sua terra ‘por precisão’, mas no dia que viu Maringá teve a certeza de que não voltaria mais.

2 comentários sobre “Deco e a mais longa viagem de sua vida

  1. Loide Araújo Gonçalves Jedyn 4 de dezembro de 2017 17:05

    Que lindo texto, Luiz, que alegria reencontrar amigos de infância e relembrar trechos de nossa história. Meu pai com certeza conheceu o seu. Um pouco mais tarde ele trabalhou na Companhia Melhoramentos também. Veja só, hoje depois de tantos anos, os direitos conseguidos tão duramente estão sendo retirados dos trabalhadores. É triste ver o que está acontecendo. O Brasil precisa de mais homens como o seu pai! Um abraço.

  2. Vera Lúcia Simões 4 de dezembro de 2017 19:56

    Nossa, sem dúvida, um bravo!!! Devemos muito do que somos a pessoas maravilhosas como o Seu Deco. Parabéns a ele a bela família Carvalho.

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