Homens que puxam carroças

Com 75 anos de idade, João Dias passa pelo menos 10 horas por dia disputando espaço nas avenidas da área central de Maringá com carros, ônibus e motocicletas, puxando um carrinho de ferro maior do que as carroças que geralmente são puxadas por cavalos ou burros. Se consegue uma vaga para estacionar, terá que aguentar reclamações de motoristas que também querem a vaga, se não consegue, vai ouvir xingamentos de motoristas que reclamam que ele trafega lento demais e dificulta o trânsito.

As dificuldades para transitar pelas ruas do Centro, muitas vezes os carrinhos dos catadores atrapalhem o trânsito Foto: João Cláudio Fragoso

Seu Antonio é um dos muitos catadores de recicláveis que utilizam carrinhos puxados por eles próprios. Cada carrinho suporta uma carga tão grande e pesada quanto a levada por uma carroça.

É muito pesada (a carroça), ruim de fazer curva, o sol quente castiga, a gente não pode parar para comer e nem mesmo para ir ao banheiro, passamos fome, sede, o cansaço mata, mas o que mais dói é a humilhação”, lamenta. “Muitos motoristas pensam que só carros bons podem usar as ruas e nos humilham, não porque estamos no trânsito, mas porque somos pobres”.

Mas, a humilhação está também no ganho. João Dias trabalha das 8 horas da manhã às 18 horas, cata papelão, plástico e outros materiais, mas no fim do dia dificilmente consegue ganhar R$ 20. “Se eu tiver que comprar uma marmita para comer, talvez volte para casa sem um tostão no bolso, uma humilhação para um homem de 75 anos, que trabalhou a vida inteira e tem filho pequeno para criar”, reclama.

A situação de João Dias é a mesma dos outros catadores que puxam carrinhos no centro de Maringá em busca de recicláveis. Há informações de que eles são mais de 30, todos muito pobres e com idade avançada. Nenhum paga Previdência Social nem recolhe para o Fundo de Garantia. A maioria precisa de remédios constantes, muitos, inclusive, que não são fornecidos pelos postos de saúde.

Segundo eles, a situação já foi menos ruim. “Teve época em que ganhávamos mais R$ 1 mil no fim do mês. Hoje, dificilmente chegamos a R$ 500”. Dizem que a situação já vinha piorando, mas “ficou insustentável” depois que a prefeitura também iniciou a coleta de recicláveis por meio de cooperativas de catadores.

Apesar da Lei, carroças continuam no Centro

Apesar de Maringá contar com duas leis que, em tese, proíbem a circulação de carroças na área urbana, uma aprovada em setembro deste ano e outra 20 anos atrás, os veículos de tração animal continuam trafegando normalmente nas ruas da cidade, muitas vezes permanecendo paradas em fila dupla enquanto seu condutor revira caçambas em busca de materiais recicláveis e quase sempre dirigidas por menores de 18 anos.

Mas, esta situação deve mudar nos primeiros meses de 2018, quando o Setor de Fiscalização da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) fará valer a proibição. Carroceiro que desobedecer terá o veículo e o animal apreendidos e as multas poderão chegar a R$ 1 mil.

A proibição já existe, mas ainda não iniciamos a fiscalização porque ainda há que se definir os critérios”, disse o diretor de Fiscalização da Semob, Marcelo Filite. Assim que forem detalhados os critérios, deverá ser feito primeiro um trabalho educativo, com informação e orientação aos carroceiros. Só depois começa a fiscalização com punições a quem contrariar a Lei.

A nova Lei foi originada em um projeto do vereador Flávio Mantovani (PPS), aprovado em setembro pela Câmara de Maringá, que proíbe a circulação de equinos, asininos, muares, caprinos e bovinos com ou sem carroça, porém continua permitindo atividades com animais em estabelecimentos públicos e privados. Para cada animal recolhido, o responsável deverá pagar R$ 100 pelo transporte, R$ 50 pela diária no Centro de Zoonoses e mais R$ 1 mil de multa. Se o proprietário não fizer a retirada no prazo de 72 horas, o animal será destinado a doação.

De acordo com Mantovani, que está imbuído no movimento de proteção dos animais, um dos objetivos da Lei é a prevenção de maus-tratos a animais e também a situação de crianças e adolescentes que trafegam perigosamente em carroças, quase sempre catando materiais recicláveis nas ruas.

No início desta semana, após a publicação da sanção do prefeito Ulisses Maia (PDT), um resumo da Lei foi encaminhado ao secretário de Mobilidade Urbana, Gilberto Purpur, para a definição de como será a fiscalização. Esta fase só será concluída em janeiro e aí começa o trabalho da Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc), responsável por cadastrar e encaminhar os carroceiros para cursos profissionalizantes para evitar que o fim da circulação das carroças engrosse a fila do desemprego em Maringá.

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