Especiais



Ex-vereadora vive em abrigo para idosos e diz que é feliz e não sente falta da política

Vivendo em um asilo de idosos, a ex-vereadora Lizete Ferreira da Costa diz não sentir falta da política, mas dos amigos que fez em Maringá

Vivendo em um asilo de idosos, a ex-vereadora Lizete Ferreira da Costa diz não sentir falta da política, mas dos amigos que fez em Maringá    Fotos: Rafael Silva

“Do que que eu sinto falta? Ora, sinto falta de homem”, disse a senhora magrinha, de cabelos brancos, vestido branco, sandálias brancas, mas uma blusa de lã marrom e descambada e uma gigantesca pochete vermelha estragando o visual. “Não estou brincando. Sinto falta de homem. De homem, de advogar, dar aulas, tocar piano, sinto falta de sair pelas ruas e ver o quanto Maringá está bonita”.

Os cabelos não continuam os mesmos, a ponto de pouca gente – ou ninguém – reconhecer a dona da franja preta que fez sucesso na Maringá dos anos 70, mas o linguajar continua mais para o estilo Dercy Gonçalves do que madre Tereza, a ponto de quem a conheceu reconhecer na hora que estava em frente a Lizete Ferreira da Costa, a professora socialite que estava nos sonhos de muitos estudantes e na cobiça de homens importantes, razão do ciúme da mulherada.

Lizete, que vive em um abrigo para idosos em Maringá, é um exemplo de pessoas que perderam quase tudo na vida. Filha de médico, vinda de uma família que tinha desembargadores e juízes, que estudou piano durante 9 anos em uma época em que só as meninas de famílias ricas podiam se dar a este luxo, estudou nas melhores escolas de Curitiba e se formou em uma faculdade de Belas Artes, casou-se com um médico, formou uma bela família com um filho e duas filhas, deu aula em 15 escolas de Maringá e em 1976 tornou-se a segunda mulher eleita para a Câmara de Maringá

Mas, o período de glória começou a ruir tão logo terminou o mandato de vereadora. A professora, que a esta altura já era também advogada e tinha mudado de marido, começou a perder. Pouco tempo depois já não tinha o marido, depois ficou sem o casarão em que vivia na Zona 5, ficou sem carro e era vista caminhando para cima e para baixo a pé, carregando pesadas bolsas cheias de livros de Direito, os vestidos vistosos foram dando lugar a vestes surradas.

Um dia Lizete estava vivendo em uma casinha de dois cômodos no Maringá Velho, depois passou a viver em hotéis, primeiro alguns de padrão médio, depois foi baixando até os hoteizinhos da Rua Joubert Carvalho, próximos à Rodoviária Velha. Depois sumiu, tanto da vista quanto da lembrança dos maringaenses.

Lizete, agora de cabelos totalmente brancos, divide um quarto com outras duas mulheres em uma casa de repouso para idosos. É a mais elétrica dos 42 moradores, sempre com passos rápidos para cima e para baixo com sua inseparável pochete vermelha, desproporcional ao tamanho da dona. “Eu gosto muito daqui. Tudo é do melhor, os funcionários são atenciosos, a comida e boa e o ambiente é extremamente limpo e bonito”, elogia. “O problema é que não posso sair, não sei mais como é minha cidade”.

Lizete divide um quarto com outras duas mulheres, não nada mais além da pouca roupa, mas diz que é feliz no asilo

Lizete divide um quarto com outras duas mulheres, não nada mais além da pouca roupa, mas diz que é feliz no asilo

A ex-vereadora está com 67 anos, é uma das mais jovens do abrigo, está sempre de sobrancelhas tiradas, olhos contornados com rímel, alguma maquiagem e unhas bem pintadas, de branco, como os cabelos, o vestido e as sandálias. E diz que não sente falta da política. “Vi muito jogo sujo na política, aquilo não serve para mim”. O que sente saudade, segundo diz, é do filho que mora em Curitiba, da filha que mora em Londrina e dos netos. Disse que ainda tem capacidade e vontade para voltar a advogar e a dar aulas. “Sinto falta do piano. E de homem, grande, bonito e gostoso”.

 

Veja também sobre outros políticos que foram destaque em Maringá e hoje estão no ostracismo. Clique AQUI

5 Comentários


Volta ao passado no museu secreto de Flausino

O prazer do empresário é passar o tempo entre milhares de objetos fabricados muito antes de ele nascer

Localizada no Parque Industrial IV, de Sarandi, a Flaus Indústria e Comércio de Peças é considerada uma das empresas mais modernas da região, vendendo peças de veículos para todos os Estados brasileiros, algumas produzidas com o que há de mais avançado no mundo em termos de tecnologia. Mas, enquanto a indústria investe em modernização, em um barracão anexo acontece o oposto: ali a busca é pela antiguidade, onde quanto mais antigo o objeto, mais valorizado ele é.

Entre as relíquias de Marcos Flausino, as bicicletas se destacam, principalmente as que foram fabricadas antes de ele nascer

Entre as relíquias de Marcos Flausino, as bicicletas se destacam, principalmente as que foram fabricadas antes de ele nascer

O barracão é uma espécie de museu secreto, que existe para o deleite de seu proprietário, o empresário Marcos Flausino Dias, um homem que busca a modernidade e a antiguidade e acha este antagonismo normal. Ao mesmo tempo em que se realiza com a construção de uma peça perfeita em sua indústria, se delicia ao restaurar um objeto antigo, seja um simples ferro a brasa, de passar roupas, seja um veículo importado fabricado no início do século passado em algum país.

O barracão em que está o acervo tem 900 metros quadrados e foi construído especialmente para guardar os objetos que Marcos Flausino restaura. Alto e com parte do teto transparente, durante o dia não precisa de luz elétrica, o piso é azul para destacar os objetos e do teto pendem cabos especialmente para expor as relíquias garimpadas pelo proprietário.

Flaus 3O empresário que dá duro a semana inteira, fazendo contatos com seus representantes e clientes em vários Estados, nos sábados, ao invés de descansar, se entoca em seu barracão arrumando e fichando coisas ou na oficina, onde comanda a equipe de restauração. Os domingos são da família, mas não é raro ‘visitar’ o barracão, inclusive com os três filhos, que também já desenvolvem o gosto pelas antiguidades.

Logo à entrada do barracão, o raro visitante viverá uma volta no tempo. Cerca de 50 ferros a brasa, que as mulheres usaram para passar roupas até meados do século passado, em diferentes modelos, assim como são variados os tipos de lampiões que iluminaram as noites dos brasileiros, panelas, chaleiras, bules esmaltados, fogões a lenha e os primeiros a gás.

Os objetos estão divididos por área de utilização e todos estão devidamente fichados. O proprietário estuda a história e a época de cada objeto e exige que tudo na sua exposição esteja em condições de funcionar. Assim, qualquer fogão pode ser aceso, qualquer bicicleta pode circular nas ruas, qualquer radiola tem que ter bom som.

“Faço isto por paixão. Há uma satisfação pessoal em garimpar antiguidades, em trocar objetos com outras pessoas que têm a mesma paixão”, diz o empresário, que despertou o interesse por antiguidades ao ‘bater um rolo” em 1992, quando trabalhava de vendedor de auto peças em uma empresa de Maringá. “Um rapaz procurou a loja para comprar um cabo de embreagem para uma Vemaguet, que na época já era uma raridade. Não resisti e acabei trocando meu Fusca no carro dele”.

Depois da Vemaguet, carro da DKV fabricado a partir de 1952, vieram outros carros antigos. Mas, a coleção ganhou força depois que Marcos Flausino deixou de ser empregado para ser patrão. Ele descobriu que podia construir peças iguais às que vendia e, com a cara e a coragem, montou uma pequena empresa, desenhava as peças e mandava para algum torneiro, depois comprou seu próprio torno e hoje pode dar-se ao luxo de ser uma das poucas empresas do ramo no Brasil a contar com tornos a raio laser.

 

Magrelas, carros e carroças

Nos 900 metros quadrados o que mais se vê são bicicletas. Elas flutuam penduradas do teto, estão nas paredes, no chão, em cima de outros objetos; são grandes, pequenas, pequeníssimas, pequeniníssimas, de duas rodas, três, quatro, uma roda pequenininha e outra gigantesca, uma roda roda só, de cores foscas, brilhantes. Algumas usam faróis alimentados por dínamos, outras a luz é conseguida com energia de pilhas, mas tem também as que no lugar de farol carregam lampiões comuns, outras têm a luz com velas e há faróis mantidos a carbureto, aquela pedra que brilha quando é molhada com água.

No salão são mais de 250 bicicletas, todas restauradas e em condições de passear pelas ruas. “A Peugeot é toda original, não foi preciso mexer em nada”, diz orgulhoso. Isto não seria significativo se ela não tivesse sido fabricada em 1900 e já rodava por aí muito antes de existir qualquer uma das cidades da região de Maringá.

“Não consigo explicar o porquê de tantas bicicletas, talvez seja pela facilidade de trocar com outros colecionadores”, diz Flausino. Ele conta que desde pequeno sempre gostou de bicicletas, cresceu sobre elas pelas de Maringá e na mocidade sofreu muito pedalando uma pesada cargueira da Tolardo para fazer entregas de peças. Hoje, só de cargueiras ele tem mais de uma dúzia.

Embora tenha a Peugeot como uma das principais relíquias, Flausino tem outras bicicletas bem mais antigas, entre elas uma Columbia de 1886.

 

Hoje Flausino tanto pode ser visto em uma reluzente Toyota Hilux quanto em uma não menos reluzente Vemaguet, que é seu ‘carro reserva’, como diz. A Vemaguet divide espaço no salão da Flaus com um pé-de-bode, uma jardineira, um caminhão Ford 1935 V8 e mais uma meia dúzia de carros, todos nascidos muito antes de ser fabricado o primeiro carro no Brasil.

Entre os destaques está uma BMW Romi, ou seja, uma Romiseta da BMW, que fica difícil de saber se é um carro ou uma motocicleta com com cabine.

O colecionador espera com ansiedade o dia em que colocará em funcionamento um Candango velho que está restaurando. Candango é o nome brasileiro do Musga, lançado em 1956 pela alemã DKW e que teve grande aceitação para fins militares.

 

Casa completa

As velharias de Marcos Flausino estão separadas por setores. Em um lugar coisas de cozinha, em outro de sala, quarto, carros, motos, bicicletas e máquinas que trabalharam no campo na época dos pioneiros, como trilhadeiras, descaroçadores, carroções, carroças com roda de madeira e com pneus.

A Victrola ' corda', do início do século passado, não depende de energia elétrica para rodar discos de 78 rotações por minuto

A Victrola ‘ corda’, do início do século passado, não depende de energia elétrica para rodar discos de 78 rotações por minuto

Um dos orgulhos do colecionador foi a ‘sala’ que conseguiu montar, onde estão alguns dos primeiros televisores fabricados no mundo, rádios de diferentes marcas e modelos, alguns tão antigos quanto a própria radiofonia, e os aparelhos de som. Aparelhos é modo de dizer, porque alguns deles nem sequer têm como alterar o volume, não precisam de energia elétrica, enfim, nada que lembre o que é conhecido hoje, como é o caso da Victrola, fabricada pela Victor (depois RCA Victor) no início do século passado, ainda tocada à manivela para rodar discos de 78 rotações, feitos em cera de carnaúba. O som límpido enche todo o salão com a voz de Vicente Celestino ou Chico Alves em seus primeiros 78rpm.

 

Lembranças de família

O museu secreto não tem visitação, mas já tem um nome: Flaus Antiguidades. O Flaus é uma homenagem à família Flausino, que chegou a Maringá em meados do século passado. Seu Jorge, avô de Marcos, derrubou muita mata onde a cidade ia crescendo, vendeu dormentes de madeira quando foi implantada a linha férrea. Seu Pedro, filho de Jorge e pai de Marcos, foi motorista da prefeitura de Maringá e mecânico do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Hoje, os instrumentos de trabalho do desbravador Jorge Flausino estão no Flaus Antiguidades, como o traçador de quase 100 anos, machados, cunhas de aço, ‘periquitas’, que eram ganchos de ferro que prendiam toras para rolá-las e colocá-las em caminhões. Além de conservar objetos da família, foi a forma encontrada por Marcos para homenagear seus antepassados, que deram tanto à região, mas nunca foram lembrados pelas autoridades.

3 Comentários


Lambretinha, o rei do riso do circo sem lona

Altamiro Tavares, o Lambretinha

Lambretinha foi o palhaço mais importante dos circos que percorriam a região de Maringá nos anos 60

Poucas das muitas pessoas que encontram e até têm relativa amizade com o comerciante Altamiro Tavares, antigo morador da Zona 4, sabem que aquele mesmo senhor que fala muito, gesticula demais, mas não conta piadas e nem faz gracinhas, foi no passado um dos mais conhecidos e engaçados palhaços da região.

Lambretinha

O palhaço invade a plateia

Embora adormecido, o palhaço continua em algum canto de sua alma, pois às vezes fecha os olhos e sua cabeça volta no tempo: vê crianças, muitas, sorrindo, gritando, tufos de algodão doce na mão, pirulitos, pipoca, e alto-falante de corneta anuncia: – Atenção, criançada! O Grande Circo Flechas Humanas apresenta o palhaço Lambretinha!

Sapatos duas vezes maiores que os pés, calça vermelha, camisa de bolinha, chapéu, bola no nariz e a cara pintada, Altamiro agora é Lambretinha. Abre a cortina, ajeita o suspensório e invade o picadeiro. A criançada entra em transe.

Circo Flexas Humanas

A ximbica percorria as ruas com o cast para anunciar a chegada do circo

Altamiro ainda era o Mirinho, de 10 anos, quando viu um circo pela primeira vez e quando menos esperava estava morando nele. Seu pai, Antonio Tavares, fazia mágica de boteco e empregou-se no Circo do Timbica, em 1948, e levou a mulher e os seis filhos. Cada um dos Tavares tratou de aprender alguma arte e, assim, a família teve malabaristas, equilibristas, trapezistas e cantores.

Quando os filhos “estavam formados como artistas”, Tavares resolveu criar seu próprio circo em Maringá. O Grande Circo Flechas Humanas nunca teve lona, mas tornou-se o mais conhecido da região apresentando touradas, lutas livres, teatro e shows musicais. Mas não tinha palhaço. Um a um os irmãos pintavam a cara, mas desistiam depois da primeira vaia.

Tavares Circo Flexas Humanas

O mágico Tavares com uma das filhas como partner

Altamiro, que era trapezista, pintou a cara pela primeira vez em Ângulo, que era uma pequena comunidade rural, e também recebeu uma sonora vaia, mas não desistiu. Foi para o Rio de Janeiro e conheceu Carequinha, Arrelia, Piolin e quando voltou a Maringá já era o Lambretinha, que fez nome e por muitos anos fez a criançada da região sorrir.


Lágrimas no picadeiro

“Circo não dava dinheiro. Era só para a sobrevivência, mas ainda consegui alguns bens e hoje, 35 anos depois que o Flechas Humanas deixou de existir, ainda vivo do que ganhei no picadeiro”, diz, lembrando que o circo só lhe trouxe alegrias, tanto quanto a que dava às crianças que lotavam cada espetáculo. Mas houve também momentos de tristeza, como no dia em que fazia seu show e ouviu alguém dizer nos bastidores que sua irmã acabava de morrer em um hospital de Maringá. “Foi o dia que o palhaço chorou no picadeiro”.

1973

foi o ano em que vários dos pequenos circos acabaram, entre eles o Grande Circo Flechas Humanas, criado pelo mágico Antonio Tavares. 

6 Comentários


Presos de Mandaguari ganham novo estilo de vida com a reciclagem

 Nem parece cadeia. Homens que cometeram crimes vivem soltos, trabalham, ganham dinheiro e se preparam para serem recebidos de volta na sociedade

  Fotos: João Paulo Santos

Presos de Mandaguari

Com a fabricação de vassouras, André de Oliveira está juntando dinheiro para iniciar nova vida quando sair da cadeia

Com bonecos gigantes, verdes, vermelhos, azuis, transparentes, aparecendo por cima do muro, sons de máquinas trabalhando, rádio ligado e um animado converseiro, a Delegacia de Polícia de Mandaguari (a 39 quilômetros de Maringá) pode dar a quem passa pela rua a impressão de que ali funciona um barracão de escola de samba ou algum tipo de empresa onde as pessoas trabalham contentes. Nem de longe lembra outras cadeias, onde pessoas que cometeram crimes vivem amontoadas em celas superlotadas.

Na cadeia em que os presos só usam as celas para dormir é normal durante o dia ver grupos de estudantes levados por professores circulando pelo pátio e pessoas, inclusive empresários e autoridades, batendo animados papos com os presos. Os estudantes vão para conhecer o trabalho artístico realizado pelos presos e saem de lá com lições e ecologia e os empresários e autoridades vão para discutir parcerias para a continuação do trabalho “em que são beneficiados tanto os detentos quanto a comunidade”, como diz o delegado Zoroastro Nery do Prado Filho.

Por meio de uma organização não governamental criada na cadeia de Mandaguari, foi feito um acordo com a empresa Nova Atitude Reciclagem, de Maringá, que vende vassourões para prefeituras e empresas de várias cidades brasileiras feitos a partir de fios retirados de garrafas de Politereftalado de etileno, as conhecidas PETs que tantos problemas provocam ao meio ambiente.

Presos de Mandaguari

Os bonecos feitos com os fundos de garrafas enfeitarão a cidade no Natal

Em um barracão construído especialmente para a oficina dos presos, por meio de equipamentos inventados pelo fundador da empresa, Áureo Antonio dos Santos, os presos retiram o fio e encaixam em um suporte de plástico, montando o vassourão. As partes que sobram das garrafas de refrigerantes – o fundo e o bico – são destinadas ao artesanato e no mesmo barracão outros presos montam papais noéis, anjos, trenós e outras figuras, algumas gigantescas de até três metros de altura, que depois são pintadas. Para terminar, uma iluminação interna tornará os bonecos luminosos para enfeitarem as avenidas e praças da cidade no período natalino.

Não estamos presos em celas, estamos em um ambiente de trabalho honesto e agradável”   Ivandro da Rocha Batista, detento

Aqui ninguém tem tempo para pensar em crime”, diz o soldador Aparecido Ramos, que coordena a construção do esqueleto dos bonecos com barras de ferro e ainda ensina seu ofício aos colegas interessados em ter uma profissão para quando sair da cadeia. “Estamos pagando nosso débito com a sociedade com um trabalho que nos deixa orgulhosos”.

Presos de Mandaguari

Altevir é o responsável por transformar a garrafa em fios para a confecção das vassouras

Para o delegado, a oficina proporciona ocupação aos apenados, mas, “muito mais do que isto dá a eles dignidade, objetivos para a vida e o interesse de levar uma vida digna quando saírem daqui”. Segundo Nery do Prado, ao concluir a pena, a maioria dos presos não enfrenta dificuldades para trabalhar e geralmente é bem aceita de volta na sociedade.

O preso André Santos de Oliveira, que trabalha na montagem dos vassourões, diz que só vê vantagens no trabalho oferecido na cadeia de Mandaguari. “Por cada dois dias de trabalho nós temos a redução de um dia na pena, o que fazemos aqui é vendido e ganhamos dignamente dinheiro para mantermos nossas famílias lá fora”. “Além disso, não estamos em celas, estamos em um ambiente de trabalho honesto e agradável”, completa Ivandro da Rocha Batista.

Com mais de 20 anos de experiência em cerca de 10 delegacias, o agente Cláudio Vicente de Farias diz que não conhece outras cadeias onde o clima entre os presos seja tão positivo. “O trabalho dá a eles um objetivo e assim a convivência, ao invés de ser um aprendizado do crime, como ocorre em outras cadeias, torna-se uma união de forças”.

Segundo o policial Gustavo Ricciardi de Aguiar, “eles têm consciência de que estão realizando um trabalho importante e isso é importante para a autoestima”. De acordo com o policial, o trabalho é ecológico, por retirar de circulação milhares de garrafas plásticas, transformando-as em enfeite que em breve poderão estar no Natal de outras cidades.

1 Comentário


Antonio Indaiá, o empresário que garante a limpeza do Rio Ivaí

Na pacata Ivatuba, cidade da Região Metropolitana de Maringá com menos de 3 mil moradores, com um de cada três morando na zona rural, todo mundo conhece Antonio Indaiá como o homem que cuida do Rio Ivaí. Ele recolhe o lixo que se acumula nas margens e defende uma política de conscientização sobre preservação ambiental.

Antonio na verdade é o empresário Antonio de Souza, que viu o Indaiá incorporado no seu nome por ser proprietário do Hotel Indaiá, o mais antigo hotel de Maringá ainda em funcionamento, tem 64 anos e mora em Maringá há 50.

Não é ecologista de carteirinha, mas dá exemplo de sensibilidade ambiental. E o que no começo foi apenas um trabalho sem grandes pretensões acabou tornando-se uma cruzada que ganhou apoio e poderá atrair outros produtores rurais da região.

 

Pescando mentes

Proprietário de uma fazenda de 16,5 alqueires às margens do Rio Ivaí, a cinco quilômetros da área urbana de Ivatuba, onde planta soja e milho e cria gado, Antonio percebeu que o lugar em que costumava ficar para sua pesca de barranco acumulava grande quantidade de garrafas plásticas, sacolas, pneus velhos, latas de cerveja, pedaços de redes de pesca, tarrafas e outros objetos.

No começo, ele limpava apenas o lugar a que tinha acesso ao rio, por meio da mata ciliar, mas com o tempo passou a recolher o lixo que se acumulava na margem ao longo do trecho que fica dentro de sua propriedade, de cerca de 3 quilômetros.

Como não tinha onde se desfazer do material, teve que guardar tudo e algum tempo depois tinha um barracão repleto de coisas velhas chegadas pelo rio.

“É impressionante o desrespeito com a legislação ambiental”, diz ele, citando que a questão é cultural. “Assim como algumas pessoas jogam lixo nas ruas, não cuidam do ambiente em que vivem, jogam objetos também nos rios, sem pensar que assim estão matando um dos nossos mais importantes recursos da natureza”.

Reciclar é preciso

Souza recentemente entregou a uma empresa de reciclagem mais de meia tonelada de lixo recolhido nas margens do Ivaí e já tem no seu galpão vários sacos com garrafas, pedaços de isopor, sacolas e outros objetos recolhidos nos últimos dias.

“As pessoas vêm para o rio para se divertir, nos finais de semana, mas não carregam consigo a consciência de dar a destinação correta ao lixo que produzem, acabam usando o rio como depósito de lixo sem se preocupar com o problema que isso pode causar”.

O empresário, que se dedica também à agricultura e nos finais de semana é defensor da natureza, diz que gostaria que outros proprietários rurais que estão próximos do rio fizessem o mesmo, mas acha que a questão principal não é exatamente limpar e sim evitar sujar.

“Pelo tipo de lixo que recolhemos dá para perceber que quem suja o rio não são os agricultores localizados nas margens, e sim pessoas que vêm para o Ivaí para se divertir, principalmente nos finais de semana”, denuncia.

 

Força da cooperativa

A cruzada de Antonio Indaiá ganhou o apoio do operador de máquinas Reinaldo Alves do Vale, que mora na fazenda com a mulher e dois filhos, passa a semana plantando ou colhendo e nas horas de folga percorre a margem do rio recolhendo lixo.

Também a unidade da Cooperativa Agroindustrial de Maringá (Cocamar) em Ivatuba entrou na luta e colabora com a destinação do material recolhido, dá divulgação à ação de Indaiá e tenta convencer outros cooperados a seguirem o exemplo. “O Ivaí é um patrimônio de todo o povo e se não tivermos cuidado com ele agora, em pouco tempo ele será um rio sem vida”, diz o agrônomo Silvan Marchesan, gerente da unidade.


Vai longe

685 km

é a extensão do Rio Ivaí, desde a nascente, no município de Ivaí, até a foz, em Pontal do Tigre, no Rio Paraná.

 

 

Rio Ivaí bom de peixe só na lembrança dos pescadores

Foto: Bog do De Paula

Reinaldo, que conhece o rio há anos, alerta que o Ivaí está deixando de ser um rio piscoso. “Antigamente era possível pescar pintados, dourados, curimbas, mas hoje está cada vez mais difícil pegar um peixe bom”.

Tanto Reinaldo quanto Indaiá consideram que a queda na piscosidade é resultado da presença de produtos químicos na água, acúmulo de lixo e pesca predatória. Segundo Indaiá, é grande a quantidade de pescadores com redes, tarrafas, espinhéis e anzol de galho no Ivaí.

“A Polícia Florestal faz patrulhamento, mas o rio é grande e o efetivo é pequeno”. Ele entende que há necessidade de fiscalização permanente do rio.

“Já está na hora de a comunidade e o Ministério Público do Meio Ambiente cobrarem providências dos órgãos competentes antes que seja tarde demais”, conclui.

 

Veja abaixo a letra da música “Meu Ivaí querido”, composta pelos jornalistas Antonio Roberto de Paula e Cláudio Viola

Meu Ivaí querido

(Antonio Roberto de Paula e Cláudio Viola)

Lembro-me daquela vez
Que a seca abaixou seu leito
Quando eu te atravessei
Com água dando em meu peito
No seu meio então parei
Pra de tristeza chorar
E o que caiu dos meus olhos
Um rio chamado emoção
A você foi se juntar
Meu Rio Ivaí querido
Levou meu pranto pro mar

Desde os tempos de criança
Querido rio, você me fascina
Momentos eternos na lembrança
Amigo sereno, lento ou revolto
Às vezes calma sua passagem
Noutras feroz, um bicho solto
Sem obedecer suas margens
Urrando sabe lá se de dor
Batendo raivoso nas barrancas
Meu Rio Ivaí querido
Misterioso, lindo que encanta

Tantas histórias contaram de ti
Que ficaram no meu imaginário
Caboclo d`água, jibóia, sucuri
Pescadores amedrontados
Pesca noturna no velho Ivaí
Só valia pra quem era ousado
Tantos causos que não esqueci
Contados pelo meu velho pai
Que já atravessou a margem
Meu Rio Ivaí querido
Por onde for, levo tua imagem

De vez em quando faço de conta
Viro um menino, as pescarias
Nado, mergulho, pulo de ponta
Acompanho o pai, os lambaris
E então eu choro de saudade
Bate uma dor, vem a tristeza
Mas vendo a tua vitalidade
As lágrimas vão na correnteza
Vou contando tua história
Meu Rio Ivaí querido
Te trago sempre na memória

Hoje, depois de tanto tempo
Tantas coisas que já vivi
Nas horas boas e de lamento
Me lembro de ti, meu Ivaí
Pego meu filho pela mão
Mostro as coisas que aprendi
Pra ele ter a compreensão
Do amor que tenho por ti
Aquele meu rio de criança
Meu Rio Ivaí querido
Vou deixar pra ele de herança


 

Comente aqui


Thelma Kasprowicz, meio século de dedicação à Pediatria

Entrevista de Fábio Linjardi para O Diário

A médica Thelma Villanova Kasprowicz, 80 anos, aposentou-se em 2004. Primeira pediatra de Maringá e filha do primeiro prefeito da cidade, Inocente Villanova Júnior, ela coleciona histórias. Foram 50 anos à frente da Santa Casa de Maringá, 32 deles como chefe do setor de Pediatria.

Quando chegou a Maringá, o aparelho mais moderno era uma máquina de raio X. Com a ausência de tecnologia, o diagnóstico dos pacientes era feito até pelo olfato. Foi ela a primeira a fazer a hidratação intravenosa nas crianças maringaenses.

Antes, as crianças saíam inchadas do hospital, após receberem o soro por debaixo da pele. Thelma não chegou a viver na cidade o status de filha do prefeito. No mesmo ano em que ela se formou, em Curitiba, Inocente Villanova encerrava seus quatro anos à frente da prefeitura.

O que ela não esquece da passagem dopai como prefeito foi a dificuldade de Villanova em administrar a cidade nos primeiros anos de mandato. A prefeitura se resumia a uma casa com um quarto e sem móveis.

Ela diz que logo nos primeiros dias, Villanova contou com a juda de um amigo, que trouxe jagunços para fazer a segurança da prefeitura. Entre as diversas homenagens pelo pioneirismo, a que mais se destaca é que a Thelma dá o nome ao Hospital Municipal.

Ela atendeu a O Diário na tarde de quinta-feira, na casa construída no terreno que pertence à família há mais de meio século, na Avenida Tuiuti.

Thelma Villanova Kasprowicz

Thelma Villanova Kasprowicz, uma das pioneiras da medicina em Maringá

O Diário – Que lembranças a senhora guarda da eleição de seu pai?

Thelma Villanova Kasprowicz – A Companhia Melhoramentos não queria que o papai ganhasse. Foi uma luta daquelas. A companhia apoiava o Valdemar Gomes da Cunha, quer era da UDN. Meu pai era do PTB. E como tinha pouco eleitor, era uma eleição apertada. (Villanova venceu Valdemar por 1.871 a 1.725. O terceiro colocado, Ângelo Planas, fez 1.707 votos). O papai soube logo após ganhar que o pessoal tentaria tirá-lo à bala. O que deram para ele administrar foi uma casa, que era um quarto só, sem móveis. Não tinha mesa, cadeira, nada.

E para piorar, o pessoal não pagava impostos. Logo nos primeiros dias parou aqui na frente de casa um amigo dele, de Pontoa Grossa, com um caminhão carregado de jagunços, todo mundo com espingarda nas mãos. Esse amigo disse: “Olha Villa, vim aqui para a ajudar você”. Eles cercaram a prefeitura com sacos de areia e deixaram os jagunços lá, para evitar o ataque. O papai foi eleito porque fez muitos amigos, antes de começar a se discutir política. Ele tinha uma madeireira e costumava ajudar o pessoal que era mais carente de recursos. Doou madeiras para o primeiro prédio da igreja São José, ajudou na construção do Cine Horizonte. Daí, quando surgiu a eleição em Maringá, ele se animou e resolveu concorrer.

 

O Diário -Houve resistência na sua família pela escolha da profissão?

Thelma Villanova Kasprowicz – Um tio meu dizia que Medicina não era coisa para mulher. Lugar de mulher tinha que ser na cozinha, falava ele. Daí minha mãe rebatia: só se for para as tuas filhas, as minhas querem estudar e vão fazer Medicina, sim senhor. Na minha turma lá na Universidade Federal de Curitiba eram 135 homens e 15 mulheres. Eu tive sorte que logo quando entrei na universidade, em 1951, ela foi federalizada. Aí o papai quase não teve gastos. Quando me formei e vim para trabalhar aqui na Santa Casa em Maringá, ele já não era mais prefeito. Eu me formei em novembro, em dezembro acabou o mandato dele.

 

O Diário -Foram quantos anos de trabalho na Santa Casa?

Thelma Villanova Kasprowicz – Fiquei 50 anos na Santa Casa, 32 deles como chefe do setor de Pediatria. Saí em 2004, logo depois que nasceu a minha bisneta. Daí tive que operar a coluna três vezes. Sofri um acidente e não notei que tinha afetado uma vértebra. Começou com a perda nos movimentos das mãos, depois eu já não conseguia mais andar. Foi uma época muito difícil porque o meu marido (o arquiteto Luty Vicente Kasprowicz) sofreu deslocamento de retina. Aí ele ficou cego, e eu cadeirante.

 

O Diário -Quais eram os recursos para atender aos pacientes naquela época?

Thelma Villanova Kasprowicz – Quando cheguei, a máquina mais moderna que existia era um equipamento de raio X. A situação era bem diferente.

Os médicos faziam hidratação subcutânea nas crianças, o soro era aplicado por debaixo da pele. A criança ficava toda inchada, parecia um balão e ainda assim ficava desidratada. Comecei a fazer a hidratação intravenosa, coisa que ensinaram para gente em um curso em Curitiba.

Daí vinha gente até de Londrina para saber conhecer como é que a gente fazia esse tipo de hidratação aqui em Maringá. Como não tinha tanta tecnologia, a gente estudava na faculdade como reconhecer a doença pelo cheiro. Por exemplo: você chegava em um quarto e sentia cheiro de maça, mas não tinha nenhuma fruta ali. Isso quer dizer que o paciente era diabético. Eu tinha um nariz muito bom para essas coisas.

 

O Diário -Quais momentos a senhora não esquece desse tempo todo de trabalho no hospital?

Thelma Villanova Kasprowicz – Não esqueço da presença de Deus na hora do aperto. Várias vezes estava ao lada da cama, a criança morrendo e eu já tinha feito tudo o que podia.
Daí não foi nem só uma, nem duas vezes que ajoelhei do lado da cama para rezar. E a gente via milagres. Agradecia demais a Deus, porque tinha coisa que era ação divina, não vinha de nós.

 

O Diário -Entre os pacientes, quais as maiores mudanças nesse meio século de trabalho?

Thelma Villanova Kasprowicz – De doença, tem muita coisa que você não vê mais. Era comum você atender criança com difteria, que deixava a garganta trancada. Hoje nem se ouve mais falar nisso. Uma vez tiveram que colocar uma camisa de força num rapaz, que foi mordido por um cachorro louco. O rapaz estava fora de controle e o pessoal evitava ficar perto porque a saliva podia contaminar os outros.

Há quantos anos não se escuta falar de cachorro louco na rua. Agora, outra coisa que mudo muito é a educação das crianças. Isso mudou demais.

 

O Diário -As crianças eram mais educadas?

Thelma Villanova Kasprowicz – Na minha época, a criança chegava no consultório e falava, ‘sim senhora, doutora’. Hoje você já não vê mais isso. Tem criança indo armada para escola, batendo em professor, acho um absurdo tudo isso que está acontecendo.

Acho que tudo isso acontece porque a educação está falha, a segurança também. Tive que mandar demolir meu consultório porque depois que eu parei de trabalhar o pessoal começou a invadir o imóvel para fumar maconha. Outra coisa que mudou muito é a liberdade do sexo. Era uma coisa que estava prevista. Liderei movimentos feministas. A gente sabia que isso seria livre, mas não desse jeito, não essa barbaridade.

Os homens já tinham o sexo livre, mas para as meninas não. Agora elas estão abusando. Acho que o sexo livre deveria existir, mas não o sexo vulgar. Os jovens fazem competição de quem faz mais isso, mais aquilo. No meu tempo o namoro era vertical. Hoje, ele é horizontal. A juventude sempre foi atrapalhada em relação à geração anterior, mas não que as moças fossem totalmente recatadas no meu tempo, mas eram mais contidas.

Comente aqui


As cores da história de Maringá na arte de Edgar Osterroht

Prédio da Companhia Melhoramentos em pintura de Edgar OsterrohtQuem quiser entender os primeiros anos das cidades do norte e noroeste paranaenses pergunte a Edgar Werner Osterroht, que é bom de prosa e fala de tudo: de sua vida como engenheiro da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, da fundação das cidades, das pessoas, de como era a vida da época, como foi sua vida na Alemanha, dos horrores da guerra que expulsou sua família para o Brasil, de sua amizade com o inventor do helicóptero, com a diretora de cinema Tizuka Yamazaki, com a atriz Mariana Ximenez e com o compositor Joubert Carvalho. Ele fala de tudo, mas tudo mesmo, menos de quantos anos tem.

Mas, se tem alguma coisa com que o pioneiro não precisa se preocupar é com a idade. Pai de dois filhos adolescentes, ela aparenta ter por volta de 60 anos, uns 24 ou 25 menos do que tem na realidade, porte atlético e uma energia que faz inveja aos jovens. Ele é o último arquivo vivo da equipe da Melhoramentos que criou as cidades da região, mas é lembrado principalmente pelo registro de uma época feito em telas que vão ficar para a posteridade.

 

 

Que lembranças tem de sua infância?

Edgar Osterroht projetou cidades para a Companhia Melhoramentos

Edgar Osterroht contou a história de Maringá com pinturas feitas desde a década de 50

Infância? Eu não tive infância, pois cresci durante os horrores da Segunda Guerra e quem era criança na Alemanha naquela época não teve como aproveitar a infância. Até os estudos foram prejudicados.

 

Chegou a ser convocado para o Exército de Hitler?

Toda a minha geração foi chamada para a Juventude Hitlerista e não adiantava a família ser contra. Pessoas que se tornaram grandes figuras da história da Alemanha também tiveram que integrar a Juventude Hitlerista. É o caso do papa, que na época era um jovem.

 

E quando a guerra acabou, como ficou a vida dos jovens?

A partir de 1944 nossa vida foi fugir, fomos para Berlin, para cidades próximas a Frankfurt, para tantos lugares..

 

Mas, fugiam de quê, se a guerra chegou ao fim?

Dos comunistas russos que mantinham o domínio da Alemanha Oriental depois da derrota de Hitler.

 

E como o Brasil apareceu em sua vida?

Depois da guerra a Alemanha tinha que ser reconstruída, mas meu pai teve a oportunidade de recomeçar a vida no Brasil e viemos para cá para meu pai administrar uma fazendo. Quando chegamos aqui, a fazenda tinha sido roubada. Aí meu pai decidiu ficar em Maringá, se fixar no ramo de construções, e eu, que tinha me formado em Engenharia, entrei na Companhia Melhoramentos.

 

Como era trabalhar na Melhoramentos em uma cidade que estava nascendo?

Uma verdadeira Torre de Babel. Os engenheiros eram alemães, russos, ingleses…

 

Não tinha brasileiro?

Os engenheiros brasileiros preferiam engraxar sapatos nas ruas de São Paulo do que vir para cá, que era tudo mato, barro e pó. Ninguém queria trocar o conforto da cidade grande pela floresta.

 

Então não se falava Português na Companhia.

Nunca precisei falar Português na época, só alguns diretores falavam. Os engenheiros se comunicavam em seus próprios idiomas ou em inglês, já que a maior parte da equipe era formada por ingleses. Eu só aprendi Português depois que saí da Companhia, já na década de 60.

 

Edgar Osterroht retrata os primeiros dias de Maringá

Pintura de Osterroht mostra trecho da Avenida Brasil no Maringá Velho na década de 50

O trabalho era muito puxado?

Trabalhávamos demais. Eu entrava às 8 horas e saía à meia-noite.

 

Deve ter sido uma experiência interessante.

Claro, a diversidade acrescenta muito à cultura da gente. Maringá recebia gente de todos os lugares e cada um trazia um pouco da cultura do lugar de onde vinha. Além dos brasileiros de todas as regiões, chegaram também os estrangeiros e todos foram importantes na formação do caráter da cidade.

 

E trabalhar com gente de vários países também deve ter sido importante.

Trabalhei com pessoas inteligentes. Por quase 10 anos tive na mesa ao lado o matemático Walter Kreiser, que era o calculista e resolvia os problemas de cálculo da Engenharia. Ele é o inventor do helicóptero.

 

Deve ter sido emocionante criar cidades e vê-las nascer em plena floresta.

Ajudei a criar todas as cidades da região, como Umuarama, Cianorte, Nova Olímpia, Indianópolis e várias outras. Hoje são cidades boas, bem planejadas e não posso negar que isso me traz um certo orgulho.

 

Além de projetar cidades, o que mais o senhor fez?

Ainda hoje há muitos prédios que projetei, tanto em Maringá quanto em outras cidades paranaenses.

 

Como o senhor se tornou amigo do compositor Joubert Carvalho?

Como ele compôs a música que deu nome à cidade, ele se tornou uma figura muito querida na Companhia e sempre que vinha para cá era nos aviões da Companhia. Várias vezes viajamos juntos, mas teve um episódio que nos aproximou mais. Foi quando a antiga Rua Bandeirantes, que passava em frente os escritórios da Companhia, ganhou o nome de Joubert Carvalho e ele veio para a homenagem. Só que depois da cerimônia de inauguração do busto dele na Praça Raposo Tavares, cada um foi pro seu lado e ele ficou sozinho e sem saber para onde ir. “Dão meu nome a uma rua para que eu seja lembrado para sempre, mas me esqueceram aqui”, dizia ele brincando.

 

E o Edgar pintor, como surgiu?

Eu sempre gostei de pintar, desde a Alemanha, mas quando era engenheiro da Melhoramentos, para não enlouquecer, usava as horas vagas para pintar. Não tinha televisão, rádio, revistas, não tinha nada e como eu não falava Português nem podia fazer amigos. Nos fins de semana, ia para lugares interessantes e procurava retratar as construções, as pessoas, o jeito que se vivia na época.

 

Não tinha a intenção de ser um artista de renome?

Não era esse o propósito, pintava porque gostava e para não enlouquecer. Em 1953, fiz a primeira exposição de artes da história de Maringá no Restaurante Lord Lovat, que era do Herbert Mayer, um alemão judeu que fugiu da Alemanha na época da guerra. Foi ele quem dirigiu o Grande Hotel.

 

Como foi essa exposição numa época em que se construía a cidade.

O objetivo era ocupar as paredes, que eram brancas, mas as pessoas gostaram e muitos quadros foram vendidos para pessoas que visitaram Maringá.

 

Aí o senhor passou a se sentir um artista?

Não era esse o objetivo. Como disse, pintava para não enlouquecer, tanto que várias dessas pinturas que hoje são conhecidas foram feitas e deixadas na casa de meus pais. Só há alguns anos, depois que minha mãe morreu, esses quadros foram achados, encaixotados. Eu nem me lembrava que eles existiam.

 

O senhor procurava fazer um registro para o futuro?

Eu pintava o que via, sendo fiel no registro da vida da época. Hoje essas pinturas são o único registro de como eram determinados pontos nos anos 50. E não é só de Maringá. Eu pintei também Londrina e outras cidades em que trabalhei.

 

E de uma arte feita como passa-tempo o senhor se tornou um artista respeitado.

Minhas pinturas correram mundo, com quadros que hoje estão em vários países, também acontecem exposições em vários Estados.

 

Foi por causa dessas pinturas que o senhor participou do filme “Gaijim 2”, que conta a saga dos japoneses na abertura do norte do Paraná?

Tizuka Yamasaki ficou na casa de Edgar Osterroht, em Maringá, para definir os cenários de Gaijin 2

A diretora Tizuka Yamasaki usou a pintura de Osterroht para definir o cenário do Paraná dos anos 50 para o filme "Gaijin 2"

A intenção da Tizuka [Yamazaki, premiada diretora de cinema e de novelas da Rede Globo] era contar a história dos primeiros japoneses da região, mas ela descobriu que os estrangeiros que abriram o norte do Paraná não foram os japoneses e sim europeus, principalmente os alemães, ingleses e italianos. Os japoneses vieram depois. Com isso, o filme acabou sendo modificado.

 

E assim o senhor se tornou uma fonte importante na elaboração do filme.

A Tizuka ficou uma semana em minha casa, em Maringá, para estudar as imagens, entender como era o norte do Paraná quando começaram a ser fundadas as cidades, a fim de definir o cenário para o filme.

 

Com isso o senhor conviveu com artistas importantes.

Acabei ficando amigo de atores e técnicos de destaque nas artes cênicas brasileiras. Além da Tizuka, tive boa convivência com a Mariana Ximenez, protagonista da novela “Passion”, da Globo.

Comente aqui


Estrelas da política perdem o brilho e desaparecem

Um vacilo é o suficiente para que a política jogue no ostracismo pessoas com a mesma rapidez em que as transforma em celebridades. A região polarizada por Maringá é pródiga em exemplos de sucesso na política e também de carreiras que pareciam em ascensão, naufragaram e hoje nem sequer são lembradas.

 

Na mesma cidade em que mora Basílio Zanusso, recordista de permanência na Assembleia Legislativa do Paraná, e Walber Guimarães, que ocupou quase todos os cargos importantes da Câmara dos Deputados e trouxe um presidente da República para a festa de casamento de sua filha, vive a ex-vereadora Lizete Ferreira da Costa, que ao terminar o mandato se afundou no mundo dos vícios, deixou de morar em uma mansão na Zona 5, baixou ao ponto de viver nos hoteizinhos de prostituição próximos à rodoviária velha, vagou pelas ruas carregando sacolas de roupas e hoje vive em um abrigo para idosos.

Na eleição de outubro, o maringaense Lindolfo Luiz da Silva Júnior conseguiu 479 votos para deputado estadual, uma votação muito aquém das que costumava receber na década de 80, quando iniciou e concluiu sua carreira meteórica. Jovem radialista, boa pinta, Lindolfo era locutor de um programa musical em uma rádio quando tornou-se apresentador dos noticiários da TV Cultura/Globo, foi um dos vereadores mais bem votados da cidade, em seguida se elegeu deputado e chegou a ser visto como imbatível na disputa pela prefeitura de Maringá e se candidatou ao governo do Paraná. Mas (e sempre tem um “mas” nesses casos), a candidatura a prefeito virou a de vice na chapa derrotada e a de governador terminou em desistência antes da eleição. De lá para cá, quase ninguém em Maringá percebeu que Lindolfo Júnior foi candidato. Aliás, quase ninguém sabe por onde anda.

A história registra muitos casos de políticos que foram sucesso em um momento e hoje são pouco lembrados. Em 1968, o jovem advogado Wilson do Amaral Brandão foi o candidato mais bem votado para a Câmara, dois anos depois foi eleito deputado federal. E a história de Brandão na política acaba aí e pouca gente se lembra que ela existiu.

 

Clodimar na campanha

 

Julgamento de Sebastião Pedrosa Lô

Foto do julgamento do pai de Clodimar, Sebastião Pedrosa Lô

Outro que foi campeão de votos na história da Câmara de Maringá, também advogado, foi Eli Pereira Diniz. Em 1972 ele conquistou 3.995 votos, perdendo apenas para um dos candidatos a prefeito, mas no pleito seguinte caiu para 1.601 e também sumiu do mundo político. O maior cabo eleitoral na primeira votação foi o sentimentalismo do maringaense com relação ao menino Clodimar Pedrosa Lô, que aos 15 anos foi espancado até a morte por dois policiais. O pai do garoto, Sebastião, matou a tiros um dos responsáveis pela morte do filho e Eli foi seu advogado de defesa em três julgamentos, absolveu-o e encheu a cidade de panfletos em que aparecia abraçado ao réu.

 

 

Acidente providencial

Nas primeiras décadas, a Câmara sempre teve radialistas e algumas legislaturas chegaram a ter bancadas do microfone. Entre os nomes mais conhecidos estão Antonio Mário Manicardi, o Nhô Juca, com três mandatos, João Vrena, Antenor Sanches, com cinco mandatos, José Alves, que foi até deputado federal. Ari Bueno de Godoy, Paulo Mantovani, o acordeonista e locutor Tercílio Men e dois narradores de futebol, Antonio Paulo Pucca e Ferrari Júnior, que na verdade chamava-se Arleir Tilfrid, um dos vereadores mais bem votados da história de Maringá, com 4.956 votos em 1976.

A estrondosa votação de Ferrari, que puxou outros três candidatos para a Câmara, não deveu-se à popularidade de seus programas, mas a um acidente ocorrido no elevador do Edifício Hermann Lundgreen, próximo à rodoviária velha. Ele subia sozinho, quando houve uma pane e o elevador parou. Depois de esperar quase um hora, o elevador se moveu e parou entre dois andares, mas quando o passageiro foi sair, ele se moveu novamente e esmagou as pernas de Ferrari.

A campanha para o radialista acabou, ele passou meses chorando (achava que perderia o movimento das pernas) em uma cama de hospital, só apareceu nos últimos comícios em uma cadeira de rodas, mas a comoção popular se encarregou de elegê-lo. Dois anos depois foi eleito deputado estadual e ao não conseguir se reeleger mudou-se para Camboriú, onde mora até hoje.

 

Assistencialismo faz Serafina

A última eleição da ex-vereadora Serafina Martins Carrilho foi em maio. “Foi a eleição mais apertada da minha vida”, disse ela ao ser eleita síndica do condomínio do Edifício Atlantis, próximo à Lojas Americanas. A essa altura ela já estava esquecida na política partidária, depois de ser vereadora duas vezes e deputada estadual graças ao assistencialismo social.

Assistencialismo no caso de Serafina vem de família, herdou o costume dos pais e passou para os filhos e, segundo ela, seu trabalho junto à igreja e entidades nunca foi visando o lado político, mas acabou sendo candidata a vereadora com apoio de padres, pastores, freiras, entidades. Depois do segundo mandato, virou deputada. “Não tenho saudades da política, acho apenas que ela foi uma fase do trabalho que sempre fiz”, diz hoje aos 70 anos e levando uma vida tranquila.

Quem também diz não ter saudade da política, “mas das pessoas com quem convivia”, é o pioneiro Kazumi Taguchi, dono de vários mandatos na Câmara com apoio da Colônia Japonesa. Taguchi passou o bastão ao filho Willy e foi dirigir uma empresa de turismo no Japão há 20 anos. O radialista Antonio Mário Manicardi, que decidiu deixar as disputas, continua ao lado da política como assessor dos deputados Ricardo Barros Cida Borghetti.

 

Tancredo em festa de casamento

O ex-deputado Walber Guimarães, que leva uma vida tranquila com a mulher Esmeralda, com quem está casado há mais de 60 anos, sempre é lembrado como o deputado que trouxe a Maringá o maior número de estrelas da política de uma só vez. Foi há 25 anos, no casamento da filha Roseana, que teve como padrinho o presidente Tancredo Neves, eleito no Colégio Eleitoral para suceder o general João Batista Figueiredo e reinaugurar a democracia no País depois de duas décadas de ditadura militar. O presidente da Câmara dos Deputados e do MDB nacional, Ulysses Guimarães, ministros, futuros ministros, governadores, deputados e senadores de vários Estados, prefeitos da região participaram do evento no salão da Acema.

 

Candidato Walber Guimarães com o Rei do Baião Luiz Gonzaga

O rei do baião, Luiz Gonzaga, faz show em comício de Walber Guimarães, em Maringá

Walber, que era cotado para assumir um ministério do governo Tancredo, desde a morte do líder não se reelegeu e deixou de disputar eleições. Ele era tido como exemplo de sucesso na política. Maranhense que chegou em Maringá em 1960 como contador, só entrou na política com 35, quando elegeu-se vereador com apoio dos moradores do Mandacaru, foi vice-prefeito de Silvio Barros, secretário municipal, secretário estadual e vitorioso em três eleições para deputado federal.

 

7 Comentários


Sítio dos anos 50 é recriado no centro de Sarandi

Próximo ao centro de Sarandi, uma cópia perfeita de uma roça da década de 50 chama a atenção de quem quer relembrar ou descobrir como viviam os pioneiros

Foto de Rafael Silva

O sítio recriado pela professora Tania apresenta objetos que não são conhecidos pelos mais jovens

Uma volta no tempo ou uma viagem ao desconhecido. Assim a professora de Gestão Ambiental Tania Regina Corredato Periotto define o Projeto Casinha da Roça, que está executando em uma chácara de sua propriedade, em Sarandi. Uma volta no tempo para as pessoas de mais idade, que terão oportunidade de reencontrar um mundo que elas conheceram e que não existe mais, uma viagem ao desconhecido para os jovens, que poderão conhecer como era o mundo da época de seus avós.

Pessoas com idade avançada que já conheceram o projeto se maravilharam e chegaram às lágrimas ao rever uma casa ‘igualzinha’ à que viveram quando criança”, conta a professora, se referindo à casinha de madeira, sobre troncos, cercada de flores simples, com um raspador de sapato na porta. Ao abrir a porta, o visitante dará de cara com um ambiente sem forro, um fogão à lenha em um canto, iluminado por lamparinas de querosene, mesa de tábua rústica onde estão a moringa de água, uma vitrola com caixa de madeira, rádio de Ondas Curtas (daqueles que precisavam de uma antena que subia ao teto). No quarto, a cama é de mola, com colchão cheio com palha de milho seca e, debaixo, estão o sapatão e um penico. Em um canto, as malas de fibra do tipo usado pelos primeiros moradores que chegaram a essa região. A cozinha tem bule, chaleira, caneças de lata, pilão, moinhos.

De acordo com Tania Periotto, a ideia de criar um ambiente que resgatasse o período em que chegaram os primeiros moradores ao noroeste do Paraná surgiu quando ela fazia o doutorado de Ecologia.

Primeiro ela buscou o apoio de professores de artes, arquitetos, engenheiros, paisagistas, mas foram as pessoas simples, de mais idade, principalmente sua mãe, que mais ajudaram na composição do ambiente desejado. Muitas peças ela teve que comprar, mas outras foram doadas por pessoas “que se encantaram com a possibilidade de recriação da casinha da roça para o conhecimento das crianças.

A volta ao tempo continua no terreiro, com poço caipira com sarilho, mictório, banheiro em que o chuveiro era um balde com uma ducha de latão.

É na tulha que estão objetos que chamam a atenção das crianças, geralmente equipamentos usados na roça. Ao lado, em um pequeno curral, estão os animais da subsistência da família do roceiro, galinhas, perus e cabritos.


3 Comentários


Show de vitalidade de Kaoru Sakassegawa aos 81 anos

Depois de trabalhar ativamente das 8 às 18 horas, três vezes por semana o comerciante de 81 anos disputa um campeonato de futebol, vai à academia, conta piadas e entoa modas de viola

Nas rodadas do Torneio de Verão de Futebol Suíço da Acema, o jogador que mais chama a atenção é o que mais corre, tenta dribles ousados, marca duro, avança e até arrisca chutes a gol. Talvez chame tanto a atenção também por ser japonês, ter pouco mais de 1,5 de altura, magro magro e de cabelos brancos. Até aí, tudo bem se o atleta não tivesse 81 anos de idade.
.
Para quem se espanta em ver um homem de 81 anos correndo atrás de bola como se fosse um garoto, acrescente-se que ele joga três vezes por semana e nos dias em não está em campo vai se exercitar em uma academia. Tudo isso depois de trabalhar das 8 às 18 horas, em pé, como vendedor e proprietário de uma movimentada ótica do centro de Maringá. Nas horas de “folga”, é ele quem canta os bingos da Acema, conta piada, canta moda sertaneja de raiz e arranha o violão, cavaquinho, acordeon, atabaque, pandeiro…
.
Estamos falando de Kaoru Sakassegawa, proprietário da Ótica Santa Luzia, mais conhecido por suas habilidades atléticas. “Esse é um japonês diferente. Parece que está ligado na tomada o tempo inteiro, é tão diferente que nem parece japonês”, diz o amigo de muitos anos Mário Hossokawa, presidente da Câmara de Vereadores de Maringá. “Eu sou minêro, uai”, diz Kaoru, “cresci entre negros, brancos, gente do sítio e gente da cidade, e desde cedo fui absorvendo todas as manifestações legitimamente brasileiras”. Foi ainda nos sítios de Conquista, cidade mineira na divisa com São Paulo, que teve contato com a moda de viola, as primeiras duplas sertanejas, a culinária, o costume de contar causos. Mas, a paixão pelo futebol herdou do pai, um dos primeiros japoneses a aportar no Brasil, ficou vidrado no futebol e passou a montar times. Jogando junto com os irmãos, sob o olhar do pai, aos seis anos Kaoru já entrava em campo de meião, chuteira e camisa numerada. “A gente jogava o dia inteiro e o costume continuou mesmo depois que entramos na escola ou tivemos que trabalhar”.
.
Com 20 e poucos anos, o japonês mineiro veio tentar a sorte no Paraná e foi viver onde estava sendo formada a cidade de Nova Esperança, virou ótico e montou uma das primeiras óticas da região. Mas a vida empresarial seguia paralela com a do esportista, que montava times e corria o Estado disputando campeonatos.
.
“Além de gostar muito de jogar, tenho lugar garantido por ser o dono do time”, brinca. “E não preciso fazer muito esforço porque disputamos uma categoria onde todos têm mais de 55 anos”. O time da Ótica Santa Luzia já ganhou vários títulos. “Eu sou tão fominha que não quero ser substituído”, confessa.
.
“Quando mudou-se de Nova Esperança para Maringá, no começo dos anos 70, ele jogava futebol de campo e jogamos muito futebol de salão”, lembra o amigo Hossokawa. “Acho que ele agora prefere campos pequenos para não precisar correr muito”, brinca o amigo Ademaro Kiyohara, que já jogou contra Kaoru, embora tenha idade para ser neto do veterano atleta. “Estar ao lado dele é sinônimo de alegria, pois ele não deixa ninguém quieto, está o tempo inteiro contando piadas, animando a roda”. Kiyohara cita ainda o exemplo de Kaoro como pessoa, empresário e pai de família que formou todos os filhos em Medicina. A mulher, dona Luzia, que dá nome à ótica como uma declaração de amor, é sua maior torcedora e o acompanha sempre às rodadas disputadas pelo time da ótica.
.
Além dos amigos do futebol, tem também os da música. “Tocar mesmo eu não toco nada, mas arranho vários instrumentos o suficiente para me divertir e para animar meus amigos e família”. Entre seus amigos de música está o violeiro Tinoco, que frequentou várias vezes sua casa. “Conheço as músicas de Tonico e Tinoco desde que eu era criança e a dupla começou a cantar nas emissoras de rádio”.
.
Um dos orgulhos como atleta é o de, em 75 anos de bola correndo, não se lembra de ter brigado em campo ou ferido um adversário com uma jogada desleal. “Futebol para mim continua sendo uma brincadeira de criança, jogo para me divertir e com pessoas que tenham espírito esportivo, então temos que ser leais e não perder o foco de estamos ali para sermos felizes”. Com aval dos filhos para “jogar o tempo que pai quiser”, Kaoro tem a certeza de que é a atividade esportiva, a alegria e o gosto pela vida que lhe garantem uma saúde de ferro. “Posso me orgulhar de, aos 81 anos, completados na segunda-feira passada, não ter nenhum problema de saúde e ainda gozar da mesma disposição que tinha aos 30 anos”.
Kaoru, das 8 às 18 horas trabalhando ativamente em sua ótica
1 Comentário