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Orlando Manin, o homem que viu Tião Carreiro e Zorinho criando o pagode

Nas décadas de 1960 e 1970, duplas como Tonico e Tinoco, Campanha e Cuiabano, Duo Glacial, Tião Carreiro e Pardinho e outras que reinavam na era de ouro do rádio faziam de Maringá sua principal base no Paraná e giravam em torno do animador sertanejo Orlando Manin, o Coronel do Rancho

A paixão de Maringá pela música sertaneja, não é coisa recente, vem desde a primeira metade do século passado, quando as duplas mais importantes do Brasil usavam Maringá como base para correr para shows em todo o Paraná, principalmente em circos, e algumas chegaram a morar por anos na cidade. Tião Carreiro e Pardinho, por exemplo, moraram mais de 15 anos no Hotel Paulistano, Carreirinho e Zita Carreiro tiveram casa por vários anos na Zona 7, próximo de onde está o Corpo de Bombeiros, isto para ficar só nas mais famosas da época.

No final dos anos 1950, Orlando Manin no auditório da Rádio Cultura ladeado por Tião Carreiro, Pardinho, Zezinho e Zorinho, Moacir, João Pereira, Genoveva dos Santos e Dorival

No final dos anos 1950, Orlando Manin no auditório da Rádio Cultura ladeado por Tião Carreiro, Pardinho, Zezinho e Zorinho, Moacir, João Pereira, Genoveva dos Santos e Dorival     Arquivo pessoal

Foi neste cenário de efervescência que nasceu o Coronel do Rancho, o mais importante animador sertanejo que a região já teve, referência de todas as duplas que vinham ao norte/noroeste do Paraná. Ele comandava programa diário na Rádio Cultura, onde rodava discos com os maiores sucessos, mas também recebia duplas ao vivo, aos domingos comandava o “Alegria no Sertão”, das 13 às 15 horas, programa de auditório com duplas regionais e algumas de renome nacional, e à noite estava de volta com o “Maringá se Diverte”, que começava às 20 horas e só acabava quando o auditório começasse a esvaziar.

Coronel do Rancho na realidade é a ‘identidade secreta’ de Orlando Manin, que começou em rádio quando era ainda menino, pouco depois que foi instalada a primeira emissora de Maringá, a Cultura, e fez carreira como animador sertanejo, mas também apresentou programas de músicas populares, lia noticiário, gravava propagandas e depois gerenciou várias emissoras.

No “Alegria no Sertão” havia só apresentações de duplas, mas no “Maringá se Diverte”, onde Manin dividia a produção e apresentação com Antonio Mário Manicardi, o Nhô Juca, e o sensacional Cafezinho, além de cantores sertanejos e populares, tinha distribuição de prêmios, piadas, pequenas encenações teatrais e outras atrações. “Uma vez, em 1965, veio o Teixeirinha e foi um sucesso sem precedentes”, lembra Ademar Schiavone, que foi gerente da Rádio Cultura e amigo de Manin. Segundo ele, foi tanta gente que o “Maringá se Diverte” teve seis sessões com auditório lotado. “Começou às seis da tarde e na última, a meia-noite, ainda tinha uma multidão na rua. O jeito foi fazer uma apresentação em cima de um caminhão no meio da rua”.

 

Berço do pagode

“Tenho consciência que contribuí com a música sertaneja, que apoiei as duplas que percorriam o Brasil para fazer shows nos circos e também as duplas que estavam surgindo na região e precisavam de divulgação”, diz Orlando João Zenaro Manin, aos 76 anos, agora um pacato cidadão em seu apartamento na Zona 2, onde vive com a mulher Leonor. “E dei minha contribuição também ao rádio por trazer a música para dentro da emissora. A Rádio Cultura era a casa das duplas, todas que chegavam de fora iam lá e lá divulgavam seus discos, apresentavam seus sucessos ao vivo e tinham até uma sala separada especialmente para ensaios”.

Foi na sala de ensaios da Rádio Cultura que nasceu o pagode, a mais importante e marcante batida da música sertaneja. Seu criador, ninguém menos do que Tião Carreiro, a lenda, a inspiração de todas as duplas e de todos os violeiros.

Tião era de casa. No final da década de 1950 vivia no Hotel Paulistano e não saía da rádio. Como já estava ficando famoso, era inspiração para duplas locais e estava sempre acompanhado. “Ele e o Pardinho estavam fazendo shows na região e estava na sala de ensaios mexendo em sua viola, quando improvisou uns solos e viu que aquilo era bom, era diferente, inovador, bonito. Fez de novo, de modo diferente, e sentiu que estava criando algo novo, mas faltava alguma coisa. Esta ‘alguma coisa’ foi complementada pelo Zorinho, da dupla Zezinho e Zorinho, um dos melhores violões que a música sertaneja já teve. Era a batida. Os dois juntos, naquele dia, criaram o pagode dentro da Rádio Cultura”.

Cerca de um ano depois daquele dia memorável para a música, Tião Carreiro e Pardinho lançavam “Pagode de Brasília”, um clássico que não sai de sucesso há quase 70 anos.

Zorinho, hoje maestro Itapuã, dirige programas de educação musical

Zorinho, hoje maestro Itapuã, dirige programas de educação musical

Zorinho, o homem que criou a batida que acabou eternizada pelo violão de Pardinho, é Ozório Ferrarezi, também conhecido como maestro Itapuã Ferrarezi, marialvense que viveu em Maringá e hoje mora no Mato Grosso e dirige um projeto musical na cidade de Santa Carmen. Compositor respeitado na música sertaneja, ele já teve músicas gravadas por gente do calibre de Chitãozinho e Xororó, Roberta Miranda, Liu e Léo, Zico e Zeca, Teixeirinha, Jackson do Pandeiro, Nalva Aguiar e Sérgio Reis.

 

Saudade da latinha

Nostalgia: Longe do microfone, Manin mostra discos de duplas com quem conviveu    Foto: João Cláudio Fragoso

Nostalgia: Longe do microfone, Manin mostra discos de duplas com quem conviveu Foto: João Cláudio Fragoso

Orlando Manin é o caçula dos sete filhos dos pioneiros maringaenses Hermínio e Filomena Manin. Chegou a Maringá quando tinha 12 anos, em 1950, foi auxiliar de projetista no Cine Maringá e entrou na Rádio Cultura com 15 anos, como operador de som. Daí em diante fez de tudo, o que lhe deu experiência para gerenciar várias emissoras, três delas em Maringá.

Já há algum tempo deixou de falar na latinha, que era como os locutores antigos se referiam ao microfone, mas não por falta de voz ou de paixão pelo rádio. É simplesmente porque considera que as AMs estão superadas e as FMs usam um estilo diferente daquilo que ele sempre fez. Seu trabalho em prol da música sertaneja de raiz é reconhecido e está no livro recém-lançado em que o historiador João Laércio Lopes Leal acaba de lançar sobre a história da cultura maringaense e estará em um livro que está sendo publicado pelo jornalista Airton Donizete de Oliveira.

 

Reverência aos criadores

DonizeteAcompanhado dos jornalistas Airton Donizete e Diniz Neto, mais o radialista Carlos Ferlin, Orlando Manin esteve no gabinete do presidente da Câmara de Maringá, vereador Chico Caiana, para sugerir que Maringá crie uma homenagem aos criadores do pagode, Tião Carreiro e Zorinho.

“O nome de nossa cidade nasceu de uma música, o epíteto é ‘Cidade Canção’, foi aqui o grande centro da música sertaneja de raiz e berço em que nasceu a mais importante batida da música sertaneja. É justo, por meio dos criadores do pagode, que a cidade homenageie todos que ajudaram a fazer a música verdadeiramente brasileira”, argumentou.

 

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Quando o bairro pobre decidiu fazer um vereador

Se não tivesse um dia se mudado para o fundão do Jardim Alvorada, próximo onde a cidade se limitava com a zona rural, provavelmente o professor José Tadeu Bento França jamais tivesse ingressado na política. Mas, como estava lá, vivendo as dificuldades do subúrbio e lutando para reduzi-las, acabou eleito vereador, depois deputado estadual e deputado federal constituinte.

“O Alvorada antigo é aquela parte próxima à Praça Farroupilha e a Avenida Alexandre Rasgulaeff. Quando eu cheguei, em 1974, aquela parte próxima ao Colégio Unidade Polo era nova e ainda faltava de tudo. Não tinha asfalto, saúde pública, a energia elétrica não chegava a todas as casas e não tinha água encanada. As pessoas buscavam água em baldes em um lugar que ficou conhecido como ‘torneira pública’, próximo onde é a Igreja São Francisco”, lembra o professor, que em abril completa 70 anos.

Tadeu França

Tadeu e a mulher Clarice chegavam de Umuarama e foram para o fim do Alvorada porque passaram em um concurso para lecionar na Unidade Polo, que estava para ser inaugurada. Ele tinha sido aprovado também em um concurso da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Aquela região da cidade era muito pobre, mas a situação piorou em 1975, quando aquela geada histórica acabou com a cafeicultura paranaense e milhares de famílias tiveram que deixar a zona rural e foram morar nas periferias das cidades. Em Maringá, sinônimo de periferia era o Jardim Alvorada, que se expandia rapidamente”.

Por serem cultos e terem um padrão de vida um pouco melhor do que parte da vizinhança, os professores Tadeu e Clarice logo passaram a ter certa liderança no bairro. “Estávamos em contato com pais de alunos, ajudamos o padre a criar cursos profissionalizantes para que aquelas pessoas tivessem opções de trabalho e como o único telefone do bairro era lá em casa, todo mundo ia lá, conversávamos e, automaticamente, nos tornamos respeitados e queridos”.

Tadeu em foto da época da eleição para vereador

Tadeu em foto da época da eleição para vereador

Foi a associação de moradores, que Tadeu ajudou a criar, que chegou à conclusão de que para melhorar o bairro era necessário ter representatividade na Câmara. Os moradores não tiveram dúvidas de que o professor era o melhor preparado e decidiram lançá-lo candidato a vereador.


Unidos contra a pobreza

Hoje o Jardim Alvorada é um dos melhores bairros de Maringá”, diz o professor Tadeu França. Segundo ele, hoje o bairro tem boa infraestrutura, boas escolas, saúde pública, está totalmente asfaltado e os moradores podem chegar ao centro de Maringá em poucos minutos. “Me sinto feliz em ter feito parte desta melhoria”.

Ele conta que quando assumiu na Câmara encontrou muito apoio para ajudar os moradores do Alvorada, principalmente do prefeito João Paulino. “Ele era da Arena e eu do MDB, dois partidos antagônicos, mas tudo o que eu pedia para o Alvorada ele atendia. Esquecemos as diferenças partidárias e nos unimos pelo mesmo objetivo”.

O ex-vereador do bairro conta um dos momentos decisivos para o Jardim Alvorada foi quando a prefeitura decidiu implantar o Projeto CURA III (Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada,) um programa do governo federal por meio do Banco Nacional da Habitação (BNH) que tinha o intuito era prover áreas ociosas de infraestruturas e equipamentos urbanos para proporcionar sua valorização e ocupação.

Aliciada se mata no puteiro

Diferente de tantos que vieram de longe atraídos pela riqueza da terra roxa do norte do Paraná, Tadeu não veio de fora, ao contrário, ele nasceu e cresceu com as cidades da região. Seu pai, o desbravador Militão Bento França, foi um dos primeiros corretores da Companhia Melhoramentos e recebeu como pagamento uma área de terra na região do Rio Bandeirantes do Norte. Na década de 1940, loteou e vendeu as terras, nascendo ali a cidade de Santa Fé. E foi em Santa Fé, na época pertencente a Apucarana, que nasceu Tadeu em 1946.

Luzes negras do submundoAlém de ficar conhecido como professor e como o político que foi vereador, deputado estadual, deputado federal e secretário de Estado, Tadeu nunca abandonou o prazer que cultivou desde a infância: o de escrever, criando histórias sobre a dura realidade que observa. Foi assim que nasceram livros como “Luzes negras do submundo”, que narra a morte voluntária de uma moça aliciada em um orfanato e explorada em um puteiro bem movimentado de Londrina, comandado por um japonês, “Feitores da aldeia grande”, “Vem caminhar comigo, pajé”, entre outros.

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A publicidade inteligente começa com Maurício Cadamuro

Ele foi um dos responsáveis pela primeira transmissão de futebol na TV Cultura
E também pela organização da Expofemar, que foi a semente da Expoingá

Aos 82 anos, quase 50 deles vividos em Maringá, Mauricio Cadmuro diz estar satisfeito por ter participado de momentos importantes da história da cidade

Aos 82 anos, quase 50 deles vividos em Maringá, Mauricio Cadmuro diz estar satisfeito por ter participado de momentos importantes da história da cidade

Aos 82 anos, Maurício Cadamuro não deve ser lembrado somente como um pioneiro da Propaganda e da Comunicação em Maringá, mas também como um inovador, que deu início a muita coisa que hoje é referência na cidade, que foi um ponto de apoio para que muitos jovens se tornassem grandes profissionais em suas áreas de atuação. Ele foi um dos responsáveis pela primeira transmissão de futebol da TV Cultura, comandou a organização da 1ª Exposição Feira Agropecuária, Industrial e Comercial de Maringá (Expofemar), que foi a semente da Expoingá, organizou o primeiro carnaval de rua, foi quem levou o jovem colunista Frank Silva para falar sobre sociedade na televisão e produziu discos de artistas regionais.

Na década de 1970, a Emecê Gravações, que Cadamuro instalou no Edifício Três Marias, produzia jingles, spots, filmes e até desenhos animados para emissoras de rádio e tevê de vários Estados brasileiros e o nível de qualidade levou à produção de discos de duplas sertanejas, cantores e até de corais. Uma das gravações históricas é a do Coral Guarany, dirigido pelos maestros Fuminasa Otani e Aniceto Matti, interpretando o Hino à Maringá. “O trabalho não se resumia à produção da publicidade, mas todo um estudo de como ajudar o cliente”, lembra o pioneiro. “Queríamos detalhes da empresa, sua área de atuação, que público pretendia atingir e qual a melhor maneira para chegar ao objetivo. Não cobrávamos nada por isto e talvez esta tenha sido a razão para que conquistássemos uma clientela tão vasta.”

Coral GuaraniO trabalho de gravação era raro no Brasil e a Emecê se tornou uma referência no País. Um time de jovens locutores de timbres privilegiadas, a exemplo de Luiz Carlos Vecchi, Vidal Balielo, Nilton Lima, Frambel de Carvalho, era disponibilizado aos clientes e jovens compositores, cantores e bandas gravavam as propagandas cantadas. A publicidade visual também contou com grandes artistas, entre eles Sebastião Costa, que desenhava logotipos, logomarcas, cartazes, banners, bandeirolas e artes finais para jornais e revistas.

Com a chegada da televisão à região, a produtora trabalhou também com áudiovisual, inclusive produzindo alguns dos primeiros filmes em cores em uma época em que os canais de tevê iam aos poucos deixando o preto e branco.

Da Expofemar à Expoingá

A Emecê Gravações já estava consolidada como agência e Maurício Cadamuro como publicitário no ano em que Maringá comemorava seu Jubileu de Prata, em 1972. O prefeito Adriano Valente e o secretário de Educação, Cultura e Turismo, Luiz Gabriel Sampaio, o convidaram para dirigir a realização da primeira feira agropecuária, comercial e industrial da cidade. Era a Expofemar. “O doutor Adriano e o Gabriel não queriam simplesmente uma festa, exigiam um evento que tivesse importância para a cidade, que mexesse também com a economia e projetasse Maringá no cenário paranaense e nacional”, conta.

Realizada ao lado da catedral, que estava em construção, o evento foi um marco. Artistas como Elis Regina, Jair Rodrigues, Antonio Marcos, Vanusa, José Mendes, Nelson Ned e outros atraíam os moradores de Maringá e de várias cidades da região durante 10 dias. O sucesso foi tanto que da Expofemar surgiu a Expoingá com a construção do parque de exposições. E Cadamuro ainda participou da organização também da Expoingá.

Locutor por acaso
O publicitário que escolheu Maringá em 1967 já tinha rodado o Brasil como locutor, integrando inclusive equipes históricas, como a da Rádio Record de São Paulo. Mas, sua carreira começou bem perto de Maringá, em Mandaguari, no dia 8 de dezembro de 1951. “Eu era molecote e me metia com serviços de alto-falante, que era o que tinha de comunicação no interior. Quando foi instalada a Rádio Mandaguari, que hoje é a Guairacá, consegui uma vaga como operador de som e já ficava por lá enquanto os técnicos montavam a emissora. Um dia, o rapaz estava montando o estúdio e me pediu para falar alguma coisa no microfone para ele testar o som e eu falei. ‘Rapaz, o que você está fazendo aqui? Você não tem que ser técnico, tem que estar é no estúdio’. E nunca mais parei”.

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O homem da bronca, Antenor Sanches, há 70 anos ajuda a fazer a história de Maringá

Ele tem aparência tranquila, gestos comedidos, fala mansa, se dá com todo mundo e nem de longe lembra alguém irascível, mas por muitos anos foi apontado nas ruas de Maringá como “o homem da bronca”. E foi com esta fama que se tornou recordista de permanência na Câmara de Maringá, com função de vereador desde a segunda eleição da cidade, em 1956, até 1988, e só deixou de ser eleito mais vezes porque parou de disputar eleições por conselho de um amigo médico.

Aos 84 anos e uma memória privilegiada, Antenor Sanches escreve livros sobre a história de Maringá

Aos 84 anos e uma memória privilegiada, Antenor Sanches escreve livros sobre a história de Maringá    Foto: João Cláudio Fragoso

O homem da bronca é na realidade o pacato Antenor Sanches, o funcionário público municipal aposentado de 88 anos que ao longo de seus quase 70 anos em Maringá deu várias provas de amor à cidade. Foi ele quem cunhou o epíteto “Cidade Canção”, escreveu quatro livros sobre a história e histórias de Maringá, teve grande participação na criação da Divisão do Patrimônio Histórico e é o fundador da Associação dos Pioneiros, entidade que conseguiu que todas as famílias que estão na cidade desde a época da fundação tenham pelo menos um dos seus membros nomeando rua, avenida ou praça.

O apelido “Homem da bronca” é resultado de um programa radiofônico que apresentou por vários anos, “A Voz do Povo”, em que em um quadro fazia cobranças às autoridades, o povo participava reclamando de problemas em seus bairros e geralmente as autoridades compareciam para anunciar providências.

O programa era daqueles de audiência obrigatória, pois além das notícias da cidade e região, tinha também os recados enviados para moradores de uma vasta região do Paraná em uma época em que o rádio era o principal veículo de comunicação de massa. Quem andasse a pé por uma rua, poderia acompanhar o programa inteiro ouvindo os rádios de casa em casa, todos sintonizados no mesmo programa.

O rádio me deu grande conhecimento e, como era um programa de prestação de serviços, me tornei um porta-voz da população”. A fama levou Antenor à política e aos 28 anos ele foi eleito vereador e passou sete legislaturas na Câmara, sendo até hoje o recordista em mandatos.

Eu vim a Maringá a primeira vez, em 1947, para conhecer e acabei ficando”, conta. Ele morava em Caçador, em Santa Catarina, onde tinha uma agência de distribuição de jornais e revistas, e veio a Maringá a convite do corretor da Companhia de Terras (Melhoramentos) Vicente Vareschini, mas aqui conheceu a irmã de Vicente, Lucrécia, uma jovem professora da primeira escola de Maringá, se apaixonaram, ele passou a encarar horas e mais horas de ônibus duas vezes por mês entre Caçador e Maringá e se casaram. Com o casamento, Antenor teve que mudar de vez para Maringá. “’Mas, vou viver de quê aqui?’, perguntei, mas o Vicente me convidou para abrir, com ele, um escritório de corretagem, pois a Melhoramentos na época só tinha representação em Londrina e queria que ele começasse um escritório aqui para vender terras para gente do Brasil inteiro que procurava a terra roxa do Paraná para plantar café”.

O fato é que, por ter conhecido Lucrécia, Antenor nunca mais pensou em sair de Maringá. Aqui foi tudo o que quis: marido, pai de seis filhos, funcionário público, radialista e vereador autor de cerca de 300 leis. “Não tenho porque ter pensado em viver em outro lugar, pois tenho consciência de que, de forma simples e humilde, contribuí para a formação da cidade. Quando eu cheguei só existiam os poucos quarteirões que hoje são o Maringá Velho e vi a derrubada da mata para a implantação do Maringá Novo, vi a chegada do trem, de famílias de várias partes do Brasil e do mundo, enfim, vi o pequeno lugarejo se transformar em uma das melhores metrópoles do Brasil e eu fiz parte de tudo isto”.

3,5 mil

é a quantidade de famílias cadastradas como pioneiras após levantamento feito pela prefeitura

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Alicia, uma maringaense pelo mundo levando ajuda a povos destruídos por tragédias

Nos últimos 20 anos, Alicia Escursell viu o que há de mais degradante no mundo, trabalhando em países destruídos por guerras, terremotos ou tsunamis, e diz que tudo isso a ensinou a ser uma pessoa melhor

Quem vê Alicia Escursell, uma senhora de 64 anos alta e esbelta, cruzar a cidade com passos firmes para ir dar aula de inglês para jovens de baixa renda talvez não imagine que aqueles pés já caminharam por mais de 50 países, quase sempre sobre os escombros deixados por uma guerra, um terremoto ou um tsunami que acabou com milhares de vidas. As cenas que seus olhos já viram deixariam qualquer pessoa estarrecida.

Alicia Escursell

Alicia em um país do Oriente Médio

Nos últimos 40 anos Escursell trabalha como consultora da Organização das Nações Unidas (ONU) e, depois de trabalhar em projetos de desenvolvimento em vários países, passou os últimos 20 anos atuando em países que passaram por algum tipo de catástrofe. Foi assim que chegou ao Haiti quando muitos corpos ainda estavam nos escombros deixados pelo terremoto que matou mais de 200 mil pessoas em 2010, foi assim que esteve na Indonésia, Sri Lanka, Tailândia depois do tsunami que matou mais de 230 mil pessoas em 2004 e assim também esteve no Irã, Iraque, Congo, Angola, Afeganistão, Paquistão, Cabul e outras nações destruídas por guerras.

É claro que, como qualquer pessoa, ela ficou chocada com o que viu, mas estava ali para realizar um trabalho de ajuda humanitária e teve que aprender a viver com a dor alheia. “As equipes da ONU são formadas por pessoas de diferentes países e especializadas em diferentes áreas, que trabalham de forma organizada, com planejamento, com objetivo e estratégia”, diz ela. “Se não for assim, não alcançaremos o resultado esperado”.

Alicia EscursellAlicia é uruguaia nascida em Montevidéu e encontrou nas ações da ONU um meio para realizar o trabalho que pretendia. Em 1974 prestou concurso para uma vaga na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e foi desenvolver um projeto na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para a formação de mestres e doutores na área de hidrologia aplicada. A partir daí, foi um trabalho atrás do outro para ONU, passou a trabalhar em diferentes países e, 20 anos depois, com o filho Gabriel já adulto e casado, aceitou atuar em países que passaram por desastres naturais ou guerras. Na maioria dos casos ela foi a CEO ( Chief Executive Officer), uma espécie de gerente da equipe, encarregada da administração financeira e de recursos humanos em projetos que chegavam a 20 milhões de dólares.

Alicia Escursell“Eu não seria a pessoa que sou se não tivesse visto tanto sofrimento e não estivesse envolvida em trabalhos para ajudar aquelas pessoas”, diz ela, citando que viu países em que o povo morria de fome, os serviços de saúde eram precários, com hospitais atendendo pessoas não chão.

Alguns dos trabalhos mais recentes foram à frente de equipes de neutralização de campos minados no continente africano, Afeganistão, Cambodja e Paquistão, onde encontrou muitas pessoas que tinham perdido parentes ou partes do próprio corpo na guerra ou depois dela ao pisarem em minas explosivas escondidas no solo.

“Toda miséria humana que vi me ajudou a crescer como pessoa”, diz ela. Segundo Alicia, o trabalho pela ONU em diferentes países a ensinou a reavaliar os valores e os princípios, a pensar sobre o transitório da vida e a dar valor ao que tem. “Pude ver que os valores materiais podem ser perdidos em instantes”. Como uruguaia de nascimento e brasileira por adoção, ela diz que “nossos países têm muitas coisas para serem feitas, muitas para serem melhoradas, mas em comparação com lugares que vi estamos no paraíso”. Ela diz que fala do que viu quando ouve alguém reclamando de pequenos problemas enfrentados pela população brasileira ou uruguaia.

Alicia diz que viu lugares onde as pessoas tinham perdido tudo – os bens materiais, a família, a dignidade, a liberdade – , mas mesmo assim demonstravam “uma força interior incrível”. Mesmo depois de perderem tudo, “em meio ao sofrimento elas diziam que ‘a gente ainda vai sair desta’”.

 

Alicia Escursell

Com os colegas de trabalho em uma missão para a localização de minas explosivas no Afeganistão. Cada um de um país direferente.

 

“Característica sem igual”

A sala do apartamento em que Alicia Escursell mora, na Zona 4 de Maringá, é uma espécie de museu que permite ao visitante dar a volta ao mundo por

Alicia Escursell - foto: Douglas Marçal

Alicia em seu apartamento, em Maringá, entre lembranças trazidas de mais de 50 países, Foto: Douglas Marçal

meio de objetos que ela trouxe de mais de 50 países em que viveu ou trabalhou. São pequenas obras de arte e artesanato, muitos comprados, a maioria ganhada do povo ou dos colegas de trabalho como forma de reconhecimento pelo trabalho realizado.

Entre os objetos de maior valor sentimental estão prêmios ou lembranças. É o caso de um retângulo maciço, feito em vidro, com um alto contraste do rosto dela no interior, feito com jato de areia, e uma homenagem feita pela ONU no Ano Internacional da Mulher, reconhecendo-a como “a mulher internacional para o Oriente Médio”, com destaque para a frase “Característica sem igual”.

Alicia Escursell escolheu morar em Maringá porque seu filho Gabriel já vivia aqui, onde tem uma construtora. Gostou da cidade e continua à disposição das Nações Unidas para missões em qualquer parte do mundo, porém não quer mais atuar em países que acabam de passar por guerra ou desastre natural. Agora, aos 64 anos, ela acha que merece um pouco de paz e prefere trabalhar com assessoria a projetos de desenvolvimento.

Enquanto o convite não chega, ela não descansa. Como voluntária, está envolvida em projetos de valorização humana, como um do Rotary Club Maringá Norte, que leva ensino do idioma inglês para jovens de famílias de baixa renda. Quando não está ensinando inglês, está trabalhando em um projeto da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais, a Adra Brasil, que distribui cestas básicas para famílias pobres no distrito de Floriano e em bairros periféricos de Sarandi.

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Altino de Moraes, referência em cirurgia vascular e endovascular

Altino Ono de Moraes

Considerado referência em sua área, o médico maringaense Altino Ono Moraes é convidado para palestras e aulas em outros Estados e outros países


Mudar para Maringá não foi uma escolha pessoal de Altino Ono de Moraes, pois tinha apenas seis anos quando seus pais decidiram trocar Loanda, próxima à divisa com o Mato Grosso do Sul, por Maringá. Mas, todas as outras vezes em que precisou decidir entre Maringá e qualquer outra cidade, não teve dúvidas. Optou pela cidade em que cresceu, fez amigos e considera o melhor lugar para morar.

Foi assim quando terminou a residência médica no Hospital do Servidor Estadual de São Paulo e teve oportunidade e convite para trabalhar em grandes centros, mas preferiu voltar para Maringá, instalar a Clínica de Cirurgia Vascular e contribuir para transformar a cidade na referência médica que é hoje.

O doutor Altino tornou-se referência em cirurgia vascular e endovascular, é convidado para dar cursos em outros Estados e nos próximos dias vai como professor em um encontro internacional da área na Espanha. A clínica em que trabalha com outros dois especialistas é pioneira no uso do laser em cirurgias de varizes, técnica que ele trouxe para Maringá depois de permanecer um mês na conceituada Universidade de Harvard.

A cirurgia vascular e endovascular tem sido cada vez mais procurada por ser minimamente invasiva, ou seja, não há necessidade de cortes para a operação de aneurismas, carótida, aorta e outras. Por meio de cateteres e acompanhamento por vídeo, o cirurgião implanta stents, eliminando problemas em artérias comprometidas.
Infância feliz

Desde pequeno Altino sempre acalentou o sonho de tornar-se médico e sabia que o realizaria. Sua inspiração eram dois tios médicos, que moravam no Rio Grande do Sul, e um médico muito respeitado da cidade em que nasceu, Loanda, o doutor  Hugo Accorsi, com quem teve a oportunidade de trabalhar depois de formado.

O desejo pela Medicina o levou a ser muito estudioso desde cedo, quando estudou no Colégio Santa Cruz, mas isso não o impediu de aproveitar a infância como qualquer outro garoto de sua idade. Filho do casal de pecuaristas Ivo Fabrício de Moraes e Rosa Ono de Moraes, Altino e mais três irmãos cresceram na Zona 4 em uma época em que a cidade era menor e bem mais calma, o que permitia crianças jogar bola em campinhos improvisados ou mesmo na rua e fazer amizades facilmente.

Depois de concluir o Curso de Medicina na Universidade Estadual de Londrina, fez residência no Hospital do Servidor Estadual de São Paulo durante cinco anos, como cirurgião geral e cirurgião vascular.

O médico diz que fez a escolha certa ao decidir-se por Maringá, cidade que ele considera ideal para viver e criar filhos. Além do trabalho em sua clínica, Altino Moraes é cirurgião vascular do Hospital Universitário e professor no Curso de Medicina da Uningá e umas várias vezes por ano viaja para participar de congressos, simpósios e outros eventos de sua área, muitas vezes como professor e palestrante.

 

Prazer nas coisas simples

Mesmo com tantas atividades, o doutor Altino ainda tem tempo para a família, assistir filmes, frequentar academia, participar das atividades do Rotary

Altino Ono de Moraes

Viajar, conhecer lugares e pessoas, um dos prazeres do doutor Altino

Club Cidade Ecológica e encontrar-se com amigos. Uma de suas grandes satisfações é ser ministro da Eucaristia na Igreja do Cristo Ressuscitado, a mesma em que ele foi crismado, fez primeira Comunhão e casou-se com a oftalmologista Deborah Cardner Moraes.

Outro prazer é viajar. Gosta de ir com a família, mas muitas vezes viaja a trabalho e aproveita para conhecer lugares, povos e culturas. Recentemente esteve duas semanas na Itália, vai para a Espanha dar aula em um congresso, tem duas viagens programadas para os Estados Unidos e vai à Nova Zelândia visitar o filho João Fabrício, que está participando de um intercâmbio de estudo.

 

 

Altino Ono de Moraes, Deborah Cardner, Carolina e João Fabrício

Em família: doutor Altino com a mulher, a oftalmologista Deborah Cardner, e os filhos Carolina e João Fabrício

QUEM É O DOUTOR ALTINO

Altino Ono Moraes, 47 anos

Nascido em Loanda, mudou-se para Maringá com 6 anos

Casado com a oftalmologista Deborah Cardner Moraes

Pai de João Fabrício, 17 anos, e Carolina, 9

 

 

FRASE

“Com a qualidade dos profissionais que tem, Maringá não perde para nenhum outro lugar em termos de tecnologia, tratamento e cirurgia vascular”

Altino Moraes


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