Zona 7



As lembranças em cores de Jeremias Puliquezi

Algumas das imagens que registram momentos da história da Zona 7 não saíram das, na época, raríssimas máquinas fotográficas, mas sim das lembranças e dos pendores artísticos do hoje aposentado Jeremias Puliquezi, que passou para telas as recordações que marcaram sua infância.

A pintura começou como passa-tempo para Jeremias Puliquezi e tornou-se uma forma de externar as lembranças dos lugares onde viveu

A pintura começou como passa-tempo para Jeremias Puliquezi e tornou-se uma forma de externar as lembranças dos lugares onde viveu    Foto: João Cláudio Fragoso

São casas, mulheres, crianças brincando na rua, ambientes que foram vistos por Jeremias e hoje estão em suas mais preciosas recordações. Essas imagens um dia vão ilustrar um livro que ele está escrevendo sobre a Vila 7, a região da Zona 7 próxima ao câmpus da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “São cenas que vi pessoalmente, são situações que vivi”, como diz. Elas mostram uma Vila 7 de uma época em que o trânsito infernal de hoje ainda não tinha tirado o direito de as crianças jogar bola nas ruas, andar de bicicleta, patinetes, carrinhos de rolemã, brincar de salva ou jogar bets, de uma época em que as centenas de prédios ainda não tinham tomado o lugar das casas de madeira.

A casa em que morou ficava na esquina das ruas Paranaguá e Tietê

A casa em que morou ficava na esquina das ruas Paranaguá e Tietê

Algumas telas marcantes de Jeremias Puliquezi mostram casas em que ele morou, como a que ficava na esquina das ruas Paranaguá e Tietê, ou a que morou quando era ainda mais criança, na bifurcação da Tietê com a Mandaguari, esta mostrada por dentro, aparecendo a mãe e os quadros que cobriam as paredes da sala.

Uma das cenas da bifurcação da Tietê com a Mandaguari, que se fosse hoje seria registrada em vídeos por dezenas de celulares, mostra um caminhão sendo arrastado pelas enxurradas que desciam pela Rua Mandaguari. O veículo só parou depois que caiu em uma erosão imensa. Outra mostra a explosão de um transformador, quando a rede elétrica ainda era novidade, e as pessoas que ficaram apavoradas, algumas gritando que era “o fim do mundo”.

A Esplanada, onde hoje é o Novo Centro, era onde as pessoas buscavam casca de madeira para fogo

A Esplanada, onde hoje é o Novo Centro, era onde as pessoas buscavam casca de madeira para fogo

Quem viveu a Maringá dos anos 60 e 70 se lembra da Esplanada, onde hoje é o Novo Centro. Era uma imensa área ao lado da linha férrea onde eram depositadas toras de madeiras retiradas das matas da região e ali eram retiradas as cascas. “Homens mulheres e crianças, com carroças, carrinhos de mão ou mesmo nas costas, buscavam as cascas para fazer fogo, já que pouca gente tinha fogão a gás na época”. Esta movimentação também foi pintada em óleo sobre tela e é provavelmente o mais fiel registro daquele momento da história. “São cenas que vi. Eu estava lá”, diz Puliquezi.

Uma das pinturas que já é bastante conhecida de moradores antigos da Vila 7 mostra um grupo de garotos em uma cerca de balaústre tentando ver, pela janela de uma casa, o aparelho de TV. Embora a imagem mostre somente silhuetas, e pelas costas, os garotos da pintura são pessoas conhecidas que cresceram na vila e o fato se deu e se dava diariamente na esquina das ruas Paranaguá e Oswaldo Cruz, onde hoje é o Boteca do Afonso. Ali era a casa da família Lupion, uma das poucas da vila que tinham TV, em preto e branco, e a molecada se aglomerava com hora marcada para assistir mais um episódio de “Rin tin tin”.


Arquivo da saudade

Segundo o artista, ao pintar, sua preocupação é retratar o cotidiano das ruas, a vida como ela era. “Existem algumas fotos por aí, mas são fotos aéreas, panorâmicas, que não mostram como era a vida cá em baixo”.

Às vésperas de completar 62 anos, todos vividos na Zona 7, Jeremias Puliquezi não se considera um pintor, mas sim alguém que pinta por lazer, quando dá tempo. Depois de 22 anos como Técnico de Segurança da Copel, o aposentado poderia escolher qualquer tema para suas experiências com pincel, tinta e tela, mas a saudade o leva a pintar cenas da Vila 7. “A saudade começa aos 45, mais ou menos. Até ali o cara está jovem demais e achando que a vida é muito comprida, mas todo mundo vai passar por isso. E chega aos 58, 60 anos e a saudade bate de verdade”.

 

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A geradora que zoava o dia inteiro na parte mais baixa da Vila 7 foi a inspiração para a criação da Copel

Na época em que eram vendidos os terrenos da Vila 7 – a parte da Zona 7 ao norte da Avenida Colombo – e as primeiras casas eram construídas em madeira, foi construída no bairro a primeira usina de geração de energia elétrica de Maringá, que tirou a nascente cidade da fase do lampião e da lamparina e foi o embrião da criação da Companhia Paranaense de Energia (Copel) no ano seguinte.

O barracão que abrigava os motores está conservado, 63 anos depois, no pátio da Escola Santa Maria Goretti

O barracão que abrigava os motores está conservado, 63 anos depois, no pátio da Escola Santa Maria Goretti

Mais de 60 anos depois, o barracão e as piscinas de resfriamento ainda existem e estão razoavelmente conservados ao lado do Colégio Estadual Santa Maria Goretti, que está dentro do terreno pertencente à Copel. A concessionária de energia do Paraná tem a pretensão de aproveitar a estrutura para a criação de um museu que conte a história da energia elétrica no Paraná.

 

Promessa de campanha

A geração de energia elétrica foi promessa de campanha do primeiro prefeito de Maringá, Inocente Villanova Júnior, e a instalação da usina foi uma vitória pessoal dele, da Câmara de Vereadores e do Rotary Club. A Companhia Melhoramentos também teve participação, cedendo um terreno na parte mais baixa da Rua Quintino Bocaiúva, na margem do Ribeirão Mandacaru.

 

O governador Bento Munhoz da Rocha, prefeito Inocento Vilanova e diretores da Companhia Melhoramentos no dia da inauguração da usina

O governador Bento Munhoz da Rocha, prefeito Inocento Vilanova e diretores da Companhia Melhoramentos no dia da inauguração da usina – Maringá Histórica

Em 1952, pouco depois da posse do primeiro prefeito, foram conseguidos quatro motores a óleo diesel, usados, com 2.080 cavalos de potência, capazes de produzir aproximadamente 1.500 kVA. Os geradores da Marca Man, fabricados na Alemanha, tinham sido utilizados para produzir energia durante a 2ª Guerra Mundial e, após a guerra, foram vendidos para o Brasil.

A instalação foi feita por engenheiros elétricos vindos da Alemanha, que seguiram um projeto criado pela UTIL Companha Brasileira de Planejamento.

Tomates elétricos

A inauguração oficial, no dia 10 de maio de 1953, data em que o município completava seis anos e pela primeira vez tinha festa de aniversário, contou com a presença do governador Bento Munhoz da Rocha Neto e de altos diretores da Melhoramentos.

Na área central, também as ruas ganharam "tomates", dando início à iluminação pública em Maringá

Na área central, também as ruas ganharam “tomates”, dando início à iluminação pública em Maringá – Maringá Histórica

Em seu livro “Clareira Flamejante” e,m que conta a história da chegada da energia elétrica no norte do Paraná, o jornalista Rogério Recco cita que a usina funcionava até as 22 h e, com duas piscadelas, avisava os moradores que estava na hora de acender os lampiões ou lamparinas – se bem que na Maringá antiga, sem TV e sem muitas fontes de diversão, a esta hora a maioria das famílias já estava dormindo. “As lâmpadas, de tão fracas, ganharam o apelido de tomates”, conta.

A geração era pequena para uma cidade que crescia muito rápido, mas a energia chegou à região comercial, principalmente à Av. Brasil, e ainda sobrou para muitas residências. Hospitais, hotéis, máquinas de café e outros estabelecimentos não confiaram tanto na usina e ainda mantiveram como reserva os grupos geradores que eram ouvidos em toda a cidade desde os primeiros dias.

 

José Ival de Souza diz que a usina fez parte de sua infância

José Ival de Souza diz que a usina fez parte de sua infância

O professor José Ival de Souza, que hoje mora em Cuiabá, tinha sete anos quando foi morar na Rua Quintino Bocaiúva, ao lado da usina. “Ela foi marcante na minha vida”, conta, citando que várias vezes passou entre os motores para levar comida e café para o pai, que era um dos responsáveis por manter o equipamento funcionando.

Segundo Ival, apesar do tamanho, os motores não chegavam a fazer barulho suficiente para incomodar a vizinhança. “O córrego Mandacaru era represado e a água era puxada para tanques para refrescar os motores. Podíamos nadar nos tanques e jogar bola no gramado ao lado das casas dos funcionários da usina”.


SAIBA MAIS

Bullet v Apenas três motores funcionavam ao mesmo tempo e um permanecia de reserva;

Bullet v A usina era administrada pelo D.A.E.E – Departamento de Água e Energia Elétrica do Estado do Paraná;

Bullet v Cinco residências existiam no terreno da usina, todas ocupadas por famílias de funcionários, mas alguns empregados não moravam no local;
Bullet v Os funcionários trabalhavam 12 horas seguidas e descansavam 36;

Bullet v O governador Bento Munhoz da Rocha Neto participou da inauguração e considerou a usina de Maringá o marco zero da distribuição de energia no Paraná.

Bullet v A usina foi o primeiro ativo da Copel, fundada um ano depois.

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