Fausto José Abrão



Com estiagem, quebra no trigo já chega a 20%

Pelo menos 20% da safra de trigo do noroeste paranaense já estão perdidos em consequência da estiagem que persiste há um mês e meio, mas os prejuízos poderão aumentar, já que a meteorologia só prevê chuvas abundantes em setembro. A quebra da safra vem somar-se à redução que já era prevista devido à diminuição da área destinada à cultura no Paraná, em torno de 8%.

O produtor temia pela geada, que se chegasse em um período em que os grãos ainda estão na fase de enchimento, poderia comprometer a produtividade, mas o que aconteceu foi a seca prolongada, que está matando os perfilhos – ramos que surgem a partir do caule principal da planta”, disse o técnico agrícola Moacir Luiz de Andrade, da Cooperativa Agroindustrial de Mandaguari (Cocari). Com a falta de umidade no solo, as plantas não alcançam porte ideal e as espigas que estão nos perfilhos não obtém bom preenchimento dos grãos.

Adilson José Abrão observa que além das perdas provocadas pela estiagem, agora há o ataque de pulgões         Foto: João Cláudio Fragoso

A lavoura da família Abrão, na Gleba Guaiapó, é um exemplo do que disse o técnico da Cocari. Segundo Adilson José Abrão, que planta junto com o pai, Fausto, e o irmão Alberto, grãos que deveriam estar hoje com cerca de 1 grama, não passam de meio grama e em muitos casos os grãos estão esfarinhando. “As plantas em que os grãos ainda estão na fase chamada de ‘em leite’ não há como o ciclo se completar sem umidade no solo”, disse.

De acordo com Abrão, se nesta semana chover o suficiente para encharcar as raízes, “o prejuízo estanca aqui, mas se a chuva não for suficiente, pode piorar”.

A preocupação dos produtores é que os institutos meteorológicos contratados pelas cooperativas esperam chuvas mais significativas somente a partir de setembro, quando o todo o trigo do Paraná já terá sido colhido, às vésperas do início do plantio do soja da safra de verão.

Contávamos que tiraríamos cerca de 110 sacas por alqueire, mas do jeito que está já prevemos uma média de 80”, diz Adilson Abrão, que já recorreu ao seguro agrícola na certeza de quebra da produção.

Para completar os problemas dos triticultores paranaenses, nesta semana os trigais ficaram infestados de pulgão, uma das pragas mais prejudiciais do trigo. Os danos ocasionados por estes insetos podem ser diretos, por meio da sucção de seiva e do efeito tóxico da saliva, ou indiretos, pela transmissão de espécies de dois tipos de vírus. O tipo e a severidade dos danos diretos variam de acordo com a espécie de afídeo, a intensidade do ataque e o estágio de desenvolvimento da planta no momento da infestação.

Os Abrão iniciam hoje a aplicação de defensivo para combater o pulgão, mas contando que a cada litro do produto (R$ 150) eleva o custo de produção.

O preço do trigo ao produtor vem tendo aumentos consideráveis nas últimas semanas, saindo de R$ 31 no início do mês para R$ 36,50 a saca de 60 quilos ontem na região de Maringá, o que, segundo os produtores, seria um bom valor se a produtividade compensasse, mas ainda longe dos R$ 42 que conseguiram na safra passada.

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Fausto Abrão testemunha e vive a história de Maringá há mais de 70 anos

Mais antigo morador de Maringá hoje tem dificuldade para andar pela cidade que ele viu nascer

Primeiro no trem, depois em um caminhão, o Turco trouxe de tudo de Minas Gerais, até um cavalo

Do ponto mais alto da Estrada Guaiapó, onde ela encontra a Estrada Caetê, Fausto José Abrão tem uma visão privilegiada de Maringá, podendo enxergar no mesmo quadro desde o Maringá Velho até o antigo aeroporto. As centenas de prédios formam uma paisagem muito diferente da floresta que via quando seu pai derrubou perobas gigantescas para erguer, de madeira lascada, aquela que foi a primeira moradia da imensa cidade que ele vê hoje.

Em seu sítio, onde planta soja, trigo e milho, Fausto Abrão acompanha o crescimento da cidade que ele viu nascer    Foto: João Paulo Santos

Em seu sítio, onde planta soja, trigo e milho, Fausto Abrão acompanha o crescimento da cidade que ele viu nascer Foto: João Paulo Santos

Fausto tem 80 anos e mora em um ponto da Guaiapó de onde não se vê a cidade, mas isto não lhe faz falta porque já não se sente bem na cidade que viu nascer. Não que tenha deixado de amar Maringá, mas, como homem que passou a vida na zona rural, tem dificuldades para conviver com a metrópole, principalmente por causa do trânsito. “Não tenho dificuldades para dirigir no trânsito de hoje, mas é terrível não ter onde estacionar”, diz.

Não há ninguém que viva em Maringá há tanto tempo quanto Fausto Abrão. Ele é o único filho vivo do desbravador José Jorge Abrão e chegou onde hoje é Maringá em 1944, quando a única construção existente era a pensão do Zé Maringá (José Inácio da Silva), construída pela Companhia Melhoramentos para receber os interessados em comprar terras na região. Casa de família, mesmo, a primeira foi a de José Jorge Abrão, o Turco, onde foi aberta a Avenida Brasil.

“Nós viemos de trem e ficamos em uma pensão em Apucarana enquanto papai veio para cá derrubar as árvores do lugar onde ia construir a casa”, conta Fausto. Ele era o caçula dos oito filhos do Turco e lembra bem como foi vir morar no meio da floresta, uma mata tão alta e fechada como ele nunca tinha visto. “Todo mundo e a mudança em um caminhãozinho por uma estrada no meio da mata. Papai trouxe tudo que precisava para começar o trabalho, ferramentas, enxadas, foices, facões, até um cavalo ele trouxe de Minas (Gerais)”.

A primeira de Maringá, não era bem uma casa, mas um barraco com madeira que o Turco tirou da própria floresta, mas pouco tempo depois José Jorge e os filhos construíram uma casa de verdade e depois abriram os primeiros estabelecimentos comerciais para atender às centenas de famílias que foram ocupando as matas da região, trabalhando em derrubadas e plantando café.

“Logo foi chegando mais gente, construindo casas e comércios e em pouco tempo já estava formado o que hoje é o Maringá Velho, o centro comercial que atendia as fazendas e patrimônios que iam sendo formados na região”.

O adolescente Fausto, terceiro da esquerda para a direita, com amigos na porta do cinema em que trabalhou depois que o pai vendeu o cine da família (Arquivo da família)

O adolescente Fausto, terceiro da esquerda para a direita, com amigos na porta do cinema em que trabalhou depois que o pai vendeu o cine da família (Arquivo da família)

O Turco era empreendedor e logo seus filhos tinham estabelecimentos comerciais que iam desde vendas a máquina de beneficiamento de cereais. Também foi da família o cinema que nos finais de semana atraía centenas de moradores da zona rural, que vinham à ‘cidade’ fazer compras e traziam os filhos para assistir as comédias de Oscarito, Três Patetas e os primeiros filmes de Mazzaropi.

O pioneiro ainda guarda rolos dos filmes que exibia no cinema da família há quase 70 anos

O pioneiro ainda guarda rolos dos filmes que exibia no cinema da família há quase 70 anos

Enquanto boa parte da criançada dos primeiros dias podia viver pelas ruas, visitando sítios e nadando nos rios, Fausto, como é normal para os filhos de árabes, trabalhou desde cedo nos comércios da família, frequentou as primeiras aulas, geralmente nas casas das professoras pioneiras, mas guardou na lembrança os primeiros acontecimentos da futura cidade, como as chegadas da jardineira lotada de gente, malas e até animais – o ponto ficava em frente a casa dele, os homens “viajando” para Mandaguari ou Londrina para fazer compras, que chegavam em lombos de burros, torneios de futebol aos domingos, missas na rua, construção da primeira capela, crentes fazendo cultos nas esquinas, ruas ocupadas por carroças, carroções e carruagens polacas, os turcos de mala na mão batendo de porta

O Cine Primor, de José Jorge Abrão, protagonizou o primeiro incêndio da história de Maringá.

O Cine Primor, de José Jorge Abrão, protagonizou o primeiro incêndio da história de Maringá.

em porta, o lamaçal quando chovia, as primeiras brigas em bares, o primeiro homicídio, o primeiro gay (“na época a gente chamava de veado o cara que andava meio rebolando”) e a tragédia na própria família: “eu ajudava meu irmão Geraldo como projetor no cinema do meu pai e estava rebobinando um filme, a película resvalou na lata e fez fogo. Se eu e meu irmão não fôssemos rápidos, teríamos morrido queimados. Por sorte não era hora de sessão e o cinema estava vazio”. O Cine Primor, todo de madeira, foi consumido pelas chamas em poucos minutos e protagonizou o primeiro incêndio da história da cidade.

No álbum de fotografias antigas, Fausto e dona Vita reveem as fotos dos amigos que já se foram

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Desde 1956, quando se casou com Vita, também de família pioneira, Fausto comprou terras na Estrada Guaiapó, onde plantou café e hoje cultiva soja e trigo. Foi lá que nasceram os cinco filmes do casal. Na época, a fazenda ficava longe da cidade, mas foram surgindo bairros e mais bairros, a Estrada Guaiapó teve vários de seus quilômetros tornados em avenida e hoje há loteamentos até próximo às terras de Fausto. “Estou olhando a cidade chegando e quando ela encostar nas minhas terras, vendo tudo para fazer loteamentos e vou comprar terras para criar gado no Mato Grosso. A vida é assim mesmo, a gente precisa ter sempre projetos para se sentir vivo”.

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