Jaime Rosseto



ELE VOLTARÁ Alta dos preços anima produtores a replantar o café destruído pelas geadas

Depois das geadas, produtores como Jaime Rosseto, tiveram que arrancar os pés queimados, mas a seca não permitiu o desenvolvimento das mudas plantadas Foto: Ricardo Lopes

Depois das geadas, produtores como Jaime Rosseto, tiveram que arrancar os pés queimados, mas a seca não permitiu o desenvolvimento das mudas plantadas Foto: Ricardo Lopes

Em momento de oferta global apertada, o preço do café disparou nos últimos dias na Bolsa de Nova York e, em consequência, no Brasil atingiu os melhores preços desde maio de 2011. Ontem, a Cooperativa Agroindustrial de Mandaguari (Cocari) começou o dia negociando a R$ 5,66 o quilo e no final do dia os cafés de melhor padrão já eram negociados a R$ 5,76. Em Maringá chegou a R$ 7,75 e em Apucarana R$ 5,60. Tanto a cooperativa quanto os cafeicultores estão confiantes que os preços continuarão subindo e, devido à escassez de café no mundo no momento, passarão dos R$ 7,75 pagos em maio de 2011.

Nas últimas duas semanas a procura superior à oferta vem puxando as cotações da commodity, com grandes indústrias da Europa e Estados Unidos aceitando pagar mais. Com isto, aumentou a especulação, especialmente com a entrada dos bancos e dos fundos de pensão, que têm forte participação no mercado.

O aumento dos preços deve-se especialmente à quebra da safra de Minas Gerais e Espírito Santo, hoje os maiores produtores do mundo de cafés de qualidade, devido a uma longa estiagem que compromete a safra deste ano e a de 2015, também houve quebra na Colômbia devido a um terremoto nas áreas produtoras, além de um longo período de seca.

Não é sonhar muito achar que os preços podem chegar aos patamares de 2011, pois falta café hoje no mercado e a safra de 2015 também está comprometida”, lembrou ontem o responsável pelo setor de café da Cocari, engenheiro agrônomo Roberval Simões Rodrigues. Para ele, os bons preços podem “animar os produtores a insistirem no café, principalmente aqueles que estão desistindo da cultura após as geadas de seis meses atrás”.

No mesmo local da foto acima, hoje Rosseto cuida de mudas irrigadas, esperando a primeira colheita em 2016

No mesmo local da foto acima, hoje Rosseto cuida de mudas irrigadas, esperando a primeira colheita em 2016

Com pés de café arrancados, recepados ou esqueletados após serem queimados pelas geadas, a região produtora do Paraná, que tem os municípios de Mandaguari, Jandaia do Sul, Apucarana, Arapongas, Cambira, Rolândia e Londrina como polos, deve ter uma safra entre 80% e 85% menor do que teria sem as geadas do ano passado, muitos produtores tiveram que vender parte do café estocado para pagar dívidas e alguns pensavam em sair da atividade, “mas com a reação dos preços tem gente desistindo de desistir”, como disse o produtor Jaime Rosseto, de Mandaguari. Sua família planta café na região há 70 anos e teve perda de 100% da safra que deveria começar em junho, deve colher muito pouco também no ano que vem, ainda em consequência das geadas. “Quem é cafeicultor sofre, perde uma safra aqui outra ali, mas não desiste”.

Jaime e seus irmãos tiveram que arrancar parte do cafeeiro e só não arrancaram mais porque os viveiros da região não tinham mudas em quantidade suficiente para fazer o replantio. “Tivemos que recepar (cortar a 10 centímetros do solo) uma parte, esqueletar (poda rigorosa) outra, mas ainda plantamos 50 mil mudas”.

A família Lopes não ficou na dependência dos viveiros e produz suas próprias mudas. Paulo Sérgio mostra parte do lote de 50 mil mudas prontas    Foto: João Cláudio Fragoso

A família Lopes não ficou na dependência dos viveiros e produz suas próprias mudas. Paulo Sérgio mostra parte do lote de 50 mil mudas prontas Foto: João Cláudio Fragoso

Os irmãos Fernando e Paulo Sérgio Lopes, donos de 400 mil pés em diferentes pontos do norte do Paraná, também terão que substituir cafeeiros onde a geada negra foi mais contundente. Eles próprios já prepararam 50 mil mudas das variedades Catuaí, Mundo Nova e IPR-100 e estão esperando a hora certa de iniciar o plantio. No ano que vem os Lopes prepararão mais 50 mil mudas”.

NÚMEROS

2016

é o ano em que a produção de café no norte do Paraná voltará ao normal depois das geadas do ano passado

R$ 550

é o valor do milheiro de mudas nos viveiros, mas é possível produzir na própria fazenda por cerca de R$ 110 o milheiro

50%

do café da última safra continuam estocados nas cooperativas à espera do melhor momento para a venda

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Muitos cafeicultores da região vão mudar de atividade

Café queimado pela geada negra de julho começa a ser arrancado ou recepado

Cafeicultores fazem recepa em Mandaguari

Jaime e Marcos Rosseto estão recepando 30 mil pés de café e vão arrancar outros 45 mil, mas a família que planta café há 70 anos vai insistir na atividade Foto: Ricardo Lopes

Cafeicultores de Mandaguari, Jandaia do Sul, Ivaiporã, Arapongas e Apucarana iniciaram nesta semana a recepa, ranquio e esqueletamento dos cafeeiros afetados pelas geadas do final de julho. A previsão da Secretaria de Agricultura e cooperativas agrícolas é de que pelo menos metade dos pés de café do norte/noroeste paranaense será arrancada ou decepada e que cerca de metade deles não será replantada.

Visitamos todas as propriedades da área da cooperativa e soubemos que cerca de 30% dos atuais produtores de café não farão replantio, preferindo ir para outra atividade”, disse o engenheiro agrônomo Roberval Simões Rodrigues, do Departamento Técnico (Detec) da Cooperativa Agropecuária e Comercial de Mandaguari (Cocari). Segundo ele, “somente os cafeicultores tradicionais, aqueles que nasceram nos cafezais e nunca tiveram outra atividade, farão o replantio como seus pais e eles próprios já fizeram em outras ocasiões”.

A desistência da cafeicultura é mais forte em municípios como Ivaiporã e Lunardelli, onde a topografia favorece a mecanização e os proprietários de terras podem migrar para culturas rotativas, sobretudo soja, milho e trigo.

Em Mandaguari, maior produtor de café da região de Maringá e também um dos mais atingidos pelas geadas deste ano, os produtores estão fazendo o ranquio por conta própria, por meio de aluguel de máquinas e contratação de mão de obra, mas alguns produtores contam com o apoio da prefeitura, que está cedendo máquinas da Secretaria de Obras. Segundo o secretário de Agricultura, Geraldo Sincero, a prefeitura poderá dar uma ajuda maior nos próximos dias, depois que contratar uma empresa de máquinas. A empresa que fará o serviço será conhecida hoje, na abertura dos envelopes da licitação.

 

Sem colheita em 2014

A família Rosseto, que planta café em Mandaguari há 70 anos e que até um mês atrás contava com um plantel de 300 mil pés de cinco variedades diferentes, começou nesta semana a arrancar cerca de 45 mil pés, mortos pela geada negra que atingiu a região na última semana de julho, mas está consciente de que não deverá colher sequer uma saca na próxima colheita.

Além de arrancar 45 mil pés, cerca de 30 mil estão sendo decepados, um tipo de poda quase rente ao solo. O resto da lavoura será esqueletado. “Com a recepa, a planta reinicia sua vida, é como se fosse uma muda, só que aproveitando a raiz antiga”, disse Marcos Rosseto, da terceira geração de cafeicultores da família. Segundo ele, outra diferença é que é um processo mais barato do que o replantio, especialmente porque não precisa comprar novas mudas.

A recepa é feita com motosserra, mas um dos problemas é o que fazer com a árvore cortada. “Se fica caída, atrapalha o restante do trabalho que temos que realizar”, diz Jaime, pai de Marcos. Ontem a família experimentou uma trincha, equipamento que moi os pés de café cortados.

Segundo os cafeicultores, os prejuízos provocados pelas geadas são incalculáveis. “Além de não termos o que colher na próxima safra ou talvez nas próximas duas safras, agora só temos gastos”, disse Antonio Rosseto. As máquinas para arrancar e moer os pés de café são alugadas e é necessário ainda contratar mão de obra e comprar mudas para o replantio.

Os Rosseto já encomendaram 45 mil mudas, mas estão conscientes de que a necessidade pode ser maior.

Mais de 80% dos cafezais de Mandaguari, Jandaia do Sul e Ivaiporã terão que passar por algum processo de renovação devido às geadas. Os que não forem arrancados nem recepados terão que passar pelo esqueletamento, uma poda que resulta na retirada de boa parte dos galhos. Porém, nos últimos dias os produtores perceberam que antes de qualquer poda algumas plantas estão brotando, mas os brotos ficam no caule e terão que ser retirados. Esse é um serviço que só pode ser feito manualmente, com faca, e pode tomar muitos meses em cada propriedade.

 

R$ 120

é o valor pago por hora por cada máquina no serviço de ranquio e, segundo os agricultores, é um trabalho lento

 

2 anos

é o tempo que um cafeeiro recepado levará para produzir uma safra norma, mesmo tempo exigido por uma muda.

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