Luiz Carlos Altoé



Polentada e cachaça velha marcam fechamento do Bar do Zé

Além de despedir-se do bar onde passou dois terços de sua vida, Zé Lorenzato vai despedir-se das garrafas de cachaça empoeiradas há mais de 40 anos

Finalmente, chegou a hora tão esperada pelos clientes do Bar do Zé: o Zé do bar vai abrir as três garrafas de cachaça que guarda como relíquias há mais de 40 anos. Também pode ser a última oportunidade para frequentar o pequeno bar que há 44 anos funciona na Rua Joubert Carvalho, em um pequeno espaço em que tudo é jurássico: ao lado está o Hotel Guarujá e a histórica Sapataria do Rebite, que já estavam lá quando José Lorenzato Filho, então com 23 anos, alugou o pequeno salão de 36 metros quadrados em 1973.

O bar deixa de existir na Joubert Carvalho no dia 16 e o Zé já está triste com a despedida. Porém, o fim do Bar do Zé será festivo e quem comparecer por lá neste sábado vai poder participar de uma polentada oferecida pelos amigos do Zé, que não querem deixar este momento histórico passar em branco. Segundo o artista plástico e frequentador Luiz Carlos Altoé, o Kaltoé, as despedidas acontecerão durante o dia inteiro, mas a polenta só será servida a partir das 8 horas da noite, quando se aproximar o momento do choro do proprietário de um dos bares mais longevos de Maringá.

O Zé tem motivos para chorar na despedida. Afinal, foi lá que ele passou quase dois terços de sua vida, todos os dias das 6 da manhã até por volta das 22 horas, servindo cedo café, café com leite, pasteis, coxinhas, quibes, mais tarde tinha almoço com uma bisteca que ficou famosa, arroz, feijão, salada. No fim da tarde começam a chegar os clientes que iam beber cerveja ou pinga, falar do Galo do Norte, tocar modas sertanejas até que as ruas ficavam desertas e cada um pegava seu rumo, a maioria em bicicletas.

Naquele tempo o movimento era muito grande, pois tínhamos aqui perto empresas grandes, como os atacadistas Dias Martins, Alô Brasil, e J. Alves Veríssimo, que somavam centenas de empregados”, conta Lorenzato. Segundo ele, “quando as firmas fechavam, os empregados vinham correndo, pois depois das seis [horas] ficava difícil entrar e muitos ficavam do lado de fora bebendo e batendo papo”.

O comerciante ainda lembra de boa parte dos fregueses dos primeiros tempos, como Zé Catabriga, que quase sempre trazia um pacotece de pé de frango para fritar e comer enquanto falava de futebol, o Wilson que tocava violão. “O lugar ficava alegre e lá iam vários quilos de linguiça frita, bife, pé de frango, testículos de boi, mocotó, dobradinha, torresmo, pombinhas fritas, ovo cozido de casca colorida e outros petiscos; lá iam várias garrafas de Tatuzinho, Oncinha, Três Fazendas, Rio Pedrense, Pitú e outras cachaças que já nem existem mais, rabo-de-galo, Martini seco, jurubeba, Vermute, traçado, Cynar ”.

Zé Bahia, que trabalhava na Alô Brasil, é freguês desde os primeiros dias, parou de beber desde 2008, mas mesmo assim não fica um dia sem marcar presença.

O relógio queimado é lembrança de uma noite em que um ladrão acendeu papéis no interior do bar para clarear e acabou provocando um incêndio

O estabelecimento, que no começo chamava-se Jovem Bar e depois mudou para o nome que todo mundo falava, continua praticamente do mesmo jeito, com o mesmo espelhinho no azulejo coberto por tinta branca, o mesmo relógio de parede, o rosário, a pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida trazida de Aparecida do Norte (SP) pelo Paulo Mantovani. E vai fechar como abriu. O Zé não vende o estabelecimento, simplesmente devolverá o imóvel ao dono. Na semana seguinte ao fechamento, ele abre uma pequena mercearia na Avenida Américo Belay, em um sobrado que construiu com o que ganhou no seu pequeno espaço.

2 Comentários